20 de fevereiro de 2018

Capítulo 68

Um suave matiz vermelho permeava as beiradas das cortinas. Durante dezessete anos, esse tinha sido o meu sinal familiar da alvorada. Era estranho estar no meu quarto novamente. Lar. Não parecia a mesma coisa, porém. O quarto era apertado, confinador, como se eu estivesse tentando vestir um casaco que não me servia mais. Muitas coisas tinham mudado.
Minha mãe não havia passado por ali. Minhas tias Bernette e Cloris tinham vindo três vezes durante a noite para ver como eu estava, ambas cansadas, com os olhos vermelhos. Elas me deram doses de um espesso e viscoso remédio que o médico havia prescrito.
— Isso vai ajudar a restaurar o seu sangue — sussurrou a minha tia Bernette, dando um beijo na minha bochecha.
Quando perguntei a ela como meu pai estava, covinhas de preocupação formaram-se na face, e ela se esforçava para me dar uma resposta cheia de esperança, dizendo que isso levaria tempo.
Minha tia Cloris lançou olhares de relance e cheios de suspeita para Kaden, que cochilava na cadeira ao meu lado. Ela não gostava disso, mas reclamou apenas um pouco da violação do protocolo. Por fim, tarde da noite, ela o enxotou, tendo preparado um quarto em outro lugar na cidadela para ele. Eu dormira de forma intermitente depois disso, com um sonho dissolvendo-se em outro e, por fim, acordei tremendo, quando sonhei com Regan e Bryn cavalgando juntos em um amplo vale. Eu não queria ver o que viria em seguida.
Por ordens da minha tia Bernette, tomei mais uma dose do xarope enjoativamente doce. Eu não sabia se tinha sido o fato de que dormi ou se era obra do elixir, mas estava me sentindo mais firme.
Prendi as cortinas para trás, e a luz inundou a sala. Olhei para a baía, em um raro dia claro em que a ilha rochosa de almas perdidas estava visível ao longe, com suas ruínas brancas que caíam captando o sol da manhã. Dizia-se que os Antigos que uma vez foram aprisionados ainda atacavam paredes que não mais existiam, capturados em uma prisão interna de um outro tipo, com as memórias prendendo-os com tanta força quanto barras de ferro. Minha atenção se voltou para o oeste, para a última pira de Golgata que estava em pé, ainda se inclinando, encarando seu iminente falecimento com uma graça estoica. Algumas coisas duram... e algumas coisas nunca deveriam existir.
Ouvi alguém batendo à minha porta. Até que enfim. Havia roupas no meu vestíbulo, todas ainda trancadas em baús, aquelas que Dalbreck devolvera por educação. Esses baús não foram abertos em momento algum, mas, se eu fosse abordar o conclave nesta tarde ou executar qualquer uma das muitas tarefas que tinha pela frente, eu não poderia fazê-lo vestindo uma fina camisola emprestada. Minha tia Bernette saíra para buscar alguém que tivesse as chaves. Eu estava prestes a procurar por um grampo de cabelo de modo que eu mesma pudesse abrir os baús. Esse seria um dia longo e cheio.
— Entre — falei, enquanto puxava para trás uma cortina de uma janela no vestíbulo. — Aqui.
Ouvi passadas. Passadas pesadas. Meu coração batia forte junto ao meu esterno, e recuei um passo dentro do meu quarto.
— Bom dia — disse Rafe, que estava de volta trajando as próprias roupas, não mais precisando esconder quem era.
O coração no meu peito batia com ainda mais força. Todas as emoções que eu me esforçara tanto para afundar borbulhavam e subiam mais uma vez, e ouvi o anseio na minha voz.
— Eu estava me perguntando quando você passaria por aqui.
Ali. Eu vi aquilo nos olhos dele de novo. Vi na forma como ele engolia em seco.
— Você está parecendo melhor do que estava na noite passada — disse ele.
— Obrigada por nos ajudar.
— Sinto muito por não ter vindo antes. Acho que estava esperando um bilhete.
— Eu me recordo bem de você dizendo para não lhe enviar mais nenhum bilhete.
— E desde quando você me dá ouvidos?
— E desde quando você presta atenção aos meus bilhetes?
A expressão preocupada dele foi substituída por um largo sorriso, e só foi preciso isso para que eu fosse correndo em direção a ele, esticando as mãos, os braços dele me envolvendo, nós dois abraçando um ao outro como se nunca fôssemos nos soltar, os dedos dele deslizando pelos meus cabelos, seu fraco sussurrar do meu nome, Lia, junto ao meu ouvido, mas, quando tentei voltar os meus lábios para junto dos dele, Rafe recuou, deu um passo para trás, segurando nos meus braços e deliberadamente colocando-os de volta nas laterais do meu corpo.
