20 de fevereiro de 2018

Capítulo 81

RAFE

Tavish me disse que Sven fora falar com o capitão Azia sobre a rotação de soldados que estavam guardando os prisioneiros. Ele não tinha conseguido arrancar uma palavra que fosse de Sven. O homem ainda estava taciturno e bufando de raiva quando partiu.
— Mas você conhece Sven. Ele sempre fica rugindo em relação às suas decisões de meia-tigela.
— Você também acha que estou errado?
Tavish deu de ombros, vestindo-se para o jantar.
— Eu sempre acho que você está errado. Geralmente dá certo. Não se preocupe, ele vai se recuperar. — Tavish calçou as botas e então fez uma pausa, quando estava no meio de amarrar os cadarços. — Mas vou adiar falar a ele sobre a sua outra decisão. Isso poderia fazer com que a cabeça dele explodisse.
Assenti e me servi e um pouco de água.
Tavish abriu um largo sorriso.
— Sabe, se você morrer nessa batalha, não terá que se casar com ninguém.
Eu me engasguei enquanto bebia, derramando água pela camisa.
— Bem, esse é um pensamento brilhante. Obrigado.
— Sou um estrategista. Estou sempre pensando.
Dei batidinhas com uma toalha na minha camisa.
— Talvez você devesse procurar por outra linha de trabalho.
O largo sorriso dele se desfez.
— Você vai conseguir sair dessa. Nós vamos ficar do seu lado.
Eu tinha contado a Tavish sobre a minha decisão de não me casar com a filha do general. Isso não era para o bem de Lia, nem para o meu próprio bem, mas sim pela moça. Ela não queria se casar comigo mais do que eu não queria me casar com ela. Ela estava sendo forçada a fazer aquilo da mesma maneira como tinha sido feito com Lia. Eu já cometera o mesmo erro fatal uma vez. Não estava prestes a cometê-lo de novo, até mesmo se isso custasse o trono. A moça merecia escolher o próprio futuro e não aceitar um futuro obviamente planejado pelo general para servir às próprias necessidades.
— Você contou para Lia? — ele me perguntou.
— Por quê? Para que possamos revirar a mesma discussão que tivemos quando deixamos Marabella? Não posso passar por aquilo de novo. Minha decisão não vai mudar nada entre nós. Se sobrevivermos a isso tudo, ainda assim retornarei a Dalbreck e ela ainda... — Balancei a cabeça. — Ela não vai vir comigo.
— Como pode ter tanta certeza?
Pensei na fúria nos olhos dela quando Lia dançou comigo no posto avançado, nos ossos que pegou em segredo e, debaixo da mesa, deslizava para dentro do bolso, na forma como ela andou de um lado para o outro na plataforma elevada no acampamento de Piers e então levantou a mão junto com a de Kaden quando abordou as tropas.
— Eu a conheço. Tenho certeza.
— Ela fez outras promessas?
— Sim.
Ele se levantou e colocou a mão no meu ombro.
— Sinto muito, Jax. Se eu pudesse mudar alguma coisa disso para você, mudaria.
— Eu sei.
Ele me deixou para ir se encontrar com Jeb e Orrin. Troquei de camisa e então saí para encontrar Sven, ainda remoendo as palavras dele. Ele vai se recuperar. Dessa vez, no entanto, parecia diferente. Sven já tinha explodido comigo antes, mas nunca na frente de estranhos. Talvez fosse isso que lhe causasse tanta amargura. Tomei decisões que colocavam o meu trono em risco, a mesma posição para a qual ele passara boa parte da sua vida me preparando, e fiz isso sem o consultar antes.
Lembrei-me de quando estava colocando a sela no meu cavalo e partindo em uma jornada às cegas para encontrar uma princesa em fuga. Ele também não tinha sido a favor daquilo, mas, depois de me assolar com um bando de perguntas, Sven saiu do caminho e me deixou ir. Era isso o que ele sempre fazia: levantava argumentos até que a minha determinação se tornasse aço. E, quando eu ficava dilacerado, ele me provocava: tome sua decisão e viva de acordo com ela. Até mesmo quando eu estava prestes a arrancar a cabeça do general dos seus ombros, Sven fizera com que eu reconsiderasse. O que deseja mais? A satisfação de arrancar a cabeça dele fora ou a de chegar até Lia o mais rápido possível? Porque nesse assunto, ele está certo: ninguém vai conseguir reunir uma equipe especial para você tão rapidamente quanto ele. E era verdade. Qualquer atraso, até mesmo de um dia, e eu não teria chegado até Lia a tempo. Aquela fora a decisão certa, e Sven me ajudara a chegar a ela.
No entanto, eu não mudaria de ideia sobre a decisão de manobrar as tropas. O conselho dele não foi necessário. Eu sabia o que precisava fazer, não apenas por Lia, mas também por Dalbreck. Queria explicar isso a ele. A essa altura, provavelmente ele estaria mais calmo. Sven sentiria muito por ter perdido uma reunião com o rei.
