8 de março de 2018

1. Panquecas e papiros

O galo da vovó cantou, um som estridente demais para que eu pudesse ignorar. Rolei na cama e passei a língua pelos lábios, que por algum motivo pareciam inchados e dormentes. Minha boca estava muito seca. Gemi e me remexi embaixo das cobertas, puxando-as por cima da cabeça para bloquear os raios penetrantes da luz do dia. A claridade era uma intrusa — uma visitante indesejada perturbando a tumba escura onde eu dormia em paz.
Havia a consciência de alguma coisa fazendo cócegas no fundo da minha mente, mas eu teimei em ignorá-la. Infelizmente, o que quer que fosse, tinha cravado as garras e não seria afastada com tanta facilidade. O que era, que eu não conseguia lembrar? E por que eu me sentia como se tivesse perdido uma luta de boxe? Minha cabeça doía. Eu ansiava por analgésicos e um copo d’água fria, mas simplesmente não tinha energia nos membros para ir buscar o que desejava.
O som de potes e panelas deixou claro que eu não poderia ficar muito mais tempo na cama. Vovó iria me chamar logo. Mandona precisava ser ordenhada e havia ovos para recolher. Meus pés tocaram o piso frio de madeira e, enquanto eu deslizava para a borda da cama, vi que minhas mãos tremiam. Tive a sensação súbita de que corria perigo.
Quando me levantei, meus joelhos se dobraram e eu rapidamente voltei a me sentar. Ofegante, segurei a colcha de retalhos da minha avó, os dedos apertando o tecido frágil com a mesma força que eu usaria em uma boia salva-vidas. Uma camada de suor frio brilhava em meus braços. Eu não conseguia recuperar o fôlego. Minha mente estava cheia de horrores... Morte. Sangue. Destruição. Mal.
Seria um sonho? Se fosse, era o pesadelo mais vívido que eu já tivera.
— Lilypad? — Era a voz da minha avó. — Já se levantou, querida?
— Já — respondi, a voz vacilando enquanto eu esfregava com vigor os membros trêmulos. — Já vou sair.
Tentei afastar o pesadelo do melhor modo que pude e vesti uma camiseta confortável, um macacão velho e meias grossas. Quando saí para o celeiro, o sol já se encontrava inteiro acima do horizonte. Empoleirava-se no céu azul, brilhando sobre mim como um olho que soubesse demais. A luz pintava as nuvens diáfanas em tons de rosa e laranja. Enquanto eu seguia pelo caminho de terra batida, o sol dourado aquecendo meus ombros e o perfume do jardim de vovó fazendo cócegas em meu nariz , senti que tudo deveria estar certo no mundo. E, no entanto, eu sabia que não estava. O cenário dourado me parecia falso e eu pressentia coisas malignas escondidas nas sombras. Há algo decididamente podre no estado de Iowa.
Ao me acomodar no banquinho de madeira ao lado de Mandona, pensei que nunca tinha me sentido tão cansada. Era mais do que exaustão física. Bem no fundo eu me sentia abatida, esgotada — como se minha alma fosse uma das toalhas molhadas da vovó, torcida e jogada de qualquer modo num varal para secar. Pedaços de mim balançavam na brisa, e era apenas questão de tempo até que uma rajada de vento viesse com força suficiente para me lançar rodopiando na poeira. Levantei a mão para dar um tapinha no flanco de Mandona e soltei um suspiro que não sabia que estava prendendo. Logo o som do leite jorrando retinia na lateral do balde de metal.
Que incompreensível ritual humano você está praticando agora?, perguntou uma voz irritada.
Dei um grito e me levantei cambaleando, derrubando com um chute o balde de leite e o banquinho de madeira.
Isso se chama ordenhar uma vaca, sua felina pulguenta.
Naturalmente, isso eu deduzi. Mas um ato desses está abaixo de nosso status. E, para sua informação, nós não temos pulgas.
— Quem está aí? — gritei, girando no celeiro. Peguei um forcado e abri uma baia chutando a porta, à procura de intrusos. — Minha avó tem uma espingarda — adverti, uma declaração que nunca pensei que teria de fazer. — Acreditem. Vocês não vão querer pisar nos calos dela.
Por que ela não sabe quem somos?, perguntou uma voz com sotaque irlandês.
Não sei. Talvez haja alguma coisa errada com a mente dela. Lily, nós estamos dentro de você, disse a voz que antes soara irritada.
— O quê?
Pressionei as mãos contra as têmporas e me agachei. Talvez ainda esteja sonhando, pensei. Ou isso, ou estou ficando maluca. Será que finalmente surtei com a pressão de entrar para a faculdade? Agora estou imaginando vozes. Isso não pode ser bom.
Você não está imaginando a gente, querida.
Isso. Somos tão reais quanto essa criatura babona e gorda demais para correr que você estava tentando ordenhar. Leite não é nem de longe tão gostoso quanto carne vermelha e crua, só para você saber.
Uma imagem minha cravando os dentes no corpo de uma criatura preencheu meu pensamento. O sangue quente encheu minha boca enquanto eu lambia os beiços.
Gritei, caindo na pequena pilha de feno que eu tinha desfeito para alimentar a vaca.
