20 de fevereiro de 2018

Capítulo 79

Eles passaram pelo longo vale,
E os sentinelas da devastação
Olhavam para baixo, para Morrighan,
Dos picos que se agigantavam,
Sussurrando que o fim da jornada estava perto.
Mas a Escuridão rugia, atacando novamente,
E Morrighan lutava pelo Remanescente Sagrado,
Derramando o sangue da escuridão,
Derrotando-a para sempre.
— Livro dos Textos Sagrados de Morrighan, Vol. IV —



Eu bebia chicory quente de uma caneca alta, estudando os mapas que estavam espalhados pela mesa da câmara de reuniões. Eu os movia ao meu redor como se estivesse olhando para eles de um novo ângulo, que me faria ver alguma coisa que não tinha visto antes. Ali. Aquilo girava dentro de mim, uma voz distante me forçando a olhar de novo e de novo, mas eu não sabia o que estava procurando. Ali. Uma resposta? Um aviso? Eu não sabia ao certo.
Eu tinha chegado mais cedo porque não conseguia dormir. Ainda estava escuro quando ouvi os gritos de crianças. Joguei minha colcha para trás e olhei janela afora, mas os gritos não estavam vindo de lá. Eles pairavam no meu quarto e nadavam atrás dos meus olhos. Eu os via apinhados, juntos, com medo, os jovens soldados vendanos que estavam a caminho. E então ouvi os Brezalots, suas respirações quentes e ferozes, o vapor das suas narinas enchendo o ar da noite, e, por fim, os sussurros do Komizar arrastavam-se debaixo da minha pele como se fossem vermes erguendo a minha carne. Fervor, Jezelia, fervor. Você está enfim me entendendo?
Não havia como voltar a dormir após isso. Eu me vesti e fui descendo sorrateiramente até a cozinha, onde um bule de água quente estava sempre fumegante, e enquanto meu chicory estava em infusão, eu me ajoelhei ao lado da lareira, dizendo minhas lembranças matinais, pensando em Morrighan cruzando as terras inóspitas sem qualquer mapa para guiá-la, e a coragem que ela deve ter conjurado. Rezei por aquela mesma coragem.
Havia ao menos uma dúzia de mapas dispostos na mesa. Alguns, apenas de Civica; outros, do reino inteiro; e ainda outros do continente inteiro. Os mapas viravam um borrão, e um cheiro passava por mim, fragrante, como grama esmagada em um campina. Os minúsculos pelo do meu pescoço ficaram arrepiados. Ali. Uma voz tão clara quanto a minha.
Rearranjei com fervor os mapas, dessa vez examinado as rotas ao sul, mas eles não continham mais respostas para mim do que antes. Havia dúzias de possibilidades. Demos voltas e mais voltas em relação a qual rota o Komizar tomaria, embora, uma vez que ele entrasse em Morrighan, isso faria pouca diferença. Não tardaria para que 120 mil soldados suprimissem vilarejos ao longo do caminho e depois engolfassem Civica. Outra questão que se agigantava era quando eles chegariam aqui. Quanto tempo ainda tínhamos? Muito dependia da rota, embora a diferença entre as rotas ao sul e ao norte ainda fosse apenas uma questão de dias. Batedores foram enviados para darem aviso prévio, mas eles não tinham como fazer o reconhecimento de todos os quilômetros de uma vasta imensidão.
As últimas duas semanas levaram muito da nossa formação de estratégias para fora, cavalgando pela área rural que nos cercava, tentando encontrar localidades estratégicas onde montar e fortificar as nossas defesas. Cívica estava miseravelmente vulnerável, e os bloqueios que estavam sendo construídos nas duas artérias principais eram horrivelmente inadequados. Durante esse tempo, voltei a treinar. Assim que tirei a tipoia e a bandagem, tentei recuperar a força na mão esquerda, mas o entorpecimento persistia. A mão estava boa para segurar um escudo e pouco mais do que isso. Eu não conseguia atingir um alvo a uns três metros que fossem. Minha mão direita precisava se esforçar mais. Tentei esconder a frustação quando eu e Natiya treinamos dezenas de mulheres que tinham vindo servir no nosso esforço, muitas delas já com habilidades com arcos e flechas.
Quando o general Howland viu mulheres em meio às tropas, cerrou o maxilar com tanta força que achei que fosse esmigalhar os dentes em centenas de lascas ruidosas.
— Todo soldado disposto é bem-vindo e necessário, general — falei para ele, pisando nos seus argumentos antes que eles pudessem começar. — Uma mulher estará liderando vocês na batalha. Por que ficaria tão surpreso ao ver mulheres em meio aos escalões?
Ele me encarou, pasmo, e me dei conta de que era a primeira vez que ele compreendera que eu entraria na batalha com ele. Sim, o general estava contando os dias até que meu pai se recuperasse ou que meus irmãos retornassem, mas ainda não havia sinais de qualquer uma das duas coisas.
A porta se abriu e ergui o olhar de relance. Rafe estava lá, parado, com uma caneca fumegante na mão também. Voltei a olhar para os mapas.
— Você chegou cedo.
— Você também — disse ele.
Eu não havia contado a ele que tinha tomado conhecimento das circunstâncias do noivado dele. Meu brinde não eliminara por completo a estranheza entre nós. Havia vezes em que ele me pegava olhando para ele, e eu desviava o olhar rapidamente. Outras vezes, o olhar contemplativo dele de demorava em mim até mesmo quando nossa conversa tinha terminado, e eu me perguntava no que ele estaria pensando. No entanto, nós nos acomodamos em um ritmo. Amigos. Companheiros. Como eu e Kaden éramos.
Rafe foi andando até o meu lado da mesa e olhou para os papéis que estavam estirados comigo. Seu braço roçou no meu enquanto ele empurrava um mapa para o lado. Minha pele ardeu com seu toque. Ardeu de um jeito que não deveria acontecer entre amigos. Isso não estava certo, eu sabia, mas não conseguia evitar aquele sentimento.
— Você está vendo alguma coisa? — ele me perguntou.
Eu via apenas que nossos esforços pareciam fúteis.
— Não.
— Nós vamos encontrar um jeito — disse ele, lendo os meus pensamentos.

