20 de fevereiro de 2018

Capítulo 83

Eu observava a cena da galeria superior, escondida de vista porque não conseguia suportar a ideia de que a minha mãe fosse me ver. Que fosse saber que eu também sabia. Ela e minhas tias tocavam cítaras, com a música melancólica cutucando as minhas costelas, a canção sem palavras da minha mãe, uma canção funérea flutuando, deslizando no ar, insinuando-se para dentro de todas as veias frias da cidadela. Era uma canção tão antiga quanto a Canção de Venda, tão antiga quanto as brumas da noite e os vales afastados ensopados de sangue, um refrão tão velho quanto a própria terra.
Eu não esquecera a visão que tive, o espiralar de sangue, o grito de batalha, o zunido de uma flecha. Mais morte estava à espreita. Eu via a falta de vida nos olhos da minha mãe. Ela teve a mesma visão que eu. Os esquadrões dos meus irmãos. Eu me apoiei na pilastra. A cidadela já estava repleta de pesar, as piras funerárias tendo ficado para trás apenas ontem.
Em dois dias, partiríamos para o Vale do Sentinela. Nutra a fúria. Eu tentava me virar com um fervor cegante, mas a tristeza entrava se insinuando.
O Dragão conspirará,
Exercendo o poder como um deus, impossível de ser parado.
Impossível de ser parado.
Quanto mais perderíamos?
A verdade tornava-se clara, a gula, a pegada, o alcance. O Komizar estava vencendo.
Passadas pesadas soavam no corredor, e eu me virei e vi Rafe enfim voltando do Acampamento de Piers. Ontem, ele fora direto para lá depois que as piras funerárias tinham sido extintas, com os olhos mais uma vez ferozes, cuidando das preparações com vingança. Hoje, ele também estivera lá o dia todo. Eu mesma acabara de voltar. Estava tarde. O jantar estava esperando por mim no meu quarto. Porém, quando ouvi as cítaras...
Olhei para trás, para a minha mãe. Esse era mais um motivo pelo qual ela não nutrira o meu dom. A verdade tinha pontas afiadas que poderiam nos eviscerar por inteiro.
As passadas pararam um pouco na galeria. Eu estava enfiada na sombra das pilastras, mas Rafe me vira mesmo assim. Ele veio andado até mim, com os passos largos e lentos, casado, e parou ao meu lado, olhando para o corredor abaixo de nós.
— Qual é o problema?
Olhei para Rafe com incerteza, não sabendo ao certo o que ele queria dizer com isso.
— Eu não vi você ociosa desde que chegamos aqui — explicou. Sua voz tinha um cansaço que eu nunca ouvira antes.
Eu não queria explicar meus medos em relação aos meus irmãos. Não agora, quando Sven mal se prendia à vida. O médico não tinha dado muitas esperanças para a recuperação dele. Quaisquer que tenham sido as últimas palavras que Rafe sussurrara a Sven, ele precisava confiar no que Gwyneth dissera, que Sven as tinha ouvido.
— Só estou dando um tempo — falei, tentando manter a voz estável.
Ele assentiu, e depois me atualizou em relação às tropas, às armas, às carroças, a todas as coisas que eu já verificara, mas essa era a linguagem entre nós dois agora. Nós havíamos mudado. O mundo estava nos forçando a ser algo que nunca tínhamos sido antes, moldando-nos dia após dia em duas pessoas que não tinham qualquer espaço uma para a outra.
Observei-o, a lisura do seu rosto, a barba por fazer nas bochechas. Fiquei olhado para os seus lábios se mexerem e fingi que ele não estava falando sobre suprimentos. Ele estava falando sobre Terravin. Estava rindo de melões e prometendo que plantaria um para mim. Estava lambendo o seu polegar e passando-o na terra que eu tinha no queixo. Estava me dizendo que algumas coisas duram, as coisas que importam. E, quando falou nós encontraremos um jeito, ele não estava falando sobre batalhas, e sim sobre nós.
