20 de fevereiro de 2018

Capítulo 87

Os coroados e os derrotados,
A língua e a espada,
Juntos eles atacarão,
Como estrelas cegantes lançadas dos céus.
— Canção de Venda —



LIA

Nutra a fúria.
Meu coração socava selvagemente o peito.
O exército era um borrão no fim do vale. Uma sólida onda que rolava. Condensando-se. Erguendo-se. Solidificando-se enquanto o vale se estreitava.
O ritmo deles era deliberadamente relaxado. Despreocupado.
Eles não tinham necessidade de se preocupar. Eu já os vira se aproximando dos penhascos na entrada do vale antes de voltar cavalgando para assumir minha posição. Eu já observava quão longe eles se estendiam, o quão imbatíveis eram. Até mesmo a trilha que deixavam para trás era incrível, como se fosse a poeira de uma estrela cadente cruzando o céu. Trilha esta que se estendia por quilômetros. Eles marchavam em dez divisões, a infantaria na frente, seguida do que pareciam ser suprimentos, artilharia e hordas de Brezalots. Outra infantaria vinha em seguida, e então uma quinta divisão de soldados montados a cavalo. Havia um peso nessa divisão, alguma coisa densa e mais agourenta do que o restante. Não havia qualquer dúvida na minha mente de que era nessa divisão que ele cavalgava, no meio, ao alcance rápido de todas as divisões, mantendo uma vigília da sua criação, sugando o seu poder e exalando-o novamente, como se fosse fogo.
O ritmo lento do exército dava nos nervos, exatamente como ele planejara.
Um esquadrão dos batedores deles tinha nos avistado, e então voltado às linhas de frente, provavelmente reportando nossos números patéticos. Cinco mil de nós defendiam a saída do vale, 5 mil que eles conseguiam ver. Outros estavam prontos para saírem em fluxo de trás de nós. O ritmo vendano continuava lento como um xarope fluindo sem parar, imperturbado. Nós éramos apenas uma pedra a ser pisoteada na trilha. Até mesmo se todo o exército morrighês bloqueasse a saída, o Komizar não se preocuparia. Na verdade, nós só aguçávamos seu apetite. Por fim, ele estava comendo o primeiro prato do festim pelo qual esperara por tanto tempo.
Morrighan.
Ouvi o nome do reino nos lábios dele. Com diversão. Pegajoso e enjoativo como uma bala de gelatina na boca. Ele o engolia como se fosse uma guloseima.
Se a fúria pulsava nas minhas veias, ela estava mascarada pelo medo que rugia nos meus ouvidos pelos milhares que estavam atrás de mim. Este poderia ser o dia em que eles perderiam as suas vidas.
Rafe e Kaden estavam sentados nos seus cavalos, cada um ao meu lado. Enquanto eu estava vestida para ser reconhecida, as roupas deles serviam a um propósito oposto. Ambos trajavam mantos pretos com os capuzes abaixados, o uniforme dos Guardiões Morrigheses. Jeb, Tavish, Orrin, Andrés e Griz formavam uma fileira atrás de nós, com os mesmos mantos. Nós não queríamos que fossem reconhecidos tão cedo.
— Eles estão brincando conosco — disse Rafe, os olhos travados na nuvem que seguia lentamente em frente.
Kaden soltou um xingamento baixinho.
— Nesse ritmo, estaremos lutando ao anoitecer.
Nós não podíamos nos apressar e seguir em frente. Precisávamos que eles viessem até nós.
— Acabou de passar do meio-dia — falei, tentando me acalmar tanto quanto acalmar a ele. — Ainda temos horas de luz do dia.
E então um cavalo se soltou das suas linhas de frente. Uma manchinha ao longe a princípio, mas que depois veio com rapidez. Ouvi os ruídos das catapultas enquanto ele vinha tempestuosamente na nossa direção. No entanto, alguma coisa em relação à sua coloração estava errada.
— Esperem! — falei.
Não era um Brezalot. E havia um cavaleiro.
Conforme ele se aproximava, eu soube.
Era o Komizar.
Ele parou a uns cem metros de distância. Então estirou as mãos para cima para mostrar que não estava armado.
— Que diabos ele está fazendo? — perguntou Rafe.
— Solicito uma conversa com a princesa — disse ele. — Sozinho!
Uma conversa? Ele ficou doido? Mas então pensei: Não. Ele está mortalmente são.
— E trago um presente demonstrando a minha boa vontade — completou ele. — Tudo que peço é um momento para conversar... sem armas.
Tanto Rafe quanto Kaden ficaram hesitantes, mas então o Komizar esticou a mão atrás das suas costas e jogou uma criança no chão.
Era Yvet.
Meu coração parou. A grama a engolia até a cintura.
Eu me lembrava do dia em que eu a vira reunida e agachada no mercado com Aster e Zekiah, segurando com firmeza um tecido ensanguentado depois que a ponta do seu dedo tinha sido cortada fora. Ela parecia menor e mais aterrorizada agora.
O Komizar desceu da sua montaria.
— Ela é toda sua — disse ele — apenas pelo preço de uns poucos minutos.
Rafe e Kaden foram contra, mas eu já estava desafivelando o cinto e entregando a eles minha espada e minhas facas.
— Nossos arqueiros podem derrubá-lo e podemos ficar com a criança — argumentou Rafe.
— Não — respondi. Nada era tão simples com o Komizar. Nós dois conhecíamos bem demais um ao outro, e essa era uma mensagem muito clara para mim. — E quando terei Zekiah de volta? — eu disse em resposta a ele.
O Komizar sorriu.
— Quando eu tiver voltado em segurança até as minhas linhas. Então, eu o enviarei. Mas se eu não voltar... — Ele deu de ombros.
Ele gostava disso. Era um jogo, um teatro. Ele queria prolongar, espremer todas as peças um pouquinho mais apertadas na sua mão.
