20 de fevereiro de 2018

Capítulo 71

— Sente-se — ordenei.
— Onde?
— No chão. E não se mexa. Quero falar com ela sozinha primeiro.
Olhei para os soldados que haviam me acompanhado.
— Se ele mover um dedo que seja, vocês deverão cortá-lo fora.
Eles sorriram e assentiram.

* * *

Cruzei os aposentos dos meus pais e abri a porta que dava para a câmara de dormir deles.
Minha mãe estava deitada, despenteada, parecendo a boneca de pano sem enchimento de uma criança. Meu pai estava deitado no centro, pálido e imóvel. A mão dela repousa nas cobertas da cama que o engoliam, como se ela prendesse a esta terra. Ninguém, nem mesmo a morte, passaria sorrateiramente por ela. Ela já havia perdido o filho mais velho, seus outros filhos estavam desaparecidos e em grave perigo, e seu marido fora envenenado. Eu não sabia ao certo como ela conseguira reunir energia para ficar comigo ontem. Ela tinha tirado forças de um poço que parecia vazio agora. Há mais a se tirar, pensei. Às vezes, tanta coisa pode ser tomada que não importa o que resta.
Ela se sentou direito quando ouviu minhas passadas, e seus longos cabelos pretos caíram desordenados por cima dos ombros. Sua face estava emaciada, seus olhos, cheios de veias por causa das lágrimas e da fadiga.
— Foi você que arrancou a última página do livro — falei. — Eu achava que tinha sido alguém que me odiava muito, e então me dei conta de que era exatamente o oposto: fora alguém que me amava muito.
— Eu não queria isso para você — disse ela. — Fiz tudo o que eu podia para impedir.
Cruzei o quarto e, quando me sentei ao lado dela, minha mãe me puxou para os seus braços. Ela me abraçou com ferocidade, com um quieto soluço erguendo o peito. Eu não tinha mais lágrimas a derramar, mas meus braços se fecharam em volta dela, abraçando-a de todas as formas como eu havia precisado abraçá-la nos últimos meses. Ela disse o meu nome várias e várias vezes. Jezelia. Minha Jezelia.
Por fim, recuei.
— Você tentou manter o dom afastado de mim — falei, ainda sentindo a mágoa. — Você tudo que podia para me guiar para longe dele.
Ela assentiu.
— Eu preciso entender — sussurrei. — Diga-me.
E ela o fez.
Ela estava fraca. Estava partida, sua voz, entretanto, ficava cada vez mais forte enquanto falava, como se ela tivesse contado essa história na sua mente uma centena de vezes. Talvez tivesse feito isso. Ela me contou sobre uma jovem mãe e sua filha, uma história que eu só conhecia do meu ponto de vista.
A história dela tinha costuras que eu nunca observara; era colorida com tecido em tons que eu jamais usara; tinha bolsos escondidos, pesados com preocupação; era uma história que não contava apenas com os meus medos, mas com os medos dela também, cujos fios eram puxados e ficavam mais apertados a cada dia.
Minha mãe tinha dezoito anos quando chegou em Morrighan, e tudo em relação a esta nova terra era estranho para ela: as roupas, a comida, as pessoas, inclusive o homem que seria o seu marido. Ela estava tão cheia de medo que nem mesmo conseguiu olhar nos olhos dele da primeira vez em que se encontraram. Ele dispensou todo mundo do aposento e, quando ficaram sozinhos, ele esticou a mão, ergueu o queixo dela e lhe disse que os olhos dela eram os mais belos que já vira na vida. Então ele sorriu e prometeu a ela que tudo ficaria bem, que eles poderiam ir se conhecendo sem pressa, e retardou o casamento por tanto tempo quanto podia, enquanto a cortejava.
Isso foi por apenas uns poucos meses; no entanto, dia após dia, ele a conquistava, e ela o conquistou também. Aquilo ainda não era exatamente amor, mas eles estavam apaixonados. Quando se casaram, ela não estava mais olhando para o chão, mas olhando com felicidade para os olhos de todos, inclusive os olhares austeros do gabinete.
Embora a cadeira de Primeira Filha no gabinete tivesse sido cerimonial durante séculos, quando ela disse ao marido que ela queria ser mais ativa no seu papel na corte, ele lhe deu as boas-vindas, de coração. Sabia-se que o dom nela era forte, que ela sentia perigos e loucura. A princípio, o rei considerava tudo o que a rainha dizia. Ele buscava os seus conselhos, mas ela sentia um crescente ressentimento em meio ao gabinete com as atenções do rei para sua jovem noiva, e ela foi, aos poucos, ainda que de maneira diplomática, colocada de lado.
E então os bebês vieram. Primeiro, Walther, que era o deleite da corte, e depois Regan e Bryn, que aumentavam a felicidade deles. Todas as liberdades eram permitidas aos meninos, o que era novidade para ela, que vinha de uma casa de meninas, onde as escolhas eram limitadas. Aqui ela observava os jovens filhos sendo nutridos e encorajados a encontrarem suas próprias forças, não apenas por ela e pelo rei, mas pela corte toda.
