20 de fevereiro de 2018

Capítulo 69

A devastação desdenhava de nós,
Mas havia um vale verde à nossa frente.
O fim da jornada estava à vista, finalmente,
E fiz o que sabia que faria o tempo todo:
Enterrei a minha faca na garganta do meu noivo,
E ele ficou ofegante, com a última respiração,
Enquanto seu sangue ensopava a terra,
Não houve nem mesmo uma lágrima
Entre qualquer um de nós,
Especialmente nenhuma lágrima minha.
— As palavras perdidas de Morrighan —



RAFE

Naquela manhã, eu tinha entrado em um quente buraco escuro para interrogar os prisioneiros. O buraco não tinha fim, era uma queda livre que me convidava a me soltar. Tudo o que eu era capaz de ver na escuridão enquanto fazia perguntas eram carrinhos de mão cheios de espólios tomados dos soldados mortos de Dalbreck. A cada golpe do meu punho cerrado, via Lia sentada em uma úmida cela de detenção vendana, sofrendo com o luto do irmão morto. E, quando saquei minha faca para o Vice-Regente, via apenas Lia, sangrando e fraca nos meus braços. Sven por fim me puxara para trás.
O Vice-Regente limpou o lábio com a manga da sua roupa, e depois abriu um sorriso afetado.
— Eu tinha planejado matar vocês dois, sabe? Uma emboscada feita para que parecesse um roubo comum por parte de bandidos dalbretchianos no caminho de volta para casa depois do casamento — os olhos dele reluziam com orgulho. — Você acha que eu não tenho os meus motivos, assim como você não tem os seus? Não ficamos todos cansados de esperar pelo que nós queremos? A única diferença entre mim e você é que parei de esperar.
Esse homem é louco, Sven havia murmurado enquanto me interrompia no meio do golpe do meu punho cerrado. Já chega, disse ele, e me empurrou para longe. Ele trancou a porta da cela atrás de nós e depois voltou minha atenção para um outro ponto, lembrando-me de que eu ainda precisava contar isso para Lia.

