24 de fevereiro de 2018

Capítulo 8

Sam estava chegando naquele dia, e ficaria até segunda-feira. Ele havia reservado um quarto de hotel para nós a alguns quarteirões da Times Square.
Levando em conta o que Agnes dissera sobre como não deveríamos ficar separados, perguntei se ela poderia me dar parte da tarde de folga. Ela respondera talvez com um tom de voz que me parecera positivo, embora eu tivesse a nítida sensação de que a vinda de Sam era um incômodo para ela.
Ainda assim, caminhei até a Penn Station, os passos saltitantes, com uma mala de fim de semana às costas, e peguei o Air Train até o aeroporto. Quando cheguei lá, um pouco adiantada, estava vibrando de empolgação.
O painel de chegadas dizia que o avião de Sam tinha pousado e que ele aguardava as bagagens, então corri até o banheiro para conferir o cabelo e a maquiagem. Suando um pouco por causa da caminhada e do trem lotado, retoquei rímel e batom, e passei uma escova nos cabelos. Eu vestia pantalonas de seda azul-turquesa com uma blusa preta de gola alta e botas de cano curto pretas. Queria parecer eu mesma, mas também queria dar a impressão de que tinha mudado de uma maneira indefinível, talvez me tornado um pouco mais misteriosa. Desviei de uma mulher de aparência exausta que levava uma mala de rodinhas imensa, passei um pouco de perfume e então finalmente me considerei o tipo de mulher que recebe o namorado em aeroportos internacionais.
Mesmo assim, quando saí do banheiro, o coração a mil, e espiei o painel, me senti estranhamente nervosa. Estávamos separados havia apenas quatro semanas. Aquele homem havia me visto no fundo do poço, arruinada, em pânico, triste, contrariada, e ainda assim parecia gostar de mim. Ele ainda era Sam, disse a mim mesma. Meu Sam. Nada havia mudado desde a primeira vez que ele tocara minha campainha e me chamara desajeitadamente, pelo interfone, para sair.
O painel ainda dizia: AGUARDANDO BAGAGENS.
Situei-me diante da barreira, ajeitei meu cabelo mais uma vez e fixei os olhos nas portas duplas, sorrindo involuntariamente com os gritos de alegria sempre que casais havia muito separados se encontravam. Pensei: seremos nós daqui a pouco. Respirei fundo, percebendo que as palmas das minhas mãos tinham começado a suar. Uma fila de pessoas começou a sair, e meu rosto não parava de voltar ao que eu suspeitava ser um sorriso ligeiramente louco de empolgação, as sobrancelhas erguidas, maravilhada, como um político que finge avistar alguém na multidão.
Então, enquanto eu vasculhava minha bolsa em busca de um lenço, avistei algo e ergui a cabeça rapidamente. Ali, a alguns metros, no meio do grupo de pessoas reunidas, estava Sam, uma cabeça acima de todos ao redor, varrendo a multidão com os olhos, exatamente como eu. Murmurei “Com licença” para a pessoa à minha direita, passei por baixo da fita e corri na direção dele. Sam se virou bem no instante em que o alcancei e sua mala bateu com força na minha canela.
— Ai, droga. Você está bem? Lou?… Lou?
Segurei minha perna, tentando não soltar um palavrão. Tinha lágrimas nos olhos e quando falei foi com um gemido de dor.
— O painel informou que as bagagens ainda não tinham chegado! — disse, os dentes cerrados. — Não acredito que perdi nosso grande reencontro! Eu estava no banheiro!
— Só trouxe bagagem de mão.
Ele levou a mão ao meu ombro.
— Sua perna está bem?
— Mas eu tinha planejado tudo! Fiz até um cartaz!
Peguei o papel na minha jaqueta e me endireitei, tentando ignorar a dor na minha canela. “PARAMÉDICO MAIS GATO DO MUNDO”.
— Este era para ser um dos momentos decisivos da nossa relação! Um daqueles momentos sobre os quais a gente pensa e diz: “Aah, lembra quando a gente se encontrou no aeroporto de Nova York?”
— Ainda é um ótimo momento — disse ele esperançosamente. — É bom ver você.
— Bom me ver?
— Ótimo. É ótimo ver você. Desculpe. Estou exausto. Não dormi.
Esfreguei minha canela. Nós nos encaramos por um instante.
— Não deu certo — falei. — Você tem que ir de novo.
— Ir de novo?
— Até a saída. Aí fazemos como eu planejei, ou seja, eu seguro meu cartaz, então corro na sua direção, a gente se beija e começa tudo do jeito certo.
Ele me olhou fixamente.
— É sério?
— Vai valer a pena. Vamos lá. Por favor.
Ele levou um instante até ter certeza de que eu não estava brincando, então pôs-se a andar contra a maré de pessoas que chegavam. Várias delas se viraram para olhá-lo, e alguém estalou a língua, repreendendo.
— Pode parar! — gritei no saguão barulhento. — Aí está bom!
Mas ele não me ouviu. Continuou andando até as portas duplas — tive um temor de que ele simplesmente voltasse para dentro do avião.
— Sam! — gritei. — PARE!
Todas as pessoas se viraram. Então ele deu meia-volta e me viu. Quando começou a vir na minha direção outra vez, passei por baixo da fita.
— Aqui! Sam! Sou eu!
Balancei meu cartaz e, enquanto caminhava para me encontrar, ele sorriu com o ridículo da coisa toda.
Larguei o cartaz e corri até ele, e, desta vez, Sam não bateu na minha canela, mas largou a mala no chão e me pegou no colo, então nos beijamos como atores de cinema, plenamente e com uma alegria absoluta, sem qualquer constrangimento ou medo a respeito do bafo de café. Ou talvez sim. Eu não saberia dizer, porque, no instante em que Sam me tirou do chão, deixei de notar todo o resto, as malas e as pessoas e os olhos da multidão. Ah, meu Deus, a sensação dos braços dele ao meu redor, a maciez daqueles lábios. Eu não queria largá-lo. Continuei abraçando Sam e sentindo sua força me envolver, sorvi o cheiro de sua pele, enfiei meu rosto no seu pescoço, nossa pele se tocando, a percepção de que cada célula do meu corpo tinha sentido falta dele.
— Melhor assim, sua insana? — disse ele quando finalmente se afastou para poder me ver direito.
Acho que meu batom cobria metade do meu rosto. Tinha quase certeza de que a barba dele me arranhara. Minhas costelas doíam onde ele me abraçava com força.
— Ah, sim — falei, sem conseguir parar de sorrir. — Muito melhor.