Então, ela ficou grávida de novo. Havia herdeiros de sobra, e agora todo mundo esperava, com expectativa, por uma menina, uma nova geração para levar em frente a tradição da Primeira Filha. Ela sabia que eu era uma menina antes mesmo de eu ter nascido. Isso a enchia com uma alegria imensurável, até que ela ouviu um ribombo, um grunhido, a fome de uma fera, andando de um lado para o outro nos cantos da sua mente. Sua tristeza foi aumentando a cada dia, assim como aumentava o estampido das passadas da fera. Ela temia que a fera fosse atrás de mim, que, de alguma forma, a besta soubesse que eu era uma ameaça, e ela sentiu fortemente que isso acontecia por causa do seu dom. Ela me viu sendo arrancada e levada para longe da minha família, tirada de tudo que eu conhecia e arrastada por uma paisagem inimaginável. Ela ia atrás de mim, mas seus passos não eram tão rápidos quanto os da fera que me arrancara dos seus braços.
— E jurei que não deixaria que isso acontecesse. Eu falava com você enquanto minha barriga crescia e fazia uma promessa diária de que eu, de alguma forma, a manteria a salvo. E então, no dia em que você nasceu, no meio dos meus temores e das minhas promessas, ouvi um sussurro, uma voz gentil e suave, tão clara quanto a minha. A promessa é grande para aquela chamada Jezelia. Achei que aquela fosse a minha resposta, e quando olhei na sua doce face, o nome Jezelia caía melhor em você, acima de todos os outros nomes que o reino colocara em seus minúsculos ombros. Eu achava que o nome era um presságio, a resposta pela qual estava esperando. Seu pai protestou contra a violação de protocolo, mas não recuei. Depois, parecia que tinha tomado a decisão certa. Você sempre foi forte, desde criança. Tinha um choro vigoroso, que podia acordar toda a cidade de Civica. Tudo em relação a você era vibrante. Gritava mais alto, brincava ainda mais intensamente, sentia mais fome, e prosperava. Dei a você as mesmas liberdades que seus irmãos tinham, e você corria livremente junto a eles. Eu era mais feliz do que jamais fora antes. Quando seus ensinos formais começaram, o Erudito Real tentou adequar as lições, de modo a nutrir o dom. Eu proibi que isso fosse feito, apesar dos protestos dele. Quando ele, por fim, me confrontou, perguntando-me por que motivo eu havia feito isso, contei a ele as circunstâncias do seu nascimento e sobre o meu medo de que o dom fosse lhe fazer mal. Insisti para que ele se concentrasse nas suas outras forças. Ele concordou com isso, ainda que de maneira relutante. Então, quando você tinha doze anos...
— Foi então que tudo mudou.
— Eu estava com medo e tive que contar com a ajuda do Erudito Real para...
— Mas é exatamente do Erudito Real que você precisava ter medo! Ele tentou me matar. Enviou um caçador de recompensas para cortar a minha garganta e, em segredo, enviou inúmeros eruditos a Venda para desenvolverem maneiras de matar a todos nós. Ele conspirou com eles. Por mais que você possa ter confiado naquele homem uma vez, ele se voltou contra você. E contra mim.
— Não, Lia — disse ela, balançando a cabeça em negativa. — Desse tanto tenho certeza. Ele nunca traiu você. Ele foi um dos doze sacerdotes que ergueu você diante dos deuses na abadia e prometeu a sua proteção.
— As pessoas mudam, mãe...
— Não ele. Ele nunca quebrou sua promessa. Eu entendo a desconfiança que sente. Eu tenho vivido com ela desde que você tinha doze anos de idade, o que me levou a conspirar ainda mais com ele.
— O que foi que aconteceu quando eu tinha doze anos?
Ela me contou que o Erudito Real a chamara para ir até o escritório dele. Ele tinha uma coisa que achava que ela deveria ver. O Erudito disse que se tratava de um livro muito velho que fora tirado de um soldado vendano morto. Como todos os artefatos, o livro tinha sido entregue ao arquivo real, e o Erudito Real havia se posto a traduzi-lo. O que ele leu deixou-o perturbado, e ele consultou o Chanceler em relação ao assunto. A princípio, o Chanceler também parecia ter ficado perturbado. Ele leu o texto diversas vezes, mas então declarou que se tratava de bobagem bárbara. Jogou-o no fogo e foi embora. Não era costume do Chanceler ordenar que textos bárbaros fossem destruídos. A maioria deles não fazia qualquer sentido, nem mesmo quando traduzidos, e esse não era diferente, exceto pela coisa que chamara a atenção do Erudito Real, que recuperou o livro do fogo. O livro estava danificado, mas não destruído.
— Eu sabia, quando ele me entregou o livro junto com a tradução, que alguma coisa estava muito errada. Eu me senti nauseada quando comecei a ler. Ouvia os passos pesados de uma fera mais uma vez. No entanto, assim que cheguei aos últimos versos, estava tremendo de fúria.
