24 de fevereiro de 2018

Capítulo 7

Chalé dos Fox
Terça-feira, 6 de outubro
Querida Louisa,
Espero que você esteja bem e aproveitando sua estada em Nova York.
Creio que Lily esteja escrevendo para você, mas fiquei pensando na nossa última conversa e dei uma olhada no loft, onde peguei algumas cartas de Will, da temporada que ele passou aí, e achei que você poderia gostar. Você sabe como ele adorava viajar, e pensei que talvez você pudesse gostar de fazer os mesmos passeios.
Li algumas das cartas; foi uma experiência agridoce. Pode ficar com elas até o nosso próximo encontro.
Com todo o carinho,
Camilla Traynor

Nova York, 6 de dezembro de 2004.
Querida mãe,
Eu teria telefonado, mas a diferença de fuso horário não se encaixa na agenda daqui, então achei que devia chocá-la com uma carta. É a primeira desde aquele curto período na Priory Manor, eu acho. Eu não fui exatamente feito para um colégio interno, não é?
Nova York é incrível! É impossível não se sentir contagiado pela energia do lugar. Acordo e vou para a rua às cinco e meia da manhã todos os dias. Minha empresa fica na Stone Street, no Distrito Financeiro. Nigel arrumou uma sala para mim (não é de esquina, mas tem uma bela vista da água — aparentemente são por essas coisas que avaliam a gente aqui em NY) e os caras do trabalho parecem ser legais. Diga a papai que fui à ópera no Met sábado com meu chefe e a esposa dele — (Der Rosenkavalier, um pouco exagerado) e você vai gostar de saber que fui assistir a uma apresentação de Les Liaisons Dangereuses. Temos muitos almoços com clientes, muitos jogos de softball da empresa. Poucos eventos noturnos: meus novos colegas são quase todos casados, com filhos pequenos, então sou só eu explorando os bares…
Saí com algumas garotas — nada sério (aqui, “encontros” parecem ser uma distração passageira) —, mas passo a maior parte do meu tempo livre na academia ou com velhos amigos. Tem muita gente da Shipmans aqui, e conheço alguns da escola. Parece que o mundo é bem pequeno, no fim das contas… Mas a maioria das pessoas mudou bastante desde que veio para cá.
Estão mais duronas, mais ávidas do que na minha lembrança. Acho que a cidade desperta isso em você.
Enfim! Vou sair com a filha de Henry Farnsworth esta noite. Lembra dela? Destaque do Clube Stortfold Pony? Pois ela se reinventou como uma espécie de guru das compras. (Não crie expectativas, só estou fazendo isso como favor para Henry.) Vou levá-la à minha churrascaria preferida, no Upper East Side: pedaços de carne do tamanho de um sapato. Espero que ela não seja vegetariana. Todo mundo aqui parece ter aderido a alguma moda alimentícia.
Ah, e no domingo passado, peguei a linha F e saltei no fim da Brooklyn Bridge só para voltar andando por cima da água, como você sugeriu. Foi a melhor coisa que fiz até agora. Tive a impressão de ter entrado em um dos primeiros filmes de Woody Allen — sabe, aqueles em que a diferença de idade entre ele e as atrizes principais era só de dez anos…
Diga a papai que vou telefonar para ele semana que vem, e dê um abraço no cachorro por mim.
Com amor, W.

