2 de fevereiro de 2018

Capítulo 70

Estava escovando meus cabelos. Hoje seria o dia em que chegaríamos em Venda. Eu não entraria na cidade parecendo um animal. Isso ainda era importante. Por Walther. Por uma patrulha inteira. Eu não era um deles. Nunca seria. Eu puxava os emaranhados, às vezes arrancando fios de cabelo, até que ficassem desfeitos.
Cercada de centenas de soldados, eu sabia que havia pouca chance de fuga para mim. Talvez nunca houvesse tido tal oportunidade, a menos que os próprios deuses decidissem jogar mais uma estrela na terra e destruir a todos. Como eram estes que estavam sentados com orgulho em cima de seus cavalos ao meu lado melhores do que os Antigos, a quem os deuses haviam destruído havia tanto tempo? O que impedia os deuses de fazerem algo a esse respeito agora?
Cavalgávamos atrás de carroças em que havia pilhas e mais pilhas de espadas, selas e até mesmo botas dos caídos. As recompensas da morte. Quando enterrei meu irmão, eu não tinha notado que a espada dele e sua bandoleira de couro finamente confeccionada, a qual ele usava cruzando o peito, já não estavam mais lá. Agora balançavam de um lado para o outro em algum lugar na carroça à frente.
Eu ouvia os tinidos do espólio, os tinidos e os ruídos chacoalhantes dentro de mim.
Kaden cavalgava ao meu lado, Eben no lado oposto, com Malich e os outros logo atrás de nós. O cavalo de Eben tropeçou, mas conseguiu se corrigir. Eben pulou de seu lombo e sussurrou algo a ele. O menino conduziu o cavalo à frente, com a mão segurando a crina do animal. Nós só tínhamos dado mais alguns passos quando o cavalo tropeçou de novo, dessa vez cambaleando e indo parar a uns vinte metros da estrada, com o garoto correndo atrás dele. O cavalo caiu de lado no chão, suas pernas da frente não mais conseguindo suportá-lo. O menino tentou desesperadamente conversar com o animal para que ele levantasse.
— Cuide disso — disse Kaden a Eben. — Está na hora.
Malich veio para a frente, pondo-se ao meu lado.
— Faça isso logo! — ordenou ele. — Você está atrasando todo mundo.
Malich soltou a bainha de couro que segurava sua longa faca de seu cinto e a jogou para Eben. A faca caiu no chão, aos pés do menino, que ficou paralisado, de olhos arregalados, enquanto olhava da faca de volta para o restante de nós.
Kaden assentiu para ele, e Eben, devagar, curvou-se e pegou a lâmina do chão.
— Outra pessoa não pode fazer isso? — perguntei.
Kaden olhou para mim, surpreso. Isso foi o máximo que falei em três dias.
— O cavalo é dele. O trabalho é dele — respondeu Kaden.
— Ele tem que aprender — Finch disse atrás de mim.
Griz murmurou, concordando.
— Ja tiak.
Fitei o rosto aterrorizado de Eben.
— Mas ele criou o cavalo desde que era um potro! — eu disse, lembrando-os disso. Eles não responderam. Eu me voltei para Finch e Griz. — Ele é só uma criança. Já aprendeu coisas demais, graças a todos vocês. Nenhum de vocês está disposto a fazer isso por ele?
Eles permaneceram em silêncio. Desci do meu cavalo e fui andando até o campo. Kaden gritou para que eu voltasse.
Eu me virei rapidamente e cuspi as seguintes palavras:
— Ena fikatande spindo keechas! Fikat ena shu! Ena mizak teevas ba betaro! Jabavé!
