14 de fevereiro de 2018

Capítulo 8. Diga que você está viva

J. Edgar Hooper era a própria imagem da vergonha quando entrou nos aposentos presidenciais:
— Mister President, meu cargo está à sua disposição. Falhei miseravelmente na guarda de sua filha e...
— Isso não é hora para histórias de honra ofendida, Hooper! — ralhou MacDermott, duramente. — A sua honra está em continuar ao meu lado e me ajudar a salvar a minha filha. Pois comece a trabalhar. Quero que seja investigado o estilo do texto, quem são esses tais “Heróis em Defesa da América para os Americanos”, preciso saber quem está à frente dessa maldita organização nos Estados Unidos, quero que sejam checadas as fichas de cada um dos meus inimigos mais conhecidos, tudo, tudo!
A bronca do presidente americano pareceu aliviar pouco a tensão do diretor da CIA, que não era homem se entregar à primeira derrota:
— Obrigado por não me tirar da luta, Mister President!
Logo que Peggy entrou no esconderijo secreto atrás dele, Chumbinho só
conseguia pensar na pressa que o empurrava para a ação. Mas, qual era essa ação? Não sabia direito como continuar o plano louco que imaginara, o de esconder uma adolescente como aquela. Para onde a levaria? Não dava para ficar por muito mais tempo ali em cima, pois os agentes americanos poderiam resolver enfiar os narizes em todos os cantos, invadindo até o forro do vestiário. Magrí tinha sido levada pelos ares e não faria sentido a polícia perder tempo dentro do colégio, mas Chumbinho não podia arriscar.
Com a chegada da noite, estava escuro ali dentro. Vinda das luzes externas do colégio, apenas uma claridade tênue entrava pelas poucas telhas de vidro que
formavam um retângulo entre as telhas de barro maciço. Sob esse retângulo, Peggy o olhava com as sobrancelhas franzidas e uma expressão tão decidida, tão preparada para as loucuras que na certa teria de enfrentar que, por um momento, Chumbinho pensou que Magrí estivesse ali, pronta para a ação e... e nua!
Pela primeira vez, desde que entrara no vestiário feminino, Chumbinho deu-se conta da condição em que estava a menina e arregalou-se frente à nudez da filha do presidente dos Estados Unidos. E, como se os dois não estivessem envolvidos no maior risco de suas vidas, o menino enrubesceu.
“Ai, nem tive tempo de pegar roupas para ela, ou pelo menos uma toalha! Essa garota vai morrer de frio!”
Rapidamente, tirou o casaco e as calças do moletom que vestia. Somente de cuecas e camiseta do Elite, ofereceu as duas peças para a menina, sem nada dizer. A filha do presidente americano enfiou as calças do abrigo sobre o corpo nu. Vestiu o casaco com o logotipo do Elite, puxou o zíper e voltou a encarar o incrível garoto, de quem aceitara a ideia doida de desaparecer do mundo para tentar salvar a vida de Magrí.
— Ela está arriscando a vida no meu lugar, Chumbinho! — sussurrou ela com força. — Não posso abandoná-la! O que nós vamos fazer?
— Fugir daqui, Peggy. Talvez a polícia resolva vasculhar cada canto do colégio à procura de pistas. Não podemos perder tempo. Me siga. E confie em mim. Eu tenho amigos que vão nos ajudar. Tudo vai dar certo!
— Okay. E não se preocupe comigo. Pode deixar que eu não sou de me apavorar.
Chumbinho afastou duas telhas do lado mais baixo do telhado e esgueirou-se pelo espaço deixado entre as ripas e os caibros. Peggy seguiu-o, decidida. Como dois gatos, o menor componente do grupo dos Karas e a filha do presidente dos Estados Unidos rastejavam furtivamente pelos telhados do Colégio Elite...
A luz vermelha iluminava fantasmagoricamente o interior da barraquinha e as vozes dos dois bandidos chegavam abafadas aos ouvidos de Magrí:
— I didn’t understand... uma coisa... não entendi.
O comentário do outro foi inaudível.
— ... porta aberta do vestiário... por quê?
— ... I don’t know... para o gás ir embora logo... talvez...