* * *

Desde aquela tigela de macarrão barato, algo mudara na minha relação com os Gopnik. Acho que entendi um pouco melhor que eu era capaz de ajudar Agnes em seu novo papel. Ela precisava de alguém em quem confiar e se apoiar. Aquilo, e a estranha energia osmótica de Nova York, significava que dali em diante eu pularia da cama de uma forma que não fazia desde que trabalhara para Will. Isso fazia com que Ilaria estalasse a língua e revirasse os olhos, e com que Nathan me olhasse de esguelha, como se eu tivesse começado a usar drogas. Mas era simples. Eu queria fazer bem o meu trabalho. Queria aproveitar ao máximo meu tempo em Nova York, trabalhando para aquelas pessoas maravilhosas. Queria desfrutar intensamente cada dia, como Will teria feito.
Reli aquela primeira carta inúmeras vezes, e quando me acostumei à estranheza de ouvir sua voz, senti uma identificação inesperada com ele, um recém-chegado à cidade.
Eu me empenhei mais. Corri com Agnes e George todas as manhãs, e certos dias até consegui ir até o final do percurso sem querer vomitar. Passei a conhecer os lugares a que Agnes mais ia, quais as coisas mais prováveis quisesse ter consigo, que quisesse vestir e levar para casa. Estava pronta no corredor antes que ela aparecesse, com água, cigarros e suco verde prontos quase antes de ela mesma saber que os queria. Quando Agnes precisava ir a um almoço onde talvez as Terríveis Matronas estivessem, eu fazia piadas antes para aliviar o nervosismo e enviava pelo celular uns GIFs de pandas soltando pum ou de pessoas caindo de trampolins, para que ela os visse durante a refeição. Eu estava esperando no carro quando acabava e a ouvia contar com lágrimas nos olhos o que haviam dito ou o que não haviam dito para ela, balançava a cabeça em solidariedade ou concordava que elas eram, sim, criaturas cruéis e impossíveis. Secas feito palitos. Sem coração.
Aprendi a manter a expressão neutra quando Agnes me dava informações demais sobre o lindo, belíssimo corpo de Leonard e suas muitas, muitas habilidades incrííííííííveis na cama, e tentava não rir quando ela falava palavras em polonês, como cholernica, com as quais insultava Ilaria sem que ela entendesse.
Logo descobri que Agnes não tinha filtro. Meu pai sempre dizia que eu costumava falar a primeira coisa que me ocorria, mas no meu caso não era Puta velha amargurada! em polonês, ou Dá para imaginar aquela monstra da Susan Fitzwalter se depilando? Deve ser que nem arrancar a barba de um mexilhão fechado. Cruzes.
Não que Agnes fosse malvada per se. Acho que se sentia tão pressionada para se comportar de determinada maneira, para ser vista e examinada e não decepcionar, que eu me tornei uma espécie de válvula de escape. No instante em que ela se afastava das companhias, falava palavrões e xingava, e quando Garry finalmente nos levava para casa, ela havia recuperado a equanimidade a tempo de ver o marido.
Desenvolvi estratégias para reintroduzir alguma diversão na vida de Agnes. Uma vez por semana, de surpresa, nós desaparecíamos no meio do dia para ir ao cinema na Lincoln Square e assistir a comédias bobas e nojentas, roncando de tanto gargalhar enquanto enfiávamos pipocas na boca. Desafiávamos uma a outra a entrar nas lojas da Avenida Madison e experimentar as piores roupas de grife que pudéssemos encontrar, nos admirando mutuamente, as expressões sérias, e perguntando, Você tem isso em um verde mais chamativo?, enquanto as vendedoras, com um olho na bolsa Hermès Birkin de Agnes, circulavam de lá para cá, forçando elogios. Certa vez, no horário de almoço, Agnes conseguiu convencer o Sr. Gopnik a ir conosco, e eu observei enquanto ela, posando feito uma modelo na passarela, exibia para ele uma série de terninhos dignos de palhaços, desafiando-o a rir, enquanto as extremidades da boca dele se contorciam de tanto reprimir as risadas. Você apronta cada uma, disse ele a Agnes depois, balançando a cabeça com carinho.
Mas não era só o meu trabalho que me deixava animada. Eu tinha começado a entender melhor a cidade, e, em troca, ela começava a me acolher. Não era difícil, em uma cidade de imigrantes — fora da estratosfera rarefeita da vida cotidiana de Agnes, eu era apenas mais uma pessoa vinda de muito longe, percorrendo a cidade, trabalhando, pedindo minha comida para viagem nos restaurantes ou aprendendo a especificar pelo menos três coisas que queria no meu café ou sanduíche, só para soar como uma nativa.
Eu observava e aprendia.
Eis o que aprendi sobre Nova York no primeiro mês:
