20 de fevereiro de 2018

Capítulo 80

O general Howland foi o primeiro a sair pela porta, como se fosse uma dádiva entregue em mãos pelos próprios deuses.
Meu pai acordou. Essa é uma dádiva, pensei. Mas talvez não seja uma dádiva que veio em um momento oportuno.
Tanto Rafe quando Kaden ficaram hesitantes, perguntando-se se a presença deles seria de fato solicitada. Pauline garantiu que sim. Nenhum deles parecia ansioso para conhecer o meu pai.
Nós andamos rapidamente pelos corredores, com o Guardião do Tempo e o general Howland seguindo na frente. Pauline e Gwyneth nos disseram que a rainha estava ao lado dele e o rei já fora informado de tudo que havia acontecido.
— Você está se referindo àquela coisinha chamada rebelião? — disse Rafe, e esfregou o pescoço como se estivesse se dirigindo até a forca.
— Não tem graça — falei.
Nossas passadas ecoaram no corredor, soando como o pequeno estouro de um bando de bodes nervosos. Parecia que nunca chegaríamos lá, mas então, antes que eu estivesse preparada para isso, a porta que dava para a câmara externa dele se abriu e fomos conduzidos para dentro pela minha tia Cloris. O restante dos membros do gabinete, inclusive o Erudito Real, já estava lá.
— Entrem — disse ela. — Ele está esperando.
Minha pulsação estava intensa, e entramos no quarto dele. Ele estava sentado na cama, apoiado em travesseiros. Seu rosto estava marcado por linhas e esquelético, e ele parecia bem mais velho do que era, mas os olhos estavam brilhantes. A cadeira da minha mãe estava ao lado da cama, e as mãos dos dois estavam entrelaçadas em uma familiaridade não característica.
Primeiramente os olhos dele pousaram em mim por um longo momento de escrutínio antes que ele, por fim, passasse a olhar para os outros ali presentes.
— Entendo que vocês estavam no meio de uma reunião — disse ele — e que não fui convidado para ela...
— Apenas porque o senhor estava indisposto, Vossa Majestade — respondi.
Ele juntou as sobrancelhas.
— Acho que a dose diária de veneno não caiu bem para mim.
— Vossa Maj...
Meu pai fechou a cara.
— Já falo com você, Howland. Espere sua vez.
O general assentiu.
— Qual de vocês é o rei de Dalbreck?
— Seria eu, Vossa Majestade — respondeu-lhe Rafe.
Meu pai ergueu a mão com muito esforço e acenou com um dedo torto para que Rafe chegasse perto dele.
— Você está aqui para assumir o comando do meu reino?
— Não, senhor, apenas para ajudar.
Estava claro que o meu pai ainda estava muito fraco, e eu sabia que Rafe estava medindo com cautela as palavras. Eu também detectei um certo nervosismo na sua resposta, e Rafe nunca ficava nervoso. Isso fez com que eu prendesse por um instante a respiração.
— Chegue mais perto. Deixe-me olhar melhor para você.
Rafe deu um passo à frente e prostrou-se com um só joelho no chão, ao lado da cama dele.
— Por que está de joelhos? — grunhiu meu pai. — Um rei não se curva a outro. Seu mentor não lhe ensinou isso?
Os olhos dele dançavam e, por um breve momento, ele olhou de relance para mim antes de se virar de novo para Rafe.
— A menos que você esteja de joelhos por outro motivo... Se for esse o caso, você está diante da pessoa errada.
Ah, pelo amor dos deuses! Ele estava brincando com Rafe. Esse não era o meu pai. Será que o veneno fez o seu cérebro apodrecer?
— Por nenhum outro motivo — disse Rafe, e voltou a ficar em pé rapidamente.
Meu pai acenou para que Rafe fosse para trás.
— E você deve ser o Assassino — ele disse a Kaden.
Acenou para Kaden vir para a frente de forma similar a como fizera com Rafe. Kaden não se prostrou de joelhos, mas eu sabia que ele não faria uma coisa dessas. Ele nunca se curvaria para a realeza, até mesmo se isso lhe custasse a vida. Meu pai não pareceu notar a afronta e estudava Kaden. Ele engoliu em seco, e vi um brilho de arrependimento na sua expressão, como se ele visse a semelhança entre Kaden e o Vice-Regente.
— Eu não sabia sobre você. Seu pai me disse que a sua mãe o tinha levado embora.
— O engodo sempre foi o maior dos talentos dele — respondeu Kaden.
O peito do meu se levantou em uma respiração irregular.
— E o seu também, pelo que entendo.
Olhei de relance para Pauline. Ela esteve na breve reunião com ele, mas será que lhe contara sobre Terravin?
— Você está aqui para matar alguém, rapaz?
Um fraco sorriso iluminou o rosto de Kaden. Ele estava pronto para participar desse jogo com o meu pai.
— Apenas com as ordens da sua filha.
— Ela ordenou que você me matasse?
Kaden deu de ombros.
— Ainda não.
Os olhos do meu pai ficaram cintilantes, com o jogo deixando-o revigorado, trazendo-o de volta à vida. Seu olhar contemplativo se voltou para mim. Ele fechou a cara mais uma vez.
— Você desobedeceu as minhas ordens, Arabella, e entendo que vendeu as joias do manto de casamento que estavam na nossa família havia gerações. Deve ser punida.
Os generais Howland e Perry mexiam os pés, felizes.
— Vossa Majestade — interveio Rafe — se eu puder...
— Não, você não pode! — falou meu pai irritado. — Este ainda é o meu reino, não o seu. Vá para trás, rei Jaxon.
Assenti para Rafe, tentando tranquilizá-lo. Espere.
Meu pai voltou a se colocar junto aos travesseiros.
— E sua punição será continuar a reger no meu lugar, aturando as infinitamente absurdas picadas do ofício até que eu esteja plenamente recuperado. Você aceita essa punição, Arabella?’
Minha garganta estava densa, doendo. Dei um passo à frente.
— Sim, Vossa Majestade, eu aceito. — Engoli em seco e depois disse: — Com uma condição.
Murmúrios cheios de surpresa irromperam.
Até mesmo no seu estado de fraqueza, ele revirou os olhos.
— Uma condição para a sua punição? Você não mudou nada, Arabella.
— Ah, pai, com certeza eu mudei muito.
— E a condição seria...?
— Você vai me apoiar independente de qual seja a minha decisão, porque ainda há muitas decisões difíceis pela frente, e algumas delas não serão populares para todos.
— Impopulares como um golpe de Estado?
— Sim, impopulares como um golpe.
— Então eu aprovo sua condição. — Ele olhou além de mim para o restante das pessoas. — Estou confiante de que Arabella cumprirá seu castigo para minha total satisfação. Alguém tem alguma objeção a isso?
Ninguém se pronunciou, embora eu soubesse que palavras silenciosas ardiam em algumas línguas.
— Que bom — disse o meu pai. — Agora, todo mundo para fora. Quero falar com a minha filha. A sós.

