24 de fevereiro de 2018

Capítulo 9

Para: LilyBoba@gmail.com
De: AbelhaAtarefada@gmail.com
Oi, Lily!
Correndo, porque estou digitando isso no metrô (estou sempre correndo nos últimos dias), mas feliz por saber de você. Feliz que tudo esteja indo tão bem na escola, embora você pareça ter tido muita sorte com a história do cigarro. A Sra. Traynor tem razão — seria uma vergonha se você fosse expulsa antes mesmo de fazer as provas.
Mas não vou te dar um sermão. Nova York é incrível. Estou curtindo cada momento. E, sim, seria ótimo se você pudesse vir, mas acho que você teria que ficar em um hotel, então talvez seja melhor falar com seus pais primeiro. Além disso, eu ando muito ocupada porque meu horário com os Gopnik é bem estendido e eu não teria muito tempo para passear.
Sam está bem, obrigada. Não, ele ainda não me deu o fora. Na verdade, ele está aqui bem agora. Vai voltar para casa hoje, mais tarde. Pode falar com ele sobre pegar a moto emprestada quando ele voltar. Acho que é algo para resolverem entre vocês.
Ok... minha estação está chegando. Mande beijos para a Sra. T e diga que estou fazendo as mesmas coisas que seu pai fazia nas cartas (nem todas: não tive nenhum encontro com RPs louras de pernas compridas).
Bjs, Lou

* * *

Meu alarme tocou às seis e meia da manhã, uma microssirene irritante rompendo o silêncio. Eu tinha que estar de volta na casa dos Gopnik às sete e meia. Emiti um gemido suave ao estender o braço sobre a mesa de cabeceira e tateei para desligar o alarme. Eu havia calculado levar quinze minutos para voltar caminhando até o Central Park. Repassei mentalmente uma rápida lista das tarefas à minha frente, pensando se haveria ainda algum resto de xampu no banheiro e se seria necessário passar minha blusa.
Sam estendeu o braço e me puxou na direção dele.
— Não vá embora — disse, sonolento.
— Tenho que ir.
O braço dele estava me prendendo no lugar.
— Atrase.
Ele abriu um dos olhos. Seu cheiro era doce e quente, e ele manteve o olhar fixo no meu enquanto deslizava lentamente uma perna musculosa e pesada para cima de mim.
Era impossível rejeitá-lo. Sam estava se sentindo melhor. Bem melhor, aparentemente.
— Preciso me vestir.
Ele estava beijando minha clavícula, beijos suaves que me faziam estremecer. Sua boca, suave e concentrada, começou a traçar um caminho descendente. Por baixo das cobertas, ele olhou para mim e levantou uma das sobrancelhas.
— Eu tinha me esquecido destas cicatrizes. Gosto muito delas.
Ele baixou a cabeça e, me fazendo contorcer, beijou as nervuras prateadas nos meus quadris, fruto da cirurgia, e depois desapareceu.
— Sam, eu preciso ir. Mesmo. — Meus dedos se fecharam em torno da colcha. — Sam… Sam… Eu... preciso mesmo... eu... aah.
Algum tempo depois, ofegante e com a pele pinicando à medida que o suor secava, eu estava deitada de bruços, exibindo um sorriso tolo, os músculos doloridos em locais inesperados. Meu cabelo estava espalhado sobre o rosto, mas eu não conseguia reunir energia suficiente para afastá-lo. Uma mecha subia e descia com minha respiração. Sam estava deitado do meu lado. Sua mão atravessou o lençol, procurando a minha.
— Senti saudade de você — disse ele, mudando de posição e rolando até ficar por cima de mim, me mantendo imóvel. — Louisa Clark — murmurou, e sua voz, inacreditavelmente profunda, ressoou em algum lugar dentro de mim. — Você mexe muito comigo.
— Acho que foi você que mexeu comigo, tecnicamente falando.
O rosto dele se encheu de ternura. Levantei o rosto para beijá-lo. Era como se as últimas quarenta e oito horas tivessem se dissolvido. Eu estava no lugar certo, com o homem certo, os braços dele em torno de mim, seu corpo tão bonito e familiar. Deslizei um dedo pela sua bochecha e depois me inclinei para beijá-lo novamente, devagar.
— Não faça isso de novo — disse ele, os olhos nos meus.
— Por quê?
— Porque aí eu não vou conseguir me controlar e você já está atrasada e não quero ser responsável por você perder o emprego.
Virei a cabeça para checar o alarme. Pisquei.
— Quinze para as oito? Tá de brincadeira. Como é que já são quinze para as oito?
Desvencilhei-me do abraço dele, sacudindo os braços, e fui pulando até o banheiro.
— Ai, meu Deus. Estou muito atrasada. Putz. Putz, putz, putz, putz...
Eu entrei e saí do chuveiro tão rápido que possivelmente as gotas nem sequer entraram em contato com o meu corpo. De volta ao quarto, Sam estava de pé e segurava minha roupa para que eu me enfiasse dentro delas.
— Sapatos. Cadê os meus sapatos?
Ele estendeu o par na minha direção.
— Cabelo — disse ele, apontando. — Precisa pentear o cabelo. Está todo... quer dizer...
— O quê?
— Emaranhado. Sensual. Cabelo de quem-acabou-de-transar. Vou juntar suas coisas — disse ele.
Quando corri para a porta, ele me agarrou pelo braço e me puxou.
— Ou então, sei lá, você poderia chegar um tiquinho mais atrasada.
— Eu estou atrasada. Muito atrasada.
— É só uma vez. Ela agora é sua nova melhor amiga. Dificilmente vão mandar você embora.
Ele colocou os braços em volta de mim, me beijou e passou os lábios pela lateral do meu pescoço, me fazendo estremecer.
— E esta é a minha última manhã aqui...
— Sam...
— Cinco minutos.
— Nunca são só cinco minutos. Ah, cara... não acredito que estou falando isso como se fosse uma coisa ruim.
Ele resmungou de frustração.
— Droga. Eu estou me sentindo bem hoje. Tipo bem mesmo.
— Estou percebendo, pode acreditar.
— Desculpe — disse ele, e emendou: — Não. Não estou nada bem.
Dei um sorriso torto para ele, fechei os olhos e retribuí o beijo, sentindo naquele momento como seria fácil simplesmente cair de novo na Colcha Bordô da Perdição e me perder novamente.
— Nem eu. Mas encontro você mais tarde.
Consegui me desvencilhar dos seus braços e saí correndo do quarto e pelo corredor, ouvindo Sam gritar “Amo você!”. Pensei que, apesar dos carrapatos em potencial, dos lençóis insalubres e do banheiro com isolamento de som inadequado, na verdade o hotel era de fato muito simpático.