* * *

Decidimos deixar as malas no hotel primeiro, eu tentando não tagarelar por causa da empolgação. Falava coisas sem sentido — um fluxo de pensamentos e observações desconexas que saía da minha boca sem seleção prévia. Ele me olhava como alguém olharia para um cachorro que começasse a dançar do nada: achando levemente engraçado e reprimindo uma leve preocupação. Mas quando as portas do elevador se fecharam atrás de nós, Sam me puxou para si, segurou meu rosto entre as mãos e me beijou de novo.
— Isso foi para me fazer parar de falar? — perguntei quando ele me soltou.
— Não. Foi porque estou com vontade de fazer isso há quatro longas semanas, e planejo fazer o máximo de vezes possível até voltar para casa.
— Boa cantada.
— Pensei nela quase o voo inteiro.
Eu o observei enquanto ele colocava o cartão-chave na porta e, pela milésima vez, fiquei maravilhada com a minha sorte, por tê-lo encontrado quando achava que nunca mais poderia amar outra vez. Eu me sentia impulsiva, romântica, uma personagem em um filme de sessão da tarde.
— E… aqui estamos.
Paramos na soleira da porta. O quarto do hotel era menor do que o meu quarto na casa dos Gopnik, o carpete era marrom xadrez e a cama, em vez da vasta extensão de linho branco de qualidade que eu imaginara, era uma cama de casal afundada com um edredom xadrez cor de laranja e vinho. Tentei não pensar na última vez que fora lavado. Quando Sam fechou a porta atrás de nós, larguei minha mala e dei a volta na cama até conseguir espiar pela porta do banheiro. Havia um chuveiro sem banheira, e quando você acendia a luz, o exaustor gemia feito uma criança na fila do supermercado. O quarto tinha cheiro de nicotina velha misturada com aromatizador de ambiente.
— Você odiou.
Seus olhos examinaram meu rosto.
— Não! É perfeito!
— Não é perfeito. Desculpe. Fiz a reserva pelo site logo depois de terminar um plantão. Quer que eu vá lá embaixo e pergunte se eles têm outros quartos?
— Ouvi a moça dizer que estão lotados. De qualquer forma, isso está ótimo! Tem uma cama, um chuveiro e fica no centro de Nova York, e tem você dentro. Isso quer dizer que tudo está maravilhoso!
— Ah, droga. Eu deveria ter perguntado a você antes.
Eu nunca soube mentir muito bem. Ele pegou minha mão e eu apertei a dele.
— Está ótimo. De verdade.
Ficamos parados, olhando para a cama. Cobri a boca com a mão, até perceber que não iria conseguir não dizer o que estava tentando não dizer.
— Mas acho bom a gente verificar se não tem percevejos na cama.
— Sério?
— Eles estão por toda parte, segundo Ilaria.
Os ombros de Sam murcharam.
— Até os hotéis mais chiques têm.
Dei um passo à frente e puxei a coberta de uma vez, examinando o lençol branco antes de me abaixar para ver as bordas do colchão. Cheguei mais perto.
— Nada! — disse. — Isso é bom! Estamos em um hotel sem percevejos!
Ergui meu polegar.
— Oba!
Houve um longo silêncio.
— Vamos dar uma volta — sugeriu ele.
Saímos para dar uma volta. Pelo menos a localização era ótima. Passeamos por meia dúzia de quarteirões, descendo a Sexta Avenida, subindo a Quinta, ziguezagueando e seguindo nossos impulsos, eu tentando não falar sem parar sobre mim mesma ou Nova York, o que foi mais difícil do que eu havia imaginado, já que Sam quase não falava. Segurou minha mão e eu me apoiei no ombro dele, tentando não olhá-lo demais. Havia algo de inesperadamente estranho em tê-lo ali. Percebi que eu me concentrava nos pequenos detalhes, um arranhão em sua mão, uma pequena mudança no comprimento do cabelo, tentando recuperá-lo na minha memória.
— Você não está mais mancando — comentei quando paramos para olhar a vitrine do Museu de Arte Moderna.
Estava nervosa por ele estar tão calado, como se o hotel horrível tivesse estragado tudo.
— Você também não.
— Tenho corrido! — falei. — Já contei isso. Dou uma voltinha no Central Park todo dia de manhã com Agnes e George, o treinador dela. Olhe aqui… sinta minhas pernas!
