20 de fevereiro de 2018

Capítulo 82

Todos os cantos, todos os túneis, todas as passagens, todos os peitoris e todas as câmaras na cidadela foram alvos de uma busca. Eu, Rafe e Kaden, acompanhados de centenas de soldados, ficamos acordados a noite toda, fazendo uma varredura na cidade, indo de porta em porta, de esgoto em esgoto, de telhado em telhado. Cívica estava fechada, até mesmo enquanto ganhava vida com as tochas. A busca passou dos portões da cidade e entrou nos vilarejos pequenos que a circundavam. Nem uma única pista ou cavalo desaparecido foram encontrados. Eles tinham desaparecido. Rastreadores foram despachados.
Havia nas celas vazias dos prisioneiros terra remexida e caixas de madeira vazias, armas que tinham sido enterradas há muito tempo, um plano secundário de fuga para o caso de serem descobertos. Agora eu entendia por que eles me arrastaram a céu aberto por todo o caminho até o arsenal em vez de me aprisionar aqui. Temiam que eu fosse descobrir seu estoque secreto. Até mesmo com as armas armazenadas para futuro uso, eles tinham esperado pelo momento certo. O Médico da Corte pagara com a vida por se voltar contra o Vice-Regente.
Eu, Kaden e Pauline esperávamos do lado de fora das câmaras de Sven. Rafe estava lá dentro junto com o médico. O dia passara correndo por nós, e a noite estava se aproximando novamente. Nenhum de nós conseguira dormir mais do que umas poucas horas nessa tarde.
— Eu deveria tê-lo matado — disse Kaden, balançando a cabeça. — Deveria ter feito isso quando tive oportunidade.
Porém, a culpa era minha. Eu adiara a execução, pensando que um deles poderia ser quebrado, um deles poderia se virar contra os outros, como o médico, e nos prover de informações que talvez fossem úteis. E, se o Vice-Regente temesse uma morte dolorosa, ele mesmo poderia ser quebrado e me dizer alguma coisa que ajudaria os meus irmãos. Joguei o jogo do Komizar, tentando encontrar o melhor uso para os prisioneiros. No entanto, eu perdi.
Agora, quatro homens estavam mortos, Sven estava lutando pela sua vida e os traidores estavam livres, provavelmente a caminho de juntarem-se ao Komizar e de contarem a ele que eu estava na regência de Morrighan agora.
Berdi e Gwyneth se encarregaram da tarefa de preparar um apropriado funeral dalbretchiano para os soldados mortos, inclusive para o capitão Azia. Tínhamos pouca experiência com piras funerárias, mas queria me certificar de que eles recebessem os tributos devidos.
— Se eles estão correndo para se encontrar com o Komizar, ele fará com que eles lutem — disse Kaden. — Ninguém que esteja cavalgando com ele tem um passe livre.
— O Capitão da Vigília não levanta uma arma há anos — falei. — O Vice-Regente e o Chanceler, porém...
Um suspiro passou sibilando pelos meus dentes. Treino com espada era uma parte diária das rotinas deles. Os dois diziam que era uma maneira simples de manter a forma. Ambos tinham habilidade com espadas. No entanto, o que eram mais dois soldados em meio a milhares deles?
Pauline ergueu o lábio em repulsa.
— Aposto que os covardes vão se enfiar em um buraco e esperar que o perigo da batalha passe.
Esfreguei as minhas têmporas. Minha cabeça doía. O sangue, os corpos, o rosto de Rafe, tudo isso se repetia na minha mente várias vezes. A ânsia na garganta de Rafe enquanto ele lutava para salvar Sven. Vamos, seu velho azedo!
A porta da câmara de Sven se abriu, e Tavish saiu dali.
Todos nós olhamos com ansiedade.
— Como ele está? — perguntei.
Tavish deu de ombros, e sua face estava exaurida, exausta.
— Está se aguentando.
— E Rafe?
— Também está se aguentando. Você pode entrar.

* * *

Rafe estava sentado em uma cadeira perto da cama de Sven, com os olhos fixos nele, e seu olhar vazio dilacerava meu coração. Eu sabia que a última conversa deles tinha sido raivosa, com Sven saindo tempestivamente da sala. E se as coisas entre os dois fossem acabar assim? E se, depois de tudo que eles partilharam, aquele fosse o momento final deles juntos? Encarei Rafe, uma casca do que havia sido apenas horas antes. Ele já tinha perdido o pai e a mãe há apenas alguns meses. Quanto mais uma pessoa podia perder?
Eu queria que ele chorasse, ou que ficasse com raiva, ou que reagisse de alguma maneira. Ele mal balançou a cabeça quando lhe perguntei se eu podia pegar alguma coisa para ele.
Gwyneth e Berdi se juntaram a nós mais tarde. Naqueles momentos cheios de cansaço, achei que não poderia amar mais qualquer uma das duas. Gwyneth despejou a água, empurrando-a para a mão de Rafe, e brincou com Sven, falando com o homem como se ele a estivesse ouvindo. Talvez estivesse. Jeb e Orrin entraram depois, pisando forte, com as pálpebras pesadas de exaustão, mas nenhum de nós queria estar nos próprios aposentos nesta noite. Tratava-se de uma vigília, como se todos os nossos corações pesados fossem âncoras que pudessem prender Sven a este quarto. Kaden estava sentado no canto, em silêncio, carregando uma culpa que não merecia. Gwyneth e Berdi trouxeram comida, afofaram travesseiros, limparam a testa de Sven. Gwyneth repreendeu Sven, dizendo que era melhor que ele recobrasse a energia logo, porque ela não conseguia mais aguentar essas faces pétreas, e então olhou para todos nós, tentando nos incitar a sair do nosso estado de melancolia. Ela deu um beijo na bochecha dele.
— Esse é por conta da casa — disse ela. — Pelo próximo, você vai ter que pagar.
Quando encorajei Rafe a comer alguma coisa, ele assentiu, mas, ainda assim, nada comeu. Por favor, rezei para os deuses, por favor, permitam que eles troquem umas últimas e poucas palavras que seja. Não deixem Rafe com apenas isso.
Gwyneth veio andando e sentou-se na lateral da cadeira de Rafe, jogando o braço em volta do ombro dele.
— Você não pode ouvi-lo, mas ele pode ouvir você. É assim que as coisas funcionam. Você deveria falar com ele. Dizer o que precisa dizer. É por isso que ele está esperando. — Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. — Está entendendo? Vamos sair agora, para que vocês dois possam conversar sozinhos.
Rafe assentiu.
Todos nós saímos do aposento. Fui ver como ele estava uma hora depois. Rafe estava sentado no chão, adormecido, com a cabeça inclinada junto à lateral da cama de Sven, que ainda estava inconsciente, mas notei a mão dele no ombro de Rafe, como se ela tivesse escorregado das cobertas da cama. Ou talvez Rafe a tivesse colocado ali.

3 comentários:

  1. Eu vou chorar. Mais. É sério.

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  2. Sempre há mais a se tirar!! É cruel!!! Passamos a amar um personagem e quando pensamos que tudo está bem ele morre!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!