Rafe terminou de fazer as suas atualizações e esfregou os olhos, e estávamos de volta ao nosso mundo como ele realmente era. Vi o pesar entorpecente que o assolava e senti o vazio que ele deixava para trás. Reagrupar. Seguir em frente. E fizemos isso, porque não havia mais nada a ser feito. Ele falou que estava indo dormir.
— Você deveria fazer o mesmo.
Assenti, e descemos o corredor até os nossos quartos, com as paredes da cidadela fechando-se sobre nós, meu peito ficando apertado com o puxar das cordas das cítaras e por causa do que eu sabia que o amanhã poderia trazer.
Quando chegamos à minha porta, o vazio me contorceu com mais força. Eu queria enterrar o rosto na minha cama e bloquear o mundo. Eu me virei para ele para lhe desejar boa-noite; no entanto, em vez disso, meus olhos ficaram travados nos dele, e palavras que eu nem mesmo me permitia pensar de repente estavam lá, desesperadoras e cruas.
— Tanto me foi tirado. Você já desejou que pudéssemos roubar um pouco disse de volta? Apenas por uma noite? Apenas por umas poucas horas?
Ele fixou os olhos em mim, com uma ruga se aprofundando entre as sobrancelhas.
— Eu sei que você não pretende se casar — falei sem pensar. — Tavish me contou. — Meus olhos ardiam. Era tarde demais para conter o resto. — Não quero ficar sozinha esta noite, Rafe.
Os lábios dele se abriram, seus olhos estavam vítreos. Uma tormenta enfurecia-se por trás deles.
Eu sabia que eu tinha cometido um erro terrível.
— Eu não deveria ter...
Ele deu um passo mais para perto de mim, suas mãos batendo com tudo na porta que estava atrás de mim, prendendo-me entre os seus braços; sua face, seus lábios, a poucos centímetros de mim, e tudo que eu conseguia ver, tudo que eu era capaz de sentir era Rafe, os olhos partidos e a tensão atrás deles.
Ele se inclinou mais para perto de mim, as respirações duras e quentes junto à minha bochecha.
— Não se passa um dia sem que eu deseje roubar de volta algumas horas — sussurrou ele. — Sem que eu deseje roubar de volta o gosto da sua boca na minha, a sensação dos seus cabelos torcidos entre os meus dedos, a sensação do seu corpo pressionando o meu. Não se passa um dia sem que eu deseje ver você rindo como na época em que estávamos em Terravin.
Ele deslizou a mão atrás de mim e puxou meus quadris para junto dos dele, com a voz rouca, os lábios roçando o lóbulo da minha orelha.
— Nunca se passa um dia sem que eu deseje roubar de volta uma hora na torre de vigília de novo, quando eu estava beijando e abraçando você e... — a respiração dele estremecia junto à minha orelha — e eu queria que o amanhã nunca chegasse. Quando eu ainda acreditava que reinos não poderiam ficar entre nós. — Ele engoliu em seco. — Quando eu desejava que você nunca tivesse ouvido falar de Venda.
Ele se reclinou, e o infortúnio nos seus olhos me cortava.
— Mas estes são apenas desejos, Lia, porque você fez promessas, e eu também. O amanhã virá, e ele será importante, para o seu reino e para o meu. Então, por favor, não me pergunte de novo se eu desejo alguma coisa, porque não quero ser lembrado de que todo dia eu desejo alguma coisa que não posso ter.
Ficamos encarando um ao outro.
O ar estava quente entre nós.
Eu não respirava.
Ele não se mexia.
Nós fizemos promessas um ao outro também, eu queria dizer. No entanto, em vez disso, apenas sussurrei:
— Eu sinto muito, Rafe. Nós deveríamos dizer boa-noite e esquecer...
E então os lábios dele estavam nos meus, a boca, faminta, minhas costas pressionadas junto à porta, a mão dele esticando-se atrás de mim para abrir essa porta, e nós entramos aos tropeços de volta ao quarto, com o mundo desaparecendo atrás de nós. Ele me ergueu nos seus braços, com o olhar preenchendo todos os espaços vazios dentro de mim, e então deslizei pelas mãos dele, minha boca se encontrando com a dele mais uma vez. Nossos beijos eram desesperados, intensos, eram tudo que importava e tudo que existia.