Voltei-me para Eben, e ele inalou o ar com pungência quando peguei a faca dele da bainha e deixei a lâmina à vista. Uma dúzia de arcos e flechas estavam erguidos pelos soldados que nos olhavam, todos mirando em mim.
— Você já se despediu de Spirit? — perguntei a Eben.
O garoto olhou para mim, com os olhos opacos.
— Como você sabe o nome dele?
— Ouvi você sussurrando no acampamento. Eles estão errados, Eben — eu disse, jogando a cabeça para trás, na direção dos outros. — Não há vergonha nenhuma em dar nome a um cavalo.
Ele mordeu o lábio inferior e assentiu.
— Eu já me despedi dele.
— Então vire-se — falei. — Você não tem que fazer isso. — Ele estava abalado e fez o que falei.
Fui andando até o cavalo, cujas pernas tremiam, exaustas pelo esforço de tentar fazer o trabalho de suas pernas da frente também. Ele havia se exaurido, mas estava com os olhos tão arregalados quanto os de Eben.
— Shhh — sussurrei. — Shhh.
Ajoelhei-me ao lado dele e sussurrei palavras sobre pradarias e feno e um garotinho que sempre o amaria, mesmo sabendo que ele não conheceria as palavras. Minha mão acariciou seu focinho macio, e ele se acalmou sob meu toque. Em seguida, fazendo o que eu tinha visto Walther fazer no passado, enfiei a faca no tecido macio da garganta do animal, pondo fim à sua agonia.
Limpei a lâmina na grama da campina, puxei a sacola da sela do cavalo morto e devolvi-a a Eben.
— Está feito — disse. Ele se virou e entreguei-lhe sua bolsa. — Ele não está sentindo mais dor.
Coloquei a mão no ombro de Eben. Ele olhou para a minha mão em seu ombro e depois voltou a olhar para mim, confuso, e, por um breve instante, ele era uma criança confusa outra vez.
— Você pode ficar com meu cavalo — falei. — Vou caminhar. Já tive o bastante da minha atual companhia.
Voltei a me juntar aos outros e estirei a faca desembainhada de Malich a ele, que, com cautela, esticou a mão e a pegou. Os soldados abaixaram seus arcos e flechas em uníssono.
— Então você conhece os xingamentos de Venda... — disse Malich.
— Como poderia não saber? A baixaria da fala de vocês é tudo que tenho ouvido há semanas.
Comecei a desatar o alforje do meu cavalo.
— O que está fazendo? — perguntou Kaden.
Fitei-o por um bom tempo e com uma expressão endurecida nos olhos, na primeira vez que eu me deparava com o olhar dele com algum propósito em dias. Deixei que o momento se esgotasse, por tempo suficiente para vê-lo piscar, para que soubesse. Aquele não era o fim.
— Vou seguir o restante do caminho a pé — falei. — O ar é mais fresco aqui embaixo.
— Você não fez nenhum favor ao garoto — disse ele.
Eu me virei e olhei para os outros: Griz, Finch, Malich. Lentamente, analisei as centenas de soldados que nos cercavam, ainda esperando que a caravana continuasse, e circulei o olhar até que estivesse de volta sobre Kaden, o que fiz lentamente e condenando-o.
— Ele é uma criança. Talvez alguém demonstrando compaixão a ele seja o único favor de verdade que ele já tenha conhecido.
Puxei o alforje do meu cavalo e a procissão seguiu em frente. Mais uma vez, segui o clamor, e os ruídos da carroça se movendo na frente, e o chacoalhar de algo solto dentro de mim foi ficando mais alto.