* * *

Kaden chegou, e consultamos uns aos outros, como fazíamos a cada manhã antes de todo o resto do pessoal se juntar a nós, em relação ao que precisava ser abordado naquele dia. A discussão de evacuar cidades ao longo de prováveis rotas de invasão precisava ser abordada, mas nós sabíamos que isso poderia agitar o pânico e perturbar as cadeias de suprimentos de que tão desesperadamente precisávamos. Nós nos reclinamos nas cadeiras, descansando as botas na mesa e, horas depois, estávamos ainda na mesma posição enquanto ouvíamos Tavish e o capitão Reunaud brigando sobre as formas de se derrubarem Brezalots. Eles eram criaturas detestáveis de ataque e eram perfeitos para o uso da arma mais destrutiva do Komizar. Ambos tinham visto Brezalots serem mortos com lanças, mas isso exigiria uma extrema proximidade dos animais explosivos. Eles concordavam que uma balestra funcionaria, no entanto, sem saber exatamente de onde os imensos cavalos haveriam de atacar, precisaríamos de dezenas de armas. Morrighan tinha quatro delas, que não haviam sido usadas em anos. Pesadas balestras não eram úteis para a maioria das batalhas que ocorriam em localidades de campos remotos. Precisava-se apenas de uma espada ou uma flecha para matar um homem. A ordem foi dada para que mais balestras fossem construídas.
Seguiu-se uma batida à porta, e uma sentinela anunciou que os criados tinham chegado com a comida do meio-dia. Mapas foram movidos para uma mesa de canto, e as travessas foram trazidas para dentro. Enquanto comíamos, a conversa voltou-se para o treinamento dos soldados, e meus pensamentos se voltaram para os meus irmãos. Olhei para Rafe, que estava do outro lado da mesa, na minha frente. Eu não tinha certeza de que algum dia o tinha agradecido por solicitar uma escolta de volta para casa para os esquadrões dos meus irmãos, e então, com egoísmo, eu me perguntava quantos soldados um batalhão dalbretchiano teria. Em Morrighan, um batalhão era formado por quatrocentos soldados. Uma vez que estivessem aqui, será que os homens dele ficariam e nos ajudariam?
Eu sabia que o mesmo pensamento fervia na mente de Kaden, e então, entre mordidas de carne e pão, o Marechal de Campo de repente fez em voz alta a pergunta que todos nós tínhamos em mente: será que Dalbreck enviaria mais tropas para ajudar Morrighan? A sala ficou imersa em silêncio.
Essa pergunta já tinha sido feita. Rafe sustentara desde a sua chegada em Civica que ele e os seus homens estavam aqui apenas para ajudar a expor traidores, estabilizar o nosso reino e nos ajudar a prepararmos as forças para uma possível invasão. O Marechal de Campo havia colocado Rafe em uma posição desconfortável repetindo a pergunta. Dalbreck também estava correndo riscos. Rafe precisava pensar nas próprias fronteiras, isso sem falar no próprio reino cheio de problemas. Ele já tinha arriscado muita coisa só de vir até aqui. Eu vi o foco de Sven ficar mais aguçado, esperando para ver o que Rafe diria.
Ele me estudou, pesando cuidadosamente a resposta, e depois voltou a olhar para o Marechal de Campo.
— Quando enviei a mensagem a Fontaine, também solicitei o envio de tropas.
As expressões nos rostos das pessoas que estavam em volta da mesa ficaram radiantes.
— Quantos? — perguntou-lhe Marques.
— Todos.
Sven reclinou-se em sua cadeira e soltou um suspiro.
— Esse é nosso maior posto avançado. São 6 mil soldados.
Passaram-se uns poucos segundos em silencio total.
— Bem, isso é... — as sobrancelhas do Marechal do Campo era como fatias de lua em cima de seus olhos arregalados.
— Notável! — terminou Howland.
— E muito bem-vindo — completou Marques.
— Fiz uma solicitação similar a Marabella — disse Rafe. — Eles vão reunir tropas em mais dois postos avançados ao longo do caminho. São mais mil. Estou certo de que todos virão, contanto que os Valsprey tenham chegado lá sem incidentes. Não posso fazer nenhuma promessa em relação ao restante.
