20 de fevereiro de 2018

Capítulo 72

A praça estava cheia. Todos vieram ver a princesa Arabella ser enforcada. Em vez disso, eu precisava dizer a eles que os lideraria na luta das suas vidas. Fiquei em pé na varanda do pórtico, minha mãe parada ao meu lado, o Erudito Real, do outro, e Rafe e Kaden, cada um dos lados deles. O que havia restado do gabinete estava atrás de nós.
Lá embaixo, uma fileira de lordes inquietos, perplexos porque o conclave estava se reunindo com os cidadãos, sentados à frente da praça. Logo atrás dos lordes, Berdi, Gwyneth e Pauline estavam uma do lado da outra, olhando para cima, para mim, com os olhares contemplativos e autoconfiantes me dando força. Sven, Jeb, Tavish e Orrin, junto com o esquadrão de soldados, estavam posicionados no perímetro, observando a multidão.
Seguiu-se uma confusão, um murmúrio que ondeava pela praça, quando minha mãe deu um passo a frente para se pronunciar. Ela disse a eles que o rei estava doente depois de ter sido envenenado por traidores, os mesmos traidores que enviaram o filho dela e sua companhia em uma emboscada, e depois ela nomeou esses traidores. Com a menção do Vice-Regente, caiu-se um silêncio de choque, como se ele estivesse na forca e seu pescoço estiver acabado de estalar na ponta de uma corda. Do gabinete, ele era o predileto em meio ao povo, tornando mais difícil a compreensão de tudo isso, por parte deles. Ela disse que a tramoia fora descoberta por causa da lealdade da princesa Arabella a Morrighan, e não a sua traição, e que agora estava na hora de ele me darem ouvidos.
Dei um passo à frente e falei sobre a ameaça que estava vindo em nossa direção, a mecânica esta que eu havia testemunhado com meus próprios olhos, uma grandeza terrível que não era diferente da devastação descrita nos Textos Sagrados.
— O Komizar de Venda reuniu um exército de armas que poderia apagar a memória de Morrighan deste mundo.
Lorde Gowan levantou-se, com as mãos cerradas em punhos apertado nas laterais do corpo.
— Derrotados por uma nação bárbara? Morrighan é um reino forte. Nós estivermos em pé durante séculos, o mais antigo e o mais duradouro reino no continente. Somos grandes demais para cair!
Diversos lorde rugiram, concordando com ele revirando os olhos para a princesa ingênua.  A multidão que estava em pé se remexia.
— Somos maiores do que os Antigos, lorde Gowan? — perguntei. — E eles não caíram? As provas disso não estão exatamente ao nosso redor? Olhem para os templos em ruínas que formam nossas bases, as magníficas pontes tombadas, as incríveis cidades. Os Antigos voavam entre as estrelas! Eles sussurravam, e suas vozes retumbavam sobre os topos das montanhas! A grandeza dos Antigos era inigualável. — Olhei para os outros lordes. — E, ainda assim, eles e o seu mundo não existem mais. Ninguém é grande demais para cair.
Lordelo Gowan se manteve firme.
— Você está se esquecendo de que somos os remanescentes escolhidos.
Outro lorde se manifestou.
— Sim! Os filhos de Morrighan! Os Textos Sagrados dizem que somos especialmente favorecidos.
Fitei-os, não sabendo ao certo se deveria contar a eles, lembrando-me da descrença de Pauline, temendo que eu fosse forçá-los a irem longe demais. O ar estava agitado, quente, circulando. Eles esperavam, com as respirações presas, virando as cabeças, como se eles também sentissem alguma coisa.
Dihara sussurrava ao meu ouvido. As verdades do mundo desejam ser conhecidas.
Olhei para Pauline, para a luta nos olhos dela, a mais verdadeira filha de Morrighan. Ela ergueu dois dedos junto aos lábios e assentiu.
O Erudito Real acrescentou seu assentimento ao dela.
Conte a eles. A voz de Venda chegou até mim cruzando os séculos, ainda dando um passo à frente, incapaz de descansar. Ela era uma parente de sangue deste e inovação tanto quanto do reino que recebera o seu nome.
Apenas uma coisa era certa no meu coração. Havia muito, muito tempo, três mulheres que amavam umas às outras e que foram separadas. Três mulheres que antes formavam uma família.
Conte a elas uma história, Jezelia.
E, então, eu fiz isso.

* * *

Reúnam-se aqui perto, irmãs do meu coração,
Irmãos da minha alma,
Família da minha carne,
E eu vou contar a vocês a história de irmãs, de uma família e de uma tribo, parentes de sangue de um outro tipo, unidos pela devoção e pela lealdade.
Contei a eles sobre Gaudrel, uma das Antigas originais, uma mulher que conduzira um pequeno bando de sobreviventes por um mundo desolado, confiando em um saber que perdurava dentro dela. Ela alimentava a sua neta com histórias quando não tinha mais nada a oferecer, histórias para ajudar uma criança a entender um mundo cruel e para fazer com que ela permanecesse em silêncio quando predadores chegavam perto demais.
Contei a eles sobre a irmã de Gaudrel, Venda, outra sobrevivente que manteve seu povo vivo com a sua esperteza, as suas palavras e a sua confiança. Depois de ser levada para longe de sua família, ela não seria silenciada, nem mesmo pela morte, estendendo-se pelos séculos em busca de esperança para um povo oprimido.
E contei a eles sobre Morrighan, a neta de Gaudrel, uma menina roubada por um ladrão chamado Harik, que a vendeu a um abutre por um saco de grãos. Morrighan era uma menina valente e fiel, que conduziu os abutres até um lugar seguro. Ela confiava na força que tinha e que lhe foi passada por Gaudrel e pelos sobreviventes antigos, um saber ao qual eles se voltaram quando nada mais havia, um ver sem olhos, um ouvir sem ouvidos. Morrighan não era escolhida pelos deuses. Ela era uma das muitas que foram poupadas, uma menina como qualquer outra de nós, o que tornava sua valentia ainda maior.
— Morrighan invocara uma antiga força de dentro de si para sobreviver e ajudara outros a realizar a mesma coisa. E é isso que devemos fazer agora.
Analisei a plateia com um olhar contemplativo, olhando para os lordes e para aqueles que estavam em pé na varanda comigo. Meus olhos pararam por um instante em Rafe, e minha garganta ficou apertada.
— Nada dura para sempre — continuei — e vejo o nosso fim se aproximando.
Inclinei-me para frente, focando-me na fileira de lordes.
— Isso mesmo, lorde Gowan. Vejo. Eu vi a destruição e a ruína. Vi o Dragão se movendo de forma ameaçadora para cima de nós. Ouvi o esmagar dos ossos entre o maxilar dele. Senti o seu hálito no meu pescoço. Ele está vindo, eu juro a você. Se nós não nos prepararmos agora, a esperança vai deixar de existir, e vocês vão sentir a mordida dos seus dentes, como eu senti. Devemos nos acordadas e esperar que o Komizar nos destrua, ou vamos nos preparar e sobreviver, como fez aquela que dá nome ao nosso reino?
Um fio de voz.
Devemos nos preparar.
Mais um: Devemos nos preparar.
Um punho cerrado no ar, o de Gwyneth. Devemos nos preparar.
A praça foi incendiada em uma compartilhada determinação para sobreviver.
Beijei dois dedos, erguendo-os aos céus, um para os perdidos e um para a aqueles que ainda estavam por vir, e disse em resposta:

— Então, vamos nos preparar!

11 comentários:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!