16 de fevereiro de 2018

Capítulo 6

PAULINE

A última etapa da viagem para Civica tinha sido exaustiva. Uma chuva torrencial havia nos sobrepujado perto de Derryvale, e fomos forçadas a nos abrigar em um celeiro abandonado durante três dias, dividindo nossos alojamentos com uma coruja e um gato selvagem. Entre eles dois, pelo menos, não havia qualquer roedor. Todos os dias que se passaram ociosamente só faziam aumentar minha ansiedade. Era certo que Lia estava em Venda a essa altura, se era para lá que Kaden a estava levando. Tentei não considerar por um bom tempo a outra possibilidade: de que ela já estivesse morta.
Tudo havia acontecido com tanta rapidez que eu não tinha entendido muito bem na ocasião. Kaden a havia levado. Kaden era um deles. Kaden, a quem eu havia preferido em preterimento a Rafe. Na verdade, eu havia cometido o erro de persuadi-la a ir para os lados dele. Eu havia gostado do comportamento calmo dele. Eu havia dito a ela que o rapaz tinha olhos bondosos. Tudo em relação a ele parecia benevolente. Como eu pude estar tão errada? Isso me abalou em algum lugar bem lá no fundo do meu ser. Eu sempre havia me julgado uma pessoa que sabia fazer um bom juízo de caráter. No entanto, Kaden era o oposto de benevolência. Ele era um assassino. Foi isso que me dissera Gwyneth. Eu não sabia ao certo como ela haveria de ter conhecimento de uma coisa dessas, mas Gwyneth tinha muitos talentos, e arrancar informações ilícitas de clientes da taverna, com certeza, estava entre eles.
Nós havíamos decidido que era mais seguro permanecer em uma estalagem em um pequeno vilarejo logo do lado de fora das muralhas da cidade. Embora ninguém fosse conhecer Gwyneth, eles haveriam de conhecer a mim, e eu precisava manter minha presença oculta até que tivesse pelo menos acertado uma reunião com o lorde Vice-Regente. Eu era uma figura muito visível na corte da rainha, e provavelmente estaria eu mesma me deparando com acusações de traição por ter ajudado Lia a fugir.
De todo o gabinete, o Vice-Regente sempre havia sido o mais bondoso para com Lia, e até mais solícito. Ele parecia entender o lugar difícil que ela ocupava na corte. Se eu explicasse a ele os apuros em que a princesa se encontrava, com certeza ele contaria isso ao rei de forma mais benéfica a ela. Que pai não haveria de pelo menos tentar salvar sua filha, não importando o quanto ela o tivesse desafiado?
Retraí-me nas sombras com meu capuz cobrindo a cabeça enquanto Gwyneth garantia um quarto para nós. Fiquei observando enquanto ela conversava com o dono da estalagem. Embora não conseguisse ouvir o que foi dito, a conversa pareceu-me mais longa do que o necessário. Senti algo se revirando e um tremor na barriga, o que era um lembrete constante do quanto as coisas haviam mudado, de quanto tempo havia passado, um lembrete da promessa de Lia: nós vamos sair dessa juntas. Um lembrete de que o tempo estava esgotando-se. Beijei meus dedos e ergui-os aos deuses. Por favor, tragam-na de volta.
Algum papel foi passado entre Gwyneth e o dono da estalagem. Ele olhou por um breve instante para mim, talvez se perguntando por que motivos ainda estaria o capuz do meu manto cobrindo minha cabeça dentro da estalagem, mas ele nada disse e, por fim, empurrou uma chave pelo balcão na direção da Gwyneth.
O quarto ficava no fim do corredor, era pequeno, mas tinha muito mais conforto do que o celeiro. Nove e Dieci estavam no estábulo e parecia apropriado que eles tivessem seus próprios aposentos, além de terem cevada fresca para comer. Dinheiro não era problema. Eu havia negociado as joias que Lia me dera em Luiseveque, trocando-as por moedas. Até mesmo Gwyneth ficou impressionada com a facilidade com a qual lidei com mercadores duvidosos em quartos dos fundos, mas eu havia aprendido isso tudo com Lia.
Quando fechei a porta atrás de nós, perguntei a Gwyneth o que a fizera demorar tanto. Garantir um quarto na estalagem de Berdi era uma questão de chegar a um acordo sobre o preço e mostrar o quarto para o hóspede.
Gwyneth jogou sua sacola sobre a cama.
— Enviei um bilhete ao Chanceler solicitando uma reunião com ele.
Fiquei sem fôlego, incapaz de falar por um instante.
— Você fez o quê? Contra a minha vontade? Eu já falei que ele odeia a Lia.
Ela começou a desempacotar as coisas, inabalada com o meu alarme.
— Eu penso que poderia ser mais sábio nos assomarmos das coisas por meio de... canais mais discretos, antes de irmos direto até o segundo no poder. Se o Vice-Regente provar-se pouco prestativo, estaremos em um beco sem saída.
