2 de fevereiro de 2018

Capítulo 72

Dragão conspirará,
Usando muitas faces,
Enganando os oprimidos, coletando os perversos,
Exercendo o poder como um deus, impossível de ser parado,
Não perdoando em seu julgamento,
Implacável em sua regência,
Um ladrão de sonhos,
Um assassino de esperanças.
Até que apareça aquela que é mais poderosa.
— Canção de Venda —



O medo é uma coisa curiosa.
Eu achei que não restara nenhum medo em mim. O que eu tinha para temer? No entanto, quando avistei Venda, senti um calafrio espinhoso em meu pescoço. Emoldurada entre as colinas com rochas protuberantes pelas quais passávamos, uma coisa se erguia no horizonte, em uma névoa nebulosa e cinzenta. Não era possível chamar aquela coisa de cidade. Ela respirava. Conforme nos aproximávamos, a cidade crescia e se espalhava como um monstro preto e sem olhos que se erguia de cinzas fumegantes. Suas pequenas e irregulares torres, a pedra escamosa reptiliana, e camadas e mais camadas de muralhas convolutas falavam de algo labiríntico e distorcido que espreitava atrás delas. Não se tratava apenas de uma cidade afastada. Eu sentia o tremor de sua pulsação, a pungência de sua canção sombria. Eu via a própria Venda sentada no alto das muralhas cinzentas diante de mim, uma aparição partida cantando um aviso àqueles que ouviam lá de baixo.
Eu me senti já deslizando para longe, esquecendo-me do que costumava importar para mim. Fazia uma vida que havia deixado Civica com o que achei que fosse um sonho simples: que alguém me amasse pelo que eu realmente era. Durante aqueles poucos e curtos dias com Rafe, eu, ingênua, achara que tinha o sonho em minhas mãos. Eu não era mais uma menina com um sonho. Agora, assim como acontecera com Walther, eu só tinha um desejo crescente e frio por justiça.
Olhei para a frente, para o monstro que se agigantava. Como no dia em que eu havia me preparado para meu casamento, eu sabia que estava cara a cara com os últimos dos passos que separariam o aqui do ali. Não haveria volta. Uma vez que eu cruzasse os territórios e entrasse em Venda, nunca mais veria meu lar de novo. Quero puxar você para perto de mim e nunca soltar. Eu estava além dos recantos mais longínquos agora. Além de algum dia ver Rafe novamente. Logo, eu estaria morta para todos, exceto para o mistérios Komizar, capaz de cobrar obediência de um exército brutal. Como a espada e as botas de Walther, eu era um prêmio de guerra para ele agora, a menos que ele decidisse terminar o trabalho do qual Kaden havia se evadido. Mas talvez, antes disso acontecer, ele descobriria que eu não era bem o prêmio que alguém esperava que eu fosse.
A caravana parou no rio. Tratava-se de mais do que um grande rio. Era um abismo turbulento, rugindo e empurrando para cima a névoa que eu via de longe. A umidade deixava escorregadios tanto o solo quanto as pedras. Eu não sabia como poderíamos navegar e cruzar esse rio, mas então, a massa de corpos do outro lado saudava nossa aproximação. Eles se contorciam para passarem por muralhas com faixas pretas e começaram a puxar cordas presas a rodas de ferro de proporções colossais. Até mesmo com o rugido do rio, eu conseguia ouvir os gritos de um chefe de serviço sincronizando suas puxadas.
Numerosos corpos se moviam juntos e entoavam um ribombo baixo, e, devagar, a cada subida e descida, uma ponte se erguia da névoa, gotejando com boas-vindas profanas. Um último esforço deles fez com que a ponte ficasse no lugar, com um clangor funesto e retumbante.
Kaden desceu de seu cavalo para se pôr de pé ao meu lado, observando enquanto os trabalhadores se apressavam para prender as correntes da ponte.
— Faça o que eu disser e tudo vai ficar bem. Está preparada? — ele me perguntou.
Como eu poderia algum dia estar preparada para isso? Eu não respondi à pergunta.
Kaden se virou, segurando os meus dois braços.
— Lia, lembre-se de que eu estou apenas tentando salvar sua vida.
Voltei meu olhar fixo para ele, sem piscar.
— Se isso é salvar minha vida, Kaden, gostaria que você parasse de se esforçar tanto.
Eu vi a dor em seu rosto. Os milhares de quilômetros que tínhamos viajado haviam me mudado, mas não da forma que ele esperava. A pegada de Kaden continuava firme, seus olhos perscrutando o meu rosto, seu olhar contemplativo pausando sobre meus lábios. Ele ergueu a mão e tocou neles, seu polegar deslizando com gentileza ao longo do meu lábio inferior, como se estivesse tentando limpar as palavras da minha boca. Ele engoliu em seco.
— Se eu tivesse deixado você em paz, eles teriam enviado outra pessoa. Alguém que teria terminado o trabalho.