Sam apertou a parte de cima da minha coxa quando a aproximei dele e fez uma expressão adequadamente impressionada.
— Pode soltar agora — pedi quando as pessoas começaram a olhar.
— Desculpe — disse ele. — Faz tempo.
Eu havia me esquecido de como ele preferia ouvir a falar. Demorou um tempo até ele dizer algo sobre si. Finalmente tinha uma parceira no trabalho. Depois de dois alarmes falsos — um rapaz que decidira que não queria ser paramédico e Tim, um representante sindical que aparentemente odiava a humanidade como um todo (uma atitude não exatamente ideal para o trabalho) —, haviam encontrado uma mulher lotada em North Kensington que se mudara recentemente e queria trabalhar mais perto de casa.
— Como ela é?
— Não é Donna, mas é ok. Pelo menos parece saber o que está fazendo.
Ele se encontrara com Donna para tomar um café na semana anterior. O pai dela não estava reagindo à quimioterapia, mas ela havia disfarçado a tristeza com sarcasmo e piadas, como sempre fazia.
— Eu quis dizer a ela que não precisava fazer aquilo — falou Sam. — Ela sabe tudo que passei com a minha irmã. Mas — ele me olhou de esguelha — cada um lida com essas coisas à própria maneira.
Sam também contou que Jake ia bem na faculdade. Tinha mandado um abraço. O pai dele, cunhado de Sam, havia largado a terapia para viúvos, dizendo que não estava funcionando para ele, embora tivesse dado fim ao sexo compulsivo com mulheres desconhecidas.
— Ele agora está comendo para lidar com os sentimentos. Engordou seis quilos desde que você foi embora.
— E você?
— Ah. Vou indo.
Falou aquilo com simplicidade, mas algo naquelas palavras fez com que meu coração se partisse de leve.
— Não é para sempre — falei quando paramos de andar.
— Eu sei.
— E vamos fazer muitas coisas divertidas enquanto você está aqui.
— O que você programou?
— Hum… basicamente Você Pelado. Seguido de um jantar. Seguido de mais Você Pelado. Talvez uma caminhada pelo Central Park, algumas coisas cafonas de turista, como a balsa até Staten Island e a Times Square, algumas compras no East Village e uma comida deliciosa, com mais Você Pelado.
Ele sorriu.
— E eu ganho Você Pelada também?
— Ah, sim, é tipo compre um, leve dois.
Apoiei minha cabeça nele.
— Mas, falando sério, adoraria que você conhecesse o lugar onde eu trabalho. Talvez conheça Nathan e Ashok, e todas as pessoas de quem eu vivo falando. O Sr. e a Sra. Gopnik estão viajando, então provavelmente não vai conhecê-los, mas pelo menos vai ter uma ideia da coisa toda na sua mente.
Ele parou e se virou de frente para mim.
— Lou. Realmente não ligo para o que vamos fazer, contanto que a gente fique junto.
Ele corou um pouco ao dizer aquilo, como se as palavras também o tivessem surpreendido.
— Bastante romântico, Sr. Fielding.
— Mas é o seguinte, se vou cumprir essa parte de ficar pelado, preciso comer alguma coisa muito em breve. Aonde podemos ir?
Estávamos passando pelo Radio City, cercado de imensos edifícios comerciais.
— Tem um café — sugeri.
— Ah, não — disse ele, batendo palmas. — Ali está. Um verdadeiro food truck nova-iorquino!
Apontou para um dos eternos food trucks, um que servia “burritos empilhados”: “Fazemos do jeito que você gosta.” Eu o segui e esperei enquanto ele pedia algo que parecia ter o tamanho do seu antebraço, com cheiro de queijo derretido e de uma carne gordurosa não identificada.
— A gente não tinha planos de jantar fora hoje, tinha?
Ele enfiou a extremidade do burrito na boca.
Não consegui conter uma risada.
— Qualquer coisa para manter você acordado. Mas suspeito que isso vá causar um coma.
— Nossa senhora, é muito gostoso. Quer um pouco?
Eu queria, na verdade. Mas estava usando uma calcinha linda e não queria que partes do meu corpo pulassem para fora dela. Então esperei que ele terminasse, lambendo os dedos ruidosamente, depois jogando o guardanapo no lixo. Ele suspirou com profunda satisfação.
— Certo — disse ele, pegando meu braço, e tudo pareceu perfeitamente normal de repente. — Sobre essa questão da nudez…

