20 de fevereiro de 2018

Capítulo 84

Tavish, Jeb e Orrin estavam direcionando as tropas aos seus lugares na caravana. Nós estávamos partindo em três ondas. Gwyneth, Pauline e Berdi andavam com listas, checando carroções de suprimentos, certificando-se de que eles estavam uniformemente dispersados dentre os contingentes.
Eu estava prestes a ir falar com outro regimento que havia chegado na noite anterior quando fui chamada por Pauline, ostensivamente, para dar uma olhada em uma carroça. Eu sabia que ela tinha alguma outra coisa em mente.
— O casaco que você pediu está pronto — disse ela. — Coloquei-o no seu quarto. — Ela manteve o tom de voz baixo, olhando de relance por cima do ombro. Eu pedi a ela para ser discreta. — A costureira não ficou feliz. Ela não entendia por que você queria retalhos quando havia bom tecido perfeitamente disponível.
— Ela fez conforme pedi?
Pauline assentiu.
— Sim, e incorporou os retalhos vermelhos que você me deu.
— E o ombro?
— Também. — A expressão dela ficou cheia de preocupação. — Mas você sabe o que o pessoal vai pensar.
— Eu não posso me preocupar com o que os outros vão pensar. Preciso ser reconhecida. E quanto ao cordão?
Ela enfiou a mão no bolso e me entregou uma tira de couro cheia de buraquinhos. Eu já tinha os ossos para ela. Eu os havia guardado.
— Também preciso conversar com você sobre Natiya — disse ela. — Ela acha que vem conosco.
Esfreguei a minha testa, não querendo ter outra disputa de vontades com a garota, temendo que ela fosse vir atrás de nós de qualquer jeito.
— Ela pode vir — falei. — Ela fala vendano. Terei uma função para ela. — Eu vi a preocupação nos olhos de Pauline. — Farei o melhor possível para mantê-la a salvo — disse, embora o meu melhor não tivesse sido o bastante ainda. Eu estava contando a Pauline sobre os meus planos para Natiya quando uma voz alta retumbou atrás de nós.
— Olha, se não é a criada desbocada da taverna e sua bela amiga! Parece que cheguei no momento certo. Eles colocaram as duas servindo os soldados agora?
Girei e me deparei com um soldado... um soldado que me era familiar. Precisei de alguns segundos para reconhecê-lo, mas então me lembrei dele. O jeito pavoneado como o homem andava e seu sorriso arrogante não tinham mudado. Ele era o soldado da taverna que eu ensopara com cerveja e que depois ameaçara com uma faca no festival. Estava óbvio que ele não tinha se esquecido de mim.
— Você disse que seria você que me surpreenderia da próxima vez em que nos encontrássemos — disse ele, chegando mais perto de mim. — Acho que as coisas não se saíram bem assim.
Dei um passo à frente para ir ao encontro dele.
— Você chegou na noite passada, soldado?
— Isso mesmo — disse ele.
— E não está familiarizado com o meu papel aqui?
— É fácil o bastante ver para o que você é boa. E prometeu que, quando nos encontrássemos de novo, acertaríamos as coisas entre nós de uma vez por todas.
Sorri.
— Sim, eu disse isso, não foi? E devo admitir que realmente não estava esperando por você. Bom para você, soldado, mas pode ser que eu tenha uma surpresa.
Ele esticou a mão e segurou no meu pulso.
— Você não vai puxar nenhuma faca para cima de mim dessa vez.
Olhei para os dedos deles que estavam segurando o meu pulso e então voltei a olhar para o rosto lascivo dele.
— Ah, eu nunca faria uma coisa dessas — falei, com o tom doce. — Por que sacar uma faca quando tenho um exército inteiro à minha disposição?
E, antes que ele pudesse pestanejar, Natiya, Pauline, Gwyneth e Berdi estavam pressionando espadas nas costas dele.
Kaden e Rafe estavam parados a uns poucos metros dali, notando a repentina atividade. Eles cruzaram os braços nos peitos.
— Acha que deveríamos ajudá-las? — perguntou-lhe Kaden.
Rafe balançou a cabeça em negativa.
— Não... Acho que elas são conta disso.
O soldado ficou paralisado, reconhecendo a sensação do aço na sua coluna.
Sorri para ele mais uma vez.
— Bem, acho que consegui surpreender você, no fim das contas.
Ele soltou o meu pulso, não sabendo ao certo o que acabara de acontecer.
Meu sorriso desapareceu.
— Agora, vá se juntar aos seus escalões, soldado, e espere que eu fale com a sua companhia. Este será o meu último aviso para que você se comporte como um membro honrado do exército do rei. Da próxima vez, vou cortá-lo da sua posição como se fosse a parte podre de uma fruta.
— É você quem vai falar com o...
— Sim.
Ele pareceu notar a bainha de ombro de Walther cruzando o meu peito pela primeira vez, junto com a insígnia real.
— Você é a...
— Sim.
Ele ficou pálido, soltando pedidos de desculpas, e começou a prostrar-se com um só joelho no chão.
— Vossa Alteza...
Eu o interrompi, empurrando-o para que ficasse de pé de novo, com a ponta da minha espada.
— Não deveria fazer diferença se eu sou uma criada de taverna ou uma princesa. Quando eu o vir tratando os outros com respeito, independentemente da posição que ocupam, ou da sua anatomia, então seu pedido de desculpas significará alguma coisa.
Eu me virei para ir embora enquanto ele ainda falava, cansada porque essa era uma batalha que eu teria que lutar repetidas vezes.