O pai de Lia não era como eu esperava que fosse. Agora eu sabia de quem Lia herdara aquela face calculada. Ele fizera com que eu me contorcesse. Eu não tinha me dado conta de que ele estava brincando comigo até que o homem proferiu a punição de Lia. De alguma forma, ele sabia que existiu alguma coisa entre nós. Que ainda existia alguma coisa entre nós. Alguma coisa que eu tentava esquecer. Tudo o que pude fazer foi tirar a mão do braço dela quando esbarramos um no outro. Eu era cauteloso nos meus movimentos quando estava por perto dela, consciente de uma forma que se tornara cansativa. Era como se eu estivesse mais uma vez em cima de uma tora em um jogo de luta. Um passo em falso, e eu estaria até a cintura na lama. Era mais fácil quando estávamos ocupados com tarefas que precisavam ser abordadas. Nós simplesmente trabalhávamos juntos, mas naqueles momentos não planejados, como quando trombei com ela, tudo ficava instável, balançando, e eu precisava navegar novamente no espaço entre nós, lembrando-me de não fazer o que já fora tão natural antes.
— Sentinela — falei, quando cheguei à ala oeste, onde os prisioneiros estavam sendo mantidos. — O coronel Haverstrom passou por aqui?
— Sim, faz um tempinho, Vossa Majestade. Ele ainda está lá embaixo — disse, assentindo em direção às escadas no final do corredor.
Sem sombra de dúvida ele estava enchendo os ouvidos do capitão agora, em vez dos meus. Eu ficaria devendo a Azia.
Entrei na passagem, e a escadaria estava às escuras. A noite se insinuara rapidamente, e os guardas não tinham acendido as lanternas. Apenas as tochas tremeluzentes do nível mais inferior proviam alguma luz. Alguns degraus lá embaixo, senti um silêncio penetrante, silêncio este que parecia profundo demais. Não havia qualquer murmúrio, nenhum bater de bandejas ou pratos de metal, embora estivesse na hora do jantar. Minha mão foi até a minha espada e, quando me virei no patamar da escada, havia um corpo com a face no chão, estirado na parte debaixo da escada. Sven.
Saquei minha espada e saí correndo.
Rolei o corpo dele para cima, e foi então que eu vi outro corpo, e mais um. Um soldado. Uma criada com bandejas de comida espalhadas a redor dele. Os olhos deles estavam abertos, mas nada viam. As portas das celas estavam escancaradas. Meu sangue corria a mil nas veias, tentando cuidar de Sven e procurar por perigo ao mesmo tempo.
— Sven! — sussurrei. O abdômen dele estava ensopado de sangue. — Guardas! — berrei, escadaria acima. — Sentinela!
Eu me virei de volta para Sven. As respirações dele estavam rasas, seus lábios mal se moviam, como se ele estivesse tentando falar. Ouvi um barulho e dei meia-volta. Outro corpo jazia naquela direção. Azia. Fui descendo de fininho o corredor em direção a ele, com a espada em riste, curvei-me para sentir o pescoço dele. Morto. Era o sangue dele escorrendo para dentro de um dreno que eu ouvira.
Espiei dentro da primeira cela. O Médico da Corte jazia no centro da sala, com a garganta cortada, aberta. A próxima cela continha mais um soldado morto. As outras celas estavam vazias.
Guardas pisavam pesado, descendo as escadas, com Lia logo atrás deles.
— Eles fugiram! — berrei. — Chamem um médico! Sven ainda está vivo! — mas por um triz. Pressionei a ferida dele. — Vamos, seu velho azedo! Fique conosco!
— Fechem os portões da cidade! — gritou Lia. — Alertem a guarda e o acampamento!
Ela caiu ao meu lado e me ajudou a fazer pressão na ferida, mas parecia que não era possível estancar o sangue, que vazava pelos nossos dedos. Kaden desceu correndo as escadas, absorvendo a cena horrível. Ele passou por nós aos empurrões, com a espada em punho.
— Eles se foram — falei. — Eu deveria ter deixado que você matasse o canalha quando teve a oportunidade.
Tirei o meu casaco e usei-o para ajudar a estancar o sangramento. Tanto as mãos de Lia quanto as minhas estavam ensopadas de sangue.
— Fique com ele até o médico chegar — falei a ela. — Não deixe que ele se vá!
E subi correndo as escadas para caçar os animais que fizeram isso.

Um comentário:

  1. Estou tão triste pelo Sven, assim como pelos irmãos da Lia e suas tropas! Mas feliz que o Rafe desistiu desse casamento feito por meio de chantagens! Espero que seu plano pra cancelar essa loucura de certo? Ele ama a Lia assim como ela o ama, os dois só precisam no final conversar e se resolverem! Torso que o Sven sobreviva, pois seria outra perda horrível pro Rafe! Os traidores fugiram com ajuda de alguém mas quem, só espero que sejam pegos de novo!? DM

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Boa leitura, E SEM SPOILER!