1. Ninguém no meu prédio falava com ninguém, e os Gopnik só falavam com Ashok. A velha do segundo andar, a Sra. De Witt, não falava com o casal da Califórnia na cobertura, e o casal que estava sempre de terno do terceiro andar caminhava pelo corredor com o nariz colado no iPhone, latindo instruções para o microfone ou entre si. Até mesmo as crianças do primeiro andar — pequenas manequins lindamente vestidas, acompanhadas por uma jovem filipina afobada — não diziam olá e mantinham os olhos fixos no tapete felpudo quando eu passava. Na vez em que sorri para a menina, os olhos dela se arregalaram como se eu tivesse feito algo profundamente suspeito. Os moradores do Lavery saíam do edifício e imediatamente entravam em carros pretos idênticos que aguardavam com paciência junto ao meio-fio. Sempre pareciam saber qual era o seu. A Sra. De Witt, até onde pude ver, era a única pessoa que falava com alguém. Falava com Dean Martin o tempo todo, ia mancando pelo quarteirão e resmungando baixinho sobre os “russos miseráveis, os chineses horríveis” do prédio atrás do nosso, que mantinham os próprios motoristas esperando lá fora vinte e quatro horas por dia, atravancando a rua. Ela reclamava ruidosamente com Ashok ou com a empresa que administrava o prédio sobre o fato de Agnes ficar tocando piano, e se passávamos por ela no corredor, apressava o passo, de vez em quando deixando escapar um chiado de reprovação vagamente audível.
2. Em contrapartida, nas lojas, todos falavam com você. As vendedoras a seguiam o tempo todo, a cabeça inclinada para a frente para escutar melhor, sempre querendo saber como podiam ajudá-la ou se podiam levar ao provador para você experimentar. Eu não recebia tanta atenção desde que fora surpreendida com Treena roubando um chocolate da agência do correio aos oito anos, e a Sra. Barker nos acompanhara de perto, feito uma agente do serviço secreto, todas as vezes que entramos lá para tomar sorvete nos três anos seguintes.
E todos os vendedores de lojas em Nova York queriam que você tivesse um bom dia. Mesmo que você só estivesse comprando um suco de laranja ou o jornal. No início, encorajada pela simpatia, eu respondia “Ah! Bem, tenha um bom dia você também!” e eles sempre ficavam um pouco surpresos, como se eu simplesmente não entendesse as regras de conversação em Nova York.
Quanto a Ashok, ninguém passava pela entrada do prédio sem trocar algumas palavras com ele. Mas eram negócios. Ele sabia fazer seu trabalho. Estava sempre se assegurando de que você estava bem, que tinha tudo de que precisava.
— Não pode sair com sapatos arranhados, Srta. Louisa!
Era capaz de sacar um guarda-chuva de dentro da manga feito um mágico para a curta caminhada até o meio-fio, aceitando gorjetas com o gesto discreto de um gatuno. Conseguia tirar notas de dinheiro dos punhos, agradecendo discretamente ao guarda de trânsito que facilitava a passagem do entregador do mercado, ou da entrega de roupas da lavanderia, e assobiava, pedindo um táxi amarelo-vivo, fazendo-o surgir do nada com um som que só os cachorros eram capazes de ouvir. Ele não era apenas o porteiro do nosso prédio, era seu batimento cardíaco, garantindo a circulação das coisas, assegurando-se de que tudo corresse como planejado, fornecendo sangue.
3. Os nova-iorquinos — aqueles que não pegavam limusines diante do nosso edifício — caminhavam muito, muito rápido, dando passadas na calçada, entrando e saindo de multidões como se possuíssem aqueles sensores que impedem que você esbarre em outra pessoa. Seguravam celulares, copos de isopor, e, antes das sete da manhã, pelo menos a metade deles vestia roupas de ginástica. Toda vez que eu desacelerava, ouvia um xingamento resmungado ao meu ouvido, ou sentia a bolsa de alguém se chocar contra as minhas costas. Parei de usar meus sapatos mais chamativos — os que me faziam cambalear, meus chinelos de gueixa japonesa ou minhas botas de plataforma listradas dos anos setenta — e passei a usar tênis, para poder me mover com a corrente, em vez de ser um obstáculo que separava as águas. Gosto de pensar que se alguém me visse do alto nunca imaginaria que eu não era dali.
Durante aquelas primeiras semanas, eu também caminhei, horas a fio. No início, achei que passaria um tempo com Nathan, conhecendo lugares novos.