* * *

Voltamos a pé até o hotel, em silêncio. Eu já não me sentia constrangida, como se o tempo que havíamos passado separados tivesse criado uma distância inesperada entre nós. Não queria mais falar. Só queria sentir a pele dele na minha. Queria ser totalmente dele outra vez, me sentir envolta, possuída.
Seguimos pela Sexta Avenida, passando pelo Rockefeller Center, e parei de notar os turistas no caminho. Tinha a sensação de estar presa em uma bolha invisível, todos os meus sentidos focados na mão morna que se fechara em torno da minha, no braço que tocava meus ombros. Cada movimento dele parecia carregado com o peso de um propósito. Eu estava quase sem fôlego. Podia viver com as ausências, pensei, se todas as vezes que nos encontrássemos fossem tão deliciosas assim.
Mal tínhamos entrado no elevador quando ele se virou e me puxou para si. Nós nos beijamos e eu derreti, me perdi na sensação do corpo dele contra o meu, o sangue pulsando tão alto nas minhas têmporas que mal ouvi as portas se abrindo. Saímos, cambaleantes.
— A coisa da porta — disse ele, tocando os bolsos com alguma urgência. — A coisa da porta! Onde coloquei?
— Está comigo — avisei logo de uma vez, tirando rapidamente o cartão do bolso da calça.
— Graças a Deus — disse ele, fechando a porta atrás de nós com um chute, a voz baixa em meu ouvido. — Você não imagina há quanto tempo eu venho pensando nisso.

* * *

Dois minutos depois, eu estava deitada no Edredom Vinho Infeliz, o suor esfriando na minha pele, me perguntando se seria muito errado pegar minha calcinha no chão. Apesar de já ter verificado a ausência de percevejos, ainda havia algo a respeito daquele edredom que me fazia querer criar uma barreira entre ele e qualquer parte do meu corpo nu.
A voz de Sam flutuou no ar ao meu lado.
— Desculpe — murmurou ele. — Eu sabia que estava feliz em ver você, só não sabia que estava tão feliz.
— Tudo bem — falei, me virando de frente para ele.
Sam tinha um jeito de me puxar para si como que me recolhendo, me deixando totalmente envolta. Eu nunca tinha entendido mulheres que dizem que certos homens as fazem se sentir seguras — mas era assim que me sentia com Sam. Seus olhos estavam caídos, lutando contra o sono. Calculei que eram cerca de três da manhã para ele agora. Ele deu um beijo no meu nariz.
— Me dê vinte minutos e vou estar pronto.
Corri um dedo delicadamente pelo seu rosto, acompanhando seus lábios, e mudei de posição para que ele pudesse nos cobrir com o edredom. Passei a perna por cima da dele, de forma que não havia quase nenhuma parte de mim que não estivesse encostada em seu corpo. Até mesmo esse movimento fez com que algo pegasse fogo dentro de mim. Não sabia o que havia a respeito de Sam que me fazia sentir diferente — sem inibição, voraz. Duvidava ser capaz de tocar a pele dele sem sentir aquele calor dentro de mim. Podia olhar seus ombros, o volume de seus antebraços, os pelos macios e escuros onde sua nuca encontrava o cabelo, e me sentia quase incandescente de desejo.
— Amo você, Louisa Clark — disse ele baixinho.
— Vinte minutos, é? — falei, sorrindo, e o abracei com mais força.
Mas ele caiu no sono como alguém que desaba de um precipício. Observei-o por um instante, me perguntando se seria possível acordá-lo, e de que maneira, mas então lembrei-me do quão desorientada e exausta eu me sentira ao chegar.
Então pensei em como ele tinha acabado de sair de uma semana com turnos de doze horas. E que faltavam apenas algumas horas para os nossos três dias inteiros juntos. Com um suspiro, eu o soltei e virei de costas. Estava escuro lá fora, agora, e os ruídos distantes do tráfego chegavam até nós. Senti um milhão de coisas, e fiquei perturbada ao descobrir que uma delas era decepção.
Pare, disse a mim mesma firmemente. Minhas expectativas para o fim de semana tinham simplesmente subido como um suflê, alto demais para um contato duradouro com a atmosfera. Ele estava ali, nós estávamos juntos, e dali a poucas horas ele estaria acordado outra vez. Vá dormir, Clark, disse a mim mesma. Puxei o braço dele para cima de mim, sentindo o cheiro de sua pele morna, e fechei os olhos.