Eu sabia que tanto Rafe quanto Kaden estavam a uma batida de coração de fazerem um sinal para os arqueiros. O sacrifício de uma criança pela besta em si. Uma criança que poderia morrer de qualquer forma. Uma criança que provavelmente morreria de qualquer forma. E o prêmio estava ao nosso alcance. Contudo, era uma escolha que vinha com um preço, preço este que o Komizar já tinha calculado. O ar estava tenso com a decisão. Ele estala lá, em pé, parado, sem medo, sabendo, e eu o odiava ainda mais profundamente. O quanto eu era como ele? Quem eu estava disposta a sacrificar para conseguir o que queria?
— O destino do Komizar virá depois — sussurrei. — Não coloquem as mãos na besta ainda.
Cavalguei ao encontro dele, mas quando ainda estava a uns dez metros de distância, desci da minha montaria e acenei para que Yvet viesse para a frente. Ela voltou os olhos assustados e arregalados para o Komizar. Ele assentiu, e ela veio andando até mim.
Eu me ajoelhei quando ela chegou perto, e a menina estendeu as mãos minúsculas.
— Yvet, está vendo aqueles dois cavalos bem lá atrás de mim, com os soldados que estão com os mantos?
Ela olhou além de mim para os milhares de soldados, com o lábio tremendo, mas então avistou os dois que trajavam mantos escuros. Ela assentiu.
— Que bom. Eles vão cuidar de você. Eu quero que vá até eles agora. Eu quero que corra e não olhe para trás. Não importa o que veja ou ouça, você vai seguir em frente, está me entendendo?
Os olhos dela estavam marejados de lágrimas.
— Vá — falei. — Agora!
Ela saiu correndo, tropeçando pela grama. A distância parecia de muitos quilômetros, e, quando ela chegou até eles, Kaden a pegou, ergueu-a e a entregou a outro soldado. Meu estômago pulou até a minha garganta. Engoli em seco, forçando a bílis descer. Ela conseguiu, falei para mim mesma. Forcei minhas respirações a assumirem um ritmo lento e voltei a ficar cara a cara com o Komizar.
— Está vendo? — disse ele. — Mantenho a minha palavra. — Ele assentiu para que eu fosse à frente. — Vamos conversar.
Fui andando até ele, procurando por irregularidades, coisas se projetando nas suas roupas, uma faca esperando para me fazer pagar. Conforme eu me aproximava, via as linhas da sua face, a pungência das maçãs do seu rosto, o peso que meu ataque tivera sobre ele. No entanto, eu também via a fome ardendo nos seus olhos. Parei na frente dele. Seu olhar contemplativo rolava sem pressa por mim.
— Você queria conversar?
Ele abriu um sorriso.
— As coisas chegaram a este ponto, Jezelia? Nada de gentilezas?
Ele ergueu a mão, como se fosse acariciar meu rosto.
— Não toque em mim — falei, em tom de aviso. — Ou mato você.
Ele levou de volta a mão à lateral do seu corpo, mas seu sorriso permanecia congelado nos lábios.
— Eu a admiro, princesa. Você quase fez o que mais ninguém mais conseguiu fazer nos onze anos da minha regência. Isso é um recorde, sabia? Nenhum outro Komizar ficou com comando por tanto tempo assim.
— Uma pena que esta regência esteja prestes a chegar ao fim.
Ele soltou um suspiro, de forma dramática.
— Como você ainda se prende às coisas. Eu gosto de você, Jezelia. Gosto mesmo. Mas isso? — ele acenou na direção das tropas que estavam atrás de mim como se fossem merecedoras de pena demais para que fossem consideradas. — Você não precisa morrer. Venha para o meu lado. Olhe tudo que tenho a oferecer.
— Servidão? Crueldade? Violência? Você me deixa tão tentada, sher Komizar. Nós conversamos. Pode voltar agora.
Ele olhou além de mim, para as tropas.
— Aquele lá atrás é o príncipe? Com os cem homens dele que entraram tempestivamente na cidadela? — Seu tom estava denso com a zombaria.
— Então o Vice-Regente veio correndo até você com o rabinho entre as pernas.
— Eu sorri quando ele me contou o que você fez. Fiquei impressionado por ter conseguido expor os meus espiões. Como está o seu pai?
— Morto. — Ele não merecia qualquer verdade de mim. E quanto mais fracos ele achasse que estávamos, melhor.
— E os seus irmãos?
— Mortos.
Ele soltou um suspiro.
— Isso tudo está fácil demais.
— Você não me perguntou sobre Kaden — falei.
O sorriso dele desapareceu, e a expressão ficou sombria. Eu também o conhecia bem. Kaden foi um golpe que ele não conseguia esconder. Havia algo neste mundo que ele amava, afinal de contas. Algo que ele salvara, nutrira, mas que se voltara contra ele. Algo que apontava para o próprio fracasso dele.
Uma pequena onda de pedrinhas de repente veio caindo dos penhascos acima. O Komizar ergueu o olhar, analisando as ruínas vazias, virando-se para olhar para o outro lado. O silêncio de respirações contidas tomava conta do vale.
Ele voltou a olhar para mim e abriu um largo sorriso.
— Você achou que eu não soubesse?
Minha barriga ficou gelada.
Ele se virou como se fosse ir embora, mas então deu um passo, aproximando-se de mim.
— É a menina no terraço que está chateando você, não é? Admito que fui longe demais. Foi uma coisa de momento, sabe? Será que um pedido de desculpas faria com que mudasse de ideia?
Coisa de momento? Encarei-o. Não havia palavras. Nenhuma palavra.
Ele se inclinou para baixo e deu um beijo na minha bochecha.
— Pensei que não.
Ele se virou e voltou andando até o cavalo. A fúria veio, cegante, brilhante, voraz.
— Mande vir Zekiah! — gritei.
— Farei isso, princesa. Eu sempre sou fiel à minha palavra.