* * *

Entrei nos aposentos a que a tia de Lia, Cloris, havia me conduzido mais cedo, ainda me sentindo como se fosse um intruso. Parecia errado ficar no quarto que o irmão de Lia outrora dividira com a noiva, Greta. A maior parte dos pertences deles fora removida dali; no entanto, no canto do guarda-roupa, encontrei um par de luvas macias no tamanho das mãos de uma mulher, e, em cima do criado-mudo, dois grampos de cabelo delicados com pontas de pérolas. Dei uma olhada na grande cama de dossel e optei por uma hora de sono no canapé em vez de me deitar na cama. Eu teria preferido ficar em um saco de dormir no Saguão de Aldrid, onde estavam muitos dos meus homens, mas lady Cloris insistiu que eu ficasse com o quarto, e eu não queria relutar em ceder à sua hospitalidade.
Quando entrei, Orrin estava deitado na diagonal na minha cama, adormecido, com a boca aberta e as pernas pendendo na lateral da cama. Jeb estava estirado no canapé, com os olhos fechados e as mãos harmoniosamente entrelaçadas sobre a barriga. Eles dois haviam ficado acordados a noite toda garantindo a segurança da cidadela e designando postos. Somente os soldados de Dalbreck deveriam guardar os prisioneiros até que tivéssemos certeza de que não havia mais nenhum soldado vendano em meio aos escalões. Sven estava sentado a uma mesa, comendo uma torta de alguma carne de caça e revendo arquivos pegos dos apartamentos do Vice-Regente. Tavish estava sentado na outra ponta da mesa, com os pés apoiados em cima dela, remexendo papéis em seu colo.
— Alguma coisa? — perguntei.
Sven balançou a cabeça em negativa.
— Nada de importante que pudesse nos ajudar. Ele é um diabo esperto.
Apanhei o ovo cozido de uma bandeja de comida e fiz com que descesse com leite.
— Você contou a ela? — perguntou Tavish.
Tanto Jeb quanto Orrin abriram os olhos, esperando por uma resposta também.
Assenti.
— Ela precisava saber, rapaz — disse Sven. — Era melhor ouvir isso de você do que ter a informação vazada em um momento inoportuno.
Olhei para ele, incrédulo.
— Ela vai abordar a assembleia hoje. Agora é um momento ruim.
— Então não existiria nenhum momento bom. Ainda assim, isso precisava ser feito. Agora já foi, ficou para trás.
Nunca ficaria para trás. A expressão pasma dela quando contei do noivado abriu um buraco em mim. Balancei a cabeça, tentando bloquear a memória.
— Não é fácil contar à moça que amamos mais do que a vida que vamos nos casar com outra.
Sven soltou um suspiro.
— Coisas fáceis são para homens como eu. As escolhas difíceis são deixadas para os reis.
— O general é um canalha ardiloso — disse Orrin, bocejando — e precisa de uma flecha no traseiro.
Jeb se sentou e abriu um largo sorriso.
— Ou eu poderia cuidar dele silenciosamente. É só falar. — Ele fez um som de um clique, o estalar de um pescoço, como se estivesse mostrando o quão rapidamente isso poderia ser feito.
Aquelas eram apenas demonstrações de solidariedades. Eu sabia que nenhum deles assassinaria um oficial legítimo de Dalbreck, nem eu permitiria que fizessem isso, embora fosse tentador.
— E o que você faria com a filha do general? Mataria a menina também?
Orrin soltou uma bufada.
— Tudo de que a menina precisa é olhar para o meu belo rosto para cancelar o casamento com você. Além do mais, eu sou um arqueiro. Trago o jantar para casa. O que você tem a oferecer?
— Além de um reino? — murmurou Sven.
— Você poderia cancelar o casamento e tentar se sair dessa — sugeriu Tavish.
Sven sugou o ar, sabendo quais seriam as consequências. Minha posição em Dalbreck estava precária. Tentar sair dessa era uma opção arriscada. Eu tinha tudo a perder e nada a ganhar. O noivado era a vitória do general e meu próprio inferno particular, e o preço para salvar a vida de Lia. E, enquanto o general fazia os seus joguinhos, a filha dele estava presa no meio. Eu me lembrava do temor nos olhos dela e da sua mão tremendo enquanto ela assinava os documentos. A moça estava com medo e nada queria comigo, mas eu tinha ignorado isso porque estava desesperado e com raiva.
— Vamos mudar de assunto — falei. — O que acontece entre mim e Lia não precisa ser discutido aqui. Ainda temos um exército imbatível marchando na nossa direção.
— Você não acredita nisso — disse Sven, terminando de comer a sua torta — ou não estaria aqui.
— Dei uma olhada nas tropas essa manhã, e é pior do que pensávamos. Azia se referiu a elas como patéticas.
Sven soltou um resmungo. — Patéticas é uma palavra forte. Os poucos que vi pareciam astutos e capazes.
— Os poucos que você viu... é exatamente esse o problema. Não é que faltem a eles lealdade ou habilidades, mas seus escalões estão vazios. Este é o maior posto de treinamento deles, mas foram dispersados por toda Morrighan, em pequenas unidades. Apenas mil deles estão estacionados aqui e agora. Levará semanas para reunir todos de novo aqui. E até mesmo então, não será o bastante.
— Pode ser que nem todos do exército vendano estejam se dirigindo até aqui. Dalbreck é um alvo mais próximo. Nós vamos resolver isso. Primeiro, o mais importante. A assembleia desta tarde. Traçar um plano estratégico depois dela.
Um plano. Eu decidira não contar a Sven o que tinha feito. Aquilo funcionaria ou não, e contar isso a ele só faria com que eu recebesse um sermão furioso sobre ser impulsivo, mas eu não percebera que aquilo era impulsivo quando fui cavalgando até o acampamento fora dos portões da cidade onde o cuidador estava assentando com os Valsprey. Depois que entreguei a ele as mensagens, olhei para trás, para Civica, e o peso da sua história assentou-se sobre mim. Eu sentia os séculos de sobrevivência. Morrighan era o começo, o primeiro reino a se erguer depois da devastação, o único de onde todos os outros reinos nasceram, inclusive Dalbreck. Morrighan era uma joia pela qual o Komizar estava faminto, uma validação da sua própria grandeza e, uma vez que ele a tivesse, junto com os seus abundantes recursos, nenhum reino seria poupado. Minhas dúvidas desapareceram. Ele estava vindo até aqui primeiro.
Sven olhou para mim com ares de suspeita, como se conseguisse ver as operações internas da minha mente. Ele colocou os papéis de lado.
— O que foi que você fez?
Estávamos juntos havia muitos anos. Eu me sentei em uma cadeira bem estofada e joguei os pés em cima da mesa.
— Acrescentei uma solicitação à minha mensagem para o coronel em Fontaine.
— Uma solicitação?
— Uma ordem. Mandei que ele enviasse suas tropas a Civica.
Sven soltou um suspiro e esfregou os olhos.
— Quantos?
— Todos.
— Todos... mesmo... todos?
Assenti.
Sven pôs-se de pé em um pulo, fazendo a mesa estremecer e derramando cidra.
— Você enlouqueceu? Fontaine é o nosso maior posto avançado! Seis mil soldados! É a nossa primeira linha de defesa para as fronteiras a oeste!
— Eu mandei a mesma mensagem a Bodeen.
A essa altura, tanto Orrin quanto Jeb estavam se sentando eretos nos seus lugares.
Sven voltou a se sentar à mesa e repousou a cabeça nas mãos.
Orrin soltou um assovio com as notícias chocantes.
Eu imaginava que agora seria uma boa hora para ir embora. Mais alguma revelação e Sven poderia ter um vaso sanguíneo estourado. Minhas decisões estavam tomadas e não era possível mudá-las agora.
— Não digam nenhuma palavra a ninguém — falei. — isso não é uma resposta a todos os problemas deles. Eles precisam permanecer ferventes nos seus esforços.
Fui andando em direção à porta.
— Agora, aonde é que você vai?
— Primeiramente o que é mais importante — falei. Por mais que odiasse admitir isso, Kaden seria uma parte crucial do plano para salvar Morrighan. — Prometi fazer as pazes com alguém.