Fantástico. Você a fez surtar.
Uma pessoa tão poderosa quanto Lily não surta assim tão facilmente.
Isso mostra o que você sabe.
Estou com Lily há mais tempo. Acho que a conheço o suficiente para saber o que ela aguenta.
Obviamente, ela não aguenta isso. Não sente que ela está se desconectando? É como se a mente dela estivesse flutuando acima de nós. Antes ela nos abrigava como uma galinha chocando os ovos. Agora ela voou, abandonando o galinheiro, deixando a gente presa na casca, esperando que alguma raposa venha nos pegar para o desjejum.
Sou uma das escolhidas de Ísis. Uma felina africana destinada a travar grandes batalhas com dentes e garras. Eu não sou um ovo de galinha.
Bom, sem Lily nós estamos impotentes feito pintinhos. Quando a mamãe galinha morre, os pintos morrem também.
Lily não está morta.
Está quase.
Fiquei ali caída, a palha espetando meu pescoço e minhas costas enquanto ouvia. Será que eu estava morta? E tudo isso seria algum tipo de inferno reservado só para mim? Esse pensamento macabro me deu vontade de me enterrar mais fundo. Me esconder da insanidade que me cercava.
As duas vozes continuaram discutindo. Quem quer que fossem aquelas duas, pareciam me conhecer. Soavam familiares, mas, por mais que tentasse, eu não conseguia evocar uma lembrança. Mandona se aproximou e cutucou meu corpo prostrado, mugindo para que eu terminasse o serviço de ordenha que tinha começado.
Quando sua língua comprida veio na direção da minha bochecha, tentei me afastar, mas descobri que não conseguia nem me encolher. Estava presa no meu corpo. Um aneurisma cerebral. É isso que deve estar acontecendo. É a única coisa capaz de explicar as vozes e a incapacidade de mover os membros.
A porta rangeu ao se abrir e senti alguém estender a mão e delicadamente tocar meu braço.
— Lily?
Um homem se inclinou sobre mim. Seus olhos eram gentis e familiares, mas eu não conseguia identificá-lo. A pele de seu rosto era curtida, como um colete de couro gasto, mas a maior parte das rugas em volta dos olhos estava virada para cima, como se ele passasse a maior parte do tempo sorrindo.
Hassan!, gritaram as duas vozes ao mesmo tempo. Ele vai nos ajudar.
— Ah, Lily! — exclamou ele. — Temi que algo assim acontecesse.
Isso não me soou nada bem. O homem desapareceu brevemente antes de voltar com minha avó. Ela o olhava como se ele fosse um lobo tentando fugir com sua ovelha premiada. Mesmo assim, fez força junto com ele para me levar para dentro de casa. Assim que eu fui acomodada no sofá, ela estendeu a mão para o telefone antigo pendurado na parede.
— Por favor, não — pediu o homem em voz baixa, em tom de súplica. Seu olhar foi até vovó e depois voltou para mim.
Eu podia perceber a raiva e a suspeita na voz dela, espreitando logo abaixo de uma camada de educação forçada que se derretia progressivamente, como um depósito de neve cobrindo um vulcão ativo. Ela estava se preparando para uma erupção em toda a sua glória protetora de avó.
— E por que eu não chamaria uma ambulância? — perguntou, desafiando-o. — Parece muitíssimo conveniente que o senhor tenha surgido junto à minha neta no celeiro. Como vou saber que não é o culpado pelo que está acontecendo com ela?
— Ao contrário. Voluntariamente admito que em parte sou culpado pelo estado dela, embora jamais lhe desejasse nenhum mal. Se eu quisesse levá-la embora com algum objetivo nefasto, não teria chamado a senhora.
Vovó respondeu apenas com um humpf desconfiado.
O homem torceu o chapéu nas mãos, culpado, enquanto falava.
— Quanto ao motivo para a senhora não procurar um atendimento médico, lamento informar que o mal de Lilliana não é deste mundo. Receio que um médico não pudesse prestar qualquer ajuda.
Da minha posição fixa no sofá eu não conseguia ver vovó, mas o fato de ela não apertar imediatamente as teclas para chamar a Emergência significava que estava pensando nas palavras dele.
— Explique — exigiu.
— É bem complicado... — começou ele.
— Então eu sugiro que você me conte a versão simplificada.
O homem assentiu com a cabeça, engoliu em seco e disse:
— Bom, isso é uma suposição da minha parte, mas acho que Lily pode estar sofrendo de uma forma extrema de transtorno de identidade dissociativa. Ela teve uma experiência traumática muito recente. Terrível a ponto de sua consciência ter... por falta de uma explicação melhor... recuado. É a forma que a mente dela encontrou para se proteger.
— E quando, exatamente, o senhor acredita que esse trauma aconteceu? Lily está sob meus cuidados desde que chegou.
— Isso não é totalmente verdadeiro.
— Já basta. Vou chamar a polícia.
— Não! Por favor, minha senhora, eu imploro. Não tenho a intenção de fazer nenhum mal à senhora nem a ela. Não existe ninguém mais qualificado para ajudá-la do que eu. A senhora precisa acreditar.