KADEN

Entreguei Yvet a um soldado. A menina estava se engasgando com seus soluços mesclados com choro, mas não havia tempo para confortá-la.
— Leve-a até Natiya — falei.
Lia tinha montado um acampamento do lado de fora do vale para quaisquer crianças que conseguíssemos capturar. Gwyneth, Pauline e outros soldados estavam lá. Natiya falava o idioma e precisaria garantir a eles que nenhum mal lhes seria feito, o que poderia até ajudar a confortá-los, presumindo que conseguíssemos fazer com que mais alguns deles saíssem vivos do vale.
Voltei a subir no meu cavalo, observando enquanto Lia chegava mais perto do Komizar. Aquilo era loucura. Eu supervisionava os penhascos. Observava a muralha do exército preparado, nas suas posições, para o ataque. Observava e esperava, e sabia que aquela não era uma simples negociação entre inimigos. Era para soltar os nervos. O lento sacar de uma faca sobre a pele. Um uivo do caçador se aproximando em uma floresta. Os cavalos batendo as patas no chão, sabendo, nervosos.
— Shhhhh — sussurrei.
Faça com que eles sofram.
Esse era o Komizar, fazendo aquilo que fazia de melhor.



RAFE

Por fim respirei enquanto o Komizar saía em cavalgada e Lia voltava no seu cavalo.
Zekiah foi entregue conforme prometido, inteiro e vivo. Ele foi levado rapidamente para fora do vale para esperar junto com Yvet. Eu tinha esperado pelo pior, pedaços, talvez, como o Komizar gostava de ameaçar, mas ele sempre sabia como virar o jogo. Plantar a dúvida.
Lia me avisara de que ele sabia que havia tropas lá no alto das ruínas, e enviei soldados para alertá-los. Ele podia ter ficado sabendo que estavam lá, mas não sabia exatamente de onde atacariam nem quantos soldados tínhamos. Era um longo vale e, quando o Vice-Regente escapara, ele só sabia sobre mim e meus cem homens, e não de todo o exército de Dalbreck.
A nuvem rolava na nossa direção de novo. No entanto, dessa vez, com uma fome voraz. Senti o trovão tanto de pés de humanos quanto de patas de animais, ambos unidos como uma única fera rugindo. Senti nossas tropas ficando tensas, preparadas para saírem com tudo. Estirei o meu braço esquerdo, fazendo um sinal para que ficassem no lugar. Contenham-se.
— Você tem certeza de que ele os enviará antes? — perguntei a Lia. Com as altas colinas ao nosso redor, o crepúsculo já estava se fechando sobre nós.
Os nós dos dedos de Lia ficaram brancos. Uma das suas mãos prendeu-se com firmeza nas rédeas, e a outra foi até o punho da espada.
— Sim. O fato de que ele usou Yvet e Zekiah é prova disso. Ele me conhece. Sabe o que perturbará os nossos soldados e o que fará com que hesitem. Nós não somos como ele.
Nós os víamos chegando mais perto, e suas feições entraram por fim no nosso campo de vista, fileiras de soldados, dez ao fundo, uma centena na lateral. Nenhum deles era mais velho do que Eben ou Natiya. A maioria era muito mais nova do que eles. Enquanto avançavam, eu via os seus rostos, selvagens, que já mal podiam ser reconhecidas como faces de crianças.
Fiz sinal para que a guarda com os escudos fosse para frente e assumisse a posição.
— Escudos erguidos! — ordenei. Os escudos deles entrelaçaram-se com uma precisão treinada. — Arqueiros, à frente! — chamou-os Orrin.
E então o primeiro dos Brezalots atacou.