* * *

Dei uma olhada no quarto dele. Quando vi que Kaden não estava lá, segui para minha próxima melhor opção, e estava certo. Avistei-o, com uma das mãos pressionadas na parede, parado no topo da escadaria que dava para o nível mais baixo da cidade: onde os prisioneiros eram mantidos.
Ele fitava abaixo da escura escadaria, tão consumido por seus pensamentos que não me notou no final da passagem.
Ele é morrighês, pensei, exatamente como Lia havia dito que era.
Ele era nascido de uma linha de nobreza que remontava até Piers, um dos mais ferozes guerreiros da história de Morrighan. Um Guardião Sagrado, era como Sven se referira a ele. Ele me dera uma breve lição de história na noite anterior, quando mostrei minha surpresa com o parentesco de Kaden. Uma estátua do musculoso e poderoso Piers dominava a entrada do Acampamento de Piers.
Kaden não parecia poderoso agora. Parecia derrotado.
No entanto, na noite passada... engoli em seco, lembrando-me de como eles ficavam juntos quando fui ver como Lia estava durante a noite. Eu tinha visto a mão dele pousada na cama dela e a mão dela curvada sobre a dele. Os dois estavam dormindo, em paz. Saí do aposento rapidamente para que não me vissem. Talvez tivesse sido aquilo o que me dera coragem para contar a verdade a ela. Eu sabia que Lia não o amava da mesma forma como me amava. Eu tinha visto isso nos olhos dela logo que ela me viu no arsenal, e depois a mágoa quando contei-lhe sobre o meu noivado, mas ela também gostava de Kaden. Eles partilhavam alguma coisa que eu e ela não tínhamos: as raízes de um reino e o amor por um outro.
Ele ainda não tinha notado a minha presença ali. Em vez disso, fitava a escuridão e dedilhava, distraído, a adaga embainhada na lateral do corpo, como se uma cena estivesse se desenrolando na sua cabeça. Eu podia imaginar qual seria ela.
Engoli meu orgulho e aproximei-me dele. Eu tinha dito a Lia que já havia feito as pazes com ele. Agora precisava fazer isso de verdade.

5 comentários:

  1. Que orgulho do Rafe. Imagine que Rei incrível ele vai ser? Muito corajoso, uau.

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  2. Eu só vou desacreditar no casal lia e rafé, quando o livro acabar

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  3. Não acredito aprendi ao gostar do Kaden mas ainda tenho esperanças que o Rafe e a Lia ainda fiquem juntos ele como Rei não pode aceitar uma chantagem! DM

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Boa leitura, E SEM SPOILER!