2 de fevereiro de 2018

Capítulo 9

Aparentemente, eu e Pauline havíamos provado nosso valor e nossas habilidades, porque, sem aviso prévio, Berdi nos promoveu para que cuidássemos de qualquer mesa que precisasse de atenção, promoção esta que viera junto com um rígido lembrete de que não deveríamos experimentar as cervejas mais pesadas que servíamos. Pauline recebeu as notícias sem se abalar, mas eu senti que havia cruzado um limiar. Sim, tratava-se apenas de servir mesas, mas a estalagem e as pessoas que a frequentavam eram tudo que Berdi tinha. Isso era a vida dela. Ela havia me confiado algo que lhe era importante.
Quaisquer dúvidas que ela tivesse de que eu fosse uma desajeitada menina da realeza que haveria de esmorecer sob a mais leve pressão não existiam mais. Eu não a decepcionaria.
A taverna era um grande salão aberto. A porta vaivém da cozinha ficava nos fundos, e a parede adjacente continha a estação de abastecimento, como Berdi a chamava, que era o coração da taverna, um longo e polido bar de pinho com torneiras para vários tipos de cervejas, as quais eram conectadas a barris na adega de resfriamento. Uma alcova escura no fim do bar dava para os degraus da adega. A taverna acomodava umas quarenta pessoas, e isso não incluía aqueles que se apoiavam em um canto ou que se empoleiravam em um dos barris vazios alinhados em uma das paredes. A noite estava apenas começando, e a taverna já estava ruidosa com as atividades, e só restavam duas mesas vazias.
Para a minha sorte, o cardápio era simples e as escolhas poucas, então eu não tinha nenhum problema em entregar as bebidas ou as comidas certas para os fregueses certos. A maioria pedia pão ázimo e o cozido de peixe pelo qual Berdi era conhecida, mas sua carne de cervo defumada com salada verde fresca do jardim e melão também eram deliciosos, especialmente agora que estava na época da fruta. Até mesmo o chef lá na cidadela teria reconhecido.
Meu pai tendia a dar preferência a assados gordurosos com molhos fortes, e as evidências disso estavam em sua barriga. Os pratos de Berdi eram um alívio bem-vindo àquela culinária pesada.
Enzo parecia ter desaparecido, e toda vez que eu ia até a cozinha, Berdi murmurava baixinho sobre o inútil cabeça oca, mas observei que ele realmente havia entregado o bacalhau hoje, de modo que o cozido dela estava excelente.
— Ah, mas veja o estado dessa louça! — disse ela, acenando com uma colher no ar. — Ele saiu para cuidar de um cavalo e não voltou. Vou servir o cozido em penicos se ele não chegar logo, aquele miserável...
A porta dos fundos oscilou e se abriu, e Enzo entrou com passos pesados, sorrindo como se tivesse encontrado um baú cheio de ouro. Ele lançou um estranho olhar de relance para mim, com suas sobrancelhas erguidas em altos arcos, como se nunca tivesse me visto antes. Enzo era um menino estranho. Para mim ele não era exatamente um simplório, mas talvez Berdi o chamasse de cabeça oca com razão. Saí para entregar algumas cervejas e um prato de carne de cervo enquanto Berdi soltava os cachorros em cima dele, ordenando que fosse lavar a louça imediatamente.
Assim que passei pela porta vaivém e entrei no refeitório, alguns novos fregueses entraram. Em um piscar de olhos, Pauline estava ao meu lado, tentando me empurrar de volta pela porta, quase fazendo com que eu derrubasse o meu prato.
— Volte para a cozinha — sussurrou ela. — Rápido! Eu e Gwyneth damos conta deles.
Olhei para o bando de soldados enquanto eles caminhavam até uma mesa e sentavam-se. Não reconheci nenhum. Provavelmente também não me reconheceriam, especialmente no meu novo papel aqui, isso sem falar nas vestimentas da taverna que Berdi tinha nos dado para vestirmos enquanto estivéssemos servindo mesas. A maior parte dos meus cabelos estava bem presa dentro da minha touca rendada, e uma princesa usando uma saia marrom sem graça e um avental não parecia de modo algum uma princesa.
— Não — eu disse a ela. — Não posso me esconder toda vez em que alguém cruzar aquela porta.
Pauline continuou me empurrando, mas eu passei rápido por ela, desejando acabar logo com aquilo, de uma vez por todas. Deixei a travessa de carne de cervo na mesa certa e, com duas cervejas ainda na outra mão, segui em direção aos soldados.
— O que posso oferecer a vocês, bondosos cavalheiros?