* * *

Uma hora e meia depois, eu estava deitada na extremidade da cama, olhando o Facebook pelo celular, impressionada com o apetite aparentemente infinito da minha mãe por citações inspiradoras e fotografias de Thom com o uniforme da escola. Eram dez e meia e o sono não queria chegar. Saí da cama e fui ao banheiro, deixando a luz apagada para que Sam não acordasse com o exaustor barulhento. Hesitei antes de voltar. O colchão fundo fazia com que Sam escorregasse para o meio da cama, deixando alguns centímetros da beirada para mim, a menos que eu me deitasse em cima dele, praticamente. Perguntei a mim mesma se uma hora e meia de sono seria o bastante. Então subi na cama, deslizei meu corpo contra o corpo quente dele, e, após um instante de hesitação, o beijei.
O corpo de Sam despertou antes dele. Seu braço me puxou para perto, sua mão grande deslizou pela minha pele, e ele me beijou, beijos lentos e sonolentos, delicados e leves que fizeram meu corpo se arquear contra o dele.
Mudei de posição para que o peso dele ficasse em mim, minha mão buscando a dele, meus dedos se entrelaçando aos seus, deixando escapar um suspiro de prazer. Ele me queria. Abriu os olhos no escuro e eu olhei dentro deles, louca de desejo, percebendo para minha surpresa que ele já estava suando.
Ele me olhou por um instante.
— Oi, bonitão — sussurrei.
Sam fez menção de falar, mas nenhuma palavra saiu.
Olhou para o lado. Então, de repente, saiu de cima de mim.
— O que houve? — perguntei. — O que eu falei?
— Desculpe — disse ele. — Espere aí.
Ele correu para o banheiro, fechando a porta com força atrás de si. Ouvi um “Ai, meu Deus” e então ruídos que, desta vez, me deixaram grata pelo exaustor barulhento.
Fiquei sentada na cama, imóvel, então me levantei, vestindo uma camiseta.
— Sam?
Apoiei o corpo na porta, colando minha orelha a ela, depois me afastei. A intimidade, percebi, tinha limites no quesito efeitos sonoros.
— Sam? Você está bem?
— Sim — disse com a voz abafada.
Ele não estava bem.
— O que está havendo?
Um silêncio demorado. O som da descarga.
— Eu… hum… acho que estou com intoxicação alimentar.
— Sério? Posso fazer alguma coisa?
— Não. Só… só não entre aqui. Ok?
Aquilo foi seguido por mais um barulho de vômito e alguns palavrões baixinhos.
— Não entre.

* * *

Passamos quase duas horas assim: ele travando alguma batalha terrível contra seus órgãos de um lado da porta, eu sentada ansiosamente de camiseta do outro. Ele se recusou a me deixar entrar para ver se estava bem — seu orgulho, eu acho, o impedia.
O homem que finalmente saiu do banheiro pouco depois de uma da manhã tinha cor de massa de vidraceiro com um brilho de vaselina. Fiquei de pé quando a porta se abriu e ele cambaleou de leve, como que surpreso em ver que eu ainda estava ali. Estendi uma mão, como se eu tivesse alguma esperança de conseguir segurar alguém do tamanho dele.
— O que posso fazer? Você precisa de um médico?
— Não… Vou só… esperar deitado.
Ele caiu na cama, arfando e segurando a barriga. Tinha olheiras pretas e os olhos estavam fixos em um ponto aleatório à frente.
— Literalmente.
— Vou pegar um pouco de água para você.
Olhei para Sam.
— Na verdade, vou correr até uma farmácia e comprar Dioralyte, ou o que tiverem aqui.
Ele nem sequer falou, só virou de lado, olhando à frente, o corpo ainda úmido de suor.

