14 de fevereiro de 2018

Capítulo 7. Socorro, Karas...

Instalado na ampla sala de recepções dos aposentos presidenciais do hotel, um monitor de cinquenta polegadas exibia incessantemente os progressos da caça que estava sendo feita aos sequestradores. Filmagens a partir de satélites exibiam trechos do território brasileiro com um detalhamento que possibilitava acompanhar até o movimento de automóveis nas estradas. Mas o que estava sendo procurado não era um automóvel, era um helicóptero levando a filha do presidente dos Estados Unidos e isso o fabuloso aparato de investigações ainda não tinha conseguido localizar.
— Nada ainda? Nem sinal de minha filha? — perguntava MacDermott para o coronel encarregado dos contatos com a Sala de Guerra do Pentágono.
— Infelizmente nada ainda, Mister President — respondia o militar. — Já conseguimos rastrear toda a área no raio máximo que poderia ter sido atingido por um helicóptero voando em linha reta e em alta velocidade desde hora do sequestro. Até o momento, porém, nenhum dos muitos helicópteros que foram interceptados era o aparelho que queremos encontrar.
— Mas o helicóptero poderia estar escondido dentro de um hangar, não é?
— O exército brasileiro já invadiu vários hangares e grandes armazéns dentro deste raio, Mister President... E nada, até agora.
O telefone celular do Doutor Pacheco zumbiu dentro do bolso de seu paletó. Depois de ouvir o que lhe diziam, o delegado da Polícia Federal correu para a porta, abriu-a e recebeu um envelope.
— O que foi, mister Pacheco?
— Presidente... Presidentes... O gerente do hotel procurou um dos meus homens dizendo que haviam chegado muitas cartas para o senhor, Presidente MacDermott, e a ordem era que elas fossem entregues depois para o seu pessoal de relações públicas. Mas está aqui... veja o que está escrito no envelope... MacDermott recebeu o envelope e exclamou:
— Oh, my little Peggy!
No envelope, em letra de computador, estava escrito:
To the President of the United States, from the Kidnappers.
Dentro dele, havia apenas uma folha de papel comum, um impresso de computador que o presidente americano leu em silêncio. Suspirou profundamente e, de olhos baixos, estendeu o papel ao presidente do Brasil.
— Leia, por favor, Augusto...
Respeitosamente, o coronel e o Doutor Pacheco não se atreveram a esticar  os pescoços para saber o conteúdo da mensagem, mas Rodrigues Lobo leu em voz alta, traduzindo do inglês:
Para o Presidente dos Estados Unidos. Dos sequestradores.
Não somos bandidos, somos americanos que amam nosso país. Por isso, não podemos permitir que nosso modo de viver seja destruído. O senhor deve alterar seu discurso, eliminando a proposta que pretende apresentar nesta noite. Por outro lado, deve anunciar seu apoio à Emenda à Constituição americana que foi apresentada pelo senador do Alabama. Sua filha está bem e, se nossas instruções forem obedecidas à risca, o senhor a terá de volta logo após seu discurso. Caso contrário, o senhor nunca mais verá sua filha com vida. Dentro de pouco tempo, o senhor receberá uma prova de que miss Peggy está bem. Mas lembre-se: a vida de sua filha e a da América dependem agora de sua decisão.
Os Heróis em Defesa da América para os Americanos.
— Barbaridade! — exclamou o Doutor Pacheco, no final da leitura.
— Heróis?! — Rodrigues Lobo praticamente gritava. — Que heróis são esses que ameaçam matar uma menina?
— A proposta do senador pelo Alabama! — O Doutor Pacheco já havia lido sobre ela e lembrava-se do escândalo que aquela ideia louca havia provocado: se aprovada, isolaria o país, criando uma espécie de armadura jurídica e militar que protegeria ainda mais ferozmente os países ricos do desespero daqueles que nada tinham. Para aquele senador, a pobreza dos outros era um problema deles e os Estados Unidos deveriam defender cegamente sua prosperidade das ameaças provocadas pela miséria dos povos que tinham sido postos à margem do desenvolvimento.
