14 de fevereiro de 2018

Capítulo 9. Quanto tempo Magrí ainda tem de vida?

— Porcaria de CIA! — reclamava Andrade para seus subordinados, com o humor em seus piores momentos. — Esses sujeitos só entendem de espionagem. De polícia somos nós que entendemos! Ai, se eu pudesse entrar no colégio, para pelo menos falar com Magrí! Ela é esperta como ninguém. Na certa deve ter visto coisas que esses macacos da CIA não notariam nem com um telescópio!
Um policial veio com a informação de que os agentes estrangeiros tinham chamado uma ambulância para que as três garotas que estavam no vestiário no momento do sequestro fossem levadas a um hospital.
— Hospital?! — berrou Andrade. — As meninas estão machucadas? Fizeram alguma coisa com Magrí?
— Não... parece que elas estão bem. Dizem que foi ordem dos diretores do Elite, porque elas estavam muito nervosas. Um médico da CIA aplicou-lhes um calmante e recomendou repouso até amanhã de manhã.
Andrade respirou, um pouco mais aliviado:
— Ai, que alívio! Os bandidos não fizeram nada com Magrí! Ainda bem!
À frente de Peggy, Chumbinho avançava pelos telhados do Colégio Elite. A noite era de lua nova, escura demais. Mas a iluminação vinda dos pátios da escola obrigava-os a rastejar com cautela, para que nenhum dos gringos de terno preto viesse a surpreender aqueles dois estranhos gatos em sua fuga noturna.
Passando suavemente por cima de uma cumeeira, Chumbinho deu um encontrão em uma caixa. Era uma caixa preta, de uns três palmos de altura.
“Parece um alto-falante... Deve ter sido posto aí para as festas juninas. Essa nova comissão de festas do grêmio inventa cada uma... Que lugar estranho para um alto-falante! Por que não puseram isso mais perto do beiral do telhado?”
Peggy seguia o menino com a suavidade de uma campeã de ginástica olímpica. E com a determinação de um verdadeiro Kara.
“E agora? Tenho de escrever um bilhete para o presidente americano, como se eu fosse a Peggy. Vou tentar tudo. Eu tenho de tentar tudo!”
Magrí começou a teclar, procurando redigir num inglês bem coloquial:
“I’m all right, daddy. Estou bem, papai. Eles não estão me ameaçando. Apenas faça tudo o que eles pedirem e eles vão me soltar”.
Nua, tremendo de frio, Magrí sentia o coração disparado dentro do peito.
“Preciso aproveitar esta mensagem! É minha única chance. A única chance de me salvar. Tenho de dar um jeito de mandar uma mensagem disfarçada para os Karas... Eles precisam saber onde eu estou. Mas, onde eu estou? Ah, se Crânio estivesse aqui, seria capaz de deduzir onde fica esse inferno iluminado de vermelho!”
Lutando contra o pavor que teimava em dominá-la, a coragem do incrível Kara que era aquela menina acabou vencendo. Cerrou os olhos, relaxou os braços, os dedos, e expirou devagar, profundamente, quase soprando, até sentir todo o ar sair dos pulmões. Aos poucos, seu coração foi batendo mais compassadamente e... pronto! Lá estava Magrí novamente, dona de si e de sua fantástica capacidade de raciocínio:
“Deixe ver... Depois de despertar do narcótico, eu ainda estava tonta mas ouvi o helicóptero indo embora... lembro de estar sendo erguida... daí puxada por alguma passagem estreita... Eles me ergueram. Para onde? Onde estou? Tudo o que sei é que essa barraca está montada no alto de algum lugar. Pode ser um compartimento escondido em cima de um barracão, ou de uma casa... Mas, onde fica essa casa?”
Seu raciocínio perdia-se em círculos em torno de coisa nenhuma:
“Devo ter perdido os sentidos mesmo... Nem sei dizer por quanto tempo me carregaram até que eu estivesse sendo erguida e colocada aqui, dentro dessa barraca... Ai, posso estar em qualquer lugar desse mundo! Como é que eu vou dar alguma pista para os Karas? Não sei onde estou, não sei onde estou!”
Uma voz sussurrada mas agressiva veio de fora, exigente:
— Hurry up, you damn girl! Anda logo, raio de menina! A gente não tem a noite toda!
Magrí lutava por uma ideia salvadora. Desesperada, baixou os olhos para a pequena abertura da barraca que o bandido deixara de fechar com o zíper. Pela fresta, pôde ter uma estreita visão do chão à frente. Era de concreto e, junto da lona, lá estava a caixa de isopor, emborcada, com um líquido pastoso, amarelado, verde e marrom, escorrendo. Na tampa, caída ao lado, dava para ler:
Pistacchio, crema e cioccolato Gelato crocante Italiano.
Na semi-obscuridade da barraca seus olhos arregalaram-se compreendendo:
“Espera aí! Eu estava sendo erguida, colocada numa barraca dentro de algum cômodo... o som do helicóptero afastando-se... Ei, na hora do sequestro um deles estava mandando o outro não esquecer de abrir a porta do vestiário, como se eles não tivessem entrado por ela e como se existisse a possibilidade de sair se abrir a porta! Então... eu não saí! Ah, ah! Entendi tudo! Eu não perdi os sentidos completamente! Tudo se passou num minuto! Ai, já sei onde estou!”
O coração da única menina do grupo dos Karas pulou dentro do peito:
“O plano desses bandidos é genial! Esses canalhas fizeram tudo direitinho
 para enganar a polícia! Mas eu descobri, eu descobri! Ah, eu descobri!”
Sua mão tremia, teclando no computador.
“Não tenho tempo, não tenho tempo! Preciso inventar um código, um código perfeito, um código que só os Karas possam decifrar!” Escreveu:
I fell like I was in Onapo.
“Ai, usando o código Tênis-polar fica estranho... Fica Onapo. Ridículo! Os bandidos vão desconfiar na mesma. Tem de ser um código infalível... Ai, Crânio, ai, Miguel, me ajudem!”
Quando o som dos nomes dos seus queridos companheiros ressoou-lhe dentro do cérebro, a solução do problema veio junto. “É isso! Ai, será que os Karas vão entender?” Aproveitou o computador para calcular a transposição de letras. “Tem dois T... Bom, é só mudar o segundo para y...”
E teclou os nomes dos dois amigos, um em cada linha, com as letras uma acima da outra: Deu ‘Yorty’. Acho que vai dar... Tem de dar certo!” E completou a mensagem:
“I’m all right, daddy. They aren’t threatening me. Just do whatever they want and they’ll let me go. I’m really all right, don’t worry about me. I fell like I was in New Yorty, as I used to say when I was a little girl. Hurry up, daddy. Save me. Peggy.”
“Eu estou bem, papai. Eles não estão me ameaçando. Apenas faça tudo o que eles pedirem e eles vão me soltar. Estou realmente muito bem, não se preocupe comigo. Sinto-me como se estivesse em Nova Yorty, como eu falava quando era pequena. Rápido, papai. Salve-me. Peggy”.
De fora, a voz continuava apressando Magrí:
— Como é? Vai terminar ou eu vou ter de ajudar?
A menina não podia provocar os bandidos. Se eles entrassem na barraca ou a arrancassem de lá, veriam que tinham sequestrado a garota errada. E sua morte viria mais cedo.
Impaciente, o homem aproximava-se novamente da barraca...
“Bom, eu disfarcei a pista como se fosse alguma coisa que só Peggy e o pai dela conhecessem. Mas agora eu preciso de algum detalhe pessoal de verdade... Alguma coisa que faça o presidente acreditar mesmo que foi sua filha que escreveu essa mensagem, mas o quê? Não conheço Peggy tão bem a ponto de... ah, já sei!”
O homem levantava o pano da entrada com um arranco, quando Magrí digitou, logo após a assinatura:
... your little kangaroo.”
Quando a garra peluda entrou pela abertura do zíper, Magrí esticava-lhe o pequeno computador.
— All right, captain. It’s done — anunciou o bandido. Puxando de novo os braços de Magrí para fora, voltou a amarrá-los com uma corda nova. — Tudo certo, capitão. Está feito.
O murmúrio repetiu-se.
O zíper foi fechado e Magrí respirou.
“Pronto. Agora só dependo da sorte... Ai, tomara que os Karas descubram o que eu tentei dizer! Me ajudem, Karas!’’ Ouviu de novo a voz do chefe, murmurando muito baixo. Um dos bandidos respondia:
— Yes, captain? Sim, estamos com o celular.
Murmúrios.
— A gente espera, captain. À meia-noite em ponto? All right.
“Meia-noite! Que horas serão agora? Quanto tempo eu ainda tenho de vida?”
Depois de tanto tempo contidas, as lágrimas explodiram dos olhos de Magrí.

