20 de fevereiro de 2018

Capítulo 8

Enquanto eles colocavam as selas nos cavalos e empacotavam os suprimentos, faziam uma conferência entre si em relação a qual seria a melhor rota a ser tomada. As opções eram a de viajar para o sul, onde a travessia pela cadeia de montanhas que diminuía gradativamente seria mais fácil, ou seguir na direção oeste, por uma passagem pela cadeia montanhosa mais íngreme e mais difícil, porém mais rápida.
— Vamos pelo oeste — falei.
Tavish ficou rígido e parou de colocar as cargas no cavalo. Ele estava tentando empurrar a ideia de cavalgarmos em direção ao sul antes de cruzarmos a cadeia de montanhas. Ele fitou Rafe, recusando-se a olhar para mim.
— Nós não conhecemos aquela passagem e, com a neve profunda, será mais difícil cruzá-la.
Rafe prendeu com tiras o alforje ao cavalo que eu cavalgaria e verificou novamente o cinto da sela enquanto dava a resposta.
— Mas isso realmente corta alguns quilômetros até o posto avançado mais próximo, além de ter a vantagem de nos colocar no Vale dos Gigantes, onde há bastante ruínas que podem nos servir como abrigo... e lugares para nos escondermos.
— Você está supondo que vamos precisar nos esconder — replicou Tavish. — Não foi você que disse que tínhamos uma vantagem de duas semanas?
Todo mundo fez uma pausa, inclusive Rafe. Havia um ar inconfundível de desafio no tom de Tavish. Estava claro que ele não tinha qualquer consideração pelo dom, e eu me dei conta de que era possível que nenhum deles tivesse.
— Nós estamos nos reagrupando, Tavish — respondeu Rafe, de forma conclusiva. — Temos novas informações.
Reagrupando. Eu quase podia ver a palavra ardendo em chamas na cabeça de Tavish. Ainda evitando o meu olhar, ele assentiu.
— Para o oeste então.
Cavalgamos em duplas, vestindo mantos improvisados que os homens tinham feito com as cobertas de sela vendanas para nos proteger do frio. Sven e Tavish seguiam na frente, com Jeb, Orrin e o cavalo extra seguindo atrás de nós. Eu sentia que Rafe me observava, como se eu pudesse cair da sela. Para falar a verdade, logo que me sentei no cavalo pensei que o machucado em minha coxa fosse abrir. A dor inicial tinha diminuído, mas fora substituída por uma dor de queimação. Eu mal tinha precisado do manto, porque a cada vez que o cavalo batia com o casco no chão, uma outra gota de suor se formava em meu rosto. Sempre que o cavalo tropeçava no terreno coberto de neve, eu cerrava os dentes para mascarar a dor, porque as palavras não demore, senhorita, ou todos eles vão morrer assombravam meus pensamentos. Eu não queria que algo, inclusive um gemido de dor, diminuísse nosso ritmo.
— Continue cavalgando — disse Rafe para mim. — Logo estarei de volta.
Ele virou o cavalo e chamou Sven para que este ficasse no lugar dele.
Sven parou, esperando que meu cavalo alcançasse o dele.
— Como você está se sentindo? — ele me perguntou.
Eu não queria admitir que minhas costas e minhas pernas gritavam de dor.
— Bem o bastante. Estou bem, em melhor forma do que antes de Tavish retirar as flechas.
— Que coisa boa de se ouvir. Temos um longo caminho até a segurança do posto avançado.
Tavish seguia em frente cavalgando, em momento algum olhando para trás, nem de relance. Observei-o em sua jornada pelo terreno, todos os seus passos incertos na neve que engolia as pernas de nossos cavalos até a altura dos machinhos.
— Ele não ficou feliz com a nossa partida repentina — falei.
— Talvez sejam apenas as circunstâncias por trás disso tudo — respondeu Sven. — Tavish é um estrategista bem conceituado na sua unidade. Ontem ele havia exposto argumentos para uma partida rápida.
— E Rafe disse não a ele.
— Mas bastou uma palavra sua... — O modo como Sven deixou a frase pairando no ar fez com que eu me perguntasse se ele também questionava a decisão de Rafe.
— Não foi apenas qualquer palavra. Não foi a minha opinião. Foi outra coisa.
— Sim, eu sei. Só que Tavish também não acredita em magia.
Magia?
Fitei Sven até que ele sentiu o meu olhar contemplativo voltado para ele e virou-se na minha direção.
— Então nós temos algo em comum. Eu também não acredito em magia.
Rafe fez um sinal para que todo mundo parasse e viesse se juntar a nós, com Orrin ao lado dele. O príncipe disse que havia analisado os animais e que o cavalo de Orrin tinha quartelas mais longas e oblíquas, as partes posteriores mais livres e uma andadura mais suave.