Meus pés tocaram o chão e o mesmo aconteceu com nossos cintos, nossas armas e nossos coletes, caindo em uma trilha. Nós paramos, ficamos cara a cara um com o outro, com o medo entre nós, medo de que nada disse fosse real, medo de que até mesmo essas preciosas poucas horas pudessem ser arrancadas de nós. O mundo tremeluzia, puxando-nos para dentro da escuridão protetora, e eu estava nos braços dele de novo, as palmas das nossas mãos, úmidas, buscando, sem mentiras, sem reinos, nada entre nós além de nossas peles; a voz dele, cálida, fluída, como um sol dourado desdobrado todas as coisas apertadas dentro de mim — eu te amo, amarei você para sempre, não importa o que aconteça. Rafe precisando de mim tanto quanto eu precisava dele. Seus lábios sedosos deslizando pelo meu pescoço, pelo meu peito, minha pele tremendo e ardendo ao mesmo tempo. Não havia qualquer pergunta, nada de pausas, nenhum espaço para que mais fosse roubado. Havia apenas nós, e tudo que já tínhamos sido um para o outro nos dias e nas semanas que só nós importávamos; nossos dedos se entrelaçando, se segurando, ferozes; o olhar contemplativo dele penetrando no meu; e então o medo e o desespero desaparecendo, nossos movimentos ficando mais lentos e nós memorizamos, nos demoramos, nos tocamos, engolindo lágrimas que ainda cresciam dentro de nós, a realidade assentando-se: tínhamos somente poucas horas. Ele estava em cima de mim, a chama do fogo iluminando os seus olhos, o mundo se estirando, fino, desaparecendo; sua língua, doce, lenta e gentil na minha, e então mais urgente, pressionando, apressada, o momento se tornando a promessa de uma vida toda, uma necessidade febril e um ritmo pulsando entre nós; nossa pele, molhada e abrasadora; e então o tremor da respiração dele no meu ouvido e, por fim, o meu nome nos lábios dele: Lia.

* * *

Ficamos deitados na escuridão, eu com a cabeça no peito dele. Eu sentia as batidas do seu coração, as suas respirações, as suas preocupações, o seu calor. Ele traçava, distraída e preguiçosamente, linhas pelo meu braço. Nós conversamos como costumávamos fazer, não sobre listas e suprimentos, mas sobre o que pesava nos nossos corações. Ele me falou sobre o noivado e sobre o motivo pelo qual ele não poderia ir até o fim com aquilo. Não era apenas o fato de que ele não a amava. Ele já sabia pelo que eu tinha passado. E prometeu a si mesmo que não faria isso com alguém de novo. Lembrava-se do que eu lhe falara sobre escolhas, e sabia que a menina também merecia isso.
— Talvez ela queira se casar com você, não?
— Ela tem apenas catorze anos e nem mesmo me conhece — disse Rafe. — Eu a vi tremendo e com medo, mas estava desesperado para chegar até aqui, até você, então assinei os papéis.
— Sven disse que romper o noivado poderia custar o seu trono.
— Esse é um risco que vou ter que correr.
— Mas, se você explicar as circunstâncias, o que o general fez...
— Eu não sou mais uma criança, Lia. Sabia o que eu estava assinando. Pessoas assinam contratos todos os dias para conseguir o que desejam. Se eu não cumprir com a minha parte, parecerei um mentiroso para um reino que já está cheio de problemas.
Ele estava se deparando com uma escolha impossível. Se realmente se casasse com ela, poderia arruinar o futuro de uma moça que merecia ter um futuro. Se não se casasse com ela, poderia perder a confiança de um reino que amava e deixá-lo ainda mais tumultuado.