— Quando leu que a minha vida seria sacrificada.
Ela assentiu.
— Eu arranquei a última página e joguei o livro para o Erudito Real. Mandei que ele o destruísse, exatamente como o Chanceler ordenara, e saí correndo da sala, sentindo como se eu tivesse sido traída do modo mais perverso, enganada pelo dom em que eu tinha confiado.
— Venda não a enganou, mãe. O universo cantou o nome para ela. Ela simplesmente o cantou de volta, e você o ouviu. Você mesma disse que o nome parecia certo. Tinha que ser alguém. Por que não eu?
— Porque você é a minha filha. Eu sacrificaria a minha própria vida, mas nunca a sua.
Estiquei a mão para baixo e apertei a dela.
— Mãe, eu escolhi tornar as palavras realidade. Você deve ter sentido isso no seu coração também. Você me deu uma benção especial no dia em que parti. Pediu para que os deuses me envolvessem com força.
Ela baixou o olhar para a minha mão coberta por bandagens no meu colo e balançou a cabeça.
— Mas isso... — Eu vi todos os medos que ela escondera durante anos cristalizados nos seus olhos.
— Por que nunca dividiu isso com o pai? — os olhos dela brilhavam com lágrimas novamente. — Você não confiava nele?
— Eu não podia confiar que ele não fosse falar com mais ninguém sobre isso. A distância entre nós havia aumentado em relação ao gabinete. Esse acabou se tornando um assunto controverso entre nós. Ele parecia tão casado com eles quanto era comigo. Talvez ainda mais. O Erudito e eu concordamos que seria muito arriscado contar isso a ele porque parecia que traída pelos seus poderia significar alguém em uma posição de poder.
— E foi então que conspirou com o Erudito Real para me enviar para longe.
Ela soltou um suspiro, balançando a cabeça.
— Nós estávamos tão perto. No dia do seu casamento, achei que você logo estaria longe de Morrighan, e se realmente tivesse alguém que buscava lhe fazer mal, você estaria longe dessa pessoa. Dalbreck era um reino poderoso, que poderia mantê-la a salvo. Mas então, quando admirei seu kavah com o restante das pessoas, eu me lembrei do verso, aquela marcada com a garra e a vinha. Eu sempre tinha pensado que isso queria dizer um tipo diferente de marca, as cicatrizes feitas por um animal ou por um chicote, mas, ali, entre toda a heráldica e em meios a todos os desenhos intricados nas suas costas, em uma pequena parte, no seu ombro, ali estava, uma garra de Dalbreck e uma vinha morrighesa. Tentei dizer a mim mesma que se tratava apenas de um inocente kavah, que era só uma coincidência. Ele seria lavado e sumiria em alguns dias. Eu queria acreditar que isso não significava nada.
— No entanto, você fez com que o sacerdote oferecesse a prece na sua língua nativa. Por via das dúvidas.
Ela assentiu, com a exaustão marcando com linhas sua face.
— Eu queria acreditar que meu plano ainda daria certo, mas, na verdade, não sabia o que ia acontecer em seguida. Eu podia apenas rezar para que os deuses a envolvessem com força, mas quando o rei Jaxon deitou você na sua cama e eu vi o que eles tinham feito com você...
Ela apertou e fechou os olhos. Eu a abracei, confortando-a como ela me confortara várias vezes.
— Eu ainda estou aqui, mãe — sussurrei. — Umas poucas marcas não são nada. Eu tenho muitos arrependimentos, mas o nome Jezelia não é um deles. Nem deveria ser um dos seus.
Meu pai se mexeu e nós duas voltamos nossa atenção com tudo para ele. Minha mãe foi para o lado dele, aninhando a sua cabeça com o braço.
— Branson? — eu ouvi a esperança na voz dela.
Falas incoerentes foram tudo o que ele ofereceu de volta. Ainda não havia qualquer mudança. Observei enquanto os ombros dela caíam.
— Conversaremos mais tarde — falei.
Ela balançou a cabeça, distraída.
— Eu queria estar com ele. O médico proibiu, dizendo que a minha presença só o deixaria agitado. — Ela ergueu o olhar para mim, com os olhos aguçados, ferozes, como ela fora outrora. — Farei com que o médico seja executado por isso, Jezelia. Cuidarei para que todos eles sejam mortos.
Assenti, e ela se voltou novamente para ele, roçando os lábios na testa dele enquanto ela sussurrava para um homem que não a podia ouvir, que talvez nunca fosse ouvi-la de novo. Eu estava envergonhada porque já o tinha chamado de sapo.
Fiquei por mais um tempo ali, fitando os dois juntos, sentindo-me estupidificada, observando a preocupação desesperada nos olhos dela e me lembrando de como o meu pai a havia chamado, minha Regheena, a ternura na voz, até mesmo enquanto ele jazia ali delirando. Eles amavam um ao outro, e eu me perguntava como é que eu não percebera aquilo antes.