* * *

Chumbinho e Peggy tinham chegado a uma extensão do telhado que recebia transversalmente uma luz vinda do pátio de recreio dos alunos menores. Grupos de policiais de terno preto não paravam de passar por ali falando excitadamente em inglês. Com um gesto, o garoto avisou Peggy que era preciso esperar.
Rastejando com leveza, ultrapassaram uma cumeeira e abaixaram-se no encontro de dois telhados de diferentes prédios do Elite. Ali, mais protegidos da luz forte, era preciso aguardar um momento em que não houvesse ninguém no pátio abaixo deles para continuar a fuga. “Coitada dessa garota!”, pensava Chumbinho. “A coisa agora tornou-se crítica. Ela deve estar apavorada. Tenho de dar um jeito de acalmá-la...” Segurou a mão de Peggy e olhou em seus olhos, procurando fazer a expressão mais calma e tranquilizadora de que era capaz.
Mas o que a menina transmitia-lhe de volta não era pavor, era valentia. Erguidos para Chumbinho, seus olhos brilhavam sob a fraca iluminação, como se fossem duas luzinhas iluminando um porto seguro para náufragos. Chumbinho sentou-se ao lado de Peggy, grudado nela, e abraçou-a. A garota encostou o rosto em seu peito, fazendo com que a boca e o nariz do menino mergulhassem em seus cabelos. Chumbinho batia-lhe com a mão ritmadamente nas costas, como se nina um bebê, procurando transmitir-lhe uma calma de que ela não parecia precisar. O dedo cortado latejava um pouco, mas o rapazinho nem parecia sentir.
A noite estava gelada. Só com a camiseta do Elite e de cuecas, abraçar o corpo da garota era uma troca bem-vinda de calor, mas foi um outro tipo de fogo que subiu pelas artérias de Chumbinho, incendiando-lhe as orelhas. O risco era enorme, o frio intenso, a situação maluca. Se alguém do esquema de segurança da garota o encontrasse tentando escondê-la, atiraria nele antes de fazer qualquer pergunta. Se seu plano tivesse alguma falha, sua querida Magrí seria assassinada. Se os bandidos descobrissem Peggy ali, encolhida no telhado, o mundo estaria perdido.
Mas, no meio dessa loucura, Chumbinho não pensava nas ameaças do futuro. Depois de ter contemplado a beleza nua daquele corpinho, depois de tê-lo carregado nos ombros, depois de todos os lances que os tinham trazido até aquela situação e, agora, de roupas de baixo, abraçado ao corpo da filha do presidente americano, sentindo o perfume de seus cabelos, a beleza morena de Natália esvanecia-se do coração do garoto como um torrão de açúcar se dissolve na água...

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