Olhei para ele, confusa.
— Rafe?
— Tem uma coisa que preciso contar a você.
— O quê? — perguntei, com o pânico erguendo-se na voz. — Está tudo bem com você? Aconteceu alguma coisa com...?
— Lia. Apenas me escute. — Seus olhos ardiam olhando dentro dos meus.
— Você está me assustando, Rafe. Fale de uma vez.
Ele piscou, e alguma coisa se mexeu na sua expressão. Ele balançou a cabeça como se os seus pensamentos estivessem correndo à frente dele.
— Eu preciso lhe contar sobre a circunstância de... A verdade é que... O que eu preciso contar a você é que estou noivo.
Minha boca ficou seca. Eu esperei que ele desse risada. Que declarasse que essa era uma piada ruim.
Mas ele não fez isso.
Encarei-o, ainda não acreditando naquilo. Minha boca se abriu para dizer alguma coisa, mas eu não conseguia pensar no quê. Ele me amava. Eu sabia que ele me amava. Eu tinha acabado de ver isso nos olhos dele.
Pelo menos, eu achava que tinha visto. Sim, nós acabamos nos separando muitas semanas atrás, mas isso era suficiente para me esquecer? Em menos de uma estação? Eu procurava alguma coisa a dizer.
— Você encontrou alguém tão cedo? De que reino? — perguntei, com as palavras entorpecidas na língua.
Ele assentiu.
— Ela é de Dalbreck. A assembleia queria que eu me casasse imediatamente. Eles achavam que isso acrescentaria a estabilidade necessária.
Eu me virei, piscando, tentando me focar, tentando entender.
— Seu reino está em apuros tão terríveis assim?
— Tanto meu pai quanto minha mãe estavam mortos havia semanas. Eu tinha sumido. O reino estava sem um regente, o que criou problemas. Mais do que nós esperávamos.
— O general que o desafiou?
— Ele é um deles. Eu tive que...
Virei para ficar cara a cara com ele.
— Você a ama?
Ele olhou para mim, pasmado.
— Eu nem a conheço.
— Você não me conhecia antes do nosso casamento também.
— Você está se referindo ao nosso casamento que não aconteceu.
Fitei-o. Ele estava falando sério. Ele ia se casar com outra pessoa. Seguindo o conselho da assembleia. Rafe estava atendendo ao seu dever, exatamente como fizera quando veio a Morrighan uma vez para se casar comigo. Será que isso era tudo que o casamento era pra ele? Dever? Ao mesmo tempo, eu me odiava por depreciar os seus motivos. O que eu fizera senão deixá-lo para trás por causa do meu dever?
Eu ouvi as palavras de Jeb novamente: ele está falando a verdade. Eu não queria que fosse, mas disse coisas para encher o silêncio doloroso. Palavras que eu não pretendia dizer e nem mesmo pelas quais eu esperava.
— Talvez as coisas se saiam melhor para vocês dois.
Ele assentiu.
— Talvez.
Ficamos parados ali, olhando um para o outro. Minhas entranhas estavam em desordem, como se tudo tivesse se soltado com um chute, abalado. Estranhamente, ele parecia estar se sentindo exatamente como eu.
— Então, como nós ficamos? — perguntei.
Ele fez uma pausa, como se estivesse tentando descobrir isso ele mesmo, mas seu olhar contemplativo ainda permanecia travado no meu.
— Ficamos como duas pessoas... três... que precisam parar o Komizar.
— Três?
— Você me disse que eu precisava fazer as pazes com Kaden. Já fiz. — O tom dele era inflexível.
Minha tia Bernette entrou correndo, tilintando o molho de chaves.
— Encontrei! — ela parou quando viu Rafe, como se soubesse que tinha interrompido alguma coisa.
Ouvi a mim mesma falando, soando como a minha mãe dando o melhor de si, tentando graciosamente resolver um momento estranho.
— Tia Bernette, eu gostaria de apresentá-la ao rei de Dalbreck. Rei Jaxon, esta é minha tia, lady Bernette.
— Nós nos encontramos na noite passada. Por um breve momento. Vossa Majestade — disse ela, e fez uma cortesia profunda, dando a Rafe a plena honra da sua posição.
— Lady Bernette — respondeu ele, pegando na mão dela, erguendo-a junto aos seus lábios, proferindo delicadezas educadas, e então pediu licença, virando-se para sair sem dizer mais nada a mim. Ele foi andando em direção à porta.