* * *

Baixei o olhar para o Erudito Real que ainda estava sentado no chão de pedra. Ele tinha ficado ali esperando por uma hora.
— Estou vendo que você ainda tem todos os dedos dos pés — falei.
Ele estirou uma das pernas e encolheu-se de dor, esfregando a coxa.
— Você e seus capangas foram convincentes. Presumo que eu possa me mover agora?
— Eu sempre odiei você — falei, olhando com ódio para ele. — E ainda odeio.
— É compreensível. Eu não sou um homem muito agradável.
— E você também me odeia.
Ele balançou a cabeça, seus olhos pretos me encarando sem nenhum pedido de desculpas.
— Nunca. Você me deixava exasperado, me irritava e me desafiava, mas isso não era menos do que eu esperava. Eu a pressionava. Talvez tenha até sido duro demais, às vezes. Sua mãe não me deixava discutir o dom com você, então eu seguia as ordens dela. Eu tentava torná-la forte de outras maneiras.
Eu me segurava no meu ódio, como um hábito estimado, como uma unha que eu tivesse roído até o sabugo. Eu não tinha acabado. Eu queria mais, mas já sentia uma verdade debaixo dos engodos dele.
— Levante-se — ordenei a ele, tentando fazer com que todas as minhas palavras fossem pungentes. — Nós vamos conversar no que costumava ser o seu escritório. Minha mãe está descansando.
Ele lutou para se pôr de pé, com as pernas rígidas, e fiz um movimento para que um guarda fosse ajudá-lo.
Ele ajustou os seus robes, alisando os amassados da roupa, tentando recuperar a dignidade, e ficou cara a cara comigo. Esperando.
— Minha mãe parece achar que você é capaz de explicar tudo. Eu duvido disso. — Coloquei a mão na minha adaga, como uma forma de ameaça. — Suas mentiras vão ter que ser muito boas para me convencer.
— Então talvez as minhas verdades sejam melhores.