Olhei para ela, com um calafrio cruzando os meus ombros. Esta era a segunda vez que ela havia sugerido o Chanceler, e agora ela havia seguido em frente e agido sem o meu consentimento. Ela parecia determinada a atrair o Chanceler para essa questão.
— Você conhece o Chanceler, Gwyneth?
Ela deu de ombros.
— Hummm, talvez um pouco. Nossos caminhos se cruzaram a algum tempo atrás.
— E você nunca pensou em me dizer isso antes?
— Eu achei que você poderia não aceitar isso muito bem, e, ao que parece, eu estava certa.
Esvaziei minha sacola sobre a cama e remexi em meio à pilha, procurando pela minha escova. Penteei meus cabelos, energeticamente, tentando desemaranhar meus pensamentos, tentando parecer no controle quando não me sentia nem um pouco assim. Ela conhecia um pouco o Chanceler? Eu não gostava do Chanceler nem confiava nele mais do que Lia. Não havia qualquer coisa relacionada a isso de que eu gostasse.
— Eu decidi. Vou falar direto com o rei — falei. — Você pode simplesmente ficar onde está.
Ela agarrou minha mão, interrompendo minhas escovadas.
 — E de que forma pretende fazer isso? Marchando pela cidadela e batendo com sua escova na porta da câmara dele? O quão longe você acha que conseguiria ir? Ou enviar um bilhete a ele? De qualquer forma, tudo passa pelo escritório do Chanceler em primeiro lugar. Por que não ir direto até ele logo de início?
— Estou certa de que consigo uma audiência com o rei de uma maneira ou de outra.
— É claro que você consegue, mas não se esqueça de que você foi cúmplice na fuga de Lia. Muito provavelmente você falaria com ele da cela de uma prisão.
Eu sabia que ela estava certa.
— Se isso for realmente necessário.
Gwyneth soltou um suspiro.
— Uma atitude nobre, mas vamos ver se conseguimos evitar isso. Vamos fazer uma investigação sorrateira.
— Falando com o Chanceler?
Ela sentou-se na cama e franziu o rosto.
— Lia nada lhe contou sobre mim, não foi?
Engoli em seco, preparando-me para algo que eu não queria saber em relação ao passado de Gwyneth.
— Lia não contou o quê?
— Que eu costumava estar a serviço do Reino. Que eu era uma provedora de notícias.
 — E isso quer dizer... — falei, com cautela.
— Que eu era uma espiã.
Cerrei os olhos. Era pior do que eu pensava.
— Oras, não fique assim tão abalada. Não faz bem para o bebê. O fato de eu ser uma espiã, uma ex-espiã, não é o fim do mundo. Isso pode até mesmo vir a calhar.
Vir a calhar? Abri os olhos e a vi abrindo um largo sorriso para mim.
Ela me contou sobre os Olhos do Reino, espiões de Civica espalhados por todas as cidades e mansões em Morrighan, que transmitiam informações para os poderosos. No passado, ela havia precisado de dinheiro e era boa em extrair informações de cliente regulares em uma estalagem em Graceport, onde limpava quartos.
— Então você fazia espionagem para o Rei? — perguntei a ela.
Gwineth deu de ombros.
— Talvez. Eu lidava apenas com o Chanceler. Ele... — a expressão dela assumiu ares sombrios. — Era persuasivo, e eu era jovem e tola.
Gwyneth ainda era jovem. Ela era somente uns poucos anos mais velha que eu. Mas tola? Jamais! Ela era astuta, calculista e irreverente, coisas que eu não era. No meu âmago, eu sabia que as habilidades dela poderiam ser úteis para encontrar um ouvido favorável, no entanto, ainda assim fiquei hesitante. Eu estava com medo de ser atraída para alguma rede de espionagem, até mesmo com ela declarando que não fazia mais parte disso. E se ela ainda fizesse parte dessa rede de espiões?
Era quase como se ela pudesse ver os pensamentos se manifestando na minha mente.
— Pauline — disse em um tom firme, — Você é provavelmente a pessoa mais virtuosa e leal que eu já conheci na vida, mas também é muito irritante às vezes. Está na hora de fazer o que tem que ser feito. Chega de bancar a menina boazinha. Você quer ajudar Lia ou não?
A única resposta a essa pergunta era sim.
Não importando o que eu tivesse que fazer.

9 comentários:

  1. Certeza que a Simone é filha da Gwyneth

    Será que o Chanceler é o pai?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu tambem, desde a primeira vem que a lia viu ela com a Simone eum já desconfiava disso. Só não sei se eu estou certa

      Excluir
  2. Só eu que não confio nessa Gwyneth?

    ResponderExcluir
  3. Do também tô qchanda isso

    Mirtiz

    ResponderExcluir
  4. Outra coisa acho que a Pauline vai encontrar com o Mikael e vai se decepcionar por ele não estar morto por não ter dado aquele dinheiro e por ter brincado com ela e seus sentimentos

    Mirtiz

    ResponderExcluir
  5. Pauline tem dedo podre pra homem kkkkkk

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!