— Quem é o senhor? E como sabe o nome de Lily? — Havia um tom perigoso em sua voz.
Ele suspirou.
— Meu nome é Osahar Hassan. Sou egiptólogo. Ela mencionou meu nome? Falou sobre o Egito?
Vovó chegou mais perto do sofá. Dava para ver a incerteza em seus olhos.
— Os... os pais dela disseram que ela desenvolveu um grande interesse pela ala egípcia do museu. Passou lá todo o tempo livre nos últimos meses.
Eu tinha feito isso? Nesse caso, não tinha absolutamente nenhuma lembrança. Por que saí da cama esta manhã? Sabia que alguma coisa estava esquisita. Mas ainda assim não fazia sentido meu cérebro se dissociar. Era de lá que vinham as vozes? E por que meu estado mental afetava os membros?
Tentei desesperadamente mover o dedo mindinho. Levantar um único dedo. Concentrei-me, como se estivesse passando a linha numa agulha de bordar da vovó. Não consegui nem ao menos uma contração.
— Lilliana está me ajudando num... num projeto de grande importância. Infelizmente, uma das descobertas que fizemos a colocou em perigo. — Ele levantou a mão. — Não se trata de perigo físico. — Fez uma careta. — Por enquanto. É com o estado mental dela que estou mais preocupado. Veja bem, houve um encantamento...
— Um encantamento? — indagou vovó, erguendo a sobrancelha junto com um canto dos lábios.
— É, um encantamento. Um encantamento muito antigo e poderoso. Se me permite, posso provar que o que estou dizendo é verdade. — Ele se aproximou um passo do sofá, mas vovó largou o telefone, que agora emitia bipes porque estava fora do gancho. O meio sorriso desapareceu do rosto dela enquanto pegava a espingarda que guardava no canto. Vovó não a mantinha carregada, mas o homem não sabia disso.
— Acho melhor o senhor manter distância da minha neta — alertou.
O homem olhou para a espingarda, depois para minha avó. Assentiu levemente, mas levantou um dedo como se quisesse silenciá-la, nem um pouco abalado com o fato de ter a arma apontada para ele.
— Tia? — disse ele, olhando meu corpo inerte. — Você está aí? Se estiver, preciso que assuma o controle por Lily.
Nos poucos segundos que demorei para me perguntar quem era Tia, meu foco mudou. Eu me senti menor. Como se estivesse olhando o mundo através de uma fina camada de água. Instintivamente tentei resistir à mudança. Sabia que o que estava acontecendo comigo tinha a ver com alguma coisa ruim — ruim do tipo ser acorrentada a uma âncora e jogada no oceano —, mas ao mesmo tempo eu tinha a nítida impressão de que estava em segurança. Sendo cuidada. Amada.
— Estou aqui — ouvi uma das vozes dizer, só que agora vinha da minha boca. Lentamente minha visão mudou enquanto meu corpo se sentava no sofá. — A fada também está comigo.
Eu tenho nome, você sabe, disse a segunda voz dentro de mim.
— A fada? — O homem franziu a testa. — Parece que Anúbis esqueceu de mencionar alguns detalhes importantes, como sempre.
— Fada? Anúbis? O que exatamente está acontecendo aqui? — perguntou vovó. — Lilypad, você está bem, querida?
— A que você chama de Lilypad está aqui. É como Hassan descreveu. A mente dela está fragmentada. Ela é como um rio numa tempestade, cuja água se tornou turva com os sedimentos. Só posso esperar que, com o tempo, ela volte ao normal.
O homem esfregou o queixo.
— É, talvez — disse.
— Como você pode falar em normalidade quando ela está sofrendo de dupla personalidade? — perguntou vovó. — Diga exatamente o que está acontecendo!
O egiptólogo já ia falar quando uma voz nova, como uma fumaça musical etérea, ecoou à nossa volta.
— Talvez vocês me permitam explicar — disse a voz.
Minha cabeça se voltou para um ponto de luz que foi crescendo no centro da sala. Escutei um leve arquejo vindo de vovó quando uma mulher linda, de cabelos louros, lisos e brilhantes como um lago congelado, passou por um portal reluzente. O fundo iluminado foi diminuindo atrás dela, mas ainda havia uma claridade que não abandonou sua forma.
— Quem... quem é você? — perguntou vovó.
Ela se virou para Hassan, mas ele tinha o olhar fixo na mulher, assombrado.
Ela é uma porcaria de uma fada como eu!, disse a voz da fada.
— É claro que não — retorquiu Tia. — Não reconhece uma deusa quando vê?
Uma deusa?, pensei com desdém. Que maluquice! E de maluquice eu entendia. Os nova-iorquinos viam maluquices todo dia: sujeitos dançando na rua vestidos de Estátua da Liberdade, mulheres correndo de salto alto, trailers de comida no formato de cheeseburgers, cachorros com acessórios da moda.
Mas isso aqui era de um nível superior, maluquice tipo “Meu namorado é um alienígena”.
Se eu não tivesse visto a mulher aparecer por magia, nunca teria acreditado. Nem com provas fotográficas. Quem quer que ela fosse, estava tão deslocada na fazenda da minha avó quanto um cupcake de chocolate numa academia de ginástica.
