20 de fevereiro de 2018

Capítulo 88

PAULINE

A batalha podia ter acabado, mas ainda era travada em sonhos. Foi preciso um regimento de soldados junto comigo, Gwyneth, Berdi e Natiya para conter as crianças-soldados que eram conduzidas para fora do vale, e para confortá-las nos dias que se seguiram. Até mesmo do acampamento nós ouvíamos as explosões, o terror, os gritos reverberando pelo vale. Logo antes de acabar, eu me coloquei de joelhos, procurando por Lia, rezando pela sua segurança e pela sua força, rezando para que a voz dela fosse ouvida pelos vendanos.
Natiya, ela mesma só uma menina, falou com as crianças com palavras que lhes eram familiares, e parecia, às vezes, que isso era tudo que as aquietara e que nos fizera aguentar a noite. No dia seguinte, as crianças ainda tremiam de medo, abaladas, encolhendo-se ao nosso toque. Era difícil ganhar a confiança delas. Eu entendia bem demais que confiança era uma coisa que não podia ser forçada nem obtida de uma hora para outra, mas também sabia que viria com paciência, lentamente, dia após dia, e eu estava pronta para dar as crianças esse tempo, não importando o quanto demorasse.
Quando entrei no vale e vi os mortos, e então o cuidado das centenas que estavam feridos, pensei sobre a devastação descrita nos Textos Sagrados e nos punhados de Remanescentes que conseguiram sobreviver. Nós quase tínhamos sido eles. Beijei dois dedos, um para os perdidos e outro para aqueles ainda por vir, e rezei para que a separação dos bons e dos maus tivesse acabado.
Nós não podíamos mais ceder qualquer vida aos céus.
— Acabei de cuidar deste aqui — disse a cirurgiã. Ela limpou o sangue das mãos, e segui os sentinelas enquanto eles carregavam Kaden até a extremidade mais afastada da tenda.



KADEN

Estiquei a mão para baixo, tateando a minha perna.
— Não se preocupe. Ela ainda está aí.
Pauline limpava minha testa com um pano molhado. Minha cabeça ainda estava zonza por causa do elixir que a cirurgiã me dera. A tenda estava cheia de feridos. Havia mais uma dúzia de tendas como aquela. Eu tive que viver com a madeira na minha perna por três dias. Havia muitos feridos para os poucos cirurgiões aqui cuidarem de todos de uma vez. Quase aceitei a oferta de Orrin de cortar o pedaço de madeira fora para mim. Tavish estava deitado em um saco de dormir do lado oposto ao meu, com o braço e o pescoço cheio de bandagens. Metade das suas longas madeixas se foram. Ele ergueu o braço bom como uma forma de me dar boas-vindas, mas até mesmo esse pequeno esforço deixou-o com uma careta de dor.
Rafe sentou-se em um engradado no canto oposto enquanto Berdi esfregava um bálsamo curador nas mãos dele. Outra pessoa colocava um curativo em um talho que ele tinha no ombro, e então enfiou o braço dele em uma tipoia. Eu podia ouvir Gwyneth através das paredes da tenda, dando ordens para que Griz fosse buscar mais baldes de água e para que Orrin rasgasse mais panos para bandagens. O período pós-batalha era tão ruidoso quanto a batalha em si, mas era um tipo de barulho diferente.
 — O Capitão da Vigília? — perguntei.
Pauline balançou a cabeça.
— Nenhum sinal dele — respondeu ela.
Os covardes fugiram de fininho, e o paradeiro tanto dele quanto de uma meia dúzia de membros do conselho era desconhecido. Era possível que estivessem em meio à massa de corpos mortos, não mais reconhecíveis.
— Se estiverem vivos, foram rastejando para dentro de profundos buracos negros — disse Pauline ainda. — Nós nunca os veremos de novo.
Assenti e esperava que ela estivesse certa.