* * *

Sofrendo com uma dor aguda nas pernas, o Sr. Gopnik tinha passado metade da noite acordado, o que deixara Agnes ansiosa e mal-humorada. Ela havia enfrentado maus momentos no clube no fim de semana, levando um gelo das outras sócias, tinha ficado de fora das conversas e ouvido comentários a seu respeito no spa. A forma com que Nathan cochichou essas novidades quando passei por ele no saguão me fez sentir como se tivéssemos treze anos, fofocando em uma festa do pijama.
— Você está atrasada — resmungou Agnes, quando voltou da corrida com George, secando o rosto com uma toalha.
Da sala contígua, dava para ouvir a voz do Sr. Gopnik conversando alto ao telefone, o que não era comum. Ela não olhou para mim ao falar.
— Me desculpe. É porque meu... — comecei, mas ela já tinha se afastado.
— Ela está surtando por causa do evento de caridade hoje à noite — murmurou Michael, passando por mim com uma pilha de roupas vindas da lavanderia e uma prancheta.
Acessei meu arquivo mental.
— Hospital do Câncer Infantil?
— Exatamente — respondeu ele. — Ela tem que levar um rabisco.
— Um rabisco?
— Um desenhozinho. Em um papel especial. Para ser leiloado no jantar.
— E qual é o problema? Ela pode desenhar uma carinha sorridente, uma flor ou qualquer coisa. Posso fazer se ela quiser. Sei desenhar um ótimo cavalo sorridente. Posso colocar um chapéu nele também, com as orelhas para fora.
Eu ainda estava repleta de Sam e não conseguia ver problema em nada.
Ele me fitou.
— Meu bem. Você acha que “rabisco” significa mesmo um rabisco? Ah, não. Tem que ser arte de verdade.
— Eu tirei B em artes no ensino médio.
— Você é um amor. Não, Louisa, não são elas mesmas que fazem. Pelo visto, todos os artistas daqui até a Brooklyn Bridge passaram o fim de semana criando um lindo e breve estudo com caneta em troca de dinheiro vivo. Ela só descobriu isso ontem à noite. Porque ouviu por acaso duas das Bruxas comentando sobre o assunto antes de sair do clube e, quando Agnes perguntou, elas contaram a verdade. Então adivinha o que você vai fazer hoje? Tenha uma ótima manhã!
Ele me jogou um beijo e seguiu depressa pelo corredor.