Ela é uma fada, continuou a voz, e eu tinha certeza de que somente eu e Tia podíamos escutar. Aposto minha casa na árvore.
— Não é — disse Tia com veemência, usando o que decidi chamar de sua voz exterior. — É a irmã de Ísis.
— Néftis! — exclamou o homem enquanto fazia uma reverência. — Que honra!
Com expressão gentil, a deusa pôs a mão no ombro dele.
— A honra é minha, Hassan. — Virando-se, a bela mulher se aproximou de vovó. — E a senhora deve ser a estimada guardiã da nossa Jovem Lily.
— Eu... — Vovó engoliu em seco, a espingarda esquecida nas mãos. — É. Sou a avó de Lily.
— Bom. Há muita coisa para vocês dois fazerem. — O sorriso dela abarcou ambos. — Vocês precisam treinar Lily. Não há muito tempo. Seth se libertou do obelisco. Ainda está algemado, mas seus lacaios obedecem ao chamamento dele. Se Lily não alcançar o poder pleno, infelizmente tudo estará perdido.
— O que estará perdido? — perguntou vovó.
— O grão-vizir Hassan vai lhe contar tudo. Não posso ficar aqui. Seth procura Lily e, apesar de eu estar oculta pela presença dela, nem mesmo um ovo de serpente com a capacidade de Lily pode me esconder do meu marido por muito tempo. — Néftis pôs um pergaminho enrolado na mão de Hassan. — Você está familiarizado com as histórias de Hécate? A donzela, a mãe e a velha? As Fúrias? Sereias?
Hassan assentiu, hesitante.
— Não são minha especialidade, mas conheço as coisas que a senhora menciona.
— Ótimo. Você está ciente de que Lily assumiu o poder da esfinge. — Ela ignorou o arquejo de vovó e continuou: — Ela deve se tornar Wasret. O conceito de quem e o que é Wasret foi deixado propositadamente vago na história do Egito. Fizemos isso para mantê-la a salvo de Seth. No entanto, há muitas referências a uma deusa tripla espalhadas pelas histórias antigas. Espalhamos essas coisas por toda a história especificamente para escondê-las de Seth e para você fazer uso delas. Use este pergaminho como guia. Estude todas essas histórias, porque elas lhe darão pistas do potencial e do poder de Lily.
Néftis veio até mim e pôs a mão no meu rosto.
— Wasret é de importância vital. Estive esperando que ela surgisse desde a alvorada dos tempos. — Ela deu um beijo suave na minha testa e se virou para encarar os outros, que nos olhavam com expressões de choque. — Lily ainda não vestiu o manto do que ela será. Vocês devem ajudá-la a conseguir isso. Consertar o mal que a aflige. Reuni-la aos que ela ama. Eles irão ajudá-la a vencer a fera.
Ela continuou com uma leve tristeza na voz:
— Neste momento a batalha de Heliópolis está começando. Eu gostaria de lhes dar mais tempo, mas acho que essa é a única coisa que está além até mesmo do nosso poder. Boa sorte para vocês. Boa sorte para todos nós.
Com isso a deusa ergueu a mão num floreio e um portal iluminado surgiu. Quando ela o transpôs, o portal desapareceu numa explosão de cor, levando-a com ele. Na eletricidade que pairou no ar após a visita da deusa, nós três permanecemos em silêncio. O único som na sala era nossa respiração.
Até que a tensão foi rompida pelo mugido inconfundível de Mandona.
— Ora, ora — disse vovó. — Parece que há mais coisas aqui do que pensei originalmente. — Virando-se para mim, ela disse: — Tia, não é?
— Sim — respondi.
— Você garante que minha Lily está em segurança?
— Garanto. Ela está aqui comigo e pode nos ouvir. Mas está confusa.
— Assim como todos nós, minha cara. Será que você sabe ordenhar uma vaca?
Meu nariz se franziu.
— Posso acessar as memórias de Lily sobre essa tarefa.
— Bom. Então vá lá fora e termine o trabalho com Mandona. E, você — ela apontou para o homem —, ponha esse chapéu empoeirado no cabide perto da porta e lave as mãos. Vou fazer panquecas.
O homem assentiu.
— Sim, senhora.
Vovó recolocou a espingarda no lugar onde a havia apanhado e começou a assobiar. Então amarrou o avental, como se fosse um dia normal na fazenda.
Quando voltamos depois de ordenhar Mandona, o homem estava sentado à mesa com vovó e havia entre os dois uma tigela de ovos mexidos e uma pilha de panquecas tão alta que achei que seria impossível nós três darmos conta dela. Estava errada.
Meu apetite era voraz. Era como se eu não tivesse comido durante semanas. Além disso, as criaturas que habitavam meu corpo ficavam fazendo comentários estranhos, como “Seria melhor se os ovos estivessem crus” e “O xarope parece suco de abelhas”. Mergulhei a língua no copo de leite fresco, como um gatinho na tigela.
Normalmente eu não conseguia bebê-lo quente; o cheiro era um pouco próximo demais do almíscar do animal para o meu gosto. Dessa vez, porém, bebi e lambi o creme doce nos lábios com um estremecimento de prazer.
Quando terminamos o café da manhã e Tia, que ainda estava no controle, lavou os pratos atabalhoadamente, o homem chamado Hassan pegou o pergaminho e o abriu em cima da mesa.
— Bom — disse ele. — Vamos começar?

