6 de fevereiro de 2018

Capítulo 7. Sequestro em Cumbica

Em frente das portas de vidro que davam para o saguão de desembarque do Aeroporto Internacional de Cumbica, parentes à espera de viajantes e funcionários de empresas portando tabuletinhas com nomes de passageiros formavam um aglomerado ansioso.
Chumbinho estava na primeira linha da multidão, apertado contra os balaústres que formavam um corredor a partir das portas de vidro.
Na tabuletinha de um grupo de engravatados, Chumbinho leu: “Drug Enforcement Inc. — Dr. Bartholomew Flanagan”. “Que sorte!”, pensou o menino. “O criador da Droga do Amor vem justo no avião da Magrí!”
Os primeiros passageiros começavam a despontar.
— Magrí! — gritou Chumbinho, ao ver a amiga manquitolando apoiada no ombro de dona Iolanda, que empurrava o carrinho de bagagens.
— Chumbinho! — respondeu Magrí, logo que viu o amigo. Fingindo andar com dificuldade, Magrí foi sendo ultrapassada por outros passageiros.
Chumbinho viu dois homens de terno passarem pela amiga. O mais novo acenou ao ver o grupo de engravatados e puxou o companheiro na direção da tabuleta em que estava escrito “Drug Enforcement Inc.”
Quando Magrí e dona Iolanda já estavam perto de Chumbinho, a professora gritou:
— Ei! O que está acontecendo?
Magrí seguiu o olhar espantado de dona Iolanda.
Foi tudo muito rápido, profissional. Todos os engravatados sacavam armas e quatro deles agarravam os dois recém-chegados.
— Parem com isso! — gritou a professora.
Um dos homens ergueu o braço e uma chama brilhou, enquanto um tiro ecoava sinistramente pela imensidão do aeroporto.
— Dona Iolanda!
Magrí deixou cair a bolsa ao sentir a professora bambear abraçada a ela.
Chumbinho pulou sobre as duas, cobrindo-as com o corpo. Mas a proteção não era mais necessária. Um dos viajantes de terno estava sendo arrastado para longe e o outro já estava caído, depois de levar violenta coronhada.
Pânico no aeroporto. Gritos, desmaios, bagagens caindo no chão, e a multidão, ao espalhar-se, comprimiu os dois Karas que amparavam dona Iolanda.
— Abram! Deem espaço! — gritou Chumbinho. — Tem uma pessoa baleada aqui!
Gritos e confusão mudaram de rumo, e os três viram-se repentinamente no meio de uma roda.
Um Kara treinado nunca deixa escapar nada, mesmo nas situações mais terríveis. E Chumbinho notou que a bolsa que Magrí deixara cair, ao amparar a professora, tinha desaparecido.
Com o corpo largado, dona Iolanda sangrava nos braços de Magrí.

* * *

Calú estava saindo do banho quando ouviu a notícia pelo rádio: “Sequestro em pleno aeroporto Internacional de Cumbica!”
O famoso cientista americano, doutor Bartholomew Flanagan, criador da Droga do Amor, foi levado em minutos por um grupo de homens, quando chegava ao saguão do aeroporto, vindo de Nova Iorque. Até o momento, não há pistas dos sequestradores. O doutor Hector Morales, presidente para a América Latina da Drug Enforcement Inc., que o acompanhava, foi ferido por uma coronhada. Mas o serviço médico do aeroporto já o atendeu e ele se encontra ainda lá, auxiliando nas investigações. Nossa reportagem descobriu que uma mulher, ainda não identificada, foi ferida a bala durante o sequestro. Os doutores Flanagan e Morales chegavam ao Brasil para os tão esperados testes finais da Droga do Amor, o soro contra a praga do século, que poderá ser a esperança de tantos pacientes terminais em todo o mundo. E atenção: diretamente do Aeroporto Internacional de Cumbica, fala a nossa repórter Abigail Cintra. Pode falar Bibi!”
“Bom dia, Marcos Antônio. Acabamos de receber a notícia que a caixa com as amostras do soro da Droga do Amor que seriam usadas nos testes no Brasil foi também levada pelos sequestradores. Acredita-se que se trata de um plano internacional, provavelmente liderado pela Máfia. No comando das investigações está o detetive Andrade, mas, até o momento, nossa reportagem não teve acesso à sala onde se encontra o doutor Hector Morales, que nesse momento está conversando com os policiais. A diretoria da Drug Enforcement vai distribuir um comunicado à imprensa nas próximas horas...”

* * *

— Cuidado com ela!
Os maqueiros já estavam tomando todo o cuidado que Magrí exigia, aos berros, enquanto transportavam dona Iolanda, desfalecida, para dentro da ambulância. Um enfermeiro erguia um frasco com soro, já ligado à veia de um dos braços da professora.
Como abutres farejando carniça, os repórteres, sempre enfiando microfones em busca de alguma declaração, prejudicavam o trabalho da equipe médica.
— As câmeras! — ardenava um. — Mande vir logo as câmeras. Não podemos perder essas imagens!
Próximos ao tumulto, dois homens muito discretos, de terno escuro, quase gêmeos, conversavam baixinho, observando a cena apenas com o canto dos olhos.  Chumbinho e Magrí não tinham desgrudado um segundo de dona Iolanda. Os dois estavam manchados com o sangue da professora e os repórteres ansiosamente procuravam entrevistá-los.
— Filmem esses meninos sujos de sangue! Vamos logo! Vai dar um lindo visual na tevê.
Magrí não largava da mão de dona Iolanda, que tinha o tronco totalmente enfaixado. E a gaze já estava vermelha.
— Afastem esses repórteres! — gritou um policial. — Fechem logo a porta da ambulância!
— Eu vou também! Ela é minha professora. Viajamos juntas!
— Vai nada, menina! — decidiu o policial. — Você é testemunha. Você e esse rapazinho!
— Me deixe!
— Venha quietinha. Sua professora vai ser muito bem cuidada. O estado dela será informado por telefone ao chefe das investigações, não se preocupe. Venha, vamos para a sala da Polícia Federal. Ei, enfaixaram seu tornozelo? Você também foi baleada?
— Isso não é nada. Já desembarquei assim.
Segurando os dois Karas, o policial abriu caminho no meio dos repórteres.
Mantendo uma certa distância, os dois homens de terno escuro seguiram discretamente na mesma direção.
A ambulância partiu com a sirene aberta.
Caminhando pelo saguão, Magrí percebeu que estava com a bolsa de dona Iolanda. Onde estava a sua? Bem, se tivesse sumido, isso não tinha grande importância. Ali só havia dinheiro e produtos de maquiagem. Seu passaporte e outros documentos estavam na mochila, junto com as bagagens.
Seus olhos se apertaram, pensando na professora:
— Será que ela vai viver, Chumbinho?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!