Pauline estava paralisada de medo perto da porta da cozinha.
Um dos soldados olhou para mim, seus olhos lentamente deslizando dos meus tornozelos até a minha cintura, demorando-se em sua análise do fio trançado do meu colete e por fim pousando o olhar solene no meu rosto. Ele estreitou os olhos. Meu coração parou de bater por um instante, e senti minhas bochechas corarem. Será que havia me reconhecido? Será que eu tinha cometido um erro terrível? Ele estendeu a mão e circundou com ela minha cintura, puxando-me mais para perto antes que eu pudesse apresentar alguma reação.
— Eu já tenho exatamente o que quero.
Os outros soldados riram, e meu coração, por mais estranho que pareça, aquietou-se. Reconheci esse jogo. Eu tinha visto Gwyneth defender-se de avanços como estes muitas vezes. Com aquilo eu podia lidar. Com o fato de ser reconhecida como a princesa fugitiva, não. Inclinei-me para a frente, fingindo interesse.
— Soldados da Guarda de Sua Majestade... entendo que vocês têm dietas bastante rígidas. Devem tomar cuidado com aquilo que desejam.
Naquele instante, consegui derramar metade da cerveja das canecas que estavam em minha mão no colo dele.
Ele soltou a minha cintura e deu um pulo para trás, irrompendo a falar sobre seu colo molhado como se fosse um garotinho de escola lamuriando-se.
Os outros soldados rugiram, aprovando o espetáculo. Antes que ele pudesse soltar os cachorros em cima de mim, falei, baixinho, esperando que soasse sedutora:
— Sinto muito. Sou nova nisso, e meu equilíbrio não é muito bom. Talvez seja mais seguro que você mantenha suas mãos longe de mim.
Coloquei as duas canecas com cerveja pela metade em cima da mesa à frente dele.
— Tome, aceite essas cervejas como um pedido de desculpas por eu ser desajeitada. — Eu me virei antes que ele pudesse responder, mas ouvi um retumbar de gargalhadas atrás de mim.
— Muito bem — sussurrou Gwyneth ao meu ouvido quando passei por ela, mas quando me virei, Berdi estava plantada, grande e imóvel na porta da cozinha, com as mãos nos quadris, os lábios formando uma apertada e fina linha. Engoli em seco. Tudo estava bem em relação aos soldados. Eu não sabia por que ela deveria estar tão perturbada, mas fiz uma promessa silenciosa de ser menos punitiva com o derramar de cerveja.
Voltei às torneiras para encher uma nova rodada de cerveja para os fregueses que as pediram originalmente, puxando duas canecas frescas sob o balcão. Em um breve momento de calma, fiz uma pausa e observei Pauline, que fitava a porta com ar saudoso. Faltava bem pouco para o fim do mês e ainda era um pouco cedo para que Mikael tivesse percorrido todo o caminho desde Civica, mas a expectativa dela transparecia toda vez que a porta se abria.
Ela parecera meio pálida durante a semana que passou, com o tom normalmente rosado de suas bochechas sumindo junto com seu apetite, e eu me perguntava se alguém poderia realmente ficar doente de amor. Enchi as canecas até as bordas e rezei para que, pelo bem de Pauline, o próximo freguês a entrar por aquela porta fosse Mikael.
No recanto mais longínquo...
Meus olhos voltaram-se em um átimo para cima. Memórias sagradas em uma taverna? No entanto, a melodia desapareceu com tanta rapidez quanto tinha sido trazida pelo vento, e tudo que eu podia ouvir era o ruidoso murmurar das conversas. A porta da estalagem abriu-se e, agora com a mesma expectativa de Pauline, meus olhos ficaram fixos em quem passaria por ali.
Senti meus ombros caírem, junto com os de Pauline. Ela voltou sua atenção aos fregueses que estava servindo. Pela reação dela, eu soube que eram apenas mais dois estranhos, nenhum deles era Mikael, mas, quando olhei com mais atenção, fiquei alerta. Eu observei enquanto os novos fregueses punham os pés para dentro da taverna e faziam uma busca em meio ao salão cheio, seus olhos vagando pelas pessoas que lá estavam e pelos cantos. Uma pequena mesa ainda estava disponível a apenas uns poucos metros deles. Se estivessem procurando por lugares vagos para sentar, eu não entendia como poderiam ter deixado de vê-la. Fui furtivamente para as sombras da alcova para observá-los.
Os olhares contemplativos dos dois pararam abruptamente nas costas de Pauline, enquanto ela conversava com alguns cavalheiros idosos no canto.
— Oras, aquela é uma dupla interessante — disse Gwyneth, movendo-se farfalhante para o meu lado.