* * *

A jornada até o Vale do Sentinela levou duas semanas. Duas longas semanas, com chuva, granizo e vento abafando os ânimos e retardando cada quilômetro. Nós começamos a jornada com 15 mil soldados e fomos pegando tropas adicionais ao longo do caminho. Quando acampamos logo do lado de fora da boca do vale, nossos números chegavam a 28 mil. Eram quase todos os soldados que tínhamos em Morrighan. Eu nunca tinha visto tantos em um só lugar. Eu não conseguia ver o fim do nosso acampamento. Nossos suprimentos eram abundantes. Alimentos e armas. Madeira para construir barricadas e defesas. Tendas para nos proteger contra as intempéries enquanto nossos planos finais eram colocados em prática. Uma vasta cidade impressionante. No entanto, ainda era bem pequena em comparação ao que o Komizar vinha trazendo até nós.
Todas essas tropas estavam aqui seguindo as minhas ordens, com base em alguma coisa que eu sentia no meu âmago. Os generais tinham grunhido o caminho todo. Rafe enviara Jeb e Orrin com um contingente de soldados para interceptar tropas dalbretchianas que pudessem estar vindo e direcioná-las até o Vale do Sentinela. Pudessem estar vindo. As palavras eram bem pesadas para mim. Com Draeger chamando de volta milhares de soldados a Dalbreck, aprecia improvável que nós fôssemos ter alguma ajuda.
Tavish explicou que o general chamara as tropas de volta muito tempo antes de receber a mensagem de Rafe.
— Pode ser que eles ainda venham.
Pode ser. Minha ansiedade só aumentava. Cada dia se passava como uma baixa batida de tambor vibrando por mim, marcando o tempo. Rafe prometeu que as forças de Marabella apareceriam, mas também não tínhamos qualquer sinal delas. Era possível que Rafe já tivesse perdido o poder sobre o seu reino.
Pelo menos o tempo enfim ficou agradável. Eu, Rafe e Kaden partimos sozinhos para fazermos o reconhecimento do vale. Eu não queria ouvir os generais grunhindo, o socar de estacas de tendas, nem os chamados de soldados. Uma voz quieta me atraíra para cá. Eu precisava de quietude enquanto explorava o lugar e ouvia para ver se havia mais segredos que ele pudesse contar para mim.
A abertura que dava para o vale era estreita, exatamente como Reunaud a descrevera.