“Nosso mundo pode não ser um paraíso”, pensava o Doutor Pacheco, “mas esses canalhas querem transformá-lo direto num inferno!”
Nua, Magrí sentia um frio intenso. Encolhia-se, tiritando. Seus cabelos ainda estavam molhados, piorando ainda mais sua condição. Sob seu corpo, sentia o plástico grosso, esticado. Rolou de lado e, mesmo com os braços amarrados às costas, conseguiu apalpar em volta. O plástico acabava unido a paredes de pano. Um pano áspero. Era aquele pano que funcionava como tela, refletindo as silhuetas dos seus dois guardas, que permaneciam fora, recortados pela luz avermelhada.
“Isso é lona. Estou dentro de uma barraca... “
Era uma barraca pequena, dessas de camping, em que uma pessoa mal consegue ficar de pé.
A mordaça incomodava bastante, mas ela conseguia suportar. Não haviam amarrado seus tornozelos. Pelo jeito, não temiam que ela tentasse fugir correndo. Ou sabiam que “fugir” seria completamente impossível...
“Provavelmente só me amarraram os pulsos para que eu não possa arrancar a mordaça... Esses bandidos não querem que eu grite. Bom, isso pode significar que essa barraca não está montada em nenhum lugar isolado... Onde estou?”
A luz vermelha criava um ambiente fantasmagórico, como o vestíbulo do inferno. Um inferno gelado. Uma antecipação da morte que a esperava, logo que descobrissem que ela não era Peggy MacDermott.
Ouvia vozes masculinas que sussurravam em inglês. Era um som abafado, como se estivessem em um lugar fechado, sem aberturas para o exterior.
— So far, so good... Até agora, tudo bem. O chato é ficar aqui, sem fazer nada. O captain disse que a gente tem de aguentar só até a meia-noite...
— Exactly. Logo depois da meia-noite, o captain vai ligar pelo celular e nos dar a ordem final. Meu palpite é que MacDermott não vai ceder. Daí, a gente vai ter de jogar esse material fora...
O coração da menina pulou forte, junto com a compreensão da realidade que devia enfrentar. Respirou fundo.
“Preciso ficar calma. Por enquanto, acho que não vai acontecer nada. Mas alguém vai acabar abrindo o zíper desta barraca. E se esse alguém der uma boa olhada, na hora vai descobrir que eu sou a garota errada. Aí esses malditos vão me matar...”
Os bandidos tinham falado em “jogar esse material fora”, se o presidente MacDermott não concordasse com alguma coisa que eles queriam. Mas, como o Presidente concordaria, se era ela, e não a verdadeira Peggy, que estava ali? Isso queria dizer que sua morte era apenas uma questão de tempo...
“De um modo ou de outro, vão me matar. Ou eu morro como Magrí, ou morro como Peggy...” Sacudiu-se, espantando o medo. “Sou um Kara! Esses dois podem até conseguir me matar. Só que não vai ser fácil!” Magrí lembrou-se do ruído de um helicóptero, no momento do sequestro. “Vai ver esses bandidos entraram no vestiário desembarcando do helicóptero. Na certa me levaram nele, mas eu nem me lembro. Será que fiquei tanto tempo assim desacordada?”
A mordaça sufocava. Seu corpo doía, machucado, arranhado. Sua cabeça latejava, ainda pelo efeito do gás. Apesar disso, estava alerta. Ela era um Kara. “Para onde me trouxeram?”, insistia em pensar. “Onde está montada esta barraca? Onde estou?” Procurava manter-se firme, mas, lá no fundo, pensando nos seus queridos Karas, seu coraçãozinho implorava:
“Socorro, Miguel, Calú, Chumbinho! Socorro, Crânio... Ai, socorro, Karas...” Os três amigos estavam novamente reunidos sob a sibipiruna e Calú foi o primeiro a falar:
— Sequestraram a filha do presidente dos Estados Unidos bem na nossa escola, Miguel! Isso é um trabalho para os Karas!