LIA

O animal provocado passou rapidamente pelas linhas de frente deles, seguindo em direção à guarda de escudos. As atiradeiras que estavam acima de nós foram movidas para as cordilheiras, inclinadas e em prontidão. Observei enquanto eles a viravam, mirando. Tavish esperava com uma paciência perturbadora e, por fim, fez sinal para os dois que tinham os melhores ângulos.
— Fogo! — as lanças de ferro voaram.
Uma delas errou o alvo, mas a outra foi um tiro perfeito, espetando o animal no ombro. O Brezalot tropeçou, caiu, e então a terra explodiu a uma distância segura, com uma chuva de campina, cavalo e sangue, os pedaços ainda em chamas. O cheiro de carne queimada enchia o ar.
Então mais um Brezalot veio.
E mais um.
O segundo foi derrubado, mas o terceiro só foi atingido de raspão pela lança de ferro, e atacou a guarda com escudos. Seguiu-se uma confusão para fugir, mas era tarde demais. O Brezalot explodiu, deixando um grande buraco cercado por corpos mortos e pedaços da besta. Orrin e seus arqueiros foram jogados no chão pela rajada. Rafe e a infantaria correram à frente para ajudá-los, e o Komizar usou o caos resultante para enviar sua brigada de crianças-soldados para desmoralizar ainda mais.
— Retirada! — berrei, em voz alta e frenética, de forma que até mesmo o Komizar nos ouviria. — Retirada!
Nossas linhas cambaleavam para trás, a guarda segurando os escudos desordenadamente, mas a infantaria atrás de nós entrava em posição. Em prontidão.
Eu observava. Sem fôlego. Esperando. Fazendo valer uma paciência que não sabia que tinha. Os guardas com escudos foram cambaleando para trás. As crianças-soldados vinham com tudo para cima deles, vindo do meio do vale na nossa direção.
— Retirada! — gritei outra vez. As tropas vendanas aguardavam, esperando que os jovens soldados aumentassem o nosso caos antes que eles se movessem e entrassem com as suas armas pesadas. Observei, com o coração martelando no peito, e então, quando a última das crianças cruzou uma determinada linha, gritei: — Agora!
A terra se erguia no ar. Pedaços de campina e grama voavam enquanto fileiras de estavas com pontas afiadas saíam voando debaixo do piso do vale. Duas fileiras impossíveis de serem ultrapassadas cruzavam a extensão lateral do vale, prendendo as crianças do nosso lado. Elas se viraram, pasmas pelo barulho, e então redes foram lançadas, caindo em cima delas, prendendo-as ainda mais. A infantaria se apressou a seguir em frente para subjugá-los e guiá-los para fora do vale até onde Natiya, Pauline e Gwyneth esperavam com mais soldados.
Fui correndo para a frente, parando na parede de estacas. Eu sabia que tinha apenas segundos antes que um outro Brezalot estivesse pronto para irromper pela nossa parede ou para que outra das atrozes armas deles fosse lançada.



KADEN

Oito vendanos cavalgavam conosco, aqueles em quem confiávamos, os que se revelaram lá na cidadela. Essa era a parte à qual eu sabia que Rafe tinha objeções ou que talvez temesse, mas ele seguiu cavalgando em frente ao lado de Lia, e eu, no outro lado, observando para ver se havia arqueiros ou outros dentro da linha de alcance para derrubá-la.
Havia calamidade do lado oposto das estacas, uma onda de perturbação atrás das linhas de frente, ordens rolando para trás.
— Irmãos! Irmãs! — disse Lia, chamando a atenção deles de volta para ela. Mais palavras ondearam em resposta. Havia vendanos ao lado dela, incluindo eu mesmo e Griz, o que foi o gatilho para o surgimento de um tenso silêncio. Ela fez uma súplica por rendição, ajuste, uma promessa de paz, mas tinha havia sequer terminado a proposta quando o Komizar, o chievdar Tyrick e o governador Yanos abriram caminho à frente com tudo nos seus cavalos. Os olhos do Komizar recaíram por um breve momento sobre mim, e o fogo da minha traição ainda ardia neles, e então sua atenção se voltou para um soldado que dera um passo à frente e abaixado sua arma, ouvindo os apelos de Lia. O Komizar girou sua espada, e o homem foi fatiado ao meio. Os soldados da linha de frente ergueram as armas, que seguravam com firmeza em punhos cerrados, quentes com o fervor de evitar o mesmo destino, e então uma horda de Brezalots vinha com tudo na nossa direção.



RAFE

Fui jogado do meu cavalo. Lascas de madeira choviam para cima de mim. Uma trombeta ressoava, reverberando pelo vale. Rolei e fiquei em pé, com a espada em mãos e o escudo erguido. Os batalhões foram lançados. Nos penhascos ao longe, via forças lideradas por Draeger atacando por uma trilha abaixo. No lado oposto, os homens de Marques faziam o mesmo, em um esforço para dividir as forças vendanas em duas. Tavish lutava às minhas costas, com o alto ressoar do aço se enrolando ao nosso redor, tanto eu quanto ele girando, arremessando e cortando a parede de vendanos que vinha para cima de nós. Finalmente voltamos para os nossos cavalos e matamos os vendanos que estavam prestes a reivindicá-los para eles. De cima da minha montaria, procurei em meio ao caos de marrom, cinza e metal lampejante por um vislumbre que fosse de Lia. Ela se fora. Fomos abrindo caminho lutando, com outros escalões, e então avançamos com muito esforço em meio às linhas inimigas, e fomos em direção à quinta divisão.



