20 de fevereiro de 2018

Capítulo 9

KADEN

Tentar ajudar Griz a descer do seu cavalo era como tentar lutar com um urso até colocá-lo no chão.
— Tire as mãos de mim! — berrou ele.
— Shhhhh! — ordenei pela milésima vez. A dor que ele sentia o deixara descuidado. Seu rosnado ecoou pelo cânion. — Pode ser que eles ainda estejam por perto.
Soltei o cinto dele e ele caiu, levando-me para baixo consigo. Nós dois ficamos deitados na neve.
— Siga em frente sem mim — gemeu ele.
Eu estava tentando fazer isso, mas precisava dele. Aquele homem poderia ser útil. E, sem sombra de dúvida, ele precisava de mim.
— Pare de reclamar e levante-se. — Eu me coloquei de pé e estiquei a mão para ajudá-lo. Ele tinha o peso morto de um touro assassinado.
Griz não estava acostumado a depender de alguém, menos ainda a admitir fraqueza. O talho na lateral do seu corpo começou a vazar sangue de novo. A ferida precisava de mais atenção do que o meu apressado trabalho com a bandagem lhe provera. Ele murmurou um xingamento e pressionou a ferida com o braço.
— Vamos.
Nós analisamos as trilhas do lado de fora da caverna.
Griz usou a sua bota para amassar um montezinho de neve feito pelo casco de um cavalo.
— Eu estava certo. O velho a trouxe até aqui.
Ele havia confessado para mim que ele e o tal do governador Obraun tinham uma história, e parte dela incluía essa caverna, um lugar onde eles haviam se escondido juntos quando escaparam dos grilhões de um campo de trabalho forçado.
O nome verdadeiro de Obraun era Sven, e ele era um soldado na Guarda Real de Dalbreck. O engodo de Sven não me surpreendeu tanto quanto o de Griz. Eu havia suspeitado de que muitas pessoas fossem algo que não aparentavam ser, mas nunca suspeitara de que Griz não fosse algo além de um Rahtan ferozmente leal. Jamais passara pela minha cabeça que ele era alguém que vendia informações entre reinos, embora Griz clamasse com veemência que nenhuma dessas informações havia traído Venda. No entanto, trabalhar com o inimigo já era traição o bastante.
Eu me curvei para baixo e olhei com mais atenção para a confusão de pegadas e trilhas de cavalos. Alguns eram cavalos dalbretchianos, mas outros eram inconfundivelmente vendanos.
— Eles pegaram alguns dos nossos cavalos, só isso — disse Griz.
Ou outra pessoa havia alcançado os passos deles.
Levantei-me, seguindo com o olhar as trilhas que desapareciam em meio aos pinheiros à frente. Eles tinham ido para o leste, o que queria dizer que não estavam sendo levados de volta para Venda. Como foi que conseguiram se apossar de cavalos vendanos?
Balancei a cabeça.
Jangadas. Cavalos e suprimentos escondidos.
Esse era um plano que havia sido traçado fazia tempos. Talvez desde o instante em que Lia pôs os pés em Venda. A única conclusão que eu podia extrair disso era a de que ela havia me usado desde o início. Todas as palavras ternas que saíram dos lábios dela haviam servido a um propósito. Repassei cada uma delas. Na nossa última noite, quando ela me falou que a visão dela era de nós dois juntos... quando ela me perguntou sobre a minha mãe...
Isso virava o meu estômago pelo avesso. Lia era a única pessoa para quem eu já havia sussurrado o nome da minha mãe. Eu a vejo, Kaden. Eu a vejo em você todos os dias. Agora, entretanto, eu sabia que tudo que ela via quando olhava para mim era um deles. Mais um bárbaro, e alguém em quem ela não podia confiar. Mesmo que ela tivesse me enganado, eu não conseguia acreditar que as afeições dela pelas pessoas não fossem reais. Aquilo não era fingimento. Todas essas coisas se reviravam em mim, a lembrança de Lia parada, em pé junto a um muro, sacrificando segundos preciosos da sua fuga para falar com as pessoas uma última vez.
Nós demos uma olhada dentro da caverna e nos deparamos com manchas escuras no solo arenoso, possivelmente sangue de um animal morto... ou talvez das próprias feridas de um deles. E, então, vi uma faixa de tecido rasgado que não era maior que o meu polegar e a peguei. Brocado vermelho. Era um pedaço do vestido dela: confirmação de que ela havia chegado até ali. Se Lia conseguia cavalgar, isso queria dizer que ainda estava viva. Essa era uma possibilidade que nem eu e nem Griz havíamos discutido. Ninguém havia encontrado um corpo rio abaixo, mas isso não queria dizer que um penhasco rochoso o tivesse escondido.
— Eles não estão muito à frente — falei.
— Então pelo que você está esperando?
Encontrem-na.
Não havia tempo a perder.
Olhei para Griz. Que bem real ele faria por mim? Ele mal conseguia levantar uma espada, nem mesmo com o braço bom, e eu conseguiria me mover mais rápido sem ele.
— Você não vai conseguir detê-los sozinho — disse ele, como se estivesse lendo a minha mente.
Parecia que seria exatamente isso que eu teria que fazer, mas Griz ainda era, pelo menos, uma figura intimidante. Ele poderia fazer uma demonstração de força. Poderia ser toda a margem de que eu precisava.

10 comentários:

  1. Cada capítulo do Kaden me corta o coração. Porquê fui me apegar à ele?

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    1. Me corta o coração e coloca duvida na minha cabeça.
      As vezes parece que ele não tá atras para matar a Lia

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    2. kaden amo e odeio ao mesmo tempo adoro vilões

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  2. Aquela indecisão sobre qual team seguir:|

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  3. Eu estou indignada pelo Komizar está vivo. Eu sei que o Kaden não vai conseguir matar a Lia, ele não vai me decepcionar.

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  4. medo de ter me apegado ao Kaden e ser decepcionada :(

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  5. Me apeguei mto ao kaden..mas temo q a lia vai acabar com o rafe..pra falar a verdade td hora me sinto dividida..só espero q todos terminem felizes..kkk

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  6. Acho que Kaden tá tentando salvar Lia. Ele tem que chegar a ela primeiro antes dos homens do Komizar. O Komizar não os teria enviado depois de eles o traírem e terem lutado por Lia

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Boa leitura, E SEM SPOILER!