* * *

Enquanto Agnes tomava uma chuveirada e depois o café da manhã, eu fazia uma busca on-line por “artistas de Nova York”. Tinha quase o mesmo efeito de “cães com rabo”. Os poucos que tinham site e se davam ao trabalho de atender ao telefone respondiam ao meu pedido como se eu tivesse sugerido que eles andassem pelados em volta do shopping mais próximo.
— Você quer que o Sr. Fischl faça um... rabisco? Para um almoço de caridade?
Dois bateram o telefone na minha cara. Os artistas, aparentemente, se levavam muito a sério.
Liguei para todo mundo que consegui encontrar. Liguei para galeristas de Chelsea. Liguei para a Academia de Arte de Nova York. O tempo todo eu tentava não pensar no que Sam estaria fazendo. Estaria tomando um delicioso café da manhã reforçado naquela lanchonete sobre a qual havíamos comentado. Estaria caminhando pela High Line, como tínhamos planejado. Eu precisava voltar a tempo de fazermos o passeio de barco antes que ele retornasse para a Inglaterra. Seria romântico ao entardecer. Imaginei o braço dele ao meu redor, nós dois apreciando a Estátua da Liberdade, ele dando um beijo no meu cabelo.
Afastei esses pensamentos e pus meu cérebro para trabalhar. E depois pensei na única outra pessoa que eu conhecia em Nova York que talvez pudesse ajudar.

* * *

— Josh?
— Quem fala?
O som de um milhão de vozes masculinas atrás dele.
— Aqui quem fala é... Louisa Clark. A gente se conheceu no Baile Amarelo.
— Louisa! Que bom falar com você! Tudo bem? — Ele soava totalmente tranquilo, como se desconhecidas ligassem para ele todos os dias. Provavelmente ligavam. — Só um momento. Vou lá para fora... Então, como vão as coisas?
Josh tem o poder de deixar as pessoas imediatamente à vontade. Fiquei pensando se os americanos já nasciam com esse dom.
— Para falar a verdade, estou numa saia justa e não conheço muitas pessoas em Nova York. Então, pensei que talvez você pudesse me ajudar.
— Diga o que é.
Expliquei a situação, deixando de fora o mau humor de Agnes, sua paranoia e meu pavor absoluto diante do cenário artístico de Nova York.
— Não deve ser muito difícil. Para quando vocês precisam disso?
— Aí é que está o problema. Hoje à noite.
Josh respirou fundo.
— Tuuudo bem. É. Ficou um pouco mais difícil.
Passei a mão no cabelo.
— Eu sei. É loucura. Se eu tivesse ficado sabendo disso antes teria providenciado alguma coisa. Peço mil desculpas por incomodar você.
— Não, não. Vamos dar um jeito. Eu te ligo de volta.
Agnes estava do lado de fora, na sacada, fumando. Parece que, afinal de contas, eu não era a única usando o espaço. Fazia frio, e ela estava enrolada em um enorme xale de caxemira, os dedos que se viam por baixo do tecido suave estavam levemente rosados.
— Fiz várias ligações. Estou esperando que alguém me retorne.
— Sabe o que vão dizer, Louisa? Se eu levar um rabisco idiota?
Esperei.
— Vão dizer que não sou culta. O que se pode esperar de uma massagista polonesa idiota? Ou vão dizer que ninguém quis fazer para mim.
— Ainda é meio-dia e vinte. Temos tempo.
— Não sei por que me dou ao trabalho — disse ela com delicadeza.
Fiquei com vontade de dizer que, tecnicamente falando, não era ela que estava se dando ao trabalho. A única preocupação de Agnes no momento parecia ser Fumar E Ser Ranzinza. Mas eu sabia me colocar no meu lugar. Justo naquela hora meu celular tocou.
— Louisa?
— Josh?
— Acho que conheço alguém que pode ajudar. Pode ir até East Williamsburg?