LIA

Fiquei em pé me arrastando, com um aglomerado de soldados do meu lado. Uma poeira espessa enchia o ar. Eu tinha perdido tanto Rafe quanto Kaden de vista. Vendanos vinham como em um enxame, passando pelas estacas estilhaçadas. Ouvi os ofegos borbulhantes de soldados empalados com madeira lascada. A escuridão estava se insinuando, mas os desfiladeiros estavam iluminados com uma linha de fogo, e pedras eram catapultadas para espalhar forças vendanas enquanto batalhoes de Dalbreck seguiam também como um enxame em direção ao piso do vale. Jeb chegou ao meu lado.
— Por aqui — disse ele, e, com um pelotão dalbretchiano, nós fomos socando o chão e abrindo caminho em meio às linhas vendanas.
Os gritos de batalha enchiam o ar, ecoando impiedosamente entre as muralhas do vale. Ouvi o respirar pesado, as tosses, o som oco de morte soando repetidas vezes. O Komizar fora rápido ao silenciar a minha voz antes que eu atingisse até mesmo um pequeno número de vendanos, mas agora, com os mais jovens dos soldados vendanos em segurança longe do seu alcance, eu sabia onde tinha que ir, onde mais deles me ouviriam. Faces se tornavam um borrão enquanto avançávamos, com o escudo erguido, a espada golpeando, com Jeb cuidando de guardar as minhas costas, e eu, as dele. Meu escudo levou um golpe potente, e caí do cavalo. Rolei antes que um machado batesse no chão onde antes estava a minha cabeça, e então lancei a espada em entranhas macias enquanto o soldado vinha para cima de mim de novo.
Fiquei em pé em um pulo, girando, erguendo o meu escudo para evadir de outro ataque, e então, no girar de metal e sombra, meu olho avistou alguma coisa, coisa esta que era um brilho azul.



KADEN

As tropas vendanas se arrastavam sob o ataque de pedras que choviam em cima deles. O ataque lançado dos desfiladeiros era apenas uma distração até que os batalhões pudessem chegar ao fundo do vale. O sangue escorria na minha perna, onde um pedaço de madeira perfurava a coxa, como se fosse uma baioneta. Eu não conseguia puxá-lo para fora, então o parti, até mesmo enquanto apunhalava com a minha espada um vendano que eu conhecia e me atacava. E então matei mais um. E mais outro. Griz lutava para abrir caminho na minha direção. Lia estivera apenas a uns poucos metros de nós, e agora ela se fora. Nós atacávamos mais a fundo nos escalões vendanos. Minutos pareciam horas, nosso progresso era lento, um fluxo de soldados dalbretchianos e morrigheses lutando aos nossos lados, e de repente uma explosão abalou o vale.



RAFE

Uma nuvem de fumaça subia pelo céu, iluminando o vale com centelhas e chamas. Uma chuva de fogo caía, com milhares de brasas reluzentes ateando fogo tanto em homens quanto em animais, cavalos recuando com medo, soldados gritando enquanto pegavam fogo. Corri para um deles, empurrando-o no chão e rolando-o para apagar as chamas, e então vi Tavish. Ele batia nas chamas que subiam pelo seu braço, colocando fogo nos seus cabelos. Eu me pus a apagar as chamas dele, usando minhas mãos enluvadas para abafá-las. Ele gritou com agonia mesmo depois que o fogo foi extinto. Eu me inclinei para perto dele, tentando acalmá-lo.
— Você vai ficar bem, irmão — falei. — Prometo que vai ficar bem.
Ele gemeu com dor, e ordenei que outro soldado o levasse para trás das nossas linhas e o ajudasse a erguer-se em um cavalo.
O soldado partiu com Tavish, e foi então que senti as palmas das minhas mãos ardendo, já com bolhas por abafar as chamas. Arranquei minhas luvas fora. Elas estavam saturadas com a substância inflamável que tinha chovido sobre nós. Ajoelhei-me, pressionando as mãos junto à grama fresca, e então vi um outro soldado jazendo no chão ao meu lado. Era o filho do Vice-Regente, Andrés. O irmão de Kaden estava morto. Tive tempo apenas de fechar os seus olhos inexpressivos que fitavam o nada.
Cavalguei na direção do batalhão de Draeger, observando os vendanos caírem às dezenas e às centenas, mas não importava quantos mais caíssem, sempre haveria mais deles para os substituírem.
Quando eu cheguei aos nossos batalhões, Draeger e Marques tinham sido bem-sucedidos na tarefa de fragmentar a quinta divisão, mas já estávamos perdendo terreno.
Eu vi Kaden seguindo na minha direção. Lia não estava com ele, e meu coração parou. Onde será que ela estava?
— Eu a perdi — disse ele quando chegou perto de mim. — Ela não está com você?
Um vendano tão grande quanto Griz veio para cima de nós, girando uma maça em uma das mãos e um machado na outra. Ele batia com os punhos cerrados nos nossos escudos, empurrando-nos cada vez mais para trás, até que eu e Kaden fomos para o lado ao mesmo tempo e viemos de trás, com ambas as nossas espadas penetrando nas costelas dele. Ele caiu como uma árvore, chacoalhando o chão, e então, atrás dele, ao longe, nós dois avistamos o Vice-Regente.



