20 de fevereiro de 2018

Capítulo 77

KADEN

Ela estava sentada em um banco nas sombras de um passadiço arcado, com o bebê nos braços, seu olhar contemplativo perdido em um mundo distante. Seus longos cachos de cabelos cor de mel estavam arrumados e enfiados dentro de uma rede, cujos pontos e fios transmitiam uma sensação de adequação.
Ela não ergueu o olhar quando me aproximei dela. Parei, com os meus joelhos quase raspando nos dela.
O olhar de Pauline permaneceu fixo no seu colo.
— Eu estava indo para lá — disse ela — e então me dei conta de que ele não tem um nome. Eu não posso entrar lá sem um nome para ele. Você mesmo disse isso, preciso dar um nome a ele.
Eu me curvei para baixo em um só joelho e ergui o queixo dela para que ela se deparasse com meu olhar contemplativo.
— Pauline, não importa o que eu diga nem o que ninguém lá dentro vai pensar. Você escolhe um nome quando estiver pronta.
Ela me estudou. Seus olhos passavam por todos os centímetros do meu rosto, seu olhar inquieto e temeroso.
— Eu achei que ele me amava, Kaden. Eu achei que eu o amava. Tenho medo de fazer escolhas erradas de novo. — Ela engoliu em seco e sua busca inquieta parou, com o olhar vindo de encontro ao meu. — Até mesmo quando uma escolha parece tão certa.
Eu não conseguia desviar o olhar. De repente, minha respiração ficou presa no peito, e eu estava com medo de fazer escolhas erradas também. Tudo que eu conseguia ver eram os lábios dela, os olhos, por toda parte, apenas Pauline.
— Kaden — sussurrou ela.
Por fim a minha respiração soltou-se ruidosamente.
— Eu acho que se uma escolha parece certa, talvez seja melhor testá-la primeiro — falei. — Vá devagar e veja se pode se tonar algo mais... alguma coisa de que possa ter certeza.
Ela assentiu.
— É isso o que eu quero. Algo mais.
Era isso que eu queria também.
Levantei-me.
— Eu vou entrar primeiro. Direi a eles que você está a caminho.

* * *

Voltei à sala de jantar no momento em que o próximo prato estava sendo servido: o cozido de peixe de Berdi. Lia se levantou e deu a volta na mesa para dar um beijo na bochecha de Berdi e lhe dizer quantas vezes ela sonhara com cada mordida, cada aroma, cada sabor que tinha o cozido dela. Tão logo senti o cheiro eu soube que, sim, era melhor do que o cozido do Enzo, mas então pedi que todo mundo se segurasse só por um instante.
— Eu acho que vi Pauline descendo pelo corredor. Ela deve estar aqui a qualquer momento.
E, em poucos segundos, ela entrou. A moça parou um instante no arco da entrada, com o gorro solto, o cobertor puxado para trás da cabeça do bebê de modo que seus poucos cabelos loiros aparecessem e para que sua pequenina mão fechada estivesse livre para ser agitada no ar.
— Olá, pessoal. Desculpem-me pelo atraso. Eu precisava alimentar o bebê.
Talheres fizeram um estardalhaço ruidoso em algum lugar na sala.
— O bebê? — disse lady Adele.
— Sim, tia — foi a resposta de Pauline. Ela pigarreou e então ergueu o queixo. — Este é o meu filho. Gostaria de vê-lo?
O silêncio vibrava pela sala. Lady Adele estava boquiaberta.
— Como é possível que você tenha um filho? — perguntou ela por fim.
Pauline deu de ombros.
— Ah, eu o tive da forma que se costuma ter.
A tia dela olhou para mim e para os meus cabelos de um loiro branco e depois voltou a olhar para o bebê. Eu vi o que ela estava presumindo, e estava prestes a corrigi-la, mas então nada falei. Eu deixaria isso para Pauline.
O bebê quebrou o silêncio com um choro alto.
— Traga-o até aqui — disse Berdi, estirando os braços. — Eu sei como embalar essa batatinha-doce, de modo que ele...
— Não — disse lady Adele. — Deixe-me ver a criança. Ele tem nome?
Pauline cruzou a sala.
— Ainda não — disse ela, enquanto colocava o bebê nos braços de sua tia. — Ainda estou tentando encontrar o nome certo.
Lady Adele deu tapinhas de leve, mexeu-o para cima e para baixo, fez “Shhhhh” para o bebê e ele ficou quieto. Ela ergueu o olhar para Pauline, piscando, ainda dando tapinhas de leve nele, com a mente girando a mil.
— Achar um nome não é uma coisa tão difícil assim — disse ela. — Vamos ajudar você. Agora vá se sentar, seu cozido está esfriando. Eu o seguro enquanto você come.

8 comentários:

  1. Que saco, Kaden. Pauline pode ser amável e tudo mais. Mas sério? Sei que ela merece. Mas ugh ugh. Não me conformo, de modo algum. Me sinto uma criança tonta com essa birra, mas sério. Não.

    Aliás, tá demorando muito pra guerra começar.

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    1. Tbm concordo Carla Oliveira, qual é Karen?
      E pelo visto a guerra so deve rolar no próximo livro, ne?
      Ainda tm muita enrolação pela frente.

      Andreza.

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  2. Kaden salvando o dia. Não sei por quem estou mais apaixonada, ele ou o Rafe, acho que no momento é ele.

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  3. Gente, Lia se sacrificará pela esperança de todos. Óbvio que ela vai bater as botas.

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    1. Não a imagino morrendo. Mas penso que ela pode sacrificar sua felicidade, deixar aqueles que ama seguirem outro destino para ela seguir o dela

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  4. "Ah, eu o tive da forma que se costuma ter." Kkkkkkkkkkkk morri

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!