— E você teria traído Venda. Mas você já fez isso, não? Quando me ajudou a enterrar os mortos.
— Eu nunca trairia Venda.
— Às vezes, somos levados a fazer coisas que achávamos que nunca seríamos capazes de fazer.
Ele segurou minhas mãos com as dele e as apertou.
— Vou construir uma vida para você aqui, Lia. Juro que vou.
— Aqui? Como a vida que você tem, Kaden?
O turbilhão que sempre fervia em fogo brando atrás dos olhos dele duplicou-se. Algumas verdades eram sussurradas reiteradamente, recusando-se a serem ignoradas. O sentinela deu o sinal para que o comboio prosseguisse.
— Vai cavalgar comigo? — perguntou Kaden. Balancei a cabeça em negativa, e ele soltou as minhas mãos, lentamente me deixando ir. Ele voltou a subir em seu cavalo. Eu caminhava na frente dele, sentindo seus olhos nas minhas costas. Eu estava prestes a pisar na ponte quando um clamor se ergueu atrás de nós e eu me virei. Ouvi mais gritos, e Kaden juntou as sobrancelhas. Ele desceu do cavalo e me segurou pelo braço quando um grupo de soldados se aproximava.
Eles jogaram um homem que estava no meio deles na frente de Kaden. Meu coração parou. Amados deuses! Kaden apertou ainda mais meu braço.
— Esse cachorro disse que conhece você — falou um dos soldados.
Tendo visto o distúrbio, o chievdar aproximou-se de nós.
— Quem é esse? — ele exigiu saber.
Kaden olhou feio para ele.
— Um bêbado muito idiota. Um fazendeiro impressionado que cavalgou por um longo caminho à toa.
Meus pensamentos estavam aos tropeços. Como?
Rafe se colocou de pé. Olhou para mim sem reconhecer a presença de Kaden. Analisou os meus dedos imundos cobertos por bandagens, minhas roupas manchadas de sangue e, certamente, o pesar que ainda pairava em minha face. Seus olhos buscavam os meus, questionando-me em silêncio, e vi a preocupação dele de que eu tivesse sido machucada de formas que ele não era capaz de ver. E vi também que ele ansiava por mim tanto quanto eu havia ansiado por ele.
Os bons não fogem, Lia.
Porém, agora, com uma nova paixão ardente, eu desesperadamente gostaria que ele tivesse fugido.
Eu me mexi, na tentativa de me soltar da pegada de Kaden, mas ele afundou os dedos mais ainda em meu braço.
— Me solte! — rosnei. Eu me livrei de Kaden e fui correndo até Rafe, caindo nos braços dele, chorando quando meus lábios se encontraram com os dele. — Você não deveria ter vindo. Você não entende. — Porém, até mesmo enquanto eu dizia essas palavras, de forma egoísta eu estava feliz por ele estar aqui, selvagem e loucamente feliz de que tudo que eu sentia por ele e tinha acreditado que ele sentia por mim era real e verdadeiro. Lágrimas escorriam pelas minhas bochechas enquanto eu o beijava.
Ergui meus dedos quebrados e cheios de bolhas para segurar seu rosto enquanto dizia mais uma dúzia de coisas de que eu nunca haveria de me lembrar.
Ele me envolveu com os braços, seu rosto aninhado em meus cabelos, abraçando-me tão apertado de forma que eu quase podia acreditar que nunca mais nos separaríamos. Eu o inspirei, seu toque, sua voz, e, por um instante tão longo e tão curto quanto a batida de um coração, todo o mundo e seus problemas desapareceram e só havia nós dois.
— Vai ficar tudo bem — sussurrou ele. — Eu juro que vou nos tirar dessa situação. Acredite em mim, Lia.
Eu senti soldados nos separando, puxando meus cabelos, com uma espada no peito dele, mãos ásperas arrastando-me para trás.
— Matem-no e vamos andando — ordenou o chievdar.
— Não! — gritei.
— Não fazemos prisioneiros — disse Kaden.
— Então, o que eu sou? — falei, olhando para o soldado que agarrava meu braço.
Rafe tentou se soltar dos homens que estavam se esforçando para mantê-lo para trás.
— Eu tenho uma mensagem para o seu Komizar! — gritou ele, antes que pudessem arrastá-lo para longe.
Os soldados que o estavam segurando pararam, surpresos e sem saberem ao certo o que fazer em seguida. Rafe gritou a mensagem com uma autoridade ressonante. Olhei para ele, e algo se desenrolava dentro de mim. Como foi que ele me encontrou? O tempo deu um salto. Recuou para o lado. Parou. Rafe. Um fazendeiro. De uma região sem nome. Encarei-o. Tudo em relação a ele parecia diferente para mim agora. Até mesmo sua voz estava diferente. Eu vou nos tirar dessa situação. Acredite em mim, Lia. O chão embaixo dos meus pés se mexeu, instável, e o mundo ao meu redor girava. O real e o verdadeiro oscilavam.
— Qual é a mensagem? — exigiu saber o chievdar.
— A mensagem é apenas para os ouvidos do Komizar — respondeu Rafe.