— Ahn...
Magrí arrastou-se por dentro da barraca e grudou o ouvido na lona. Seguia-se um breve silêncio de falta de assunto. Um deles rompeu-o, enfadado:
— Pena que a gente não tenha trazido nada para beber... Um gole de whisky até que ia bem... Ou mesmo essa fantástica aguardente dos brasileiros, a tal cachaça...
— Pra beber não tem. Mas tem pra comer.
— Os sanduíches? Dá aqui.
— Trouxe seis.
— Três pra cada um.
— Você vai comer tudo isso? Eu achei que eram dois pra cada um.
— Dois pra cada um dá quatro, stupid! Não dá seis.
— Mas, e a garota?
— Quem? Pra que é que ela precisa morrer de barriga cheia? Ela bem que pode ficar mais umas horas sem comer. Depois que a minha faca tiver feito o trabalho, ela não vai sentir mais fome...
— Ora... o pai dela pode obedecer ao que o captain quer... Daí ela não precisa morrer, não é?
— Se você só quiser dois, pode deixar que eu como quatro.
Dentro da barraca, a condenada, que não tinha direito à sua última refeição, ouvia cada palavra de sua sentença de morte...
“Eles vão me matar... Eles têm um celular. O tal captain vai acabar ligando para dizer que a verdadeira Peggy está livre e, daí, eles vão me matar! O que eu vou fazer?”
Durante alguns minutos, ouviu apenas ruídos de mastigação.
— Olha aqui. Eu trouxe até sobremesa!
— Bom! O que é?
— Sorvete!
O outro rugiu:
— Mas você é um cretino, mesmo! Não sabe que sorvete derrete?
— Mas eu trouxe no isopor!
— Mesmo assim. Quando você comprou? Na hora do almoço? Você acha que sorvete aguenta tanto tempo no isopor? Deixa ver... olha aí: tudo derretido! Virou um maldito mingau! Magrí ouviu um tapa desferido pelo bandido contra a caixa de isopor. Em seguida, um baque contra a lona da barraca. O bandido jogava fora a sobremesa derretida.
— Puxa, que pena... Era um sorvete tão bom! Logo, que isso acabar, vou lá fora comprar mais...
Um ruído encerrou a conversa. Magrí sentiu uma leve vibração no piso sob o plástico da barraca.
— É o captain. Desça a escada.
Logo em seguida, um murmúrio diferente da voz dos dois. Alguém mais estava com os bandidos.
— Oh, captain! Everything’s under control. Está tudo bem, captain... — informou uma das vozes que a menina já conhecia.
O murmúrio respondeu ao bandido. Magrí só pôde perceber que era uma voz masculina. Mas falava baixo demais, como se estivesse numa igreja durante um culto. “Ai, esse captain deve estar contando que eu não sou Peggy! Chegou a minha hora...”
— Um bilhete para o pai? o computador?
Mais uma ordem murmurada.
“Como?! O bandido não sabe que Peggy está livre? O que aconteceu? Será que a polícia resolveu esconder Peggy só para me proteger? Oh, tomara que sim, tomara que sim!”
— Certo. Ela não vai fazer nenhuma gracinha, captain, pode deixar.
Recortada contra a iluminação vermelha, a silhueta do sequestrador aproximava-se. O zíper da entrada da barraca foi aberto uns dois palmos e uma mão peluda introduziu-se, sem que Magrí pudesse ver o corpo do homem.
Sentiu-se agarrada e trazida para a frente da barraca, O bandido puxava seus braços para fora e cortava as cordas que lhe amarravam os pulsos. Jogou-a de volta para dentro e deixou alguma coisa no chão plastificado.
O sequestrador soltou o pano da entrada, sem fechar o zíper. O pano caiu, frouxamente.
Magrí esfregou os pulsos machucados pelas cordas e viu um pequeno computador portátil, que funcionava a bateria, ligado e com a tampa aberta. Na tela, estava escrito, em inglês:
Miss Peggy, white a note to your father.
Escreva uma nota para o seu pai. Não tente nada, apenas diga que está bem. E não se esqueça de escrever alguma coisa que só seu pai conheça. Ele precisa saber que você está viva.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!