— É claro que isso é um trabalho para os Karas, Calú!
Crânio revoltava-se, temendo que sua querida Magrí pudesse estar ferida: E o código da morte? O “K” escrito em sangue! O que será que aconteceu com Magrí? Será que os bandidos machucaram Magrí, antes de fugir? É bem capaz: ela nunca deixaria que um sequestro ocorresse bem na frente dela, sem fazer nada!
— O sangue pode ser de Chumbinho, Crânio — lembrou Calú, tão transtornado quanto o amigo. — Você não disse que ele também está lá dentro?
— Magrí ou Chumbinho? — perguntava Calú, também muito preocupado. — Qual dos dois terá deixado o sinal dos Karas no espelho? De qual dos dois será o sangue?
— Não podemos perder tempo! — cortou Miguel. — Precisamos agir. Mas onde ela, ele ou os dois estão? É claro que não puderam sair do Elite. Isso quer dizer que...
— Isso quer dizer que ainda estão lá dentro, Miguel!
— Exato, Calú. E se estão lá dentro, esperando pela ação dos Karas, onde podem estar?
Só havia um lugar: o esconderijo secreto!
— Temos de ir para lá. Agora!
Os três Karas sabiam que a única alternativa que restava seria rastejar pelos telhados interligados dos prédios do Colégio Elite até o telhado do vestiário. Em seguida, teriam de retirar algumas telhas e entrar no forro, burlando o maior esquema de segurança que jamais tinham visto.
— Mas os policiais americanos devem ter vasculhado cada palmo do Elite! — lembrou Calú. — Se os dois Karas se esconderam lá, já devem ter caído nas mãos dos gringos!
— Talvez não — raciocinou Crânio. — Se a filha do presidente foi sequestrada por um helicóptero, de que adiantaria ficar revistando o colégio?
— Você pode ter razão, Crânio — concordava parcialmente Calú. — Mas, se a garota foi sequestrada de dentro de um dos vestiários, os policiais não revistariam pelo menos a cena do crime e os arredores?
— Não adianta discutir, Calú — encerrou Crânio. — Se essa é a nossa única chance em mil, temos de ir atrás dela. Eu vou para o esconderijo!
— Só um de nós vai — comandou Miguel. — Os outros ficam na calçada para dar cobertura na volta. Vamos usar o Código-Coruja. Não quero que nenhum tira gringo descubra um de nós descendo do muro.
— Já disse que eu vou! — repetiu Crânio.
— Não! — atalhou Calú. — Quem vai sou eu!
— Vamos tirar na sorte — decidiu Miguel. — Somos mais de dois, então vai ser no “jô-ken-pô”.
Os três estenderam as mãos ao comando “pô”. Deu tesoura, pedra e papel. Empate.
— Vamos de novo.
Desta vez, Miguel e Calú estenderam as mãos abertas: papel. Crânio tinha o punho fechado: pedra, facilmente embrulhada pelos dois papéis. Miguel e Calú disputaram a próxima rodada. Miguel repetiu o papel e Calú veio com tesoura. Calú iria, pois havia cortado o papel.
Sem mais uma palavra, foram para uma das esquinas dos imensos quarteirões ocupados pelo Colégio Elite, um ponto totalmente oposto à rua onde ficava a entrada da área de esportes e onde se concentravam os acontecimentos. Ali havia copas de árvores que, vindas dos jardins da escola, ultrapassavam o muro. Um lugar ideal para escalar.
Os três andavam normalmente, para não despertar nenhuma suspeita. Ao chegar sob os galhos, Miguel deu uma olhada em volta e fez um sinal com os dedos. Calú sabia que aquilo queria dizer “em frente”. Como um macaco, desapareceu no meio das folhagens.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!