6 de fevereiro de 2018

Capítulo 8. Brincando com a morte

Para um caso grave como aquele, o Esquadrão Anti-sequestro estava sob as ordens da Polícia Federal. E todos estavam sob o comando do detetive Andrade, nacionalmente famoso depois de tantos casos difíceis brilhantemente resolvidos, como o da Droga da Obediência, da Máfia no Pantanal e do ressurgimento dos neonazistas.
Quando o policial, trazendo os dois Karas, abriu a porta da sala da Polícia Federal no Aeroporto de Cumbica, lá estava o detetive Andrade, andando de um lado para o outro e enxugando com um lenço a careca suada, apesar da temperatura perfeitamente climatizada. O famoso detetive voltou-se, surpreso:
— Magrí! Chumbinho! O que vocês estão fazendo aqui?
— Esses dois são as testemunhas que estavam com a mulher baleada — informou o policial, ainda segurando os dois Karas sujos de sangue. — O senhor já conhecia esses meninos?
— É claro que sim! Raios! Que mania vocês têm de se meter em tudo! O que houve? Quanto sangue! Vocês estão feridos? O que é isso no tornozelo, Magrí?
Como um pai preocupado, abraçou Magrí e Chumbinho e ouviu ansiosamente o relato do que os dois tinham presenciado.
— Mas por que será que os bandidos só atiraram nessa sua professora, dona Iolanda?
— Não sei, Andrade — respondeu Magrí. — Vai ver foi porque ela gritou...
Os dois Karas sentaram-se e Magrí tratou de tirar as bandagens que envolviam seu tornozelo, falsamente destroncado. Agora não havia mais necessidade de fingir.
Andrade andava novamente a esmo, enxugando a careca.
— Eu não entendo! Por que haveriam de sequestrar o doutor Bartholomew Flanagan? Por que roubar as amostras da Droga do Amor? De que vale isso para esses bandidos? No próximo avião, a Drug Enforcement pode enviar outra caixa com novas amostras!
— Um momento, detetive...
Sentado em uma cadeira, já com um belo curativo na testa, quem falou, em um português perfeito, com um leve sotaque, foi o americano ferido pela coronhada.
— Por favor, não estranhe que eu fale a sua língua. Sou Hector Morales, presidente para a América Latina da Drug Enforcement Inc. Minha função exige que eu domine perfeitamente o português e o espanhol. Sou americano, de origem portoriquenha e...
— E o quê, doutor Morales? — Andrade estava impaciente. — Vamos cortar as apresentações. Pode me dizer qual o lucro que esses bandidos esperam ter, sequestrando o doutor Bartholomew Flanagan e roubando as amostras da Droga do Amor? O que eles querem? Pedir um resgate pelo cientista?
Hector Morales era um homem extremamente educado. Seus cabelos, apesar do curativo, já estavam novamente penteados para trás, em perfeita ordem, negros, lisos e brilhantes, o nó da gravata novamente impecável e a tranquilidade recuperada.
— Detetive...?
— Andrade. Detetive Andrade.
— Detetive Andrade, o que acaba de acontecer tem uma gravidade muito maior do que o senhor está pensando.
— Mais grave? O que pode ser mais grave do que...
— Um momento, deixe-me continuar. O projeto do soro que vocês, aqui no Brasil, batizaram de “Droga do Amor”, aliás um nome muito criativo, é extremamente secreto. A Drug Enforcement teve de adotar todas as providências para impedir que empresas concorrentes tomassem conhecimento do que estávamos pesquisando. O senhor sabe, detetive Andrade, como é sério o problema de espionagem industrial nos Estados Unidos, não é?
— Continue, doutor Morales.
— Nosso esquema de proteção às pesquisas foi o mais perfeito possível. Decidimos que, quanto menor o número de pessoas que conhecesse a fórmula do soro, maior seria nossa segurança na proteção do segredo. Desse modo, mesmo a numerosa equipe que criou a fórmula não a conhecia em sua totalidade. Cada técnico desenvolveu apenas a sua parte, sem conhecimento das outras fases. Só o doutor Bartholomew Flanagan fazia a conexão entre os vários departamentos e conhecia a fórmula completa...
— O quê?!
— Para agravar o problema, detetive, a Drug Enforcement não tem outras amostras do soro. Por razões de segurança, só foram produzidas as amostras que estavam naquela caixa...
— Horror! Então isso quer dizer que...
— Que, sem as amostras e sem a fórmula que está na memória do doutor Bartholomew Flanagan, a Droga do Amor estará perdida!

* * *

O sequestro do doutor Bartholomew Flanagan e o roubo da caixa com as amostras da Droga do Amor tinha sido o plano mais sinistro que Andrade já enfrentara.
— Que horror! Que vergonha! Esses bandidos vão pedir uma fortuna para devolver a Droga do Amor! Malditos! Como alguém pode jogar assim com a vida de milhões de seres humanos desenganados em todo o mundo? Há milhões de pacientes terminais internados, ansiando por esse soro! É crueldade demais! Essa gente está brincando com a vida!
— Eles estão brincando com a morte, Andrade. . . — corrigiu Magrí.
O doutor Hector Morales balançou a cabeça:
— A Drug Enforcement pode reunir todos os cientistas que trabalharam com o soro e tentar refazer a fórmula. Porém, sem o gênio criativo do doutor Bartholomew Flanagan, vamos levar anos para chegar ao mesmo resultado. Talvez décadas...
— Bandidos!
— Décadas perdidas, bilhões de dólares em subvenções que recebemos de todo o mundo para desenvolver o soro também estão perdidos. Como reunir tudo o que precisamos para recuperar o que já havíamos descoberto? Onde conseguir novamente todo esse dinheiro para retomar as pesquisas? Como recriar tudo o que estava na cabeça do doutor Bartholomew Flanagan? Ah, isso é obra de uma organização criminosa internacional, sem dúvida...
— A Drug Enforcement já recebeu algum pedido de resgate?
— Ainda não. Acabei de falar com a diretoria, há poucos minutos. Vamos aguardar.
— Os bandidos, pelo jeito — raciocinou Andrade —, sabiam o que estavam fazendo ao sequestrar o doutor Flanagan e roubar as amostras da Droga do Amor. Posso concluir então que houve ajuda de dentro da Drug Enforcement, não é?
— Sim e não, detetive — respondeu o doutor Hector Morales. — A Drug Enforcement fazia questão de manter em segredo as pesquisas, mas não fazia questão de fazer segredo que fazia segredo. É nosso estilo de trabalho. Todo mundo sabe disso. O crime foi coisa de profissionais muito bem organizados. Só pode ser a Máfia...
— A Máfia? — cortou Andrade. — Acho que não neste caso. Acho que sei quem está por trás disso tudo...
Da sua cadeira, Chumbinho arriscou: — O Doutor Q.I., sem dúvida. Andrade olhou pálido para o menino.
— Chumbinho, você...
— Estou certo, não estou, Andrade? Quando você passou pelo Elite, preocupado com a gente, trazendo um crachá e um envelope da Penitenciária de Segurança Máxima, eu só podia desconfiar de uma fuga do Doutor Q.I., não é? E você tem razão: um plano como esse só pode mesmo ser coisa dele...
— Doutor Q.I.? Quem é essa pessoa? — perguntou Morales.
— Um gênio do mal, doutor — explicou Andrade, sem desmentir Chumbinho. — Alguém perfeitamente capaz de arquitetar uma barbaridade como essa, de lucrar com a morte de milhões de inocentes!

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