* * *

Entramos ali cavalgando e descemos das nossas montarias. Senti na mesma hora. Até mesmo Rafe e Kaden sentiram. Eu via isso nos seus rostos, assim como na reverência dos seus passos. O ar continha a presença de alguma coisa imortal, algo que podia ser esmagador ou libertador. Alguma coisa que não se importava conosco, mas apenas com o que estava a caminho. Nós olhamos para os altos e verdes penhascos e para as ruínas que se agigantavam acima de nós. O peso dos séculos nos pressionava.
Andamos juntos por um tempo. Rafe erguendo o olhar para os penhascos, primeiro de um lado, depois do outro, e Kaden se virando, imaginando, estudando.
A grama do vale roçava acima das nossas botas.
Olhei ao meu redor, maravilhada. Então este era o vale pelo qual Morrighan havia conduzido os Remanescentes antes que chegassem ao seu novo começo.
— Eu vou subir para ver o que há lá — disse Rafe, apontando para as ruínas que olhavam para nós de cima.
— Vou dar uma olhada no outro lado — disse Kaden, e os dois partiram nos seus cavalos, procurando por trilha que dessem para os topos. Fui andando à frente, aprofundando-me mais no vale. Ouvindo a quietude, a brisa, e então um sussurro estremeceu pela grama, correndo na minha direção, roçando a minha face e as minhas mãos com os dedos frios.
Ele circulava pelo meu pescoço, erguia os meus cabelos.
Esse mundo, ele nos inspira... eles nos partilha.
O vento, o tempo, ele circula, se repete...
Eu sentia a respiração contida, e depois, o lento exalar do ar. Continuei andando. O vale foi ficando mais largo, pouco a pouco, como se fossem braços nos dando as boas-vindas e abrindo-se para o que quer que estivesse na outra extremidade. Estudei as baixas colinas, as projeções rochosas, os afloramentos de penedos, os sulcos macios com grama, a face de um vale que também me estudava, virando os olhos, seu coração batendo. Por que está aqui? Meu olhar contemplativo viajou para o topo do vale: as ruínas. Eu ouvia Gaudrel falando, como se ele caminhasse ao meu lado.

Em uma era antes dos monstros e demônios vagassem pela terra...
Havia cidades, grandes e belas, com torres reluzentes que tocavam o céu...
Elas eram feitas de magia, e de luz, e dos sonhos dos deuses...

Eu sentia aqueles sonhos agora, pairando, à espera, como se o mundo deles pudesse ser despertado de novo. O universo tem uma longa memória. Continuei andando e, como tinha dito o capitão Reunaud, as ruínas me observavam enquanto eu passava. Quinze quilômetros de um imenso vale. Quinze quilômetros de ruínas que se elevavam. De tirar o fôlego. Poderosas. Assustadoras.
O aviso de Rafe zumbia nos meus ouvidos.
O exército deles se estenderá por quilômetros. Você não vai conseguir falar com todos eles.
Continuei andando.
Eu encontraria uma maneira.
Algumas das ruínas haviam tombado no chão do vale. Passei por gigantescos blocos de pedras maiores do que um homem, agora cobertos de musgo e vinhas, a terra ainda tentando apagar a fúria de uma estrela. Ou seriam muitas estrelas? O que tinha acontecido de verdade? Será que algum dia saberíamos?
No entanto, eu sabia que o poder e a grandeza dos Antigos foram abertos pelo Komizar. Ele faria uso disso contra nós em uma questão de dias. Tínhamos poucas chances, até mesmo contando com as tropas de Rafe. Sem elas, nada tínhamos. Meu coração batia mais rápido. Será que eu trouxera todo mundo até aqui para morrer em um vale esquecido e afastado? Os gritos dos Antigos passavam por nós como assovios ao vento, e os Textos Sagrados eram sussurrados de volta para mim.

Uma grandiosidade terrível
Rolava pela terra...
Devorando homens e feras,
Campos e flores.

O tempo circula. Repete-se. Pronto para contar a história de novo. E de novo.
O tambor batia mais alto. Os dias estavam passando, e o Komizar estava se aproximando. Continue em frente, dizia a mim mesma. Continue andando.
O cheiro da grama esmagada pelas minhas botas ia até as minhas narinas. Pensei em Dihara e em outra campina. Era uma vida inteira atrás, mas eu a via de novo. Ela girava na sua roca de fiar. Sua cabeça foi inclinada para o lado.
Então você acha que tem o dom.
Quem disse isso?
As histórias... elas viajam.
A roca dela virava, zunia. O vale esperava, observava, a batida do seu coração, um murmúrio na brisa. A verdade estava aqui. Em algum lugar. Segui andando. O puxar de uma corda. E mais uma. Música. Girei, olhando para trás, de onde tinha vindo. O vale estava vazio, mas eu ouvia o dedilhar melancólico das cítaras, a canção da minha mãe flutuando, e então, quando voltei a olhar para onde estava me dirigindo, vi outra coisa.
Todos os caminhos pertencem ao mundo. O que é a magia senão aquilo que ainda não entendemos?
Havia uma menina ajoelhada na beirada de um amplo penhasco acima de mim.
Ali.
A palavra tremia na minha barriga, familiar. Palavra esta que me empurrava e me cutucava em direção aos mapas, e depois, a este vale.
Os olhos dela se encontraram com os meus.
— Era você — sussurrei.
Ela assentiu, mas nada disse. Beijou seus dedos e eu ouvi os Textos Sagrados sendo traçados junto com o ar.