* * *

Vinte minutos mais tarde, estávamos em um carro a caminho do Midtown Tunnel.
Enquanto ficávamos parados no trânsito, Garry impassível e silencioso no banco do motorista, Agnes telefonou para o Sr. Gopnik, preocupada com a saúde dele e suas dores.
— Nathan vai até o escritório? Você tomou um analgésico?... Tem certeza de que está bem, querido? Não quer que eu leve alguma coisa? ... Não... Estou no carro. Tenho que providenciar alguma coisa para hoje à noite. Sim, eu vou. Está tudo bem.
Dava para perceber o tom de voz dele no outro lado da linha. Baixo, tranquilizador.
Ela desligou, olhou pela janela e soltou um longo suspiro. Esperei um pouco e depois comecei a ler minhas anotações.
— Então, parece que esse Steven Lipkott está em ascensão no mundo das artes. Fez exposições em alguns lugares muito importantes. E ele é... — vasculhei as anotações — ... figurativo. Nada abstrato. Então, você só precisa dizer o que quer que ele desenhe, e ele vai fazer. Mas não sei quanto vai custar.
— Não importa — disse Agnes. — Vai ser um desastre.
Peguei o iPad e pesquisei sobre o artista. Aliviada, vi que os desenhos eram realmente lindos: imagens sinuosas do corpo. Passei o iPad para Agnes de modo que ela pudesse ver, e, em um minuto, o humor dela melhorou.
— Isso é bom.
Ela soou quase surpresa.
— Aham. Se você pensar no que quer, podemos pedir para ele desenhar e estaremos em casa por volta das... quatro, talvez?
E aí vou poder sair, acrescentei em silêncio. Enquanto ela passava as imagens na tela, mandei uma mensagem para Sam.
Como você está?
Nada mal. Fiz uma caminhada agradável. Comprei um boné em formato de caneca de cerveja para o Jake. Não ria.
Queria estar com você.
Pausa.
Então, a que horas você acha que vai ser liberada? Imagino que eu tenha que sair para o aeroporto lá pelas sete.
Espero estar livre às quatro. Vamos nos falando. Bjssss
Com o trânsito de Nova York, levamos uma hora para chegar ao endereço que Josh fornecera: um antigo prédio comercial sem graça nos fundos de um quarteirão industrial. Garry parou o carro e deu uma fungada cética.
— Tem certeza de que é o lugar certo? — perguntou, esforçando-se para olhar para trás.
Conferi a localização.
— É o endereço que me deram.
— Vou ficar no carro, Louisa. Vou ligar para o Leonard de novo.
O corredor superior tinha uma fileira de portas, algumas delas abertas, música nas alturas. Caminhei lentamente, verificando os números. Alguns tinham latas de tinta de emulsão branca no lado de fora, e passei por uma porta aberta que revelava uma mulher de calça jeans larga estendendo uma tela sobre uma enorme moldura de madeira.
— Oi! Sabe onde posso encontrar o Steven?
Com um imenso grampeador de metal, a mulher disparou vários grampos na tela.
— Quatorze. Mas acho que ele acabou de sair para comprar comida.
O quatorze ficava nos fundos. Bati, depois empurrei a porta com hesitação e entrei. O estúdio estava cheio de telas, duas mesas enormes cobertas com bandejas de tinta a óleo e lápis pastel usado. As paredes estavam repletas de pinturas belíssimas, de grande formato, retratando mulheres em vários estágios de desnudamento, algumas inacabadas. O ar tinha cheiro de tinta, terebintina e cigarro velho.
— Olá.
Ao me virar, vi um homem segurando uma sacola de plástico branca. Tinha por volta dos trinta anos, traços comuns, mas olhar intenso, barba por fazer no queixo, usando roupas práticas e amarrotadas como se mal tivesse notado o que tinha vestido. Parecia modelo de uma revista de moda particularmente esotérica.
— Oi. Louisa Clark. Falamos ao telefone mais cedo? Bem, nós não falamos... Seu amigo Josh me disse para vir.
— Ah, sim. Você quer comprar um desenho.
— Não exatamente. Precisamos que você faça um desenho. Um pequeno.
Ele se sentou em um tamborete baixo, abriu a embalagem de macarrão chinês e começou a comer, levando-o rapidamente à boca com os hashis.
— É para um evento de caridade. As pessoas fazem esses rab... desenhos pequenos — eu me corrigi. — Aparentemente vários artistas importantes de Nova York estão fazendo para outras pessoas, então...
— Artistas importantes — repetiu ele.
— Bom. É. Aparentemente não é uma coisa para a própria pessoa fazer, e Agnes, para quem eu trabalho, realmente precisa que alguém genial faça um desenho para ela. — Minha voz soava alta e ansiosa. — Quer dizer, não deve tomar muito do seu tempo. Nós... não queremos nada muito elaborado...
Ele estava me encarando e ouvi minha voz diminuir, fina e incerta.
— E nós... podemos pagar. Bastante bem — acrescentei. — E é para caridade.
Ele continuou comendo, os olhos fixos na embalagem de macarrão.
Permaneci perto da janela, esperando.
— Entendo — disse ele, quando acabou de mastigar. — Não sou a pessoa certa.
— Mas Josh disse...
— Você quer que eu crie algo para satisfazer o ego de uma mulher que não sabe desenhar e que não quer aparecer na frente das senhoras do clube... — Ele balançou a cabeça. — Você quer que eu desenhe um cartão comemorativo.
— Sr. Lipkott. Por favor. Provavelmente não expliquei muito bem. Eu...
— Você explicou direitinho.
— Mas Josh disse...
— Josh não disse nada sobre cartões comemorativos. Odeio essa merda toda de eventos de caridade.
— Eu também.
Agnes estava na porta. Ela deu um passo à frente e entrou na sala, olhando para baixo para se certificar de que não estava pisando em um dos tubos de tinta ou nos papéis que estavam jogados pelo chão. Estendeu a mão comprida e pálida.
— Agnes Gopnik. Também odeio essas merdas de eventos de caridade.
Steven Lipkott se levantou devagar e então, como se por um impulso remanescente de uma época mais refinada e sobre o qual tivesse pouco controle, estendeu a mão para cumprimentá-la. Ele não conseguia desviar os olhos do rosto dela. Eu havia esquecido que Agnes provocava esse efeito em quem a via pela primeira vez.
— Sr. Lipkott... está correto? Lipkott? Sei que não se trata de uma coisa normal para o senhor. Mas tenho que enfrentar esse evento em uma sala cheia de bruxas. Sabe? Bruxas de verdade. E eu desenho como uma criança de três anos usando luvas. Se eu tiver que ir e mostrar um desenho meu, elas vão zombar de mim mais do que já fazem.
Agnes se sentou e tirou um cigarro da bolsa. Estendeu a mão, pegou um isqueiro que estava em uma das bancadas de pintura e acendeu o cigarro.
Steven Lipkott ainda a examinava, os hashis quase caindo das mãos.
— Não sou daqui. Sou uma massagista polonesa. Nenhuma vergonha nisso. Mas não quero dar àquelas bruxas a chance de me esnobarem de novo. Sabe qual é a sensação de ser esnobada pelas pessoas?
Agnes soltou o ar, olhando para Steven, a cabeça inclinada, de modo que a fumaça foi flutuando na direção dele. Acho que ele deve ter inalado.
— Eu... ahn... sim.
— Então é só essa coisinha que estou pedindo. Para me ajudar. Sei que não é a sua, e que você é um artista sério, mas eu realmente preciso de ajuda. E vou pagar muito bem.
A sala ficou em silêncio. O celular vibrou no meu bolso de trás. Tentei ignorar. Eu sabia que não devia me mexer naquele momento. Nós três ficamos paralisados ali por uma eternidade.
— Tudo bem — disse ele finalmente. — Mas com uma condição.
— Pode dizer.
— Vou desenhar você.
Por um minuto ninguém abriu a boca. Agnes ergueu uma sobrancelha e depois deu um tragada lenta no cigarro, os olhos fixos nos dele.
— Eu.
— Não pode ser a primeira vez que pedem isso.
— Por que eu?
— Não banque a ingênua.
Ele então sorriu, e ela manteve a fisionomia séria, como se estivesse decidindo se fora insultada. Seus olhos baixaram para os pés e, quando levantou o rosto, lá estava, seu sorriso discreto, especulativo, um prêmio que ele achava ter conquistado.
Ela amassou o cigarro no chão.
— Quanto tempo vai demorar?
Ele colocou de lado a embalagem de comida e pegou um bloco de papel grosso branco. Talvez apenas eu tenha notado a maneira como a voz de Steven baixou de volume.
— Depende da habilidade da senhora em se manter imóvel.