* * *

Comprei o remédio apropriado, agradecendo silenciosamente à Cidade Que Não Apenas Não Dorme Mas Também Possui Reidratantes em Pó. Sam bebeu um, então, com um pedido de desculpas, voltou ao banheiro. Volta e meia eu passava uma garrafa de água por uma fresta na porta, e no fim, acabei ligando a televisão.
— Desculpe — murmurou ele quando saiu outra vez, pouco depois das quatro.
Então, desabou no Edredom Infeliz e caiu em um sono breve e agitado.
Dormi por cerca de duas horas, coberta com o roupão do hotel, e ao acordar vi que ele ainda dormia. Tomei banho e me vesti, saindo do quarto em silêncio para pegar um café na máquina do saguão. Pelo menos, eu disse a mim mesma, ainda tínhamos dois dias pela frente.
Mas, quando voltei para o quarto, Sam estava no banheiro de novo.
— Mil desculpas — disse ele mais uma vez ao sair.
Eu tinha aberto as cortinas e, na luz do dia, ele parecia ainda mais pálido contra os lençóis do hotel.
— Não sei se vou conseguir fazer grande coisa hoje.
— Tudo bem!
— Talvez eu esteja melhor de tarde — disse ele.
— Tudo bem!
— Mas acho que é melhor não fazer o passeio de balsa. Acho que não quero chegar nem perto de…
— … banheiros públicos. Entendi.
Ele suspirou.
— Isso não é exatamente o dia que eu tinha imaginado.
— Tudo bem — retruquei, subindo na cama ao seu lado.
— Pode parar de falar tudo bem? — pediu ele com irritação.
Eu hesitei por um instante, ferida, depois falei friamente:
— Está bem.
Ele me olhou de esguelha.
— Desculpe.
— Pare de pedir desculpas.
Ficamos sentados no edredom, ambos olhando reto à frente. Então a mão dele alcançou a minha.
— Olha — disse ele por fim —, provavelmente eu vou ficar por aqui durante algumas horas. Vou tentar recuperar as forças. Não precisa ficar comigo. Vá fazer compras ou algo assim.
— Mas você só está aqui até segunda. Não quero fazer nada sem você.
— Não presto para nada no momento, Lou.
Ele parecia prestes a socar uma parede, se ao menos tivesse forças o bastante para erguer um punho.

* * *

Caminhei por dois quarteirões até uma banca e comprei uma montanha de jornais e revistas. Então comprei um café decente para mim, um muffin integral e um bagel branco simples para quando ele sentisse vontade de comer algo.
— Suprimentos — falei, derrubando tudo no meu lado da cama. — Vamos tirar proveito da situação.
E foi assim que passamos o dia. Li todas as seções do The New York Times, incluindo o caderno de esportes. Coloquei o sinal de “Não Perturbe” na porta, observei-o adormecer e esperei que as cores retornassem ao seu rosto.
Talvez ele se sinta melhor a tempo de passearmos à luz do dia.
Talvez possamos beber algo no bar do hotel.
Seria bom sentar um pouco.
Certo, talvez ele esteja melhor amanhã.
Às nove e quarenta e cinco, desliguei o programa de entrevistas na TV, empurrei os jornais para fora da cama e me enfiei debaixo do edredom, e a única parte do meu corpo que ainda tocava o dele eram meus dedos, as pontas entrelaçadas aos seus.

* * *

Ele acordou no domingo se sentindo um pouco melhor. Acho que àquela altura seu estômago estava tão vazio que não restava nada para colocar para fora.
Comprei uma sopa rala que ele comeu com hesitação, depois declarou que estava bem o bastante para dar um passeio. Vinte minutos depois, voltamos correndo e ele se trancou no banheiro. Sam estava com muita raiva. Tentei dizer a ele que não tinha problema, mas isso só parecia deixá-lo ainda com mais raiva.
Foi um tanto patético ver um homem de um metro e noventa tentando ficar furioso quando mal conseguia segurar na barriga um copo de água.
Deixei-o sozinho por um tempo, porque minha decepção começava a se tornar visível. Precisava caminhar pela rua e lembrar a mim mesma que aquilo não era um sinal, não queria dizer nada, e que era fácil perder a noção das coisas estando privado de sono e tendo passado quarenta e oito horas na companhia de um homem com problemas gastrointestinais, com um banheiro que não era nada à prova de som.
Mas o fato de já ser domingo me deixou arrasada. Eu voltaria a trabalhar no dia seguinte. E não tínhamos feito nada do que eu havia planejado. Não tínhamos ido a um jogo de beisebol nem pegado a balsa para Staten Island. Não tínhamos subido ao topo do Empire State nem caminhado de braços dados pelo High Line. Naquela noite, ficamos sentados na cama e ele comeu o arroz que eu comprara em um restaurante de sushi, enquanto eu comia um sanduíche de frango grelhado com gosto de nada.
— Estou no caminho certo agora — murmurou ele, e eu puxei a coberta por cima dele.
— Ótimo — falei.
Então Sam adormeceu.