— Vocês vão trocar de montaria. Isso vai lhe propiciar uma cavalgada mais fácil.
Fiquei grata pela troca e especialmente grata porque não era Tavish quem teria que trocar de animal comigo. Eu já havia ferido o ego dele. Não queria ferir o traseiro também.
As próximas várias horas passaram de um modo consideravelmente mais confortável. Rafe conhecia os cavalos... e os cavaleiros. Ele ainda me observava com a visão periférica.
Assim que ele se certificou de que eu estava mais confortável, seguiu cavalgando em frente para falar com Tavish. Ele também conhecia os seus homens, e eu tinha certeza de que o comentário conciso de Tavish dessa manhã não fora esquecido. Sven recuou para ficar ao meu lado novamente, e observamos enquanto os dois cavalgavam juntos. Para falar a verdade, Tavish jogou a cabeça para trás uma vez e deu risada. Suas longas cordas de cabelos negros balançavam, soltas, por suas costas. Sven me disse que Rafe e Tavish eram amigos íntimos desde que eram recrutas e frequentemente aprontavam juntos. Nos arredores do palácio e na cidade, raramente um era visto sem o outro. Isso me levou a pensar nos meus irmãos e nas encrencas que criávamos, e uma pontada de dor embotada cresceu dentro de mim. Minha última visão no Saguão do Sanctum havia me mostrado que a notícia da morte de Walther havia chegado a Civica. Será que as mentiras do Komizar sobre a minha traição também haviam chegado até lá? Será que eu ainda teria um lar para o qual voltar? Era bem provável que o único reino que não tivesse um preço sobre a minha cabeça no momento fosse Dalbreck.
Nós paramos bem antes de o sol se pôr, quando nos deparamos com um abrigo no sota-vento de uma montanha, que nos proveria alguma proteção das intempéries. Eu estava grata por acampar cedo, porque estava bastante cansada, realmente exausta. Eu sentia raiva por não ser capaz de forçar a fraqueza a me deixar por meio de pura vontade. Esse era um sentimento novo e humilhante para mim, ter que depender de alguém para os menores dos favores. Isso me fazia pensar em Aster e em tantos outros que tinham trilhado essa linha frágil por todas as suas vidas, explorando favores e misericórdia. O verdadeiro poder sempre esteve bem além do alcance deles, mantido na pegada firme de alguns poucos.
Insisti em entrar ali mancando, mas sozinha, e então examinei o alojamento dessa noite enquanto Rafe partia para coletar lenha. Assim que os devidos cuidados com os cavalos tinham sido tomados, Tavish disse que ia ajudar Rafe a pegar lenha.
— Vamos precisar de muita madeira.
Ficou óbvio que o comentário dele era direcionado a mim, mas eu o ignorei e comecei a desenrolar o meu saco de dormir.
— É melhor ir o máximo para dentro quanto conseguir, princesa — ele disse ainda. — Essa caverna não é muito funda e não será tão quente quanto a última.
Girei para ficar cara a cara com ele.
— Estou ciente disso, Tavish, mas pelo menos estaremos vivos.
Ouvi o arrastar de botas atrás de mim, com os outros se virando ao ouvirem o comentário, e então o silêncio. O ar estava tenso com a expectativa.
Tavish voltou atrás imediatamente.
— Eu não quis dizer nada com isso.—
— É claro que quis. — Dei um passo, aproximando-me dele. — Você tem forças, Tavish, que eu admiro muito. Suas habilidades ajudaram a salvar a minha vida e a vida de Rafe, pelo que sempre estarei em dívida com você. Mas existem outros tipos de força também. Silenciosas, sutis e que são tão valiosas quanto as suas, até mesmo se você não as compreender totalmente
— Então, ajude-o a entendê-las.
Virei-me na direção da boca da caverna. Rafe havia voltado com um monte de lenha nos braços. Ele colocou a madeira no chão e veio andando juntamente o restante de nós.
— Ajude todos nós a entendermos isso.
Eles ficaram esperando que eu dissesse alguma coisa. Preparei-me para aquela familiar sensação de fracasso que vinha com a menção do dom, mas, em vez disso, um novo sentimento se assentou sobre mim, sentimento este que era firme e sólido. Pela primeira vez na vida, eu não sentia algo se encolhendo dentro de mim. A vergonha que me importunava na corte morrighesa desaparecera. Eu não me sentia compelida a apresentar qualquer pedido de desculpas pelo que eles não conseguiam — ou se recusavam — a entender. Esse fardo era deles, não meu.
Fui mancando até a espada de Rafe, embainhada no piso da caverna. Desembainhei-a em um movimento rápido e a ergui bem alto.
