6 de fevereiro de 2018

Capítulo 9. Separados não somos ninguém

O telefone da sala da Polícia Federal tocou mais uma vez.
— É para o senhor, detetive Andrade — chamou um policial, estendendo-lhe o fone.
Era do Ministério das Relações Exteriores. O governo americano estava enviando dois agentes do FBI para acompanhar as investigações.
— Inferno! — praguejou Andrade, desligando o telefone. — Lá vêm esses gringos se meter com a gente! Eu já não tenho problemas de sobra?
— Isso é normal, detetive Andrade — tentou explicar o doutor Hector Morales. — O doutor Bartholomew Flanagan, um cidadão americano, está envolvido no problema. É normal que nosso governo esteja preocupado. Mas o senhor pode estar certo que os agentes do FBI só vão acompanhar suas investigações. Tenho certeza que só vão ajudar. O doutor Bartholomew Flanagan é uma personalidade muito importante. Espero que o senhor descubra logo para onde o levaram. Espero que o senhor e os seus policiais possam salvar sua vida. É uma vida importante para toda a humanidade, detetive Andrade.
— E a vida da minha professora? — interrompeu Magrí.
O doutor Morales aproximou-se da menina e, paternalmente, acariciou seu rosto com uma mão quente e delicada.
— Oh, menina, sua professora vai ficar boa! A Drug Enforcement sente-se responsável por tudo o que aconteceu. Já dei ordens para que uma equipe médica da melhor qualidade assuma o tratamento de dona Iolanda. Pode deixar. Todas as despesas correrão por conta da Drug Enforcement. Sua professora está em boas mãos...
O diretor da Drug Enforcement era um homem calmo, seguro, carinhoso. Não se parecia nada com a imagem fria e impessoal que todo mundo faz dos grandes executivos. Suas palavras confortavam o coração de Magrí. A menina aceitou a carícia no rosto, como se o americano fosse um tio.
O detetive Andrade aproximou-se dos três.
— Ah, meninos! Estou aqui falando e envolvendo vocês ainda mais nesse tumulto. Vocês não têm nada com isso. Devem estar exaustos. Ainda mais você, Magrí, depois de uma viagem tão longa e de tanta confusão. Vou chamar uma viatura para levá-los para casa, em segurança. O melhor que têm a fazer é tomar um banho e esquecer tudo isso. Podem deixar os problemas comigo.
Enquanto esperavam pela viatura, Magrí, com um olhar, chamou Chumbinho para perto da janela da sala da Polícia Federal. Debruçados no parapeito, falando muito baixo, os dois Karas podiam conversar.
— O Doutor Q.I., Chumbinho! Fomos nós que acabamos com o plano sinistro dele, no caso dos sequestros de estudantes. Estava na cadeia por nossa causa. Agora, no mínimo, ele vai querer nossas cabeças numa bandeja! Precisamos de uma reunião de emergência máxima dos Karas, imediatamente!
Chumbinho falou entre dentes, com raiva e decepção na voz:
— Os Karas não existem mais, Magrí...
— O quê?! O que você está dizendo, Chumbinho?
Com os olhos vermelhos, contendo-se para não chorar, Chumbinho relatou todos os detalhes da reunião maluca dos Karas. Repassou cada uma das palavras duras trocadas entre Miguel, Calú e Crânio.
— Foi horrível, Magrí. Eles estavam diferentes, estranhos, furiosos. Ah, como eu queria que você estivesse lá naquela hora! Mas só resolvi enviar o telegrama quando descobri a fuga do Doutor Q.I. Logo depois da maldita reunião, Andrade apareceu lá no Elite, disfarçando, perguntando se estava tudo bem...
Ao longe, além da vidraça fechada da sala, um Boeing levantava voo como uma garça, sob um sol de maçarico.
Olhando fixamente para a pista do aeroporto, Chumbinho falava e Magrí ouvia, sem interromper. Mas, por sua cabeça, um turbilhão de suspeitas crescia.
— Não sei, Magrí. Não sei o que deu naqueles três para se pegarem numa discussão besta. Nem posso imaginar por que os três resolveram acabar com o grupo dos Karas. Tem alguma coisa estranha, Magrí. Uma coisa que eu tenho de descobrir!
O coração de Magrí apertava-se dentro do peito. Ela conhecia aqueles três muito bem. Dissolver o grupo dos Karas? Nenhum deles jamais sonharia com uma coisa dessas. Então, o que teria havido? Será que...? E uma suspeita doída ocorreu à menina. Seria ela a causa daquilo tudo? Seria ela a culpada do fim daquele grupo maravilhoso?
Chumbinho continuava:
— Eu tentei falar com eles mais uma vez, ainda agorinha, num orelhão, enquanto esperávamos a ambulância, lá no aeroporto. Calú estava de saída para um ensaio idiota. Na voz, parecia preocupado, mas disse que não tem nada a ver com cientistas sequestrados... Não consegui falar com Miguel. Lá na casa dele disseram que ele foi a um treinamento para monitores de um tal acampamento de férias. Coisa de criancinhas!
— E Crânio?
— Não quis nem conversa. Na hora, perguntou ansiosamente por você. Quando soube que estava tudo em ordem, disse que tinha muito que estudar. Nem a fuga do Doutor Q.I. abalou aquele teimoso. Disse que o Doutor Q.I. na certa já fugiu do Brasil, que eu não me preocupasse. E desligou o telefone também.
“O que está acontecendo?”, perguntava a menina para si mesma. “Isso não é coisa deles! Nem Miguel, nem Calú, nem Crânio jamais recuariam frente a um desafio como esse. Foi por minha causa que tudo isso aconteceu? Ah, não pode ter sido, não pode!”
Juntos, olhavam o aeroporto sob o sol. Sozinhos, sentiam-se desamparados.
— Eu tenho de saber quem baleou dona Iolanda, Chumbinho! Ela está em coma, no hospital. E se ela morrer?
Chumbinho baixou ainda mais o tom de voz:
— Magrí, a saúde de dona Iolanda não depende mais de nós. Só podemos torcer. Mas o Doutor Q.I. é nosso problema. Você sabe que ele não descansará, enquanto não se vingar dos Karas. Um por um!
— Eu sei, Chumbinho, eu sei. Mas como vamos nos defender, separados? Juntos, já fizemos muita coisa, mas separados não somos ninguém! Como convencer Miguel, Calú e Crânio disso?
Apesar da gravidade da situação, Chumbinho estava com aquela expressão gaiata que marcava o caçula dos Karas. Olhou para a amiga com um meio sorriso:
— Eu tenho uma ideia, Magrí...