Eu não tinha como negar que eles haviam chamado muito a minha atenção. Algo no jeito deles...
— Pescador à esquerda — proclamou ela. — Ombros fortes. Cabelos escuros beijados pelo sol, precisando de um pente. Cortes nas mãos. Um pouco sombrio. Provavelmente não vai dar uma boa gorjeta. O loiro à direita, algum tipo de comerciante. De peles de animais, talvez. Ele anda um pouco empertigado. Os comerciantes sempre andam assim. E, olhe para as mãos dele, nunca viram uma rede de pesca ou um arado, apenas uma flecha veloz. Provavelmente dará gorjetas melhores, visto que não entra nas cidades com frequência. Essa será sua grande extravagância.
Eu teria dado risada dos resumos de Gwyneth se os recém-chegados não tivessem arrebatado a minha atenção. Eles se destacavam dos fregueses costumeiros que adentravam pelas portas da taverna de Berdi, tanto em termos de estatura quanto de comportamento. Para mim, eles não eram nem pescador, nem comerciante. Minha intuição me dizia que tinham outros negócios a tratar aqui, embora Gwyneth fosse muito mais experiente nisso do que eu.
Aquele que Gwyneth supunha ser um pescador por causa de seus cabelos escuros com mechas douradas como o sol e mãos cortadas tinha um ar mais pensativo do que os pescadores que eu vira na cidade. Ele também aparentava ter uma ousadia incomum na forma como se portava, como se estivesse confiante de cada passo que dava. Em relação às mãos dele, pequenos cortes podem ser obtidos de diversas maneiras, e não apenas com ganchos e escamas de peixes. Eu mesma havia sofrido vários em minha viagem ao esticar as mãos apressadamente por arbustos espinhentos. Era verdade que seus cabelos eram longos e não estavam bem cuidados, caindo sobre os ombros, mas ele podia ter tido uma jornada difícil e nada para prender os cabelos.
O camarada loiro tinha compleição quase idêntica à dele, talvez uns dois centímetros mais largo nos ombros, seus cabelos apenas roçando seu colarinho. Segundo minha avaliação, a expressão no rosto dele era tão sóbria quanto a de seu amigo, com um quê de taciturno que anuviava o ar em volta dele. Havia muito mais em sua mente do que apenas uma cidra fresca. Talvez fosse apenas a fadiga depois de uma longa jornada, ou poderia ser algo mais significativo. Talvez ele estivesse sem trabalho e com esperanças de que a cidade pudesse lhe prover algum... Talvez fosse esse o motivo pelo qual ambos demoraram tanto para se sentar, então? Talvez não tivessem nenhuma moeda que fosse. Minha imaginação estava ficando tão vivida quanto a de Gwyneth.
Fiquei observando o camarada de cabelos escuros dizer algo para o outro, apontando para a mesa vazia, e eles se sentaram, embora pouco mais tenha se passado entre os dois, que pareciam mais interessados em seus arredores do que um no outro.
Gwyneth me deu uma cotovelada.
— Continue encarando esses dois e seus olhos vão cair. — Ela soltou um suspiro. — Um pouco jovens demais para mim, mas para você...
Revirei os olhos.
— Por favor...
— Olhe para você. Você está acabada como um cavalo no fim da corrida. Não é crime, sabia? Notar os homens. Eles vão tomar duas cidras escuras cada. Acredite em mim. — Ela esticou a mão e pegou as cervejas substitutas que eu tinha despejado nas canecas. — Eu vou entregar essas daqui, e você cuida deles.
— Gwyneth! Espere! — Mas eu sabia que ela não esperaria.
Para falar a verdade, eu estava feliz com o empurrãozinho. Não que eles tivessem me deixado exaltada, nem um pouco. Ambos eram um pouco desmazelados e sujos demais. Eles me deixavam intrigada, só isso. Por que eu não poderia me entregar ao joguinho de Gwyneth e ver se eu servia a um pescador e um comerciante de peles? Peguei mais duas canecas da prateleira, as últimas limpas — eu realmente esperava que Enzo fizesse progresso com a louça. Abri a torneira e deixei que a cidra dourada-escura fluísse até a borda, notando a tremulação no meu estômago.
Segurei as asas das canecas com uma das mãos e dei a volta no bar, mas então avistei Pauline. O idiota que ficou com o colo molhado, aquele que tinha me agarrado, estava segurando o pulso dela com firmeza. Eu vi que minha amiga estava com um sorriso doloroso no rosto, sendo educada enquanto tentava se soltar e se afastar dele. O soldado ria, gostando de vê-la se contorcer. Meu rosto ficou quente de imediato, e quase no mesmo instante eu estava ao lado dela, encarando os olhos da cobra lasciva.