Fiz perguntas a ele sobre Dalbreck e sobre como tinham sido as coisas quando ele voltou para lá. Rafe me contou sobre o funeral do pai, os obstáculos e os problemas, e ouvi a preocupação no tom de voz dele, mas, enquanto descrevia isso, também ouvi sua força, seu amor profundo pelo reino, seu anseio por retornar a ele. A liderança está no sangue dele. Isso tornava os riscos que Rafe correra por mim e por Morrighan ainda maiores. A dor no meu coração aumentou repentinamente. Um fazendeiro, um príncipe, um rei. Eu o amava. Eu amava tudo o que ele sempre fora e tudo que ele seria, até mesmo se fosse sem mim.
Eu rolei, ficando em cima dele dessa vez, e juntei meus lábios aos dele.

* * *

Nós dormimos e acordamos durante a noite toda, com mais um beijo e mais um sussurro; porém, por fim, a aurora e o mundo se insinuaram de volta. Uma luz cor de framboesa reluzia ao redor das cortinas, sinalizando que o nosso tempo acabara. Eu estava deitada, enrolada na curva dos braços dele, e seus dedos dedilhavam as minhas costas, tocando de leve no meu kavah. Nosso kavah, eu queria dizer, mas eu sabia que a última coisa que ele queria era ser arrastado para dentro da profecia de Venda, embora já fosse tarde demais para isso.
Nós nos vestimos em silêncio.
Éramos líderes de reinos novamente, e o som de botas, fivelas e dever pairava no ar ao nosso redor. Nossas poucas horas se foram, e não tínhamos mais tempo a perder. Ele começaria seu dia vendo como Sven estava, e eu sairia para informar o Guardião do Tempo dos meus deveres, de modo que ele pudesse me encontrar conforme a necessidade surgisse, porque eu o proibira de ficar na minha cola.
Quando meu último cadarço estava amarrado, quebrei nosso silêncio.
— Tem uma coisa que ainda tenho que dizer a você, Rafe, uma coisa que já falei para o meu pai. Quando chegarmos ao vale e encontrarmos o exército do Komizar, vou oferecer a eles um acordo de paz.
As narinas de Rafe estavam dilatadas, e seu maxilar ficou rígido. Ele se curvou para pegar sua bainha de ombro do chão como se não tivesse me ouvido. Então deslizou-a sobre a cabeça, ajustando a fivela, seu movimento pontuado com a raiva.
— Pretendo oferecer aos vendanos o direito de se assentarem no Cam Lanteux, uma oportunidade de um melhor...
Ele bateu com tudo a espada na bainha.
— Nós não vamos oferecer nada ao Komizar! — disse ele, furioso. — Você está me ouvindo, Lia? Se ele estivesse pegando fogo, eu nem mesmo mijaria nele para diminuir as chamas! Ele não vai ter nada!
Estiquei a mão para tocar o braço dele, mas ele o puxou. Eu sabia que Rafe ainda estava abalado com a perda do capitão Azia e dos seus homens.
— Não é uma oferta para o Komizar — falei. — Eu sei que ele não vai aceitar nada menos do que o nosso massacre. A oferta é para o povo de Venda. Lembre-se de que eles não são o Komizar.
O peito dele subia e descia.
— Lia, você está lutando contra um exército, o conselho, os milhares que estão atrás dele e que querem a mesma coisa que ele. Eles não vão dar ouvidos a nenhum acordo de paz vindo de você.
Eu pensei naqueles que apoiavam o Komizar. Os chievdars. Os governadores que babavam em cima de recompensas e que queriam bem mais. Nos lordes de quadrantes, que respiravam o poder como se fosse ar. Os soldados que massacraram o meu irmão e sua companhia e que depois zombaram de mim enquanto eu os enterrava, e nas centenas mais como eles, aqueles que se deleitavam com a destruição. Rafe estava certo. Assim como Komizar, eles não me dariam ouvidos.
No entanto, eu precisava acreditar que existiam outros que me ouviriam, os clãs pressionados à servidão, e outros que se acovardaram e seguiram o Komizar porque não tinham outra opção. Os milhares que estavam desesperados por algum tipo de esperança. Era com esses que eu tinha que tentar minha sorte.