RAFE

— Como estão as suas mãos?
— Berdi acabou de trocar os curativos — respondi. — Devo conseguir cavalgar dentro de alguns dias.
— Que bom.
— E como está o seu ombro? — perguntei.
— Dolorido... porém, valeu a pena. Você pode puxá-lo para colocá-lo no lugar quando desejar.
Eu mal tinha chegado até Lia antes que ela fosse até o penhasco com o Komizar e Calantha. Minhas mãos ainda estavam molhadas com a minha própria carne queimada, mas peguei no pulso dela e a puxei de volta. Até mesmo com os nossos machucados, eu e ela estávamos dentre os sortudos. Eu contara a Kaden sobre Andrés, mas o corpo dele nunca foi encontrado, talvez tivesse sido pisoteado por um Brezalot além da possibilidade de ser reconhecido.
O custo para Dalbreck foi alto. Pelas contas do general Draeger, havíamos perdido quatro mil soldados. Sem a súplica de Lia e sua promessa aos vendanos, o conflito não teria tido fim. Não havia qualquer dúvida na mente de Draeger agora de que o Komizar teria assolado Morrighan, e depois a nós, fazendo-nos desaparecer da face da terra.
Forças dalbretchianas, vendanas e morrighesas trabalhavam juntas durante o período imediatamente subsequente à batalha, e Lia falava com os vendanos todo dia, ajudando a prepará-los para sua jornada de volta para casa.
— Nós devemos estar prontos para partimos dentro de uns poucos dias também — disse ela.
Os últimos corpos tiveram que ser queimados. Havia corpos demais para enterrar.
— Jeb?
Ela assentiu e saiu andando.



LIA

Quase duas semanas já tinham se passado. O último dos mortos fora enterrado ou queimado, inclusive o Komizar. Era estranho olhar para o corpo sem vida dele, os dedos que apertaram a minha garganta, a boca que sempre continha ameaças, o homem que olhara para uma cidade-exército e imaginado os deuses sob o seu polegar. Tudo em relação a ele agora era tão ordinário.
— Nós podemos deixar o patife para os animais — um sentinela falou para mim. Imaginei que minha expressão pudesse ter sugerido tal pensamento. Olhei para Calantha, que jazia ao lado dele.
— Não — falei. — O Komizar se foi. Ele é só um menino chamado Reginaus agora. Queime seu corpo junto ao dela.
Jeb recebeu uma pira funérea própria. Eu o tinha encontrado vivo na manhã depois da batalha enquanto realizávamos uma busca em meio à pilha de corpos. Puxei a cabeça dele para cima do meu colo, e seus olhos tinham se aberto.
— Vossa Alteza — disse ele, cuja face estava suja e ensanguentada, mas os olhos ainda brilhavam com vida.
— Estou aqui, Jeb — falei, limpando o sangue da sua testa. — Você vai ficar bem.
Ele assentiu, mas nós dois sabíamos que era mentira.
A expressão dele contorcia-se de dor enquanto ele forçava um sorriso.
— Olhe só isso. — O olhar contemplativo dele voltou-se para baixo, na direção do seu peito que sangrava. — Arruinei mais uma camisa.
— É só um pequeno rasgo, Jeb. Eu posso consertar. Ou arrumar uma camisa nova para você.
— Linho de Cruvas — disse ele, cujas respirações saíam cortadas.
— Sim, eu sei. Eu lembro. Sempre vou me lembrar.