Kaden deu um passo, aproximando-se de Rafe. Todo mundo esperava que dissesse alguma coisa, mas ele permanecia em silêncio, com a cabeça levemente inclinada para o lado, estreitando os olhos. Não respirei.
— Uma mensagem trazida por um fazendeiro? — perguntou ele, por fim. Os olhares contemplativos dos dois travaram um no do outro. Os gélidos olhos azuis de Rafe estavam congelados com ódio.
— Não. Do emissário do Príncipe de Dalbreck. Quem é o bêbado idiota agora? — Um soldado deu uma coronhada na cabeça de Rafe com o cabo de sua espada. Rafe foi cambaleando para o lado, com o sangue escorrendo pela têmpora, mas recuperou sua estabilidade.
— Está com medo de uma simples mensagem? — disse ele a Kaden, provocante, sem desviar o olhar em momento algum.
Kaden olhou com ódio em resposta.
— Uma mensagem não quer dizer nada. Nós não negociamos com o Reino de Dalbreck... nem mesmo com o próprio emissário do Príncipe.
— Você fala pelo Komizar, agora? — A voz de Rafe estava densa com a ameaça. — Eu juro a você que ele vai querer ouvir essa mensagem.
— Kaden — supliquei.
Kaden se voltou para mim, seus olhos ardendo com o calor, e um olhar fixo e cheio de raiva e questionamentos queimava a partir deles.
chievdar veio para a frente.
— Que prova você sequer tem de que é o emissário? — disse o chievdar em tom de zombaria. — O selo do Príncipe? O anel dele? O lencinho dele?
Os soldados ao redor riram.
— Algo que apenas ele teria em sua posse — Rafe respondeu. — Uma missiva real da Princesa, endereçada a ele com a própria caligrafia dela.
Rafe olhou para mim quando disse isso, e não para o chievdar, e os olhos dele enviaram-me sua própria mensagem particular. Senti meus joelhos fraquejarem.
— Uns rabiscos? — ladrou o chievdar. — Qualquer um poderia rabiscar um pedaço de...
— Esperem — disse Kaden. — Me dê isso.
Os soldados soltaram os braços de Rafe para que ele pudesse pegar o bilhete de dentro de seu colete. Kaden tomou-o e examinou-o. Os resquícios partidos do meu selo real vermelho ainda estavam visíveis. Ele puxou um bilhete amassado de seu próprio bolso, que eu reconheci como sendo aquele que o caçador de recompensas havia deixado cair no solo da floresta e que eu nunca conseguira pegar de volta. Kaden comparou os dois bilhetes e assentiu lentamente.
— É genuíno. Príncipe Jaxon, de Dalbreck — leu ele, cuspindo o título com escárnio.
Kaden desdobrou o bilhete que Rafe havia entregado a ele e começou a lê-lo em voz alta para o chievdar e para os soldados que nos cercavam.
— Eu deveria...
— Não — falei, interrompendo-o abruptamente. Eu não queria que as minhas palavras para o Príncipe fossem cuspidas com completo escárnio. Kaden voltou-se para mim, com raiva, mas esperando. — Eu deveria...
Parei e encarei Rafe.
Inspecionei-o.
Seus ombros.
Seus cabelos jogados ao vento.
A rígida linha de seu maxilar.
O vermelho do sangue escorrendo por sua bochecha.
Seus lábios semiabertos.
Engoli em seco para acalmar o tremor em minha garganta.
— Eu gostaria de inspecioná-lo... antes do dia do nosso casamento.
Seguiram-se risadinhas abafadas dos soldados que nos cercavam, mas eu só via o rosto de Rafe e seu acenar imperceptível enquanto ele voltava seu olhar para o meu.
Todos os nós dentro de mim se soltaram.
— Mas o Príncipe ignorou meu bilhete — falei, com fraqueza.
— Tenho certeza de que ele lamenta profundamente por essa decisão, Vossa Alteza — foi a resposta de Rafe.
Eu mesma tinha assinado os documentos do casamento.
Rafe. Quanto a isso ele não tinha mentido.
Príncipe herdeiro Jaxon Tyrus Rafferty, de Dalbreck.
Eu me lembrava de como ele havia olhado para mim naquela primeira noite na taverna, quando me disse seu nome, esperando para ver se havia alguma ponta de reconhecimento da minha parte. No entanto, um príncipe tinha sido a última coisa pela qual eu estava esperando.
— Acorrentem-no e tragam-no conosco — disse Kaden. — O Komizar o matará se ele estiver mentindo. E façam uma busca nas colinas que nos cercam. Ele não pode ter vindo sozinho.
Rafe empurrou os soldados, que torceram as mãos dele atrás de suas costas para acorrentá-lo, mas em momento algum tirou os olhos dos meus.
Olhei para ele, não um estranho, mas também não um fazendeiro. Esse havia sido um engodo esperto desde o princípio.
O vento fazia um redemoinho entre nós, jogava a névoa sobre nossas faces. Sussurrava. No recanto mais longínquo... Eu encontrarei você.
Limpei os olhos, com o que era real e verdadeiro perdendo nitidez.
Mas eu sabia que ele havia vindo.
Ele estava aqui.
E talvez, por ora, essa fosse toda a verdade de que eu precisava.