* * *

Alguns minutos depois eu estava de volta no carro. Fechei a porta. Garry estava ouvindo suas fitas.
Por favor, habla más despacio.”
— Pohr fah-VOR, AH-bla má des-PAH-ci-u. — Ele bateu no painel com a palma da mão gorda. — Ah, droga. Vou tentar de novo. AHblamahsdehsPaHciu. — Praticou mais três frases e, então, se voltou para mim. — Ela vai demorar?
Olhei para fora, em direção às janelas opacas do segundo andar.
— Sinceramente, espero que não — respondi.

* * *

Agnes finalmente surgiu às 15h45, uma hora e quarenta e cinco minutos depois de Garry e eu termos esgotado nossa conversa, já tão limitada. Depois de assistir a um programa de comédia da TV a cabo baixado no iPad (que ele não ofereceu para compartilhar), Garry tinha cochilado, o queixo repousando no torso saliente enquanto ressonava de leve. Fiquei sentada no banco de trás do carro, me sentindo cada vez mais tensa à medida que os minutos passavam, de tempos em tempos mandando para Sam mensagens que eram variações do mesmo tema: Ela ainda não voltou. Ainda não está de volta. Pelamordedeus, o que será que ela está fazendo lá? Ele havia almoçado em uma delicatessenzinha do outro lado da cidade e disse que estava com tanta fome que era capaz de comer quinze cavalos. Parecia bem-humorado, relaxado, e cada palavra que trocávamos me dizia que eu estava no lugar errado, que eu devia estar ao lado dele, me recostando nele, sentindo sua voz ressoar no meu ouvido. Eu tinha começado a odiar Agnes.
E, de repente, lá estava ela, saindo a passos largos do prédio, com um grande sorriso e um pacote plano embaixo do braço.
— Ah, graças a Deus — falei.
Garry acordou com um sobressalto e correu para dar a volta no carro e abrir a porta para ela. Agnes entrou tranquilamente, como se tivesse ficado longe por dois minutos em vez de duas horas. Trouxe consigo os aromas tênues de cigarro e terebintina.
— Precisamos parar no McNally Jackson no caminho de volta. Comprar um papel de embrulho bonito.
— Temos papel de embrulho em...
— Steven me falou de um papel especial feito a mão. Quero embrulhar nesse papel especial. Garry, sabe que lugar é esse? Podemos dar uma passada no SoHo no caminho de volta, está bem?
Ela fez um gesto com a mão.
Afundei no banco, ligeiramente desesperada. Garry deu partida, fazendo a limusine chacoalhar com delicadeza no chão esburacado do estacionamento enquanto voltava para o que ele considerava civilização.