Os olhos dele brilhavam, e naqueles olhos ficou por um tempo um último olhar de quem sabia das coisas. Então, ele se foi.
Alisei os cabelos dele. Sussurrei o seu nome. Limpei a sua face. Embalei-o. Abracei Jeb como se ele fosse todo mundo que eu vira morrer nesse último ano, todos aqueles que eu não tivera tempo de abraçar. Eu não queria soltá-lo nunca mais. E então enterrei o meu rosto no pescoço dele e chorei, aos soluços. Meus dedos se entrelaçaram com os dele, e eu me lembrei da primeira vez em que o encontrei, um coletor de fezes ajoelhado no meu quarto, dizendo-me que ele estava lá para me levar para casa. Um sentinela roçou o meu braço, tentando me convencer a soltá-lo, mas eu o empurrei para longe. Uma vez na vida, eu não seria apressada para me despedir de alguém.
Essa seria a última vez em que eu choraria, mas não importava quantos outros corpos empilhássemos para que fossem queimados ou enterrados. A imensidão da morte era entorpecedora. No entanto, eu sabia que, em algum ponto, as lágrimas voltariam. A dor tomaria conta de mim de forma inesperada e me colocaria de joelhos. Não existia qualquer regra para o pesar e o luto, mas havia regras para a vida, e, nesses primeiros dias, os requisitos demandavam que eu continuasse seguindo em frente.
Tinha outros — Perry, Marques, o Marechal de Campo — que também não sobreviveram, outros oficiais estavam gravemente feridos, e ainda havia aqueles que lutaram tão heroicamente quanto eles e estavam incólumes. Os governadores Umbrose e Carzwil eram os únicos membros do conselho que baixaram as armas junto com os clãs. Eles também tinham outro tipo de esperança.
O general Draeger era um dos que ficaram incólumes, e ele me ajudou no período subsequente à batalha, às vezes, fazendo as tarefas mais duras e mais destruidoras de corações. Nós dois seguramos um jovem vendano enquanto seu braço mutilado era cortado fora das engrenagens de uma das armas mal planejadas do Komizar.
— Eu lhe devo um pedido de desculpas — disse ele certo dia, quando caminhávamos de volta ao acampamento. — Você não é o que eu esperava.
— Nenhum pedido de desculpas se faz necessário — falei. — Você também não é o que eu esperava. Achei que você fosse um asno insuportável que só se vendia pelo poder.
Ele sugou o ar, surpreso.
— E agora?
— Em vez disso, eu me deparo com um homem que é apaixonado e profundamente leal ao seu reino. Admiro-o grandemente por isso, general, mas essa pode ser uma linha estreita a se navegar. Às vezes, pode nos levar a cruzar limites. Eu sei como é a sensação de ter as minhas escolhas tomadas de mim. Eu rezo para que nenhuma filha do seu reino tenha que jamais lutar para que sua voz seja ouvida, como eu tive que fazer.
Ele pigarreou. Aparentemente, eu não tinha muita sutileza.
— Foi por isso que você fugiu do casamento? — ele perguntou.
— Todo mundo merece ser amado, general, e não porque um pedaço de papel ordena que isso aconteça. A escolha é poderosa e pode levar a grandes coisas se não for mantida nas mãos fortemente cerradas de uns poucos.