— Já lhe avisei gentilmente uma vez, senhor. Da próxima, não terá apenas o seu colo molhado. Em vez disso, meterei essas canecas na sua cabeça! Agora pare de agir como um idiota, comporte-se como um honorável membro da Guarda Real de Sua Majestade e tire sua mão dela agora mesmo.
Dessa vez não os ouvi estapeando joelhos ou dando risadas. O salão inteiro ficou em silêncio. O soldado olhava com ódio para mim, furioso por estar sendo humilhado de uma forma tão pública. Devagar, ele soltou a mão de Pauline, e ela foi correndo até a cozinha, mas meus olhos continuaram travados nele, cujas narinas estavam dilatadas. Eu imaginava se ele estava se perguntando se poderia me estrangular em um salão cheio de gente. Meu coração martelava com selvageria em meu peito, mas forcei um lento e desdenhoso sorriso a assomar-se aos meus lábios.
— Prossigam com o que estavam fazendo — falei para o restante do salão, e virei-me rapidamente para evitar ter que trocar mais uma palavra que fosse com ele.
Com apenas algumas passadas, eu me encontrava tropeçando na mesa dos recém-chegados. Fui pega de surpresa pelos olhares fixos deles, e minha respiração ficou presa em meu peito. A intensidade que eu avistara de longe era mais aparente assim tão de perto. Por um instante, fiquei paralisada.
Os olhos azuis do pescador cortavam-me, e os tempestuosos olhos castanhos do mercador eram mais do que perturbadores. Eu não sabia ao certo se eles estavam com raiva ou alarmados. Tentei driblar minha entrada desajeitada e ganhar vantagem.
— Vocês são novos aqui. Sejam bem-vindos. Devo avisá-los de que as coisas não são sempre tão animadas assim aqui na estalagem, mas não haverá nenhuma cobrança extra pela diversão de hoje. Eu espero que cidras escuras sejam do agrado de vocês. Imaginei que elas seriam adequadas.
Coloquei as cidras sobre a mesa. Os dois homens ficaram fitando-me sem falar nada.
— Posso garantir a ambos que nunca dei com uma caneca na cabeça de ninguém. Ainda.
O mercador apertou os olhos.
— Isso é reconfortante. — Ele apanhou a caneca e levou-a aos lábios, sem tirar seus olhos escuros dos meus em momento algum enquanto sorvia a bebida. Rios de calor espalharam-se pelo meu peito. Ele colocou a caneca sobre a mesa e, por fim, abriu um sorriso muito agradável de satisfação, que me deu um alívio muito necessário. — A cidra está boa — disse ele.
— Estou detectando um sotaque eislandês? Vosê zsa tevou de mito loje?
A mão dele acertou a caneca e derramou cidra pela lateral.
— Não — respondeu ele com firmeza.
Não o quê? Não, não era um sotaque, ou não, ele não havia viajado de muito longe? O rapaz parecia agitado pela pergunta, então não mencionei mais o assunto.
Voltei-me para o pescador, que ainda não havia falado nada. Ele tinha o que eu imaginava que poderia ser uma face agradável se apenas conseguisse abrir um sorriso de verdade, e não aquele largo sorriso presunçoso no rosto. Ele estava me esquadrinhando. Fiquei com os pelos arrepiados. Se desaprovava a forma como tratei o soldado, ele poderia cair fora agora. Eu não me humilharia mais. Era a vez dele de falar, pelo menos me agradecer pela cidra.
Ele se inclinou devagar para a frente.
— Como você sabia?
A voz dele me atingiu como um tapa forte nas costas, forçando o ar a sair dos meus pulmões. Encarei-o, tentando me orientar. O som reverberava nos meus ouvidos. Aquela voz me era perturbadoramente familiar, e ao mesmo tempo era também nova. Eu sabia que nunca a tinha ouvido antes. Mas tinha.
— Sabia...? — falei, sem fôlego.
— Que a cidra seria adequada para nós?
Tentei cobrir meu estado de confusão com uma resposta rápida.
— Foi ideia de Gwyneth, para falar a verdade. Uma outra garçonete daqui. É uma diversão dela. Ela é muito boa nisso, acerta na maior parte das vezes. Além de adivinhar bebidas, ela adivinha profissões. Gwyneth acha que você é um pescador, e seu amigo, um mercador.
Deparei-me com minha voz escapando de mim, uma palavra sendo cuspida em cima da outra. Mordi o lábio, forçando-me a parar. Os soldados não haviam feito de mim uma tola tagarela. Como esses dois tinham conseguido tal façanha?
— Obrigado pela cidra, senhorita...? — O mercador fez uma pausa, à espera.