Eu não estava certa de que o havíamos ouvido direito.
— O restante? — falei, tão pasma quanto as outras pessoas da sala.
Sven levantou-se, com as mãos pressionadas na mesa.
— O restante?
— Os 32 mil soldados que ainda estão em Dalbreck e que estou tirando das nossas fronteiras. Como eu disse, não posso prometer que eles virão. A transição de poder enfrentou alguns obstáculos. O general a quem tive que solicitar as tropas é o mesmo que recentemente me desafiou. Ele poderia usar esse pedido como uma forma de recomeçar sua campanha pelo trono. Isso é improvável, porém... — Rafe olhou para mim, hesitante.
— Porque você está noivo da filha dele — terminei.
Rafe assentiu.
— Improvável? — Sven fitou Rafe, sem acreditar, com os olhos ardendo em chamas, e então se virou e saiu andando da sala, batendo a porta atrás de si.
Rafe assentiu para que Tavish fosse atrás dele, que saiu também.
Seguiu-se uma silenciosa e falsa sensação de segurança, estando os oficiais com os olhos pregados na porta, a raiva de Sven ainda pairando no ar, e então o Marechal de Campo voltou a olhar para Rafe. Eu via a dúvida nos olhos dele. Ajudar uma princesa com uma rebelião para expor traidores era uma coisa, mas um rei abandonando as próprias fronteiras era um ato de insanidade.
— Por que, em nome dos deuses, você faria uma coisa dessas? Isso vai deixar suas próprias fronteiras vulneráveis.
Rafe não perdeu a compostura.
— Eu não tenho dúvidas de que o Komizar atacará Dalbreck, mas antes atacará Morrighan. Ele está vindo para cá primeiro.
— Foi isso que a princesa disse, mas como você pode ter certeza disso...?
— É um risco calculado. Não trazer as minhas tropas até aqui é um risco maior. Isso poderia significar a nossa própria destruição. De um ponto de vista estratégico, vocês têm os portos e os recursos para dominar todos os outros reinos a oeste. Assim que o Komizar tiver Morrighan, ele será imbatível.
Ele parou de falar por um instante, e seus olhos, por um breve momento, buscaram os meus.
— No entanto, é bem mais do que isso o que me leva a ter certeza. Alguém uma vez me perguntou se alguma vez eu senti algo profundamente no meu âmago. — Ele olhou de novo para o Marechal de Campo, e então olhou de relance para as paredes que nos cercavam e para o antigo mural que contava a história da menina Morrighan, com o olhar contemplativo erguendo-se para o teto, para as pedras e, ao que parecia, para o cimento dos séculos que mantinha tudo isso junto. — Esta é a joia pela qual o Komizar está sedento. Morrighan é o reino mais antigo, aquele que deu origem a todos os outros. Morrighan nunca caiu. É um símbolo de grandeza. No entanto, mais do que isso, é o reino que os deuses ordenaram desde o começo. Para o Komizar, a conquista de Morrighan é sinônimo de conquistar os deuses. Eu vi esse desejo nos olhos dele quando estava em Venda, e ele não vai se contentar com nada menos do que isso.
Nós ficamos sentados ali por longos segundos, e eu soube que Rafe tinha percebido as ambições do Komizar com uma incrível clareza.
— Obrigada, rei Jaxon — falei por fim. — Quaisquer que sejam os números que possam vir, cada soldado nos tornará mais fortes, e para cada um deles nós estaremos em dívida com você. — Porém, eu estava agradecendo a ele por mais do que suas tropas. Ele estava tão afundado nisso quanto eu e Kaden agora. Era tudo ou nada.
Uma renovada exuberância irrompeu-se na sala, com os generais e oficiais adicionando seus agradecimentos aos meu; no entanto, eu, Kaden e Rafe trocamos olhares de quem sabia das coisas. Se todas as tropas solicitadas por Rafe viessem, nossas forças combinadas seriam de 70 mil. Nosso número ainda era inferior em quase uma proporção de dois para um por um exército que desceria sobre nós com armas mais mortais. Rafe abrandou a resposta deles com um lembrete de que essa era apenas uma bandagem em uma ferida bem aberta. Nós precisávamos mesmo era de uma agulha e de um fio para costura, de forma a fechar a ferida.