Mas ele parecia ter construído um círculo social de homens viris, do tipo que não tem qualquer interesse em companhias femininas a menos que tenha bebido várias cervejas primeiro. Passava horas na academia e fechava os finais de semana saindo com uma ou duas garotas. Quando eu sugeria que fôssemos ao museu, ou talvez passear pelo High Line, ele sorria, constrangido, e me dizia que já tinha planos. Portanto, eu caminhava sozinha, atravessando Midtown até o Meatpacking District, até o Greenwich Village, o SoHo, desviando de grandes avenidas, seguindo qualquer coisa que parecesse interessante, com meu mapa na mão, tentando lembrar qual era o sentido do tráfego. Vi que Manhattan tinha regiões diferentes, dos edifícios imponentes de Midtown às ruas de paralelepípedos dolorosamente descoladas em torno da rua Crosby, onde uma a cada duas pessoas parecia ser modelo, ou dona de uma conta no Instagram dedicada à alimentação saudável. Eu caminhava sem ter um destino exato, sem precisar estar em qualquer lugar. Comi uma salada em um bar de montar saladas, pedindo algo com coentro e feijão preto porque nunca tinha comido nenhum dos dois. Peguei o metrô, tentando não parecer uma turista enquanto me perguntava como comprar um bilhete e identificar os malucos, e esperei por dez minutos que meu batimento cardíaco voltasse ao normal depois de emergir de volta à luz do dia. Então atravessei a Brooklyn Bridge, como Will tinha feito, e percebi meu coração se encher de alegria quando avistei a água cintilante abaixo, sentindo a vibração do tráfego sob meus pés, ouvindo mais uma vez sua voz em minha mente. Viva corajosamente, Clark.
Parei no meio da ponte e fiquei imóvel, olhando o East River, me sentindo suspensa, quase zonza com a sensação de já não estar presa a qualquer lugar específico. E aos poucos parei de riscar itens na lista, porque era tudo praticamente novo e estranho.
Durante aquelas primeiras caminhadas, eu vi:
Um homem vestido de mulher andando de bicicleta cantando canções de musicais em um microfone, com alto-falantes. Várias pessoas aplaudiram enquanto ele passava.
Quatro garotas pulando corda entre dois hidrantes. Eram duas cordas girando ao mesmo tempo, e eu parei para aplaudir quando elas enfim terminaram de pular, e elas sorriram para mim timidamente.
Um cachorro de skate. Quando mandei uma mensagem de texto para minha irmã contando isso, ela me disse que eu estava bêbada.
Robert de Niro.
Pelo menos eu acho que era Robert de Niro. Foi no começo da noite e eu estava me sentindo nostálgica, com saudades de casa, quando ele passou por mim na esquina das ruas Spring e Broadway, então falei em voz alta, “Ai, meu Deus. Robert de Niro”, antes que pudesse me conter, mas ele não se virou ao passar por mim, então eu não tive certeza, depois, se isso se devia ao fato de que ele era apenas um sujeito qualquer que achou que eu estava falando sozinha, ou se era exatamente o que você faria se fosse Robert de Niro e uma mulher na calçada começasse a gritar seu nome.
Decidi que era a última opção. Mais uma vez, minha irmã me acusou de estar bêbada. Enviei uma foto do meu iPhone para ela, mas ela respondeu: Isso pode ser a cabeça de qualquer um, sua besta, e acrescentou que eu não somente estava bêbada, mas era mesmo bastante burra. Foi então que minhas saudades de casa diminuíram um pouquinho.
Queria contar aquilo a Sam. Queria contar tudo para ele, em lindas cartas escritas à mão ou pelo menos em longos e-mails digressivos que depois nós salvaríamos e imprimiríamos, e que seriam encontrados no sótão da nossa casa quando já estivéssemos casados há cinquenta anos, para que nossos netos achassem fofo. Mas estava tão cansada naquelas primeiras semanas que só consegui enviar e-mails sobre como estava cansada.
Estou tão cansada. Estou com saudades.
Eu também.
Não, estou, tipo, muito cansada. Cansada do tipo chorando com comerciais na TV, dormindo enquanto escovo os dentes e acabando com pasta de dente no peito inteiro.
Está bem, você venceu.
Tentei não me importar com o fato de ele me escrever pouco. Tentei lembrar a mim mesma que ele estava fazendo um trabalho de verdade, difícil, salvando vidas e fazendo a diferença, enquanto eu ficava sentada em salões de manicures e corria pelo Central Park.
O supervisor dele mudara as tarefas. Ele estava trabalhando quatro noites seguidas e ainda aguardava que lhe dessem um novo parceiro permanente. Isso deveria tornar mais fácil nos falarmos, mas de alguma forma não era o caso. Eu checava o celular durante os minutos livres que tinha toda noite, mas costumava ser a hora em que ele estava saindo para começar o turno.
Às vezes eu me sentia curiosamente deslocada, como se tivesse inventado Sam em um sonho. Uma semana, ele me assegurou. Só mais uma semana. Quão difícil podia ser?