* * *

Eram 16h45 quando chegamos à Quinta Avenida. Assim que Agnes desceu do carro, corri para o lado dela, segurando o pacote com o papel especial.
— Agnes, eu... eu estava pensando... aquilo que você tinha dito sobre eu sair cedo hoje...
— Não sei se devo usar o Temperley ou o Badgley Mischka hoje à noite. O que você acha?
Tentei me lembrar dos dois vestidos. Não consegui. Eu estava tentando calcular quanto tempo levaria para chegar até a Times Square, onde Sam estava me esperando.
— O Temperley, acho. Sem dúvida. É perfeito. Agnes. Você se lembra de ter dito que eu poderia sair mais cedo hoje?
— Mas é um azul tão escuro. Não tenho certeza se esse tom de azul fica bem em mim. E os sapatos que combinam me machucam no calcanhar.
— Conversamos na semana passada. Tudo bem por você? Eu realmente gostaria de levar o Sam ao aeroporto para me despedir.
Eu me esforcei para não deixar transparecer a irritação em minha voz.
— Sam?
Ela cumprimentou Ashok com um gesto da cabeça.
— Meu namorado.
Ela refletiu um pouco.
— Humm. Tudo bem. Ah, elas vão ficar tão impressionadas com o desenho. O Steven é genial, sabe? Genial de verdade.
— Então, eu posso ir?
— Claro.
Relaxei os ombros, aliviada. Se eu saísse em dez minutos, podia pegar o metrô para o sul e me encontrar com ele lá pelas cinco e meia. Isso ainda nos daria uma hora e pouco juntos. Melhor do que nada.
As portas do elevador se fecharam atrás de nós. Agnes abriu o estojo de pó compacto e verificou o batom, fazendo beicinho para o espelho.
— Mas talvez você deva ficar só até eu me vestir. Preciso de uma segunda opinião a respeito do Temperley.