LIA

O terror, o sangue, isso era como uma onda colidindo conosco repetidas vezes, vinda de todos os lados para cima de nós. Toda vez que um batalhão ganhava terreno, mais Brezalots eram cutucados para seguirem em frente, mais flechas eram atiradas, mais flechas de ferro giravam pelo ar, penetrando em escudos e carne, mais discos em chamas eram lançados, que grudavam na pele e tostavam pulmões. O barulho era ensurdecedor, rugindo pelo vale como uma tempestade implacável. Fogo e fumaça se erguiam, cinzas ardentes caíam. Eu perdi a minha direção, e o penhasco não estava mais à vista. Apenas a sobrevivência importava, a cada momento. Golpeando, apunhalando, recusando-me a deixar que ele vencesse. Isso não acabou.
Jeb estava feroz nos seus ataques, tão determinado quanto eu a irromper pela próxima onda de linha deles, mas não conseguíamos fazer nenhum progresso, nossas forças minguando a cada nova barragem de armas. Avistei vislumbres de um batalhão pesadamente armado à frente, homens a cavalo batalhando acima das cabeças da infantaria. Não havia tempo para procurar por Kaden e Rafe entre eles, mas eu sabia que era para lá que eles tinham se dirigido. O familiar guinchado cheio de dor de um Brezalot ressoava no ar. Eu sabia o que aquilo significava. Outro Brezalot fora sido carregado com explosivos e cutucado para seguir em frente. Ouvi o temeroso som oco dos seus cascos, o sibilar das suas respirações raivosas ficando cada vez mais altas enquanto vinham, trovejante, na nossa direção. Os sons ecoavam, multiplicavam-se, cercavam-nos. Eu me virei, não sabendo ao certo onde o Brezalot apareceria, e então uma mão áspera me empurrou, jogando-me para trás.
Era Rafe.
Fomos aos tropeços para o chão, até mesmo enquanto o mundo explodia.



KADEN

— Você não pode fazer isso.
A respiração dele estava dificultada, suas palavras saíam curtas, ele ainda estava tentando me convencer. Eu via o terror nos olhos dele. Eu era mais forte. Era mais rápido. Estava movido por onze anos de raiva.
Metal foi de encontro a metal. Os golpes vibravam entre nós. Você não pode fazer isso. Eu sou seu pai.
Ele desferiu um golpe, e a lâmina passou de raspão pelo meu braço.
O sangue escorria pela minha camisa, e os olhos dele estavam iluminados com a fome. Ele baixou o olhar de relance para a minha perna, ainda empalada com a estava de madeira. Vi o cálculo nos olhos dele. Quanta força eu ainda teria?
Eu mesmo não tinha certeza. Estava ficando mais difícil ignorar a dor. O fluxo de sangue estava pegajoso na minha bota. Eu o impeli para trás, o clangor do aço ruidoso no ar.
— Eu sou sei pai — disse ele de novo.
— Quando? — perguntei. — Quando alguma vez você foi meu pai?
As pupilas dele eram minúsculos pontinhos, e suas narinas estavam dilatadas. Não havia nenhum cheiro de jasmim nele agora. Apenas o cheiro do medo.
Minha lâmina fazia pressão na dele, segurando, empurrando, uma vida inteira de mentiras entre nós.
Ele se afastou, recuando vários passos.
— Eu tentei consertar as coisas com você — disse ele, sibilando. — Você não pode fazer isso. Filho. Vamos começar de novo. Ainda há tempo para nós.
Relaxei a pegada na minha espada. Abaixei a minha guarda. Fiquei encarando-o.
— Tempo? Agora?
Os olhos dele reluziam, e ele avançou para frente, como eu sabia que faria, jogando no chão a espada que estava na minha mão. Ele sorriu, pronto para mergulhar a lâmina em mim, mas, enquanto ele dava um passo à frente, fui mais rápido e, estando peito a peito com ele, enfiei a minha faca nas suas entranhas.
Seus olhos se arregalaram.
— Seu tempo acabou — sussurrei. — Pai.
E deixei que ele caísse aos meus pés.



RAFE

Eu me deitei sobre ela, protegendo-a enquanto chovia metal, madeira e fogo ao nosso redor.
— Rafe — sussurrou ela. Uma fração de segundo de alívio passou voando entre nós antes que a batalha se aproximasse de novo. Nós ficamos em pé, agarrando os nossos escudos e as nossas armas do chão. Uma nuvem de fumaça enchia o ar, e vendanos pasmados cambaleavam na nossa direção, com a rajada desorientando-os tanto quanto desorientavam o inimigo.
— Eu preciso chegar até o penhasco, Rafe. Tenho que falar com eles antes que todos nós estejamos mortos.
Nós saímos correndo nas sombras dos despenhadeiros. Avistei o penhasco à frente, mas então o governador Yanos se aproximou. O Capitão da Vigília, o Chanceler e um esquadrão de cinco soldados estavam parados atrás dele. Yanos deu um passo à frente.
— Entregue-a.
— Para que você possa colocar a cabeça dela em uma estaca? — respondi.
— Isso cabe ao Komizar decidir.
Meu punho cerrado se apertou no meu escudo. Senti as bolhas nas palmas das minhas mãos estourando, o líquido vazando entre os meus dedos.
— O penhasco está bem atrás de nós, Lia. Vá! — rezei desesperadamente para que uma vez na vida ela não discutisse comigo. Ouvi-a correndo.
O Chanceler sorriu.
— O penhasco é um beco sem saída. Não há nenhum lugar para onde ela possa ir. Você acabou de encurralar a presa para nós.
— Só se conseguir passar por mim. — Ergui a minha espada.
— Passar por nós — disse Draeger, e se pôs ao meu lado. Jeb estava com ele.