* * *

Eu vi, mais uma vez, o Erudito Real que eu sempre conhecera, aquele que era capaz de ranger os dentes e cuspir com a mais leve preocupação. Suas orelhas ficaram flamejantes de tão vermelhas quando o acusei de enviar eruditos a Venda.
— Nunca! — gritou ele.
Quando lhe contei sobre o trabalho sujo deles nas cavernas daquele reino, ele ficou de pé em um pulo e se pôs a andar de um lado para o outro no escritório, falando os nomes dos eruditos. Eu confirmava com um assentir de cabeça depois de cada nome que ele dizia. Ele se virou rapidamente, como o estalar de um chicote, para ficar cara a cara comigo. Agora não era raiva que eu via no rosto dele, mas, sim, uma traição aguda, como se cada um dos eruditos o tivesse eviscerado pessoalmente.
— Não! Argyris também...?
— Sim — falei. — Ele também.
A fúria desabava para dentro, e ele titubeou, seu queixo ficou tremendo por um breve instante. Eu ouvi as palavras da minha mãe mais uma vez. Desse tanto eu tenho certeza. Ele nunca traiu você. Se isso era uma encenação, era muito convincente. Ao que parecia, Argyris foi o golpe mais baixo. Ele sentou-se na sua cadeira, batendo com os nós dos dedos na escrivaninha.
— Argyris era um dos meus pupilos mais brilhantes. Nós estávamos juntos havia anos. Anos. — Ele se reclinou na cadeira, com os lábios bem puxados e estirados. — O Chanceler dizia que eu continuava perdendo meus principais eruditos porque eu era um homem difícil. Todos eles partiram, com pouco tempo antecedente de aviso, para Sacristas remotas em Morrighan. Foi isso que me disseram. Fui ver Argyris um mês depois que ele partiu, mas a Sacrista disse que ele havia ficado lá apenas por uns poucos dias e depois seguira em frente. Eles não sabiam para onde ele tinha ido.
Se ele ficou com raiva quando lhe contei sobre os eruditos, ficou furiosíssimo quando o questionei sobre o caçador de recompensas enviado para cortar a minha garganta. Ele beliscou a ponte do nariz e balançou a cabeça, murmurando baixinho a palavra estupidez.
— Eu fui descuidado — disse ele por fim. — Quando descobri que os livros tinham desaparecido e encontrei o seu bilhete no lugar deles, fui procurar por eles. — Ele levantou apenas uma das sobrancelhas e desferiu a mim um olhar fixo e incisivo. — Você disse que os colocara de volta no seu lugar devido. Achei que eles estivessem nos arquivos. — Ele disse que o Chanceler se deparara com ele e seus assistentes tirando tudo das prateleiras e perguntou pelo que estavam procurando. Um dos assistentes apresentou uma resposta antes que o Erudito Real pudesse dizer alguma coisa. — O Chanceler ficou furioso e ele mesmo procurou pelos livros em algumas das prateleiras antes de sair tempestuosamente da sala, gritando comigo, dizendo que era para eu queimar o livro caso o encontrasse, como eu fora ordenado a fazer, para início de conversa. Depois de cinco anos, eu achava estranho que ele lembrasse do texto, visto que tinha declarado que aquilo era uma bobagem bárbara. Comecei a me fazer perguntas em relação a ele naquele ponto. Fiz até mesmo uma busca no escritório dele, que não deu em nada.
Isso não me surpreendeu. Meus resultados tinham sido os mesmos. O Erudito Real se inclinou para a frente, a raiva sendo drenada da face.
— Pela lei, eu precisava assinar a única sanção para a sua prisão e oferecer uma recompensa para o seu retorno. Ela foi posta na praça do vilarejo, mas aquela sanção não incluía assassinato. Eu nunca enviei um caçador de recompensas para matá-la, nem seu pai fez uma coisa dessas. Ele enviou apenas rastreadores para encontrar você e trazê-la de volta.