— Essa é sua força, Rafe. Diga-me, ela é ruidosa ou silenciosa?
Ele olhou para mim, confuso.
— É uma espada, Lia.
— É ruidosa — disse Jeb. — Em batalhas, pelo menos. E mortal.
Sven esticou a mão e, com gentileza, pressionou a ponta da espada para baixo, para fora do alcance do rosto dele.
— Também é um aviso silencioso, quando está pendurada na lateral dos nossos corpos.
— É um metal bem afiado — disse Tavish, pragmático.
— O que ela é, afinal? — exigi saber. — Metal? Ruidosa? Silenciosa? Mortal? Um aviso? Nem mesmo vocês conseguem decidir.
— Uma espada pode ser muitas coisas, mas...
— Vocês definem uma espada pelos termos que lhes são familiares em todas as formas como veem, sentem e tocam. Contudo, e se houvesse um mundo que falasse de outras maneiras? E se houvesse outra forma de ver, ouvir e sentir? Nunca sentiram alguma coisa bem lá no fundo de vocês? Não tiveram um vislumbre disso brincando atrás dos seus olhos? Já ouviram uma voz em algum lugar nas suas cabeças? Mesmo que não estivessem certos disso, esse conhecimento fez com que os seus corações batessem um pouco mais rápido? Agora multipliquem isso por dez. Talvez alguns de nós saibamos das coisas mais profundamente do que outros.
— Ver sem olhos? Ouvir sem ouvidos? Você está falando de magia. — Tavish não fez qualquer esforço para tirar o cinismo do tom de voz.
Estranhamente, isso me fez lembrar da primeira vez em que falei com Dihara. Pensei no que ela dissera a mim: O que é magia senão aquilo que ainda não entendemos? Balancei a cabeça em negativa.
— Não. Não se trata de magia. Trata-se de algo bem lá no fundo da gente, que faz parte de nós tanto quanto o nosso sangue ou a nossa pele. Foi assim que os Antigos sobreviveram. Para sobreviverem, eles tiveram que retornar a essa linguagem de conhecimento enterrada quando tinham perdido todo o restante. Alguns eram mais fortes nesse conhecimento do que outros, e eles os ajudaram a sobreviver.
O ceticismo permanecia entalhado nos olhos de Tavish.
— Você ouviu apenas algumas poucas palavras e ainda estava acordando — disse ele. — Tem certeza de que não foi apenas o vento?
— Algum de vocês tem plena certeza sobre as suas próprias habilidades e os seus próprios dons? Vocês sabem com certeza como os seus planos cuidadosamente traçados vão terminar? Será que Orrin sempre sabe exatamente o quão reta ou o quão longe a flecha dele vai voar? Quando qualquer um de vocês gira uma espada, sabem com completa confiança que derrubarão o inimigo? Não, eu não tenho sempre certeza em relação ao dom, mas estou certa quanto a tudo que ouvi essa manhã. Não foi apenas o vento, como você disse.
Rafe deu um passo mais para perto de mim, com o rosto franzido, o que deixava o seu rosto sombrio.
— Exatamente o que foi que você ouviu essa manhã, Lia? Conte tudo.
O olhar contemplativo dele me gelava. Ele sabia que eu não tinha revelado tudo.
— Não demore — respondi, o que eles já haviam me ouvido dizer. Pigarreei e acrescentei: — Ou todos eles vão morrer.
Seguiu-se um tenso momento de silêncio. Tavish, Sven e Orrin trocaram olhares de relance. Eles ainda acreditavam na sua longa vantagem à frente dos inimigos. Eu sabia que essa era uma conclusão razoável. A ponte estava altamente danificada. O próprio Kaden havia me dito que a única forma alternativa de cruzar o rio era bem ao sul. Mas eu também confiava no que tinha ouvido.
— Eu não espero que vocês acreditem em tudo que acabei de dizer nesse minuto. Mesmo que Rafe tenha me falado que vocês eram os melhores soldados de Dalbreck, eu não acreditei que sairiam vivos do Sanctum, muito menos que fossem capazes de nos ajudar a fugir. No entanto, vocês provaram que eu estava errada. Às vezes, tudo que se faz necessário é um pouquinho de confiança para que ela cresça. Talvez esse possa ser um ponto de partida para nós.
Tavish mascou o lábio e por fim assentiu. Uma trégua instável.
Rafe limpou pedacinhos de folhas e de terra que estavam nas mangas de sua roupa como se estivesse tentando dissipar a tensão no ar.
— Nós estamos fora de perigo agora. É isso que importa — disse ele. — E indo para casa... Se não morrermos de fome antes. Vamos preparar esse jantar.
Todos ficaram felizes em seguir o comando de Rafe, ocupando-se com as preparações do acampamento, algo que todos eles eram capazes de entender.