LIA

Corri na direção do penhasco, meus pulmões ardendo com a fumaça. Ouvi o desespero no comando de Rafe. Vá! Muitos estavam morrendo. Todo mundo estava perdendo, exceto o Komizar. O vale ainda rugia com a batalha. Como eles iam me ouvir?
O suor escorria pela minha testa, meus olhos ardiam, e eu me esforçava para ver o caminho à frente, mas, então, o azul lampejou mais uma vez, o brilho azul, um olho que não enxergava. Eu me engasguei com o ar acre, tentando ver em meio à fumaça, e então Calantha saiu das brumas nebulosas e bloqueou o meu caminho.
Ela estava trajando roupas com as quais eu nunca tinha visto vestida antes. Ela não era mais a senhora do Sanctum. Era uma guerreira feroz com sabres e facas embainhados na lateral do corpo. Uma das facas era minha. As joias brilhantes refletiam os fogos que ardiam.
Os nós dos dedos dela estavam firmes, segurando sabres que a mulher sabia usar.
Saquei lentamente a minha espada.
— Vá para o lado, Calantha — falei, esperando que ela pulasse. — Não quero machucar você.
— Não estou aqui para deter você, princesa. Estou aqui para lhe dizer que se apresse. Fale com eles antes que não sobre ninguém para conhecer a verdade deste dia. Eles não estão sedentos por isso. A sede deles é por outro tipo de esperança.
Um lorde de quadrante atacou em meio à fumaça, com um machado na mão, posicionado para ser enterrado em mim, mas Calantha lançou-se para cima dele, fatiando sua larga barriga, e o corpo dele tombou, caindo com um som oco na base do penhasco. Ela olhou para mim, repetindo a súplica de Rafe:
— Vá!
... e então ela se virou para derrubar um dos seus.



RAFE

Eu tinha lutado ao lado de Jeb antes, mas não de Draeger. Ele sabia por instinto quais eram os lutadores mais fortes. Nós lutávamos de costas uns para os outros. Eu mantinha o Chanceler à vista enquanto esmagava a face de outro soldado com o escudo e cortava a panturrilha de um outro até o osso. O Capitão da Vigília ficava para trás de todos eles. Os golpes de Draeger fizeram com que Yanos se afastasse, e o governador caiu. Draeger passou correndo por ele e depois deu meia-volta para bloquear os golpes de outro soldado. O Chanceler foi para frente de uma forma ameaçadora. O golpe da sua espada atingindo meu escudo fez o ar estalar, mas eu me desviei da força e ela passou de relance pelo crânio de um soldado que estava ao lado dele. Ele caiu enquanto Jeb enfiava a espada em um soldado que estava ao lado deste. Agora a luta estava de um para um, exceto pelo Capitão da Vigília, que ainda se acovardava atrás do outros. Minhas mãos ardiam na espada, deslizavam com as bolhas molhadas, mas firmei ainda mais a minha pegada, indo de encontro a cada golpe do Chanceler. Nossas espadas se cruzaram, pressionando uma à outra, nossos peitos subindo e descendo.
— Foi você — falei. Ele me empurrou para longe e girou a espada. Nossas espadas colidiram ruidosamente.
— Eu só matei o velho — disse ele, nem mesmo sabendo o nome de Sven. Sua face brilhava com o suor. — O Capitão da Vigília cuidou do restante.
— Sven não está morto — falei.
O aço ressoava, e centelhas voavam entre nós.
— Você acha eu que eu me importo? — disse, entre respirações pesada.
Minha espada golpeava o escudo dele, cujo metal ficava esmagado com os golpes.
— Não mais do que você se importa com empalar uma princesa ou trair o seu reino.
Fiz pressão para frente, não dando a ele uma oportunidade para atacar, com seu braço ficando fraco sob a barragem da artilharia, e, por fim, o escudo dele cedeu.
Impeli a espada para frente. A lâmina deslizou pelas costelas dele, minha mão indo de encontro as suas entranhas, minha face a poucos centímetros da dele.
— Eu não espero que você se importe, Chanceler. Só espero que você morra.