— Pode me chamar de Lia — falei. — E você seria?
Depois de pensar um pouco, ele respondeu:
— Kaden.
Voltei-me para o pescador, esperando que ele se apresentasse. Em vez disso, ele simplesmente fez meu nome rolar em sua língua, como se fosse um pedaço de milho preso entre seus dentes.
— Lia. Hum. — Ele esfregou lentamente a barba de uma semana por fazer em sua bochecha.
— Kaden e...? — falei, sorrindo entredentes. Eu seria educada, mesmo que isso me matasse por dentro. Não podia me dar ao luxo de fazer mais cenas com os fregueses nessa noite, não com Berdi me observando de perto.
O olhar frio e contemplativo dele se ergueu à altura do meu, e o queixo dele estava um pouco inclinado, de lado, como em desafio. Pequenas linhas espalharam-se no canto de seus olhos enquanto ele sorria.
— Rafe — ele respondeu.
Tentei ignorar o carvão quente ardendo nas minhas entranhas. O rosto dele poderia não estar bondoso quando sorriu, mas era impressionante. Senti minhas têmporas ficarem ruborizadas e quentes, e rezei para que ele não pudesse ver isso na luz difusa. Não era um nome comum por essas bandas, mas eu gostava de sua simplicidade.
— O que posso trazer para vocês nesta noite, Kaden e Rafe? — Abanei no ar o cardápio de Berdi, mas, em vez de pedirem algo, ambos me perguntaram sobre a menina pela qual eu havia feito a intervenção.
— Ela parece jovem demais para estar trabalhando aqui — observou Kaden.
— Ela tem dezessete anos, a mesma idade que eu, mas com certeza é mais inocente, de certa forma.
— Ah, é? — respondeu Rafe, uma resposta curta e cheia de insinuações.
— Pauline tem um coração mais terno — respondi. — Ao passo que aprendi a endurecer o meu contra questionamentos rudes.
Ele abriu um largo sorriso.
— Sim, dá para ver.
Apesar de estar me incomodando, achei o sorriso dele afável e esqueci a resposta que estivera na ponta da minha língua. Voltei minha atenção para Kaden e fiquei aliviada ao ver que ele fitava sua caneca em vez de me encarar, como se estivesse em meio a pensamentos profundos.
— Eu recomendo o cozido — ofereci em sugestão a eles. — Parece ser um dos pratos prediletos daqui.
Kaden ergueu o olhar e abriu um sorriso cálido.
— Então, um cozido para mim, Lia.
— E eu vou ficar com a carne de cervo — disse Rafe. Não me surpreendi. Eu procuraria pelo corte de carne mais duro para ele. Mastigar poderia arrancar aquele largo e presunçoso sorriso de seu rosto.
De súbito, Gwyneth estava muito perto de mim.
— Berdi gostaria de sua ajuda na cozinha. Agora. Pode deixar que eu cuido destes cavalheiros.
É claro que nós duas sabíamos que a última coisa de que Berdi precisava era da minha ajuda para cozinhar ou cortar algo na cozinha, mas assenti e deixei Rafe e Kaden aos cuidados de Gwyneth.
Fui banida do restante da taverna pelo resto da noite depois de um sermão em voz baixa, porém enfurecido, de Berdi em relação aos perigos de não cair nas graças das autoridades. Argumentei com valentia em relação à justiça e à decência, mas ela argumentou com a mesma força sobre coisas práticas como a sobrevivência. Ela falava dançando cautelosamente em torno da palavra princesa, porque Enzo podia nos ouvir, mas o que ela queria dizer estava claro: aqui meu título não significava nada, e seria melhor que eu aprendesse a abafar a minha soberba e fogosa língua.
Pelo resto da noite, Berdi serviu as refeições, entrando na cozinha para me dar ordens ou temperar uma nova caldeirada de cozido, mas, na maioria das vezes, para certificar-se de que os soldados tivessem segundas porções... tudo por conta da casa. Eu odiava a concessão que ela havia feito, e cortava cebolas com ferocidade.
Assim que a terceira cebola fora reduzida a purê e toda minha raiva — ou a maior parte dela — havia passado, meus pensamentos voltaram-se para Rafe e Kaden. Eu nunca saberia se algum deles era pescador ou mercador de peles. A essa altura, provavelmente eles estavam bem longe na estrada, e eu nunca os veria de novo. Pensei em Gwyneth e na forma como ela flertava com seus fregueses, manipulando-os para que fizessem sua vontade. Será que ela havia feito o mesmo com eles?
Peguei um tubérculo nodoso e alaranjado de uma cesta e soquei-o na tábua de cortar carne. Em menos tempo do que as cebolas, ele também virou purê, exceto pelos pedaços que voaram para o chão.