Eu me levantei, andando ao redor da sala. Não queria acreditar nele. Girei para encará-lo de novo.
— Por que você escondeu a canção de Venda, para início de conversa? Minha mãe também tinha mandado você destruir o livro.
— Sou um erudito, Jezelia. Eu não destruo livros, não importa qual seja o conteúdo. Textos antigos como aquele são uma raridade, e aquele parecia ser um dos mais antigos com o qual eu já tinha me deparado. Foi apenas recentemente que eu coloquei os Testemunhos de Gaudrel na gaveta ao lado do texto vendano, no que eu achava que era um esconderijo seguro. Eu estava ansioso para traduzi-lo.
Eu via a energia nos olhos do homem quando ele falava dos textos antigos.
— Traduzi a maior parte do texto de Gaudrel — falei.
A atenção dele foi cativada e contei a ele a história que o livro contava, analisando cautelosamente sua reação.
— Então Gaudrel e Venda eram irmãs — ele repetiu, como se estivesse tentando comer um pedaço de carne dura, mastigando as palavras que ele não conseguia engolir bem. — E Morrighan era neta de Gaudrel? Tudo uma família só. — Ele esfregou a garganta como se estivesse tentando forçar as palavras a descerem. — E Jafir de Aldrid, um abutre?
— Você não acredita em mim?
Ele franziu a testa.
— Infelizmente, acho que acredito.
Ele foi até o móvel de onde eu tinha tirado o texto. Observei com surpresa quando ele abriu uma gaveta com fundo falso. Você tem segredos. Eu sabia disso naquele dia, mas, assim que havia descoberto um segredo, não procurei por mais deles.
— Exatamente quantos segredos você tem, Erudito Real?
— Receio que esta seja a última das minhas surpresas.
Ele dispôs um grosso maço de papéis em cima da escrivaninha.
— O que é isso? — perguntei.
Ele abriu o maço de papéis e espalhou os diversos documentos.
— Cartas — disse ele. — Foram encontradas décadas atrás pelo último Erudito Real, mas elas contradiziam certas facetas dos Textos Sagrados de Morrighan. Como eu, ele não destruía textos raros, mas as cartas eram uma anomalia que não entendíamos.
— Então elas foram escondidas porque contavam uma história diferente.
Ele assentiu.
— Estas cartas sustentam isso o que você acabou de me contar. Parece que o venerado pai do nosso povo, Jafir de Aldrid, era um abutre que não sabia ler nem escrever quando Morrighan o conheceu. Depois que eles chegaram aqui, ele praticou suas habilidades de leitura e escrita redigindo cartas. Eu traduzi mais ou menos metade delas. — Ele empurrou a pilha na minha direção. — Estas são as cartas de amor dele para ela.
Cartas de amor?
— Acho que você cometeu um erro. Elas não podem ser cartas de amor. De acordo com Gaudrel, Morrighan foi roubada pelo ladrão Harik e vendida por um saco de grãos a Aldrid.
— Sim. As cartas confirmam isso. No entanto, de alguma forma... — Ele folheou as páginas e leu um trecho de uma das cartas que traduzira. — Eu sou seu, Morrighan, eternamente seu... e, quando a última estrela do universo piscar em silêncio, eu ainda serei seu. — Ele voltou a olhar para mim. — Para mim, isso parece uma carta de amor.
O Erudito Real estava errado. Ele tinha uma outra surpresa para mim, e parecia que a verdadeira história de Morrighan sempre haveria de revelar alguns segredos.

2 comentários:

  1. Quase não consigo acompanhar de tants emoção, que reviravolta.

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  2. Me lembro daquela parte em que disseram para morrighan contar uma história para as crianças, e Jafir foi o único que não a ridicularizou. E nesse capítulo tem dizendo Jafir de Aldrid. Assim Jair e Aldrid são a mesma pessoa.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!