11 comentários:

  1. Nnnnaaaaooo acabou😭😭😭 vou morrer de curiosidade até lança o outro livro


    ~MIRELLE

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  2. OMG esses livros sempre acabam assim com uma pontinha de quero mais.

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  3. Eu quero mais kkkkk, pocha cadê o casamento e alguém por favor mate o kaden

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  4. Como assim?Eu quero mais!!!

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  5. Sinceramente, estou indecisa entre o Rafe e o Kaden.
    Quer dizer, Rafe foi o verdadeiro príncipe cavalheiro e corajoso que vai atrás da princesa em apuros.. Mas que também foi muito esperto. Adorei a ideia de como tudo isso se desenvolveu.
    Mas ainda assim não tem como não ter amor pelo Kaden. Eu tenho certeza que aquelas cicatrizes dele foram feitas pela realeza, quem não sei.
    Ansiosa pelo próximo.

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  6. Super ansiosa de ler o segundo livro.
    Adoro este blog!!! (:

    -Lippa

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  7. Rafe tô apaixonada *-*
    Jaxon/ Maxon é bem semelhante e o amor incondicional deles tbm.
    A única coisa que muda é que gosto mais da Lia do que da America.
    Partiu próximo!

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    1. Ahhhh acho que eu gosto dos quatro!!! T.T

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  8. Na boa, não tenho nenhum afeto pelo Kadem, ele fez ela passar pelas piores situações, to torcendo pra Lia matar a lo.

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  9. Que final maravilhoso,cada capítulo de tirar o fôlego. Meu Kaden esta lutando contra seu sentimento e contra sua nação. Rafe esta se mostrando a Lia seu valor.

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!