* * *

No decorrer dos dias, vim a conhecer melhor aqueles que me resgataram. Tive com frequência oportunidades para cavalgar ao lado de um deles quando Rafe desviava, indo para um ponto de observação mais alto ou quando fazia o reconhecimento de uma trilha cega à frente o que acontecia muitas vezes. Ele clamava que estava apenas verificando para ver se havia alguma patrulha vendana desordenada que pudesse ainda estar por ali. Eu suspeitava de que ele estivesse simplesmente com comichão para sair de cima daquela sela. Depois de todas as semanas em que precisou se conter e se reprimir de modo forçado no Sanctum, Rafe finalmente estava livre, e parecia que a energia acumulada havia tempos precisava ser liberada. Se eu antes achava que o sorriso dele era capaz de me desarmar, agora esse sorriso me liberava. Quando ele voltava de uma cavalgada vigorosa, com o rosto ruborizado pelo calor, com os cabelos jogados com o vento e um sorriso tranquilo iluminando o rosto, eu ansiava para que saíssemos da trilha e fossemos para algum lugar com mais privacidade.
Com frequência, eu me deparava com Sven observando Rafe com o que eu achava que era o orgulho de um pai. Um dia perguntei há quanto tempo ele era o tutor incumbido a Rafe. Ele me disse que o príncipe tinha saído de uma ama de leite direto para os cuidados dele... havia alguns anos mais ou menos.
— Isso é um bom tempo. Você o criou como um belo soldado.
— Mais do que um soldado. Um futuro rei.
Sim, o orgulho era inconfundível.
— E, ainda assim, você permitiu que ele transpusesse o Cam Lanteux atrás de mim?
Sven soltou uma bufada.
— Eu não permiti que ele fizesse isso. Na verdade, tentei tirar essa ideia da cabeça dele, mas não havia como impedi-lo. O rapaz tinha perdido um tesouro que estava determinado a recuperar.
Apesar do ar frio, rios de calidez haviam se espalhado pelo meu peito.
— Ainda assim, sob um risco considerável para todos vocês. Eu sinto muito em relação ao que houve com a sua face...
— Essa coisinha aqui? — disse ele, fazendo um movimento na direção da sua bochecha. — Pff. Não é nada. E, conforme esses jovens patifes apontaram inúmeras vezes, é provavelmente uma melhoria, isso sem falar que acresce algo às minhas credenciais. Espere até os novos cadetes verem isso. Talvez até mesmo desperte um pouco da centelha da clemência no rei.
— O rei vai ficar com raiva por você não ter impedido Rafe de fazer o que fez?
— É o meu trabalho, obviamente, manter o herdeiro fora de perigo. Em vez de fazer isso, eu praticamente o escoltei em direção ao perigo.
— Por que faria uma coisa dessas?
— Como eu lhe disse, a decisão dele estava tomada. — Fez uma pausa como se estivesse ele mesmo contemplando o motivo e, por fim, soltou um suspiro. — E estava na hora.
Ao conversar com Sven, uma coisa rapidamente se tornou aparente: ele não era sequer parecido com ao arrogante fanfarrão governador Obraun que fingira ser. Em vez de tagarelar sem parar, ele escolhia com cuidado as suas palavras. Naqueles dias no Sanctum, Sven se saíra tão bem na arte do engodo quanto Rafe, mas ele tinha sido mentor de Rafe durante muitos anos. Suas longas e silenciosas pausas faziam com que eu me perguntasse no que ele estaria pensando.