* * *

Agnes mudou de roupa quatro vezes. Já estava tarde demais para encontrar Sam em Midtown, Times Square ou qualquer outro lugar. Em vez disso, cheguei ao JFK quinze minutos antes que ele tivesse que passar pela segurança. Abri caminho aos empurrões no meio dos outros passageiros até que finalmente o avistei, parado na frente do balcão de embarque, e me atirei pelas portas do aeroporto, batendo nas costas dele.
— Me desculpe. Me desculpe muitíssimo.
Nós nos abraçamos por um minuto.
— O que aconteceu?
— Agnes aconteceu.
— Ela não ia deixar você sair mais cedo? Pensei que ela fosse sua amiga.
— Ela estava totalmente obcecada por esse negócio de obra de arte e foi ficando tudo... Meu Deus, foi enlouquecedor. — Joguei as mãos para o alto. — Afinal de contas, o que é que eu estou fazendo nesse emprego idiota, Sam? Ela me fez esperar porque não conseguia decidir que vestido usar. Pelo menos Will efetivamente precisava de mim.
Ele inclinou a cabeça e encostou a testa na minha.
— Tivemos a manhã de hoje.
Eu o beijei, segurando-o pelo pescoço para conseguir encostar meu corpo no dele. Ficamos ali, de olhos fechados, o aeroporto se mexendo e balançando ao nosso redor.
E então meu celular tocou.
— Estou ignorando — falei, a cabeça no peito dele.
Continuou tocando, insistentemente.
— Pode ser ela.
Ele me afastou com delicadeza.
Deixei escapar um grunhido baixo, depois peguei o celular do bolso de trás e levei ao ouvido.
— Agnes?
— Sou eu, Josh. Só estou ligando para saber como foi hoje.
— Josh! Humm. Ah. Sim, correu tudo bem. Obrigada!
Eu me virei ligeiramente, tapando o outro ouvido. Senti Sam se retesar ao meu lado.
— Então ele fez o desenho para vocês.
— Fez. Ela ficou superfeliz. Muito obrigada por providenciar tudo. Josh, eu estou no meio de uma coisa agora, mas obrigada. Foi mesmo incrivelmente gentil da sua parte.
— Fico contente de ter dado certo. Bem, me ligue, ok? Vamos tomar um café uma hora dessas.
— Claro!
Ao desligar, percebi Sam me observando.
— Josh — disse ele.
Coloquei o celular de volta no bolso.
— O cara que você conheceu no baile.
— É uma longa história.
— Certo.
— Ele me ajudou a arrumar esse desenho para a Agnes hoje. Eu estava desesperada.
— Então você tem o telefone dele.
— É Nova York. Todo mundo tem o telefone de todo mundo.
Ele passou a mão pelo topo da cabeça e se virou.
— Não é nada. De verdade.
Dei um passo na direção dele, puxei-o pela fivela do cinto. Eu sentia o fim de semana me escapando de novo.
— Sam... Sam...
Ele cedeu e colocou os braços em volta de mim. Apoiou o queixo no topo da minha cabeça e moveu a dele de um lado para outro.
— Isso é...
— Eu sei — concordei. — Eu sei que é. Mas amo você e você me ama, e pelo menos conseguimos fazer um pouco do lance de ficar pelados. E foi ótimo, não foi? Esse lance de ficar pelados?
— Por, digamos, cinco minutos.
— Os melhores cinco minutos das quatro últimas semanas. Cinco minutos que vão me manter pelas próximas quatro semanas.
— Só que vão ser sete.
Enfiei as mãos nos bolsos de trás dele.
— Não vamos deixar isso acabar mal. Por favor. Não quero que você vá embora com raiva por causa de um telefonema estúpido de alguém que não significa absolutamente nada para mim.
Como sempre, sua expressão ficou mais branda quando Sam manteve o olhar fixo no meu. Era uma das coisas de que eu gostava nele, o modo como seus traços, tão brutos ao relaxarem, se derretiam quando ele olhava para mim.
— Não estou com raiva de você. Estou com raiva de mim mesmo. E da comida do avião ou do burrito ou seja lá o que for. E dessa sua chefe que parece não conseguir sequer colocar um vestido sozinha.
— Vou voltar no Natal. Por uma semana inteirinha.
Sam franziu a testa. Pegou meu rosto entre as mãos, que eram quentes e ligeiramente ásperas. Ficamos assim por um minuto e depois nos beijamos, e algumas décadas depois ele se endireitou e olhou o painel de voos.
— E agora você tem que ir.
— E agora eu tenho que ir.
Engoli o nó que tinha se formado em minha garganta. Ele me beijou mais uma vez, depois jogou a mala sobre o ombro. Fiquei no saguão, observando por um minuto inteiro o espaço que ele tinha ocupado até ser engolido pela segurança.