* * *

Agnes estava tocando piano outra vez. Tocava quando estava feliz ou infeliz, com raiva ou frustrada, escolhia música agitadas, emotivas, fechava os olhos enquanto as mãos se moviam de um lado ao outro sobre as teclas, se balançando no banquinho. Na noite anterior ela tocara um noturno, e quando passei pela porta aberta da sala de estar, observei por um instante o Sr. Gopnik sentado ao lado dela no banco. Ainda que ela estivesse totalmente absorta na música, ficou claro que tocava para ele. Ao terminar, sorrira para o marido e ele baixara a cabeça para beijar sua mão. Passei da porta na ponta dos pés como se não tivesse visto.
Estava no escritório, revendo os eventos da semana, tendo chegado até a quinta-feira (Almoço Beneficente Da Associação Crianças com Câncer, As Bodas de Fígaro), quando ouvi alguém batendo na porta. Ilaria estava com a especialista em comportamento animal — Felix tinha outra vez feito algo indizível na sala do Sr. Gopnik —, então saí no corredor e abri.
A Sra. De Witt estava diante de mim, a bengala erguida como que pronta para dar um golpe. Eu me abaixei instintivamente, e, quando ela baixou a bengala, me endireitei, com as palmas das mãos erguidas. Demorei um instante para entender que ela simplesmente usara a bengala para bater na porta.
— Posso ajudar?
— Diga a ela para parar com esse barulho infernal!
Seu minúsculo rosto enrugado estava vermelho-escuro de fúria.
— Como?
— A massagista. A noiva encomendada pelo correio. Tanto faz. Posso ouvir do outro lado do corredor.
Ela usava um casaco estilo Pucci dos anos setenta com estampa verde e cor-de-rosa e um turbante verde-esmeralda. Mesmo enquanto eu me retesava ao ouvir seus insultos, estava fascinada.
— Hum, na verdade Agnes é fisioterapeuta treinada. E está tocando Mozart.
— Não ligo se for Champion, o Cavalo Fantástico tocando kazoo com o você-sabe-o-quê dele. Diga a ela para fazer silêncio. Ela mora em um prédio. Deveria ter alguma consideração pelos outros moradores!
Dean Martin rosnou para mim, como que concordando. Eu ia dizer mais alguma coisa, mas me distraí tentando entender qual dos olhos dele estava de fato olhando em minha direção.
— Vou dar o recado, Sra. De Witt — falei, com meu sorriso profissional.
— Como assim, “dar o recado”? Não “dê o recado” simplesmente. Faça ela parar. Está me deixando louca com esse teclado infeliz. Dia, noite, o tempo todo. Isto costumava ser um prédio tranquilo.
— Mas, para ser justa, seu cachorro está sempre lat…
— A outra era péssima também. Mulher miserável. Sempre com aquelas amigas tagarelas, blá blá blá no corredor, atravancando a rua com seus carros enormes. Ai. Não me surpreende que ele a tenha trocado.
— Não sei se o Sr. Gopnik…
— “Fisioterapeuta treinada”. Meu Deus, é assim que chamamos agora? Então eu devo ser a negociadora-chefe da ONU.
Ela secou o rosto com um lenço.
— Até onde eu sei, a grande vantagem dos Estados Unidos é que aqui você pode ser quem bem entender.
Sorri.
Ela estreitou os olhos. Mantive meu sorriso.
— Você é inglesa?
— Sou. — Senti um possível abrandamento. — Por quê? Tem parentes lá, Sra. De Witt?
— Não seja ridícula. — Ela me olhou de cima a baixo. — Só pensei que moças inglesas tivessem estilo.
E, com isso, ela me dispensou com um aceno e voltou mancando pelo corredor enquanto Dean Martin lançava olhares amargurados atrás dela.

* * *

— Era a bruxa velha louca do outro lado do corredor? — perguntou Agnes, enquanto eu fechava a porta com cuidado. — Credo. Não me surpreende que ninguém venha vê-la nunca. É como um horrível pedaço ressecado de suszony dorsz.
Houve um breve silêncio. Ouvi páginas sendo viradas.
Então Agnes começou a tocar uma música estrondosa, gradativa, os dedos se derramando sobre as teclas, pisando o pedal com tanta força que senti o chão vibrar.
Fixei novamente meu sorriso no rosto enquanto atravessava o corredor e olhei meu relógio com um suspiro interno. Só mais duas horas.

5 comentários:

  1. Quando você conhece personagens odiosos e então outro livro lhe apresenta um mais odioso ainda... só pra mostrar que dá para piorar.

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  2. Estou morrendo de medo de Lou e Sam não fiquem juntos.😞

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Boa leitura, E SEM SPOILER!