15 comentários:

  1. Façam suas apostas!!!
    Quem é o príncipe? E quem é o assacino?
    (Desculpem não resisti 😂😂😂)

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  2. Esse capítulo é bem mais engraçado que se está relendo kkkk

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  3. Obviamente o suposto mercador é o príncipe e o assassino é o pescador com cortes nas mãos.

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    1. Talvez possa ser ao contrário para não ser tão óbvio assim espero

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    2. eu acho que não, o príncipe já disse que tinha todo trabalho hostil desde que completou 12 anos (eu acho) e ele parece mais rude, já o assassino disse que matava rapidamente e completava os trabalhos de forma "limpa" ou seja, menos chances dele ter cortes pesados nas mãos. não sei, tô apostando que o mercador é o assassino e o pescador é o príncipe

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  4. Não sei mais acho que eles estão pensando que Pauline é à princesa.

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    1. Leandra Ketlyn Ferreira Lima25 de março de 2018 06:00

      A questão é que Pauline tem o cabelo claro e a princesa tem o cabelo ondulado escuro...

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  5. Acho q Kaden é o príncipe e Rafe é o assassino!
    Karina amo seu blog!

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  6. Eu achava que o pescador era o assassino e o comerciante o príncipe, agora acho que é contrário. Acredito que Rafe seja o príncipe por causa do jeito que ele falou, sei lá, ela reconheceu a voz dele, talvez já tenha ouvido o príncipe falar quando ainda estava no palácio... Não, sei... Achei que eles reconheceram ela como a princesa pelo jeito que ela falou, com uma imponência inerente à realeza, não é algo que que se abandone facilmente.

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  7. N sei de nada so sei q eu quero eles p mim.. Kkkkkkk aposto q vai ficar o livro inteiro tentando adivinhar quem é quem
    .. lembrando q o príncipe subia de posição no exército na sofrencia... Ele pode ser muito bem o Rafe... Da mesma forma q o kaden pode ser o assassino q não tem cicatrizes nas mãos ele é agil e pode muito bem nunca ter cortado elas profundente... Vamos sair dos clichês pq esse livro n e tão clichê como parece né...

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  8. Axo q o pescador com as mãos cortadas é o assassino, e o comerciante é o principe.
    Um loiro e um moreno, mais alguem lembrou de Aspen e Maxon??

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  9. Eu to relendo e rindo muito

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  10. Tô relendo esse capítulo e tô me divertindo com as "apostas" de quem é quem

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!