* * *

Em geral, não sou uma pessoa temperamental. Não sou muito boa em bater portas, ficar de cara amarrada, revirar os olhos. Naquela noite, porém, me comportei como uma nativa mal-encarada e voltei para a cidade abrindo espaço no meio da multidão na plataforma do metrô, cotovelos para fora. Passei o trajeto inteiro conferindo a hora. Ele está na sala de embarque. Está embarcando. E... foi embora. No momento previsto para a decolagem do avião, senti alguma coisa afundar dentro de mim e fiquei ainda mais carrancuda.
Comprei sushi no caminho para casa e fui andando da estação do metrô até o prédio dos Gopnik. Quando cheguei ao meu quartinho, fiquei sentada encarando o embrulho, depois a parede, e quando percebi que não conseguiria ficar ali sozinha com meus pensamentos, bati na porta de Nathan.
— Entre!
Nathan, de short de surfista e camiseta, assistia a uma partida de futebol americano, segurando uma cerveja. Ele me olhou e ficou aguardando, com um ligeiro atraso, o sinal que as pessoas dão quando estão realmente focadas em outra coisa.
— Posso jantar aqui com você?
Ele desviou o olhar da tela novamente.
— Dia difícil?
Assenti.
— Precisa de um abraço?
Neguei com a cabeça.
— Só um abraço virtual. Se você for bonzinho comigo, provavelmente vou cair no choro.
— Ah. Seu homem voltou para casa, não é?
— Foi um desastre, Nathan. Ele passou mal praticamente o tempo todo e Agnes não me deu a folga que tinha prometido para hoje. Eu mal consegui estar com ele, e, quando realmente consegui, as coisas foram ficando meio... esquisitas entre nós.
Suspirando, Nathan baixou o volume da televisão, então deu um tapinha no lado da cama. Subi nela e coloquei a comida no colo. Eu descobriria mais tarde que manchei a calça de trabalho com molho shoyu. Apoiei a cabeça no ombro dele.
— Relacionamentos a distância são difíceis — afirmou Nathan, como se ele fosse a primeira pessoa a proferir tal coisa. Depois, ainda acrescentou: — Tipo, realmente difíceis.
— Certo.
— Não é apenas o sexo, e o ciúme inevitável...
— Não somos ciumentos.
— Mas ele não é a primeira pessoa para quem você vai contar as coisas. As pequenas coisas do dia a dia. E isso é importante.
Nathan me ofereceu a cerveja. Tomei um grande gole e a devolvi.
— A gente sabia que ia ser difícil. Quer dizer, conversamos sobre tudo isso antes de eu vir. Mas sabe o que está me incomodando mais?
Ele desviou o olhar da tela.
— O quê?
— Agnes sabia o quanto eu queria passar um tempo com Sam. Nós tínhamos conversado sobre o assunto. Era ela que insistia que tínhamos que nos ver, que não podíamos ficar afastados, blá-blá-blá. E aí vai e me obriga a ficar com ela até o último minuto.
— Esse é o seu trabalho, Lou. Eles vêm em primeiro lugar.
— Mas ela sabia como era importante para mim.
— Talvez.
— Era para ela ser minha amiga.
Nathan ergueu uma sobrancelha.
— Lou. Os Traynor não eram patrões normais. Will não era um patrão normal. Nem os Gopnik. Essas pessoas podem agir com gentileza, mas no final das contas você precisa se lembrar de que é uma relação de poder. Uma transação de negócios. — Ele tomou um grande gole de cerveja. — Sabe o que aconteceu com a última assistente pessoal dos Gopnik? Agnes contou para o Velho Gopnik que a mulher estava falando dela pelas costas, contando segredos. Então eles mandaram a assistente embora. Depois de vinte e dois anos. Demitiram.
— E ela estava?
— Ela estava o quê?
— Contando segredos?
— Não sei. Não é esse o ponto, não é?
Eu não queria contradizê-lo, mas explicar por que Agnes e eu éramos diferentes significaria traí-la. Então eu não disse nada.
Nathan pareceu prestes a dizer algo, mas depois mudou de ideia.
— O que foi?
— Olha... ninguém consegue ter tudo.
— Como assim?
— Este emprego é ótimo, não é? Quer dizer, você pode não achar isso hoje, mas está em uma situação privilegiada no coração de Nova York, com um bom salário e um patrão decente. Você tem oportunidade de ir para todo tipo de lugar fantástico e tem alguns bônus ocasionais. Eles compraram um vestido de baile de quase três mil dólares para você, não foi? Eu viajei até as Bahamas com o Sr. G uns meses atrás. Hotel cinco estrelas, quarto com vista para a praia, o pacote completo. E isso por apenas umas poucas horas de trabalho por dia. Então, temos sorte. Mas, a longo prazo, o preço a pagar por tudo isso pode acabar sendo um relacionamento com uma pessoa cuja vida é completamente diferente e que está a um milhão de quilômetros de distância. Essa é a opção que você faz quando segue em frente.
Eu o encarei.
— Eu só acho que você tem que ser realista sobre essas coisas.
— Não está ajudando, Nathan.
— Estou sendo sincero com você. E, ora, veja pelo lado bom. Soube que você fez uma coisa incrível hoje com a história do desenho. O Sr. G me disse que ficou realmente impressionado.
— Eles gostaram mesmo?
Tentei disfarçar minha satisfação.
— Nossa, cara. De verdade. Eles adoraram. Ela vai deixar aquelas mulheres da caridade de queixo caído.
Eu me inclinei na direção dele, que aumentou o volume da TV novamente.
— Obrigada, Nathan — falei e abri a embalagem de sushi. — Você é um ótimo amigo.
Ele fez uma leve careta.
— É. Esse troço aí de peixe. Alguma chance de você esperar até voltar para o seu quarto?
Fechei a embalagem. Ele estava certo. Ninguém consegue ter tudo.

6 comentários:

  1. Realmente Nathan foi bem bem realista com Nossa Lou uma hora oou outra ela vai ter que fazer a sua escolha

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  2. Só eu acho que Sam, deveria mudar-se para New York City? Seria incrível os dois juntos lá

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  3. "Eles vêm em primeiro lugar."

    😲😂😂😂Tipo,me lembrou alguém...Agnes é uma Moroi e a Lou uma Dhampir?😉

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    Respostas
    1. Academia de vampiros rsrs Rose e Lisa

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  4. Adoro o sam ela tem que ficar com ele, se ela ficar com o Josh vou ficar brava

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  5. Não sei pq mas esse capítulo me lembrou mt o diabo veste prada, só o q muda é q a chefa dela é legal

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Boa leitura, E SEM SPOILER!