* * *

Passos e quilômetros viravam borrões. O vento soprava rajadas, lacerando minha saia e chicoteando meus cabelos. Então uma estranha quietude cobriu a paisagem. Somente a memória do cavalo de Eben e de suas últimas respirações estremecidas farfalhavam no ar, as respirações quentes do cavalo parando, ficando mais silenciosas, mais fracas. Uma última bufada. Um último estremecimento. Morto. E então, os olhos de uma dúzia de soldados prontos para me matar.
Quando as flechas foram puxadas e miradas em mim, por um instante, eu havia rezado para que os soldados atirassem. Não era a dor que eu temia, era não senti-la mais — não sentir mais nada, na verdade.
Eu nunca havia matado um cavalo antes, só tinha visto isso ser feito.
Matar é diferente de pensar em matar. É algo que tira alguma coisa da gente, mesmo quando se trata de um animal em sofrimento. Eu não fiz isso apenas para livrar Eben de um fardo. Fiz por mim mesma tanto quanto fiz isso por ele.
Não estava preparada para abrir mão de todos os resquícios de quem eu costumava ser. Não aguentaria ficar ali parada e ver uma criança matar o próprio cavalo.
Eu estava me dirigindo a um mundo diferente agora, um mundo em que as regras eram diferentes, um mundo em que mulheres falando coisas sem sentido eram empurradas de muralhas, em que crianças eram treinadas como assassinos e em que crânios ficavam pendurados em cintos. A paz de Terravin era uma memória distante. Eu não era mais a moça despreocupada que servia na taverna e que Rafe beijara em um sonolento vilarejo à beira do oceano. Aquela menina se foi para sempre. Aquele sonho fora roubado de mim. Agora eu era apenas uma prisioneira. Apenas uma...
Meus passos ficaram instáveis.
Você sempre será você, Lia. Não há como fugir disso. A voz estava tão clara que parecia que Walther estava caminhando ao meu lado, falando essas palavras de novo, ainda mais a sério. Você é forte, Lia. Você sempre foi a mais forte de nós... Coelhos são bons de comer, sabia?
Sim. São mesmo.
Eu não era uma empregada despreocupada que servia em uma taverna. Eu era a Princesa Arabella Celestine Idris Jezelia, Primeira Filha da Casa de Morrighan.
Aquela nomeada em segredo.
E então ouvi alguma coisa.
Silêncio.
A lasca solta dentro de mim nunca ficaria imóvel, ela tropeçava, depois ficava presa, seu corte afiado achando minha carne, uma estaqueada feroz e quente em minhas entranhas. A dor era bem-vinda.
Os últimos versos da Canção de Venda ressoavam na minha cabeça. Dos quadris de Morrighan...
Como minha mãe poderia ter sabido disso? Eu lutava com esta pergunta desde que tinha lido os versos, e a única resposta possível era que ela não sabia. O dom a havia guiado. O dom a alfinetava, sussurrava para ela. Jezelia. No entanto, assim como acontecia comigo, o dom não falava com clareza. Você sempre foi a mais forte de nós. Era isso que preocupava nossa mãe. Ela não sabia o que queria dizer, apenas que aquilo fazia com que ela temesse a própria filha.
Até que apareça aquela que é mais poderosa,
Aquela nascida do infortúnio,
Aquela que era fraca,
Aquela que era caçada,
Aquela marcada com a garra e a vinha...
Baixei o olhar para o meu ombro, o tecido rasgado revelando a garra e a vinha, agora florescendo em cores, exatamente como Natiya o havia descrito.
Todos também fazemos parte de uma história maior também... uma história que transcende o solo, o vento, o tempo... e até mesmo nossas próprias lágrimas. Histórias mais grandiosas terão sua vez. Jezelia. Esse era o único nome que eu sempre sentira como verdadeiro em relação a quem eu era — e aquele pelo qual todo mundo se recusava a me chamar, com exceção dos meus irmãos. Talvez aquelas fossem apenas as palavras sem sentido de uma mulher ensandecida de um mundo de tempos atrás, mas, fruto de loucura ou não, até meu último suspiro, eu haveria de fazer com que aquelas palavras se transformassem em verdade.
Por Walther. Por Greta. Por todos os sonhos que se foram. O ladrão de sonhos não roubaria mais nenhum, até mesmo se isso significasse que eu tivesse que matar o Komizar eu mesma. Minha própria mãe pode ter me traído ao suprimir meu dom, mas ela estava certa quanto a uma coisa: eu sou um soldado no exército do meu pai.
Ergui o olhar de relance para Kaden, que cavalgava ao meu lado.
Talvez agora fosse eu que haveria de me tornar a assassina.

5 comentários:

  1. Meu Deus,que tiro foi esse ?
    - keeh

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  2. Eu chorei, o Eben é só uma criança e ama os animais, só por isso já posso amar ele.

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  3. Meus pelos não aguentam mais de tanto se arrepiarem lendo os cap desse livro. É bobagem dizer que tô chorando mt???

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  4. MALUCO!!! GENTE, CENA DE FILMEEEEEE!!!!!!

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  5. Coitado do Eben ele é só uma criança que ama os animais

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Boa leitura! E SEM SPOILER!