— Mas é uma bandagem tremendamente boa — disse o Marechal de Campo.
As discussões recomeçaram. Com as forças adicionais em mente, os generais começaram a falar de bloqueios mais defensivos nas artérias fundamentais de Morrighan.
Uma agulha e um fio.
Fiquei com o olhar fixo em Kaden, cuja boca estava se mexendo, mas eu não conseguia ouvir as palavras que ele dizia. A sala foi ficando cada vez mais brumosa. As deliberações tornaram-se um ribombo ao longe, até mesmo enquanto outros sons se erguiam à frente delas.
Um rangido.
Um esmigalhar.
Uma roda na pedra.
Eu me lembrei de ouvir o clangor da ponte. Que chegou cedo demais. Antes do primeiro degelo. Os sons na minha cabeça ficavam cada vez mais altos, e a sala, cada vez mais escura.
O sibilar de um riacho.
Um uivo fúnebre.
Passadas apressadas.
Temor, denso como a noite.
Fervor, Jezelia, fervor, um sussurro quente ao meu ouvido.
E então, outra voz, suave e baixinha, tão fina quanto um farfalhar de vento.
Ali.
— Lia? — disse Kaden, tocando no meu braço.
Dei um pulo, e as brumas desapareceram. Todo mundo estava com os olhares fixos em mim, mas tudo em que eu conseguia pensar era em pachegos. Minha cadeira rangeu para trás, e fui correndo até a mesinha de canto onde estavam as pilhas de mapas.
— Coloquem a comida de lado! — gritei, enquanto levava aquele monte de mapas para a mesa e os espalhava nela.
— Que diabos?
— Você viu alguma coisa?
— Alguém me diga o que ela está fazendo.
Folheei os mapas até encontrar aquele que eu queria.
Ali.
— Uma rota ao norte — falei. — É por ali que ele está vindo.
Ergueu-se uma onda de argumentos.
— Nós já descartamos a possibilidade de uma rota ao norte. Ele poderia ficar preso em uma nevasca tardia.
— Mais ao norte — falei. — Por Infernaterr. É a rota perfeita. O caminho é reto, e o inverno nunca chega até lá.
A essa altura, tanto Kaden quanto Rafe estavam olhando por cima do meu ombro para o mapa também.
Kaden deu um passo para trás e balançou a cabeça.
— Não, Lia. Não por ali. Ele nunca viria por esse caminho. Você conhece os clãs. Até mesmo Griz e Finch. Homens demais no exército dele temem as superstições das terras inóspitas.
Dirigi meu olhar a Kaden.
— É esse o ponto. Ele está usando esse medo.
Ele olhou para mim, ainda sem entender.
— Fervor, Kaden. Ele não tem mais a mim. Ele criará o próprio fervor dele. Um tipo diferente de fervor para forçá-los a seguirem em frente.
O início do entendimento passava pelos olhos dele, e depois veio a preocupação. Eles chegariam antes do que prevíramos?
— Eu os ouvi — falei. — Os gritos dos jovens soldados. Os uivos dos pachegos. O Komizar usa o medo deles para arregimentá-los. E que caminho melhor do que as terras inóspitas do Infernaterr para mover seu exército rapidamente pelo continente?
Voltei o mapa, olhando para uma extensão de Infernaterr e Morrighan. Mais palavras soavam na minha cabeça. Palavras de Rafe, caçoando de mim enquanto minha espada bloqueava a dele.
Ataque! Não espere que eu deixe você cansada!
— O que é isso? — perguntei, apontando para o que parecia uma linha em V de picos na ponta do Infernaterr.
O capitão Reunaud aproximou-se para ver para o que eu estava apontando.
— O Vale do Sentinela. Às vezes, é chamado de Último Vale. — Ele me explicou que esse acreditava que esse fora o último vale pelo qual Morrighan conduzira os Remanescentes antes que eles chegassem ao seu novo começo. Ele havia viajado por esse vale algumas vezes em comboios que se dirigiam a Candora.
Deixe que a surpresa seja a sua aliada!
— Por que é chamado de Vale do Sentinela? — perguntei.