LIA

Saí correndo, tossindo e tropeçando por sulcos escuros. A noite tinha se aproximado e se fechado sobre nós, mas o vale brilhava com bolsões de luz, com os fogos queimando cadeias montanhosas, campinas e corpos. A fumaça pairava em nuvens, amarga e pungente, tecida com o cheiro de carne queimada. O clangor de metal ainda reverberava das muralhas do vale. Os gritos dos caídos apunhalavam o ar, e os animais pegos na devastação lamentavam com tristeza.
Limpei os olhos, que ardiam, procurando, entre brasas que queimavam a minha pele, a trilha que dava para o penhasco, sendo varrida pela falta de esperança.
Não demore, senhorita, ou todos eles vão morrer.
Eu me engasguei e fui aos tropeços para frente. Um dedo de ar límpido abriu-se, e vi a trilha. Saí correndo, tropeçando e abrindo com as mãos o meu caminho até o topo. Consegui chegar à beirada do penhasco, e minha alma foi dilacerada ao meio. Em ambas as direções, o vale ardia em chamas, as armas ribombavam, o brilho de metal lampejava, os corpos contorciam-se em massas, como um ninho de serpentes morrendo.
— Irmãos! Irmãs! — gritei, mas minhas palavras ficaram perdidas no rugir de um vale que se estirava para longe demais e que retumbava alto demais. Eles não conseguiriam me ouvir. Confie. Era impossível.
Fiquei desesperada e gritei de novo, mas a batalha seguia furiosamente em frente.
Confie na força dentro de você.
Ergui as mãos e levantei a voz aos céus, buscando não apenas pela força dentro de mim como também pela força de gerações. Senti alguma coisa vindo em resposta, e então o que eu ouvia não era mais apenas a minha voz, e sim um milhão de vozes. Elas teciam por mim, ao meu redor, com o mundo nos inspirando, lembrando, o tempo circulando. Morrighan estava ao meu lado, com Venda e Gaudrel do outro lado. Pauline, Gwyneth e Berdi estavam atrás de mim e mais uns cem. Nossas vozes eram trançadas, juntas, um aço chegando aos confins do vale, espiralando, partilhando. Cabeças se viraram, ouvindo, sabendo, com alguns golpes cortando mais a fundo do que outros. A fumaça espiralava-se, afinava-se.
E então a batalha cedeu lugar à imobilidade.
— Irmãos! Irmãs! Joguem as armas no chão! Eu sou sua rainha! Filha do seu sangue e irmã do seu coração! Ficarei ao lado de vocês. Voltarei a Venda. — Eu disse a eles que havia outro tipo de esperança, aquela que Venda prometera. Implorei que ouvissem seus corações, que confiassem em um saber tão antigo quanto o universo. — A força está dentro de nós. Vamos montar assentamento no Cam Lanteux. Construir novas vidas. Com meu último suspiro antes de morrer, prometo a vocês que faremos com que isso aconteça, juntos, mas não é dessa forma que isso se dará. Podemos prevalecer contra o Dragão que rouba nossos sonhos! Joguem no chão as armas, e vamos criar uma esperança duradoura.
O universo ficava imóvel. Os céus observavam. A respiração dos séculos era contida.
A pausa da batalha se estendia.
E então uma espada foi jogada no chão.
E mais uma.
E, enquanto os chievdars, os governadores e os lordes de quadrantes ainda travavam uma luta cheia de raiva, fechados ao chamado, os clãs baixavam em ondas as suas armas.
— Eu não poderia ter pedido por um lugar melhor para encontrar você, meu bichinho de estimação. Onde todos possam vê-la.
Eu me virei. Era o Komizar.
— Agora eles vão saber com certeza quem o Komizar de Venda realmente é — disse ele.
Saquei a espada e recuei um passo.
— Eles estão me dando ouvidos, Komizar. É isso o que querem. É tarde demais para você.
Ele ergueu a sua espada pesada com ambas as mãos. Eu conhecia aquela pose. Sabia o que viria em seguida.
— Eles querem o que eu quero — disse ele. — E quero você morta. É simples assim, princesa. É isso que é o verdadeiro poder.
Ele olhou para a espada na minha mão e sorriu, pois o seu alcance era menor do que o da arma dele. Ele deu um passo mais para perto de mim, sua face reluzindo com o desejo obsessivo pelo poder que estava na ponta dos seus dedos. Dei um passo para trás e senti a beirada do desfiladeiro desfazer-se embaixo dos meus pés, ouvi as pedras soltas caindo no piso do vale. Meu coração ficou apertado, e vi a sede nos olhos dele. Mais. A batalha e o meu medo o alimentavam. Mas então vi outra coisa, um lampejo de cor. Um olho azul feito joia.
— Reginaus!
A expressão do Komizar ficou fria, com ele ouvindo o seu nome verdadeiro dito em voz alta, e então o homem foi engolfado pela fúria. Ele girou e ficou cara a cara com Calantha.
O pesar brilhava no solitário e pálido olho dela, e talvez a lealdade, o amor e mil e outras coisas que eu não conseguiria nomear. Nós temos uma longa história, dissera ela certa vez para mim. Talvez fosse isso o que eu via no olhar contemplativo dela, as lembranças de tudo que ele fora para ela e de tudo que era agora.
— Você me deu esperança uma vez — disso ela. — Mas não posso deixar que faça isso agora. Chegou a hora para outro tipo de esperança.
Uma desdenhosa bufada de ar mal havia passado pelos lábios dele quando ela partiu para o ataque contra ele. O Komizar ergueu a espada em um movimento pungente, e a espada dele empalou-a muito antes de Calantha em algum momento chegar até ele; no entanto, a força do movimento dela teve uma potência inesperada, com a espada atravessando-a, e o corpo dela bateu contra o dele, que foi para trás aos tropeços, primeiro um passo, depois outro, e então o pânico passou como um lampejo pela face dele enquanto o homem se arrastava para ter onde pisar firme, mas era tarde demais. Pulei para o lado quando ambos os corpos passavam voando por mim e tombaram pela beirada, com o grito dele ecoando enquanto os dois caíam no fundo do vale, mas, enquanto me lancei para o lado, eu me senti deslizar também, o chão cedendo embaixo de mim. Freneticamente busquei me segurar em alguma coisa, grama, galhos, mas tudo estava fora do meu alcance, a terra deslizando ao meu redor e eu caindo com eles. Mas então senti a mão de alguém travar na minha.

7 comentários:

  1. Aaaaaah morri. Que emoção!
    Apesar que eu esperava mais da morte do Komizar.

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  2. Eu ri, Calantha caiu, o Komizar caiu, ela caiu junto, que final besta e engraçado todo mundo caindo, ninguém com a vitória kk.

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  3. tive provas de que não sou cardíaca

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  4. AFF, não queria que o Andres morresse :(

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  5. Nossa que batalha emocionante cada frase é um roer de unhas kkkkkkk

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  6. Não tô satisfeita com a guerra, esperava mais. Esperava um confronto entre o Kaden e o Komizar seria mais épico que o Kaden e o pai. E que morte mais sem graça a do Komizar, fizerem dele um dragão grandioso, temeram ele e o exército que ele montou, para depois cair de um penhasco sem uma grande luta, sem de sangrar, sem perder um pedacinho antes de morrer, sem sofrer!!!
    Odiei to até imaginando como será o final 😓

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