Orrin, por outro lado, fazia me lembrar de Aster. Uma ver que ele começasse a falar, era difícil fazer com que parasse.
Jeb era o mais silencioso do grupo. Era como se ele tivesse me adotado como uma das suas irmãs. Fiquei sabendo disso porque os outros o provocaram em relação à calça extra que ele havia escondido. Eles revelaram que ele era bem dândi lá no palácio, sempre vestido na última das modas. A mãe dele era a costureira chefe da corte da rainha.
— Quando seus baús chegaram em Dalbreck, isso meio que causou um reboliço — ele me disse. — Todo mundo estava exaltado com a curiosidade em relação ao que haveria dentro deles.
Eu quase havia esquecido que as minhas roupas e os outros pertences pessoais haviam sido enviados antes da minha esperada chegada em Dalbreck.
— O que fizeram com eles? Usaram para uma grande fogueira? Eu não os culparia se fizessem.
Ele deu risada.
— Não, eles queriam dar uma boa olhada no conteúdo antes de fazerem isso — disse ele, provocante. — Mas abrir os baús tornou-se um cobiçado evento secreto, em que todo mundo desejava estar presente. Isso foi deixado a cargo das costureiras, mas minhas irmãs e até mesmo a rainha reuniram-se em volta da minha mãe quando ela abriu um dos baús com a desculpa de que ia pendurar um dos seus vestidos para o caso de as circunstâncias mudarem.
Não consegui conter uma bufada.
— Que circunstâncias? Que minha fuga não tivesse passado de um mal-entendido? Que eu, por acidente, tivesse aparecido na abadia errada?
Jeb abriu um largo sorriso.
— Minha mãe disse que eles estavam esperando algo bem diferente do que viram. Ela falou que os seus vestidos eram bonitos e elegantes, mas que eram muito... — Ele buscou a palavra certa. — Simples.
Sufoquei uma risada. Pelos padrões morrigheses eles eram extravagantes. Minha mãe fizera todo o possível para que eu tivesse um novo e mais pomposo guarda-roupa feito, porque os dalbretchianos eram conhecidos pelos seus deleites em relação às roupas, mas eu havia recusado a maioria dos adornos e insistira em levar os vestidos de uso diário também.
— Minha mãe ficou satisfeita, na verdade — disse Jeb. — Ela sentia que isso mostrava respeito que você não pretendia brilhar mais do que as outras damas da corte. É claro que ela falou, de imediato, que poderia fazer umas poucas alterações que os melhorariam enormemente, mas a rainha ordenou que fossem todos empacotados e devolvidos a Morrighan.
E lá eles prontamente os queimaram, pensei. Junto com uma efígie minha.
— Algum problema? — perguntou-me Jeb.
Percebi que eu estava fechando a cara.
— Estou só pensando em... — Parei o cavalo e virei-me para ele. — Jeb, na primeira vez em que você foi até o meu quarto lá no Sanctum, você disse que estava lá para me levar para casa. A que casa estava se referindo?
Ele olhou para mim confuso.
— Ora, para Dalbreck, é claro.
É claro.
Falei com Rafe sobre isso depois, lembrando-o que tínhamos que ir até Morrighan primeiro.
— Nossa prioridade é chegarmos a um local seguro — foi a resposta — e tal lugar seguro é o posto avançado de Dalbreck. Morrighan pode vir após isso.