* * *

O telefone da sala da Polícia Federal, no Aeroporto de Cumbica, não parava de tocar. Policiais ligavam de todas as partes da cidade, comunicando o que não estavam conseguindo, na execução das instruções do detetive Andrade.
— Não há nem pista dos sequestradores — declarou Andrade, furioso, ao desligar mais um dos inúmeros telefonemas. — Até agora não encontraram ninguém que tivesse visto os carros em que os bandidos devem ter fugido. Parece que desapareceram no ar, levando o cientista! São profissionais, dos melhores! Quer dizer... dos piores!
O telefone tocou outra vez, e o próprio detetive atendeu.
— É para o senhor, doutor Morales. É da Drug Enforcement...
O americano pegou o telefone e falou em inglês:
— Hello... What? For God’s sake!... We should have expected something like that... My God! One billion!... Okay, we’ll meet later. Don’t do anything `till I get there. All right! (Alô... O quê? Por Deus!... Deveríamos ter esperado por algo assim... Meu Deus! Um bilhão!... OK, nos encontraremos mais tarde. Não faça nada até eu chegar aí. Certo!)
Quando o doutor Morales desligou, seu rosto estava da cor de uma folha de papel. Magrí e Chumbinho, que falavam inglês perfeitamente, já tinham uma boa ideia do significado do telefonema, mas Andrade não tinha entendido nada:
— O que foi, doutor Morales?
O americano passou a mão pelo rosto e suspirou:
— Era da Drug Enforcement, detetive. Eles receberam um telefonema dos sequestradores.
— E então?
— Os malditos querem um bilhão de dólares para devolver o doutor Flanagan e a Droga do Amor!

* * *

As roupas ensanguentadas daqueles dois adolescentes chamavam a atenção de todos.
Escoltados por dois policiais, Chumbinho e Magrí atravessavam rapidamente o saguão do aeroporto, em direção à viatura que os levaria para casa.
Encostados a uma coluna, dois homens muito parecidos conversavam discretamente.
Quando a viatura policial fez o contorno para entrar na Rodovia dos Trabalhadores, um carro escuro seguia-os, a distância.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!