— Antes de a batalha começar, vou fazer a oferta, Rafe.
— Seu pai concordou com isso?
— Isso não importa. Eu sou a regente.
— Os Reinos Menores nunca vão concordar com uma coisa dessas.
— Eles vão concordar se Dalbreck fizer isso primeiro. Se perdermos, isso vai acontecer de qualquer forma. E, se ganharmos, ainda precisa acontecer. Essa é a única maneira de seguirmos em frente. Todo mundo precisa de esperança, Rafe. Tenho que dar isso a eles. É a coisa certa a ser feita.
Ele argumentou que não teria tempo para oferecer um acordo e que o campo de batalha não era o lugar para se negociar isso. Havia dezenas de milhares naquele exército que se estenderia por quilômetros e quilômetros, eu não conseguiria falar com eles todos, e o Komizar não me daria ouvidos. Os momentos anteriores à batalha eram carregados de incertezas.
— Sei disso. Mas vou achar um jeito. Estou apenas pedindo a sua ajuda. Sem que Dalbreck concorde, só estarei oferecendo falsas esperanças a eles.
Rafe soltou um suspiro e passou os dedos pelos cabelos.
— Eu não sei se posso fazer essa promessa, Lia. Você está me pedindo para quebrar um tratado com séculos de existência. — Ele deu um passo mais para perto de mim, e percebi que sua raiva estava diminuindo. Ele tirou uma mecha de cabelos que caía no meu rosto. — Sei o que mais você pretende fazer. Estou lhe pedindo pela última vez. Não faça isso. Por favor. Pelo seu bem.
— Nós já discutimos esse assunto, Rafe. Tem que ser alguém.
Seguiu-se uma centelha de novo nos olhos dele, resistindo. Não era isso o que ele queria ouvir, mas então nossa atenção foi atraída para alguém batendo com urgência à porta.
Era a minha tia Bernette, sem fôlego e segurando a lateral do corpo.
— Tropas de Dalbreck! — disse ela, ofegante. — Elas foram avistadas! A uma hora de Civica.
Meu coração ficou preso na garganta.
— E os esquadrões? — perguntei.
Os olhos dela brilhavam com preocupação.
— Nós não sabemos.

* * *

Eu, Rafe, Tavish e uma dúzia de soldados fomos cavalgando até onde as tropas estavam marchando em direção a Civica. Nós vimos uma brigada de talvez uns quinhentos homens. Não os 6 mil que Rafe havia solicitado.
— Pode ser que o restante esteja bem para trás — comentou Tavish.
Rafe nada disse.
Quando nos avistaram cavalgando na direção deles, a caravana parou. Rafe saudou o coronel e perguntou onde estava o restante das tropas. O coronel explicou que o general Draeger já os tinha chamado de volta a Dalbreck antes de o coronel receber a mensagem de Rafe. Vi o calor brilhando nos olhos de Rafe, mas ele seguiu em frente e abordou o assunto que no momento era mais urgente: os príncipes e os seus esquadrões.
— Eles estão aqui, Vossa Majestade, cavalgado no meio — disse ele, assentindo por cima do ombro. — Receio que tenha havido perdas. Nós não...
Afundei os calcanhares no cavalo, e tanto ele quanto eu fomos voando em direção ao meio da caravana. Quando o azul de Dalbreck cedeu espaço para o vermelho morrighês, pulei do meu cavalo, procurando por Bryn e por Regan e chamando-os pelos seus nomes.
Avistei cinco cavalos com trouxas grandes presas em cobertores jogados em cima das selas. Corpos. Minha garganta se fechou.
A mão de alguém tocou o meu ombro.
Eu girei e fiquei cara a cara com um homem que não reconhecia, mas que parecia me conhecer.
— Eles estão vivos, Vossa Alteza. Por aqui.