* * *

Tão logo o quarto foi esvaziado, eu me voltei para ele de novo, e vi que toda aquela atuação o cansara. Ele se afundou nos travesseiros, mais fraco do que antes.
Seus olhos brilhavam.
— Eu sinto muito, Arabella.
Eu me enrolei na cama ao lado dele, aninhando a minha cabeça no seu peito, e ele conseguiu colocar o braço em volta do meu ombro e deu uns tapinhas de leve na minha mão. Pediu desculpas por muitas coisas, e uma das mais importantes era de ter se tornado tão cansado da sua posição a ponto de permitir que a corrupção se insinuasse bem debaixo do seu nariz.
— Eu falhei como pai e como rei.
— Todos nós cometeremos erros, pai. Com esperança, aprenderemos com eles e seguiremos em frente.
— Como foi que você acabou íntima de um Assassino e de um rei recém-coroado?
— Os deuses têm um senso de humor perverso.
— E você confia neles?
Sorri, pensando em todos os engodos e em todas as traições que já se passaram entre nós.
— Com a minha vida — respondi.
— Existe mais alguma coisa por trás dessa união?
Muito mais, pensei. Talvez mais do que qualquer um de nós realmente entendesse.

Juntos eles atacarão,
Como estrelas cegantes lançadas dos céus.

— Sim — respondi. — Eles não apenas me dão esperança, como são a esperança de Venda também.
— Eu quis dizer...
— E sei o que o senhor quis dizer, pai. Não existe mais nada entre nós.
— E qual seria essa decisão impopular?
Contei a ele sobre o vale para onde estava movendo nossas forças contra os desejos do general, e então lhe falei mais acerca do meu plano, o que eu não tinha contado a quem quer que fosse.
— Arabella, você não pode...
— Você me prometeu, pai. Essa decisão é minha. — Deslizei para fora da cama. — O senhor deveria descansar.
Ele soltou um suspiro, com as pálpebras caindo.
— Os outros reinos nunca vão...
— Eles não terão escolha. Quanto a isso não poderei ser influenciada. Por favor, confie em mim.
Ele baixou as sobrancelhas com preocupação, mas então outra pergunta esvaneceu-se nos seus lábios, com sua última energia exaurida, e seus olhos se fecharam.

