2 de fevereiro de 2018

Capítulo 8

O PRÍNCIPE

Um kavah de casamento. Só foi preciso fazer-lhe umas poucas perguntas e dar-lhe algumas moedas para arrancar a informação dos lábios do menino do estábulo. Ele era astuto, e saber do segredo dela poderia se provar valioso. Joguei a ele mais umas poucas moedas e um aviso austero para que aquelas palavras nunca mais saíssem de seus lábios de novo, o segredo era para ser só nosso.
Depois de uma análise atenta da espada embainhada pendurada na minha sela, ele pareceu pelo menos esperto o bastante para perceber que eu não era o tipo a quem alguém trairia. Ele não conseguia descrever o kavah, mas tinha visto a menina esfregando as costas com fúria, em uma tentativa de removê-lo.
Fúria. Como eu conhecia bem esse sentimento agora. Eu não estava mais impressionado ou curioso. Três semanas dormindo no chão duro e rochoso haviam dado um jeito nisso. Durante vários dias parecia que eu estava prestes a encontrá-la, ficando apenas um passo atrás, para, em seguida, perder o rastro por completo antes de encontrá-lo de novo, várias vezes seguidas. Quase como se ela estivesse brincando comigo. Desde os andarilhos que haviam encontrado o manto de casamento dela — com o qual estavam remendando sua tenda — passando por mercadores na cidade com joias para negociar, por fogueiras de acampamento apagadas e frias em trilhas raramente usadas, um vestido imundo e dilacerado de fina renda tecida somente em Civica, até as pegadas com marcas de cascos deixadas em margens lamacentas, eu tinha seguido as míseras migalhas que ela me deixara, tornando-me obcecado em não permitir que ela ganhasse no jogo para o qual Sven havia passado anos me treinando.
Eu não gostava do fato de que uma fugitiva de dezessete anos estivesse brincando comigo. Ou talvez eu apenas estivesse levando as coisas muito para o lado pessoal. Ela jogava na minha cara o quanto queria ficar longe de mim, o que me levava a imaginar se eu teria sido tão esperto ou determinado caso tivesse agido segundo meus pensamentos, como ela fez. Tateei debaixo do meu colete para sentir o único comunicado que recebi dela, um bilhete tão cheio de ousadia que eu tinha dificuldades de imaginar a menina que o havia redigido.
Inspecionar-me. Nós veríamos quem faria a inspeção agora.
Abaixei a cabeça sob o fluxo de água novamente, tentando resfriar não só o corpo, mas também a mente. Eu precisava mesmo era de um bom banho.
— Guarde um pouco dessa água para mim, amigo.
Ergui a cabeça com rapidez, chacoalhando as gotas de água dos meus cabelos. Um camarada mais ou menos da minha idade aproximou-se de mim, seu rosto tão marcado quanto o meu pelos duros dias na estrada.
— Tem bastante para todos. Longa jornada?
— Longa o bastante — respondeu-me, mergulhando a cabeça debaixo da água depois de bombear um fluxo constante. Ele esfregou o rosto e o pescoço com ambas as mãos e pôs-se de pé, estendendo-me a mão molhada.
Tentei analisá-lo. Com certeza ele parecia amigável o bastante, mas havia algo em relação a ele que me deixava cauteloso também, e então, quando ele voltou os olhos de relance para meu cinto e a arma na lateral do meu corpo, soube que ele estava me avaliando com o mesmo cuidado com que eu o avaliava, o tipo de escrutínio que talvez um soldado treinado utilizasse, mas com o olhar parecendo casual.
Ele não era apenas um mercador no fim de uma longa jornada.
Peguei na mão dele e o cumprimentei.
— Vamos entrar, amigo, e lavar um pouco da poeira em nossas gargantas também.

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Boa leitura! E SEM SPOILER!