* * *

As coisas permaneciam distantes entre mim e Tavish. Ele era educado, mas quando Rafe precisava cuidar de alguma outra coisa, ele nunca se oferecia para ficar para trás e cavalgar ao meu lado. Estava bem claro que ele não queria ficar sozinho comigo.
Rafe continuava inquieto e estava sempre saindo, cavalgando para verificar alguma coisa. Nós só havíamos estado na trilha por um curto período de tempo hoje, quando ele disse que ia a um ponto de observação para ver se conseguia avistar alguma caça. Ele chamou Sven para que ficasse ao meu lado, mas Tavish se ofereceu para fazer isso. Até mesmo Rafe notou, erguendo uma sobrancelha curiosa para mim antes de partir. A princípio, Tavish travou comigo uma conversa sobre assuntos banais, perguntando-me como eu estava me sentindo em relação às minhas costas, dizendo que ele poderia retirar os pontos depois de mais ou menos uma semana, mas eu sentia que ele tinha outra coisa em mente.
— Em momento algum eu respondi à sua pergunta — murmurou ele por fim.
— Que pergunta? — falei.
Ele olhou para trás, para a trilha, e então embarcou em um assunto completamente diferente.
— Rafe havia ficado hesitante em relação aos barcos e à jangada, mas eu prometi a ele que funcionaria. — O cavaleiro fez uma pausa, pigarreando. — No momento em que os perdemos de vista no rio, eu estava certo que nenhum dos dois sobreviveria. Aquelas horas que passamos procurando por vocês foram as mais longas... — Ele franziu a cara, juntando as sobrancelhas ao fazer isso. — Aquelas foram as horas mais longas que eu já passei na minha vida.
— Não é culpa sua que tenhamos caído em...
— É culpa minha — disse ele. — É o meu trabalho Pensar nos piores casos e ter um plano para evitá-los. Se eu tivesse...
— Se eu não estivesse usando aquele vestido — falei, cortando-o. — Se a reunião do conselho não tivesse terminado mais cedo. Se o Komizar não tivesse matado Aster. Se eu apenas tivesse me casado com Rafe, para começo de conversa, como esperavam que eu fizesse. Eu também brinco desse jogo de “e se”, Tavish. É praticamente um hobby meu, mas descobri que é um jogo de infinitas possibilidades sem nenhum vencedor. Não importa o quão grande seja um dom ou uma habilidade, é impossível prever todos os resultados.
Ele não parecia convencido.
— Até mesmo depois de os encontrarmos, eu ainda não estava certo de que você viveria. A expressão no rosto de Rafe... — Ele balançou a cabeça, como se estivesse tentando apagar aquela memória. — Você me perguntou se eu sempre tenho certeza das minhas habilidades e dos meus dons. Antes daquele dia, a minha resposta teria sido sim.
— Seu plano pode não ter saído exatamente como você queria, mas ele nos salvou. Digo isso não para poupar os seus sentimentos, mas porque é verdade. Com o seu plano, nós tivemos uma chance. Sem ele, nossas mortes eram certas, desse tanto eu sei, e você também deve acreditar nisso. — Pigarreei como se estivesse perturbada. — Para falar a verdade, ordeno que você acredite nisso — acrescentei, com um ar esnobe.
Uma ponta de um sorriso quebrou a expressão solene dele. Nós seguimos cavalgando, dessa vez em um silêncio mais confortável, com meus pensamentos vagando para a culpa que ele tinha carregado nos últimos dias, a culpa que ainda cortava os meus pensamentos.
— Outra coisa — disse ele por fim. — Eu não entendo esse seu saber, mas quero tentar compreendê-lo. O dom em algum momento pode errar?
Errar? Imediatamente pensei em Kaden dizendo que tivera uma visão de nós dois juntos em Venda, com ele carregando um bebê no colo, e então eu me lembrei do meu sonho recorrente em que Rafe me deixava para trás.
— Sim. Às vezes — foi minha resposta.
Às vezes, o dom tinha que estar errado.