O homem me levou de volta para o meio da caravana. Identificou-se como sendo um cirurgião e então descreveu os ferimentos dos meus irmãos. A violência do ataque inesperado fora direcionada a eles.
— Os homens deles lutaram com valentia, mas, como pode ver, alguns perderam a vida.
— E os homens que os atacaram?
— Estão mortos, mas teria acontecido o contrário com todo o esquadrão morrighês se o rei não tivesse enviado a mensagem.
Chegamos ao carroção, e o cirurgião ficou para trás, deixando que eu me encontrasse com os meus irmãos sozinha. Minhas têmporas pulsavam fortemente. Os dois estavam deitados em sacos de dormir, a palidez cor de cinza iluminada com um brilho ensebado. No entanto, quando Regan me viu, os olhos dele brilharam.
— Irmã — disse ele, e tentou se sentar direito, mas depois fez uma careta e caiu de volta.
Fui entrando no carroção e fiquei ao lado deles, e segurei as suas mãos junto às minhas bochechas. Minhas lágrimas escorriam pelos dedos deles. Eles estão vivos. Bryn, Regan. Falei os nomes dos dois em voz alta, como se para convencer a mim mesma de que eles mesmos estavam ali. Os olhos de Regan estavam molhados com lágrimas também, mas os olhos de Bryn permaneciam fechados, com um elixir para dormir mantendo-o em um mundo onírico.
— Sabíamos que aquilo tudo era mentira — disse Regan. — Apenas não sabíamos quão profunda a mentira era.
— Nenhum de nós sabia — falei.
— Antes de irmos embora, nosso pai sussurrou para mim: encontrem-na. Ele queria que você voltasse também. Ele ainda está vivo?
— Sim — respondi. Eu já tinha contado a eles sobre o Vice-Regente na mensagem que enviei, mas agora revelei o que acontecera nessas últimas semanas e nosso plano de encontrar o Komizar no Vale do Sentinela. E então, embora me doesse reviver isso, contei a eles a verdade sobre a morte de Walther.
— Ele sofreu? — meu irmão me perguntou, com os olhos fundos e a expressão amargurada.
Eu não sabia ao certo como responder, e a lembrança de Walther entrando furiosamente na batalha veio À tona de novo.
— Ele estava ensandecido com o pesar, Regan. Sofria desde o momento em que Greta morreu nos seus braços. No entanto, no campo, ele morreu rápido... Walther era um príncipe guerreiro, valente e forte, mas o lado do inimigo tinha muito mais homens.
— Assim como está acontecendo conosco agora.
— Sim — admiti. — O mesmo está acontecendo conosco agora.— Eu não podia embelezar a verdade para ele, nem mesmo com o seu estado enfraquecido.
— Aguente uns poucos dias — disse ele. — E então poderei cavalgar com você.
Ouvi a fome na voz dele, seu desejo de vingar o irmão com a irmã ao seu lado. Isso ardia nele. Eu entendia essa necessidade, mas soltei um suspiro.
— Você tem um talho na lateral do corpo, Regan, e foram necessários 27 pontos para fechá-lo. Se fosse comigo, você me levaria junto?
Ele rolou a cabeça para trás. Ele sabia que não seria capaz de cavalgar nem em poucos dias e nem em umas poucas semanas.
— Malditos cirurgiões. Eles adoram contar.
— Você tem que ficar aqui. Bryn vai precisar de você quando acordar.
Olhei para Bryn, em paz no seu drogado mundo onírico. Meu doce irmão mais jovem parecia mais um anjo do que um soldado.
— Ele sabe o que aconteceu? — perguntei.
Regan balançou a cabeça.
— Acho que não. Ele estava gritando e delirando. Não acordou desde então.
Baixei o olhar para a perna de Bryn, cuja metade se fora.
— Se eu não estiver aqui quando ele acordar, diga-lhe para ter a certeza de que farei com que paguem por isso. Farei com que paguem por todas as vidas e por toda a carne que eles tomaram. Eles vão pagar em dobro.

Um comentário:

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Boa leitura! E SEM SPOILER!