2 de fevereiro de 2018

Capítulo 69

Nós passamos a noite no vale, não muito longe de onde os mortos haviam sido enterrados, e nos pusemos a caminho de Venda no dia seguinte. Seriam mais três dias de viagem. Dessa vez, estávamos flanqueados por um batalhão de quatrocentos homens. Ou seriam seiscentos? Os números não importavam mais. Eu só tinha o olhar fixo à frente, deixando que minha cabeça subisse e descesse livremente com o ritmo do cavalo. A visão diante de mim era do cavalo de Eben, cuja perna manca dificultava o trabalho dos outros. O menino não chegaria até Venda com ele.
Minhas roupas ainda pingavam. Apenas a uma hora atrás, completamente vestida, entrei no rio que percorria a extensão do vale. Não senti suas águas na minha pele, mas vi meus pelos eriçados por causa disso. Deixei que a corrente lavasse minhas roupas manchadas de sangue. O sangue de Walther e de trinta homens sendo lavado e escorrendo pela água e voltando para casa de novo. O mundo sempre haveria de saber, mesmo que os homens esquecessem. Eu tinha encontrado Gavin, com o rosto voltado para baixo, perto do meu irmão, vastos cabelos vermelhos fáceis de identificar, mas Avro e Cyril não foram tão fáceis de serem reconhecidos. Apenas sua devotada proximidade de meu irmão me fez pensar que eram eles. Um rosto fica duro e submerso na morte assim que o sangue é drenado, como ladeira entalhada em uma caixa de fina carne cinzenta.
Vou me lembrar de todos eles. Nunca me esquecerei.
Kaden, Finch e outros ajudaram a cavar os túmulos. Sem eles, eu nunca teria sido capaz de enterrar todos os mortos, mas era por causa deles que uma patrulha inteira fora massacrada. Um dos soldados que me ajudou a cavar foi o que afundou a espada no peito do Walther. Ou o que decepou o braço de Cyril. Eu deveria me sentir grata pela ajuda deles? Na maior parte do tempo, não conseguia sentir nada. Todos os sentimentos que tinha dentro de mim foram drenados como o sangue dos caídos e ficaram para trás no chão do vale.
Meus olhos estavam secos, e minhas mãos — com bolhas e em carne viva — não sentiam dor nenhuma; no entanto, dois dias depois do assassinato de Walther, alguma coisa chacoalhava, solta, dentro de mim. Algo duro e pungente que eu nunca sentira antes, como um pedaço de pedra lascada que se vira várias vezes, repetidamente, jogada na beirada de uma roda, e que remexia ruidosamente e sem alvo, mas com um ritmo regular. Talvez fosse a mesma coisa que havia chacoalhado dentro de Walther quando ele segurou Greta em seu colo. Estava certa de que, o quer que fosse, havia se partido e se soltado e nunca mais se fixaria em mim novamente.
O boato de que eu tinha o “dom” se espalhou entre os soldados, mas fiquei sabendo rapidamente que nem todos os vendanos tinham reverência por ele. Alguns riam dos modos antiquados dos morrigheses. O chievdar era um dos principais a zombar, mas havia bem mais soldados que me observavam com cautela, temendo olharem direto nos meus olhos. A vasta maioria cumprimentava e dava os parabéns a Kaden e aos outros pelo belo prêmio que tinham trazido para o Komizar. Uma verdadeira princesa do inimigo.
Eles não sabiam que a verdadeira tarefa dele seria cortar a minha garganta. Olhei para Kaden, inexpressiva, e me deparei com seu olhar contemplativo, mas também inexpressivo. Kaden devolveu meu olhar. Ele queria estar orgulhoso em meio a seus camaradas. Venda sempre vinha em primeiro lugar, no fim das contas. Ele assentiu àqueles que davam tapinhas amigáveis em suas costas e lhe davam louvores. Os olhos dele, que antes eu achava que continham tanto mistério, agora não tinham nenhum para mim.
No dia seguinte, o cavalo de Eben ficou pior. Ouvi Malich e Finch dizerem ao menino que ele teria que matar o animal e que havia muitos outros cavalos no espólio capturado para que ele cavalgasse. Eben jurou a eles, em uma voz que se erguia, como a de uma criança, que se tratava apenas de um músculo distendido e que o cavalo pararia de mancar.
Eu não disse nada a nenhum deles. As preocupações deles não eram as minhas. Em vez disso, ouvi o ruído, a pedra lascada revirando-se dentro de mim. E, tarde da noite, enquanto fitava as estrelas, às vezes um sussurro escapava, sussurro este em que eu tinha muito medo de acreditar.
Eu encontrarei você.
No recanto mais longínquo, eu encontrarei você.

2 comentários:

  1. Daqui a pouco a menina tá grávida e n tem nem um mês q ela deu pro rafe... N da p ela sentir nada

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Boa leitura, E SEM SPOILER!