* * *

Os suprimentos de comida que o Komizar tinha estocado havia, em grande parte, durado. Eles seriam o bastante para nós até voltarmos a Venda. Eu me encontrei com os clãs e chorei nos ombros deles, e eles, nos meus. Dia após dia, eu sentia a nossa determinação se juntando como um osso quebrado, nossa cicatriz compartilhada nos tornando mais fortes. Rejeitei o título de Komizar, mas aceitei o título de rainha.
E até mesmo com a minha força e a minha esperança crescendo todo dia, quando nós nos encontramos no fim do vale para nos despedirmos das tropas morrighesas e dalbretchianas, senti uma pequena parte dessa esperança desaparecendo.
Abracei Tavish e Orrin, e então eu e Kaden demos apertos de mãos nos generais Howland e Draeger. O general Draeger ficou hesitante, como se quisesse dizer mais alguma coisa para mim, mas então ele apenas apertou a minha mão e me desejou tudo de bom.
Rafe deu um passo à frente e segurou na mão de Kaden. Eles nada disseram; em vez disso, estudaram um ao outro, e então trocaram assentimentos de cabeça, como se algumas palavras já tivessem sido trocadas entre eles.
Fiquei fitando Rafe e enchi a minha mente de uma centena de memórias do que era, de modo que eu não tivesse que pensar no que estava por vir. Pensei na primeira vez em que ele fez cara feia para mim na taverna de Berdi, no sol formando faixas nas maçãs do seu rosto quando ele foi até o Cânion do Diabo, nele procurando por palavras a dizer quando perguntei de onde ele era, no pequeno coração de suor na sua camisa enquanto ele tirava teias de aranha das calhas, do toque curioso do seu dedo traçando o kavah no meu ombro, da fúria das nossas vozes enquanto discutimos logo antes do nosso primeiro beijo, das lágrimas nos olhos dele enquanto ele me levantava de uma margem gélida de rio.
No entanto, na maior parte do tempo, eu me lembrava das poucas horas roubadas quando reinos não existiam para nós.
— Lia.
Minhas memórias iam embora, e o sol, de repente, estava quente e ofuscante.
Rafe veio andando até mim. Kaden e os oficiais ficaram olhando para nós. Não havia qualquer privacidade nesse momento, e talvez fosse melhor assim.
— Você precisa retornar aos seus deveres em Dalbreck agora — falei. Era uma afirmação, embora eu soubesse que ele tinha ouvido a pergunta que eu fiz sutilmente.
Ele assentiu.
— E você tem os seus deveres em Venda.
A mesma pergunta estava escondida nas palavras dele.
Assenti.
— Fiz promessas, exatamente como você.
— Sim. Promessas. Eu sei. — Ele mexeu os pés, olhando para baixo de relance por um instante.
— Vamos esboçar os novos tratados em breve. Vamos enviá-lo a você e aos outros reinos.
— Obrigada. Sem o exemplo de Dalbreck, não teríamos como fazer isso acontecer. Eu lhe desejo tudo de bom, rei Jaxon.
Ele não me chamou de rainha Jezelia, como se não pudesse aceitar o título e a escolha que eu tinha feito. Ele nunca amara Venda do mesmo jeito que eu.
Ele me fitou por um longo tempo, sem falar, e por fim respondeu:
— Eu também lhe desejo tudo de bom, Lia.
Nós nos despedimos, ele seguindo o caminho dele e eu, o meu, nós dois comprometidos a ajudar os reinos que amávamos a construir um futuro. Havia muitas formas de uma vida ser sacrificada, e nem sempre era morrendo.
Olhei para trás, por cima do ombro, observando enquanto ele cavalgava para longe, e então pensei no comentário que Gwyneth fizera havia muito tempo. Amor... é um truquezinho bem legal se você conseguir encontrá-lo.
Nós tínhamos encontrado o amor.
Agora, no entanto, eu sabia que encontrar o amor e se prender a ele não eram a mesma coisa.

* * *

Voltei cavalgando até os muitos vendanos que esperavam pelo meu sinal, cujas faces estavam cheias de esperança, prontos para começar o futuro que eu prometera a eles, e acenei para que nossa caravana seguisse em frente, de volta para casa.

19 comentários:

  1. Eu sabia que alguém importante poderia morrer, é uma guerra afinal. Até que não foi taaao sofrida assim. Pelo anjo. Que terror. Ah. Kaden e Lia em Venda! <3

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  2. Lendo entre lágrimas ..ahhh não queria que Jeb,tivesse morrido ,me apeguei tanto a ele ..

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  3. os dois poderia governar os dois reinos juntos!!! que merda

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  4. Pelo anjo!! Raziel que me ajude ... Jeb estou chorando!

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  5. IMAGINEI OS REINOS SE UNINDO. ELA RAINHA NO LUGAR DO PAI (ELE PASSANDO O TÍTULO) ELA CASADA COM RAFE SENDO A RAINHA DE DALBRECK E ESCOLHIDA COMO RAINHA DE VENDA. PERFEITO RAINHA DE 3 REINOS

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  6. Só chorei na morte do Jeb ahhhhh meu coração 😔😔😔

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  7. Eu Tô chorando muito

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  8. No leito de morte e preocupado com a camisa bem a cara do Jeb

    Mirtiz

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  9. não aceito a morte de Jeb

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  10. Chorei pelo Jeb. Nao foi justo isso!! 😭😭

    Andreza.

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  11. 😣😂 Muito triste!

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  12. Era para o Rafe e a Lia ficarem juntos. Passaram por tanta coisa...palhaçada isso 😳

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  13. sem comentários-perplexa... ISSO NAO É JUSTOOOO!

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Boa leitura! E SEM SPOILER!