8 comentários:

  1. Pelo comentário que eu vi recentemente, a última vez que li o penúltimo livro foi no final de 2016... e já estamos em 2018... estou tão confusa e não me lembro de nada sobre a história husahusauha x'D só algumas coisas me parecem familiar mas o resto foi para o depósito mental o.O

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    1. Pois éee comecei a ler esse livro e percebi que me lembrava apenas vagamente da história. Essa perda de memória, por exemplo, eu não fazia ideia!

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    2. Por isso que voltei a ler TUDO ahuahuahua Assim não ficaria perdida e.e~

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  2. Ja eu sou estranha li o ultimo e nao li mais nenhum fiquei esperando 4 meses sem.ler nata ate karina liberar esse😀pq sei que esqueço se começo outro

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  3. eu também ainda nao sintonizei nada

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  4. Por isso reli os dois primeiros livros antes de vir pra esse, simplesmente sabia que minha memória não ia funcionar...é a razão de eu gostar de ler as sagas e trilogias prontas kkkkkk

    Depois de reler os dois primeiros e já entrar nesse em seguida tá deixando a leitura bem mais agradável

    #Dica

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  5. E errei e.e Ela tava na casa da vó mesmo x.x

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  6. “Meu namorado é um alienígena” me lembrou na hora de Katy e Daemon Black da saga Lux. XD

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Boa leitura, E SEM SPOILER!