* * *

Não podia passar mais uma noite olhando para o celular, então levantei silenciosamente, deixei um bilhete para ele e saí. Eu me sentia péssima e estranhamente brava. Por que ele comera algo que lhe dera intoxicação alimentar? Por que não podia fazer alguma coisa para melhorar mais rápido? Ele era paramédico, oras. Por que não podia ter escolhido um hotel melhor?
Caminhei pela Sexta Avenida com as mãos bem no fundo dos bolsos, o tráfego barulhento ao meu redor, em pouco tempo percebi que estava no caminho da minha casa.
Casa.
Com um susto, entendi que era assim que via o apartamento agora.
Ashok estava debaixo do toldo, conversando com outro porteiro, que se afastou logo que me aproximei.
— Oi, Srta. Louisa. Não deveria estar com aquele seu namorado?
— Ele está doente — falei. — Intoxicação alimentar.
— Está brincando! Onde ele está agora?
— Dormindo. Eu só… não ia conseguir ficar naquele quarto por mais doze horas.
Eu senti que estava à beira das lágrimas. Acho que Ashok percebeu, porque fez um gesto para que eu entrasse. Dentro de seu quartinho de porteiro, esquentou água em uma chaleira e preparou um chá de menta para mim. Fiquei sentada à sua mesa bebericando meu chá enquanto ele espiava lá fora volta e meia para se assegurar de que a Sra. De Witt não estava ali para acusá-lo de não estar cumprindo sua função.
— Enfim — falei —, por que está trabalhando? Achei que era hora do porteiro da noite.
— Ele também está doente. Minha esposa ficou muito brava comigo. Tinha uma de suas reuniões na biblioteca hoje, mas não temos ninguém para cuidar das crianças. Ela disse que se eu passar mais um dos meus dias de folga aqui, ela mesma vai trocar uma palavrinha com o Sr. Ovitz. E ninguém quer isso.
Ele fez que não com a cabeça.
— Minha esposa é uma mulher temível, Srta. Louisa. Ninguém quer que ela fique brava.
— Eu adoraria ajudar, mas acho melhor voltar e ver como Sam está.
— Seja gentil — disse ele quando devolvi a xícara. — Ele veio de longe para vê-la. E posso garantir que está se sentindo muito pior do que você no momento.