— Ruínas — respondeu ele. — Elas ficam acima das altas colinas que margeiam o vale como se estivessem nos observando. A luz pode pregar peças lá. É uma trilha estranha, e quando o vento é soprado e assovia pelas ruínas os soldados dizem que os Antigos estão chamando uns aos outros.
Pedi que ele me falasse coisas especificas em relação ao terreno, a altura dos picos, a extensão do vale e os múltiplos cânions além dos picos.
Avance! A espada é uma arma mortal, e não de defesa. Se você estiver usando-a para se defender, está perdendo uma chance de matar.
Reunaud disse que eram quinze quilômetros de vale que se estreitavam até um ponto com menos de cinquenta metros de largura. Eu já tinha visualizado as linhas de frente do Komizar: seriam os mais jovens, os quais ele consideraria os mais dispensáveis do seu exército. Venda não tem crianças. Ele jogaria isso na minha cara, esperando que me abalasse, como acontecera naquele dia no terraço. Que fosse abalar todo soldado morrighês que estivesse relutante em erguer a sua espada contra uma criança.
— Nós estamos perdendo tempo tentando defender Civica. Precisamos avançar.
— Avançar? Para onde? — grunhiu o general Howland. — O que você...?
— Essa é nossa agulha e nosso fio. Contenção. Nós afunilamos o exército dele com ataques-surpresa de lado. Nós derrubamos os fortes enquanto ainda estamos fortes. Essa pode ser nossa única chance.
Apontei para o pequeno V no mapa.
— Ali. Eis onde encontraremos o exército do Komizar. Vamos mover todas as nossas tropas para o Vale do Sentinela.
As discussões explodiram. Howland, Marques e Perry vieram para cima de mim com tudo que tinham, achado que eu estava louca de mover nossas forças inteiras para uma localidade muito distante com base no que eles chamavam de palpite. Rafe e Kaden estudavam os mapas, conversado baixinho entre si, e depois olharam para mim e assentiram.
O Marechal de Campo e Reunaud pareciam ter sido pegos no meio disso tudo.
— Vocês sabem o quanto vai demorar para mover 30 mil soldados até um ponto tão longe assim? — disse Howland berrando, balançando o dedo para mim.
— Então você está dizendo que um líder bárbaro é capaz de mover um exército descomunal de 120 mil soldados por todo o continente e nós não somos capazes de mover nossas forças menores até uma localidade que fica logo fora das nossas fronteiras? Talvez devêssemos simplesmente desistir agora, não, general?
— Mas não temos nenhuma evidência de que ele esteja vindo mesmo do norte! — gritou Marques.
Perry jogou as mãos para cima.
— Deixar Civica desprotegida? Você não pode...
— Esse ponto — falei com pungência — não está sendo considerado sem cautela. Nós começaremos a estabelecer novas estratégias pela manhã. Vamos sair daqui no final da semana. Vocês estão livres para deixarem a sala agora para prepararem suas tropas para mover...
Howland deu um passo na minha direção, com os punhos rigidamente cerrados nas laterais do corpo.
— Isso não vai acontecer! — berrou ele. — Eu vou falar com a rainha. Você não vai...
Tanto Rafe quanto Kaden ficaram tensos, parecendo que estavam prestes a fazer com que o homem fosse dar outro mergulho na fonte, dessa vez pela janela, mas então socos ressoaram na porta da câmara, que se abriu com tudo, e o Guardião do Tempo irrompeu aposento adentro, passando pelo sentinela e empurrando-o, com o olhos esbugalhados e o rosto brilhando com o suor. Pauline e Gwyneth entraram correndo logo depois dele.
— O que foi? — perguntei, com o coração pulando na garganta.
— É o rei — disse ele, entre respirações dificultadas. — Ele acordou. E quer ver todos vocês na sua câmara. Imediatamente.

2 comentários:

  1. Primeira a comentar
    O reiiiiiii finalmente ele acordou por favor concorde com a Lia é o universo falando com ela o dom acrediti

    Mirtiz

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  2. E o que vai acontecer com agora que o rei acordou? Certeza que vai ficar do lado da filha.

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!