14 comentários:

  1. Hmm continua tendo mentiras, ainda vai dar confusão. O Rafe quer ir para Dalbreck e ela para Civica. Complicado isso.

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  2. mano ela é louca de ir pra lá,mas acho q a familia dela realmente gostava dela,e se ela ajudá-los pode ser q eles a perdoeem,mas e se nn?ai ,coitada dela,mas de vdd,até agora ela foi a melhor personagem feminina q eu conheci,a única q foi traída diversas vezes,sofreu diversas vezes e ainda assim nn ficou naquele estado de"vazio"sem fazer nd,sem mudar muito,e fazer um monte de besteira,ela continua diva

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    1. Gosto muito dela mais prefiro a protagonista de Trono de Vidro
      Ela é maravilhosa
      Mais Lia também.

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    2. Ninguém se compara a Aelin Galathynius.

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  3. Vai acabar esse livro e eu ainda não vou ta conformada que a Lia não ficou em Venda e virou a Komizar

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    1. Eu pensei seriamente q ela iria se casar com ele. #iludida

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  4. Lendo o livro e comendo pipoca huehur

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  5. Gente se vcs gostam da lia..qdo acabarem esse livro..vao gostar de corte de espinhos e rosas acabei de ler..O início é meio devagar mais a serie é top..a personagem feminina é ótima tb e seu par masculino é o melhor..me apaixonei por ele no livro 2

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    1. Eu coloquei esse livro pra comprar. Obrigada pela recomendação... Eu adoro a Lia *-* Tem aqui já?

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    2. Ta no blog 2 da Karina por conter cenas mais "quentes" hihi 🙃

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  6. Às vezes, o dom tinha que estar errado.
    Aí que vc se engana Lia talvez o dom nunca esteja errado... Quem sabe o que virá a frente ñ é mesmo!? 😉🤔🤔

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  7. "O dom tinha que estar errado"
    Sinto muito. O dom não erra, queria Lia.

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  8. Ainda tenho a sensação de que Rafe vai traí-lá. Ele gosta dela mas acho que tem outras intenções escondidas aí, fora que ele mente pra ela, pois nunca a levará para Morrighan. Acho que ele mentiu tão bem fingindo ganância ao falar dos planos do príncipe pq no fundo ele tbm é ganancioso e tem outros planos

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Boa leitura, E SEM SPOILER!