Eu estava com os ânimos elevados quando retornei ao meu quarto. A imagem dos meus pais de mãos dadas continuava vindo à minha mente. Era um gesto simples, mas tão inesperado quanto uma chuva de verão. Algumas coisas sobreviviam, até mesmo quando...
A porta de Rafe se abriu quando passei por ela e ele saiu com tudo, colidindo comigo. Nós tropeçamos e nos seguramos, com a mão dele apoiando-se na parede atrás de mim.
— Lia — disse ele, alarmado.
Nós dois estávamos equilibrados nos nossos pés agora, mas ele não se mexeu. O ar crepitava entre nós, vivo de um jeito que fazia minha pele formigar. A tensão era aparente nos olhos dele, e ele deu um passo, afastando-se, criando espaço entre nós, o movimento desajeitado e óbvio.
Engoli em seco, tentando me convencer de que tudo isso fazia parte de deixar as coisas para lá.
— Você está saindo em disparada para fazer o quê? — perguntei a ele.
— Eu preciso falar com Sven antes do jantar. Quero me certificar de que ele não vai levar indisposição para a mesa. Com licença, eu...
— Eu sei — falei, inexpressiva. — Você precisa ir.
Ele passou as mãos nos cabelos, jogando-os para trás, hesitante. Eu soube, com aquele pequeno movimento, que ele estava se esforçando para deixar as coisas para trás também, um pouquinho de cada vez. O amor não acabava de uma só vez, não importando o quanto fosse necessário que isso acontecesse ou o quão inconveniente fosse. Não se pode mandar no amor mais do que um documento de casamento poderia ordenar que ele surgisse. Talvez o amor tivesse que se esvair sangrando uma gota de cada vez até que chegue um tempo em que o nosso coração esteja entorpecido, frio e, na maior parte, morto. Ele mexeu os pés, seus olhos não se encontrando com os meus.
— Nós nos vemos no jantar — disse ele, e saiu para encontrar Sven.

* * *

Sombras dançavam nas paredes da fogueira na lareira. Tirei o meu cinto e as minhas armas, pendurando-os em um gancho, e cruzei o quarto até o meu vestíbulo, tateando o caminho em meio à escuridão enquanto deixava o restante das roupas caírem no chão. Acendi uma vela na escrivaninha e apanhei uma toalha para me enxugar, mas então alguma coisa insinuou-se para cima de mim. Uma presença.
Jezelia.
Eu girei, com o coração batendo de um jeito selvagem, buscando nos cantos da câmara. O cheiro dele enchia o ar, seu suor, sua confiança. Meus olhos faziam uma varredura frenética no aposento, varrendo as sombras, com a certeza de que ele estava ali.
— Komizar — sussurrei. Ouvi os passos dele, vi o brilho dos seus olhos na escuridão, o calafrio enquanto a mão dele circundava o meu pescoço, seu polegar pressionando a base da minha garganta, sentindo a batida do meu coração. Sempre há mais a se tirar.
E então ele se fora. A câmara estava vazia, como sempre estivera, e minhas respirações saltavam pelo peito. As mentiras, ele forçará as mentiras para cima de você. As mentiras dele. Ele me provocava e me amaldiçoava a cada quilômetro que viajava. Eu fiz o impensável... pior do que esfaqueá-lo... roubei um pouco do seu poder. Tentei forçar a calma de volta para dentro do meu coração.
Eu não permitiria que as mentiras dele roubassem as vitórias deste dia.
Inspirei o ar purificador e despejei agua dentro da bacia de banho, mas então fiquei paralisada, fitando a superfície brilhante. O jarro deslizou dos meus dedos, caindo ruidosamente no chão. O sangue espiralava-se na água, dedos vermelhos girando diante dos meus olhos, uma tempestade que carregava os sons estridentes da batalha, o fatiar de uma espada pela carne, o tombar oco de corpos caindo na terra. E então, com a mesma rapidez, era apenas água de novo, límpida e domada.
Recuei, tentando respirar, tropeçando às cegas pelo quarto.
Os esquadrões dos meus irmãos.
Um ofego doloroso por fim encheu os meus pulmões, e estiquei a mão para pegar as minhas roupas. Minhas mãos tremiam enquanto eu me vestia, afivelava os cintos, embainhava armas, calçava as botas. Minha palavra era tão verdadeira quanto a de Rafe. Eu me dirigi à cela em que estava o Vice-Regente.

5 comentários:

  1. Os olhos dele dançavam e, por um breve momento, ele olhou de relance para mim antes de se virar de novo para Rafe.
    — A menos que você esteja de joelhos por outro motivo... Se for esse o caso, você está diante da pessoa errada.
    Não creio q ele falou isso 😱😱aaaaaaaaaahhhhh Rei melhor pessoa😍😍

    ~MIRELLE

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  2. cara... e se no meio dessa batalha toda a Pauline acabar morrendo e a Lia fique com o Kaden criando o Rhys? D=

    Se for isso eu espero sinceramente que a Pauline e o Kaden terminem juntos, mesmo eu sendo #TeamKaden

    Ass: Ana Rajaram

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  3. Kaden bem que podia ter aquela epifania dnv com o tal dom que ele tb tem e ver algo, Lia acaba pagando de maluca, oush.

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  4. Algo me diz que não vou gostar do final dessa triologia..😥

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  5. Será que agora ela mata o vice-regente. Pois ela disse se acontecesse alguma com os irmãos dela, ela mesma o mataria.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!