20 de fevereiro de 2018

Capítulo 74

RAFE

Nós estávamos em uma comprida plataforma elevada de pedra que dava para o acampamento. Imaginei Piers colocando a primeira pedra quando este era apenas um reino nascente. A plataforma tinha agora oito pedras de altura, com séculos de batalhas e vitórias atrás dela. Qualquer um que ali estivesse comandava a atenção do acampamento inteiro. Lia falou primeiro com as tropas, e depois me apresentou. Esse era o terceiro grupo que abordávamos. Era necessário manter os números pequenos, especialmente nesse último grupo, o qual continha todos os mais novos recrutas. Segundo o Marechal de Campo, uma centena ao todo. Eu disse a esses soldados o mesmo que tinha falado para os outros. Minha presença e a dos meus soldados não era sinônimo de qualquer invasão, apenas um esforço para ajudar a estabilizar e preparar o reino deles. Garanti que não existia qualquer outro motivo para a nossa presença ali, porque, com a ameaça se agigantando, o que fosse benéfico para Morrighan também beneficiária Dalbreck.
Quando terminei de falar, Lia pronunciou-se de novo, enfatizando o esforço conjunto de nossa iniciativa e evocando os assentimentos dos generais que estavam na plataforma elevada conosco, inclusive o asno ensopado cuja língua ficara completamente seca desde que ele fora mergulhado na fonte ontem.
Eu observava Lia. Observava todos os movimentos dela. Observava-a andando de um lado para o outro na plataforma elevada enquanto sua voz se erguia, chegando a última fileira. Observava os soldados que a olhavam, cuja atenção estava fixa em cada uma das palavras. Eu não sabia qual era a benevolência que ela tinha plantado antes de partir, mas o respeito que os lordes cederam sem entusiasmo era aqui concedido livremente. Os soldados davam ouvidos a ela, e vi o que já sabia e que eu não queria aceitar lá em Venda. Ela era uma líder nata.
Aqui era onde ela precisava estar. Deixar que ela viesse foi a escolha certa, mesmo que essa decisão ainda ardesse no meu estômago.
Ela voltou a se pronunciar, dessa vez se preparando para apresentar Kaden, e todos nós estávamos preparados por o que estava por vim. Ela começou o discurso como tinha feito com os outros, mas então seguiu uma diferença notável, pelo menos para alguns de nós.
— Vendan drazhones, le bravena enar Kadravé, te Azione.
Jeb, Natiya e Sven estavam em pé atrás de nós, sussurrando uma tradução para aqueles de nós em cima da plataforma elevada que não conheciam o idioma. Irmãos vendanos, eu lhes entrego seu companheiro, o Assassino. Lia ergueu a mão de Kaden com as últimas palavras, e eles dois estavam ali, em pé, juntos como uma frente unificada e forte, e então ela recuou um passo, de modo que ele pudesse falar com as tropas.
Aquilo era tanto uma armadilha quanto uma oportunidade. Nós sabíamos que vendanos tinham se infiltrado na guarda da cidadela, mas precisávamos de uma garantia de que eles estivessem também em meio aos nossos escalões. O Marechal de Campo e outros oficiais poderiam colocar a mão no fogo pela maioria; no entanto, recrutas mais novos que diziam ser dos recantos mais afastados de Morrighan eram uma incerteza. Lia falara com eles em morrighês a princípio, mas então mudou de idioma tão sem esforço, em um piscar de olhos. Havia dúzias de nós postados em cada lado dela. Parecia que estávamos ali para lhe dar apoio, mas nós estivéramos observando cautelosamente com os soldados, seus olhos, seus movimentos e seus espasmos, as pistas que revelariam o entendimento ou a confusão.
Kaden continuou a abordagem, não apenas para expô-los, mas também para apelar aos vendanos, como ele mesmo, que poderiam ser influenciados. Kaden e Lia chegaram a essa estratégia juntos, porque os vendanos que estavam trabalhando conosco poderiam ser úteis.
— Confiem na Sarrah, meus irmãos — Jeb interpretou baixinho. — Os clãs dos Meurasi a acolheram, assim como todos os clãs das planícies e dos vales. Eles confiam nela. O Komizar é aquele contra o qual a Siarrah luta, e não nossos irmãos e nossas irmãs que ainda estão em Venda. Agora é a sua chance de dar um passo à frente e lutar conosco. Permaneça em silêncio e morrerão.
A maioria dos soldados virou-se uns para os outros, confusos, não entendendo a repentina mudança de idioma. No entanto, uns poucos permaneceram ficados, com a atenção em Kaden.
Na segunda fileira, um olhar contemplativo, congelado. As pupilas do soldado eram minúsculos pontinhos. Preocupação. Entendimento. Contudo, ele não tinha vindo à frente.
Um outro mais à direita.
— Terceira fileira, segundo da ponta — sussurrou Pauline.
E então, na primeira fileira, um passo à frente, hesitante.
Isso fez com que um outro se seguisse no meio.
Apenas quatro.
— Última fileira, à esquerda — sussurrou Lia a Kaden. — Continue falando.
Cinco soldados vendanos foram encontrados em meio ao escalão, totalizando treze impostores, o que em si era um feito e tanto. Aprender a falar um morrighês impecável poderia levar anos. As tropas foram dispensadas enquanto outros soldados entravam em cena para deter os suspeitos vendanos.
Com o primeiro intervalo de Lia dentro de três horas, sua tia Bernette entrou em cena com remédios. A princesa tomou uma boa golada do frasco. Ela ainda tinha olheiras. Fiquei observando enquanto Lia limpava o canto da boca, o piscar cansado dos seus olhos, o nivelamento dos ombros enquanto ela encarava a próxima tarefa: interrogar os prisioneiros mais uma vez, na esperança de que um deles pudesse soltar informações ou voltar-se contra os outros, como acontecera com o Médico da Corte. De repente, Terravin estava egoísticamente feroz dentro de mim. O ar, os sabores, todos os momentos, todas as palavras entre nós, e eu desejava que pudesse ter aquilo tudo de novo. Nem que fosse por apenas umas poucas horas, desejei ser mesmo o fazendeiro que ela queria que eu fosse, um fazendeiro que sabia cultivar melões, e que ela fosse uma empregada de taverna que nunca ouvira falar em Venda.
Observei enquanto ela saía andando com Kaden para falar com os vendanos, e então fui em outra direção. Não estávamos em Terravin e nunca voltaríamos para lá. Desejos eram para fazendeiros, e não para reis.

8 comentários:

  1. Meu rafe, não precisa se preocupar eu tenho certeza que você irá ficar com a lia

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  2. Cadê o griz e o eben

    Mirtiz

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  3. Certeza q lia vai morrer.. ninguém percebeu q a frase da canção falava do sacrifício????

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  4. Acho q lia voltar pra venda.

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  5. Boa pergunta onde estão o Griz e o Eben??? Existe tantas maneiras de sacrifício,pode ser ela perder seu grande amor para salvar o seu povo o seu reino?? Perde-lo para outra mulher!? Mas ainda enho esperanças que eles fiquem juntos a esperança é a última que morre...rsrsrsr.DM

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Boa leitura, E SEM SPOILER!