* * *

Quando voltei para o quarto, Sam estava acordado, encostado nos travesseiros assistindo à televisão pixelada. Ergueu os olhos quando eu abri a porta.
— Fui só dar uma volta. Eu… eu…
— Não aguentou ficar mais um minuto presa aqui dentro comigo.
Fiquei parada na porta. A cabeça dele estava funda entre os ombros. Estava pálido e parecia totalmente deprimido.
— Lou… se você soubesse como estou com raiva de mim neste momento…
— Tudo be… — me interrompi a tempo. — Sério. Estamos bem.
Liguei o chuveiro para ele, ajudei-o a entrar e lavei seu cabelo, tirando o restinho de xampu do minúsculo frasco, então vi a espuma deslizar pelas imensas montanhas de seus ombros. Ele estendeu o braço, pegou minha mão em silêncio e beijou a parte interna do meu pulso, um pedido de desculpas.
Coloquei a toalha sobre seus ombros e voltamos para o quarto. Ele se deitou na cama com um suspiro. Troquei de roupa e me deitei ao seu lado, desejando não me sentir tão apática.
— Me conte algo que não sei sobre você — disse ele.
Virei-me de frente para Sam.
— Ah, você sabe de tudo. Sou um livro aberto.
— Vamos lá, me ajude.
Sua voz estava baixa perto do meu ouvido. Não consegui pensar em nada.
Ainda estou estranhamente irritada com este fim de semana, mesmo sabendo que é injusto da minha parte.
— Certo — disse ele quando ficou claro que eu não iria falar. — Eu começo, então. Só vou comer biscoito de água e sal a partir de agora.
— Engraçadinho.
Ele examinou meu rosto por um instante. Quando voltou a falar, sua voz soou atipicamente baixa.
— E as coisas lá em casa não têm sido fáceis.
— Como assim?
Ele demorou um minuto para voltar a falar, como se ainda não estivesse certo de que devia continuar.
— É o trabalho. Sabe, antes de levar o tiro, eu não tinha medo de nada. Podia dar conta de qualquer coisa. Acho que me via como um cara durão. Mas, agora, o que aconteceu está sempre na minha mente.
Tentei não parecer surpresa.
Ele passou a mão no rosto.
— Desde que voltei a trabalhar, percebo que analiso as situações antes de chegarmos… de um jeito diferente, tentando pensar em rotas de fuga, fontes potenciais de perigo. Mesmo quando não há motivo para isso.
— Está com medo?
— É. Eu.
Sam deu um riso seco e fez que não com a cabeça.
— Eles me ofereceram sessões de terapia. Eu sei como essas coisas funcionam, dos meus tempos no exército. Você conversa sobre o assunto, entende que é o jeito da sua mente assimilar o que aconteceu. Sei disso tudo. Mas é desconcertante.
Eu esperei.
— Por isso foi tão difícil quando Donna saiu… Porque eu sabia que ela sempre cuidaria de mim.
— Mas essa nova parceira vai cuidar de você, certamente. Qual é o nome dela?
— Katie.
— Katie vai cuidar de você. Quer dizer, ela é experiente e vocês são treinados para cuidar um do outro, certo?
Ele deslizou o olhar em minha direção.
— Você não vai levar outro tiro, Sam. Sei que não vai.
Depois, percebi que era uma coisa estúpida de se dizer. Falei aquilo porque não conseguia suportar a ideia de vê-lo infeliz. Falei porque queria que fosse verdade.
— Vou ficar bem — disse ele baixinho.
Tive a impressão de que eu o tinha decepcionado. Perguntei a mim mesma havia quanto tempo Sam queria me contar aquilo. Ficamos deitados por um tempo. Corri um dedo pelo seu braço, de leve, tentando pensar no que dizer.
— Você? — murmurou ele.
— Eu o quê?
— Me conte algo que não sei. Sobre você.
Eu ia dizer que ele já sabia todas as coisas importantes. Ia ser o meu “eu” nova-iorquino, cheio de vida, decidido, impenetrável. Ia dizer algo para fazê-lo rir. Mas ele me contara sua verdade.
Virei o corpo de frente para ele.
— Tem uma coisa. Mas não quero que isso mude o jeito como você me vê. Se eu contar.
Ele franziu a testa.
— Foi algo que aconteceu há muito tempo. Mas você me contou uma coisa. Então vou fazer o mesmo.
Respirei fundo e contei. Contei a história que só tinha contado para Will até então, um homem que ouvira e então me libertara do poder que aquilo tinha sobre mim. Contei para Sam a história de uma menina que, dez anos antes, tinha bebido e fumado demais, e descoberto na própria pele que só porque um grupo de garotos vinha de boas famílias não significava que eles eram bons. Contei aquilo com um tom de voz calmo, um pouco distante. Ultimamente, parecia que não tinha acontecido comigo de verdade. Sam ouviu na quase penumbra, os olhos fixos nos meus, em silêncio.
— É um dos motivos pelos quais vir para Nova York e fazer isso era tão importante para mim. Eu me fechei durante anos, Sam. Disse a mim mesma que era disso que precisava para me sentir segura. E agora… bem, agora acho que preciso me desafiar. Preciso saber do que sou capaz se parar de baixar a cabeça.
Quando terminei, ele ficou em silêncio por um longo tempo, longo o bastante para que eu me perguntasse se devia mesmo ter contado aquilo. Mas então Sam estendeu a mão e acariciou meu cabelo.
— Sinto muito — disse ele. — Gostaria de ter estado lá para proteger você. Gostaria…
— Tudo bem — eu disse. — Foi muito tempo atrás.
— Não está tudo bem.
Ele me puxou para junto de si. Apoiei a cabeça em seu peito, sentindo o batimento regular de seu coração.
— Só não quero que me veja com outros olhos — sussurrei.
— Não tenho como não ver.
Inclinei a cabeça para poder enxergá-lo.
— Acho você ainda mais incrível — disse ele, fechando os braços ao meu redor. — Além de todos os motivos pelos quais eu te amo, você é corajosa e forte, e acaba de me lembrar que… todos nós temos nossos obstáculos. Vou superar o meu. Mas prometo uma coisa a você, Louisa Clark.
Sua voz, quando veio, soou grave e carinhosa.
— Ninguém vai machucar você de novo.

6 comentários:

  1. " Ninguém vai machucar você de novo"
    Aish te boritinho. Ashuashuashuashua bem Tibérias Calore isso

    -Mare Calore

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  2. Eu tava tão anciosa pra Sam chegar em NY, e isso acontece '-' mas pelo menos eles se entenderam...

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  3. Aaaah eu so acho que a Jojo podia falar mais detalhes sobre como foi a noite de amor deles kkkk ué eu sei que tem mais alguém além de mim que queria isso...
    Tem né

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    Respostas
    1. Dois minutos não é exatamente uma noite de amor. E pelo jeito que ele estava mal acredito que tenha sido só isso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!