E Morrighan ergueu sua voz,
Aos céus,
Beijando dois dedos,
Um para os perdidos,
E um por aqueles ainda por vir,
Pois a separação entre os bons e os maus ainda não estava acabada.

A canção que tinha enchido o vale apenas segundos atrás agora era dela, serpeante, estendendo-se, chamando. Subi aos tropeços a trilha íngreme até o penhasco, mas na hora em que cheguei onde a menina havia ajoelhado, ela se fora. O penhasco se projetava para frente, e o longo vale estava no meu campo de visão em ambas as direções, tão imóvel e silencioso como sempre, exceto pela voz dela. Prostrei-me no chão, ajoelhando-me, sentindo a calidez de onde ela estivera, sentindo o desespero dela de séculos atrás. Sentindo isso agora. A separação entre os bons e os maus ainda não estava acabada.
O tempo circula. Repete-se.
E as preces desesperadas que ela erguia aos deuses há muito se tornaram minhas próprias preces.

* * *

— Lia — Rafe me chamou — o que está fazendo aí em cima?
Eu me virei e vi Rafe e Kaden nos seus cavalos. Eles trouxeram o meu cavalo também. Voltei a ficar em pé e dei uma última olhada no penhasco, nas colinas e nas ruínas que se agigantavam acima de mim.
— Estou me preparando — respondi, e fui descendo a trilha para me encontrar com eles.
Quando voltamos ao acampamento, enviamos batedores cavalgando nos animais mais rápidos até pontos de observação além da boca a leste do vale para observarem o exército que se aproximava. O restante de nós começou a trabalhar. Rafe e Kaden mapearam o terreno e as trilhas que poderiam aguentar brigadas de soldados de ataque. Havia sete de nós em um lado das colinas e quatro do outro. Ruínas nos esconderiam de vista até que estivéssemos prontos. A entrada que dava para o vale tinha quase cinco quilômetros de largura, mas se estreitava rapidamente. O Marechal de Campo, Howland, Marques e os outros oficiais conduziriam os ataques quando recebessem o sinal. Nossa sincronização teria que ser perfeita.
Uma divisão, a minha, seria colocada como isca e distração. As batidas dos nossos tambores e nossos cânticos de batalha os atrairiam na nossa direção.
A alta grama do vale esconderia um pouco das nossas defesas. Fileiras mortais de estacam foram construídas e escondidas. Redes foram posicionadas para serem lançadas. Balestras foram colocadas de maneira estratégica, embora esse fosse o maior elemento desconhecido — onde e quando os Brezalots seriam usados — mas eu estava certa de que os Garanhões da Morte deles e suas crianças-soldados seriam a primeira linha de ataque. O Komizar veria minhas tropas de poucos mil bloqueando o seu caminho no fim do vale e presumiria que o restante do meu exército estava atrás de mim. Enviar seus animais de ataque claramente limparia o caminho de forma rápida.
Trabalhávamos sem parar. E esperávamos. Esperávamos pelo Komizar. Esperávamos pelas tropas de Rafe. Nenhum dos dois veio, e os nervos ficavam cada vez mais agitados. Eu dizia as memórias sagradas pela manhã e à noite. Falava com as tropas, dava uma injeção de ânimo neles, fazia promessas a eles e a mim mesma.
Berdi, Pauline e Gwyneth trabalhavam junto com os cozinheiros do acampamento para manter todo mundo alimentado e os ânimos elevados, no que elas eram excelentes. Puxei Natiya para o lado, em particular, e fui andando com ela vale adentro.
— Olhe para lá — falei, apontando para o interior do vale. — O que vê?
— Estou vendo um campo de batalha.
Olhei para dentro do mesmo vale, mas vi uma carvachi púrpura e fitas girando ao vento. Vi Dahara tecendo na sua roca de fiar e Venda cantando de uma muralha. Vi Morrighan rezando de um penhasco e Aster, sentada, de olhos arregalados, em uma tenda, ouvindo uma história. Uma história maior. Vi um mundo passado que não queria que desistíssemos. Olhei de volta para Natiya. Eu não queria que ela desistisse do mundo que conhecia também.
— Um dia você vai passar por aqui de novo e verá mais do que isso — prometi. — Até lá, tenho um trabalho para você. Trabalho este que é mais importante do que o resto que faremos, e você não vai precisar de uma espada.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!