Quantas vezes eu teria que deixar que ele se fosse?
Não mais.
Essa seria a última vez.
Ele não tinha nem mesmo passado pela porta quando passadas soaram na câmara externa. Gwyneth entrou correndo, seguida de um agrupamento dos soldados de Rafe, os quais estavam segurando o Marechal do Campo.
— Isso não podia esperar — disse ela como desculpas, vendo que eu ainda vestia a camisola. — É sobre os seus irmãos.

* * *

Andei de um lado para o outro no meu quarto. Eu sentira na noite passada que o Marechal do Campo era inocente, mas percebi que ia desmaiar. Era mais seguro simplesmente ordenar que todos eles fossem trancafiados em um lugar seguro até que eu pudesse questioná-los.
— Por que foi que você não nos disse isso na noite passada? — exigi saber.
— Na frente de todos? Depois do que você revelou? Eu não achei que isso seria uma coisa sábia, considerando que tinha acabado de ficar sabendo sobre as cobras que infestavam os escalões. Isso não é algo que queremos que todo mundo saiba, caso isso apresente qualquer vantagem que seja aos príncipes. Eu exigi falar diretamente com você a partir do momento em que fui levado para longe, mas ele não queria me dar ouvidos. — Ele assentiu na direção de Rafe.
— Todo mundo queria falar com ela. Lia estava indisposta. Eu disse para falar comigo — respondeu-lhe Rafe.
— O rei de uma nação estrangeira que chega bem na hora de um conclave? Supostamente eu deveria confiar de imediato em você com todos os segredos do reino? — O Marechal do Campo olhou para Gwyneth. — Esta boa dama finalmente me deu ouvidos.
Gwyneth admitiu que ela descera ao porão onde os prisioneiros eram mantidos em salas separadas para tripudiar do Chanceler, e para garantir que ele ainda estava lá. Ela fora acordada por um pesadelo, sonhando que ele tinha se libertado da prisão e que estava se dirigindo a Terravin. Quando o Marechal do Campo viu que Gwyneth passava, através da pequena abertura da porta da sua cela, ele implorou por um instante para falar com ela. Tudo que o homem disse foi que tinha notícias sobre os meus irmãos que eu precisava ouvir.
Ele me contou sobre uma conversa que ele tivera com os meus irmãos antes que eles partissem. Disse que não ficara feliz em relação à missão diplomática proposta pelo gabinete, e ficou surpreso com o fato de que meus irmãos tinham aceitado com tanta facilidade. Ele suspeitava de que eles estavam prestes a armar alguma coisa.
Em particular, ele confrontou o príncipe mais velho, perguntando a ele o que os dois estariam armando. Regan não tentou negar o que eles estavam fazendo.
— Você sabe o que estamos fazendo. A mesma coisa você faria se sua irmã fosse indevidamente acusada de alguma coisa.
— “Vou fingir que não ouvi isso”, falei para o príncipe. E ele respondeu: “Achei que você fosse fazer isso.
E então o Marechal de Campo desejou boa sorte a eles.
Eu me sentei no banco que estava na extremidade da minha cama, descansando o rosto nas palmas das mãos. Minha respiração inflava-se no peito. Ele disse que os meus irmãos em momento algum planejavam ir a Gitos ou a Cortenai depois que tivessem colocado no lugar a pedra memorial na Cidade dos Sacramentos, apenas a umas poucas cidades de modo a recrutar mais ajuda, e então eles iriam para Venda com o objetivo de me pegar de volta e provar que eu não era uma traidora, o que queria dizer que os rastreadores que nós tínhamos enviado estavam seguindo na direção errada. Na hora em que eles se dessem conta de que os príncipes tinham planejado uma nova rota, provavelmente eles estariam muito para trás para alcançá-los. No entanto, isso também queria dizer que aqueles que estavam esperando para prendê-los em uma emboscada também precisavam se reagrupar, o que daria uma vantagem aos meus irmãos. No entanto, até mesmo se eles conseguissem se safar daqueles que foram enviados para matá-los, ir todo o caminho até Venda era com certeza uma sentença de morte. Até mesmo uma dúzia de regimentos ao lado deles não seria o bastante para defendê-los do exército vendano com o qual eles se deparariam.
— A guarnição militar de Aberdeen — falei. — Depois do que aconteceu com a companhia de Walther, é para lá que eles devem ir em seguida, para recrutarem mais homens e duplicarem seus números. Vamos enviar cavaleiros até lá.
Rafe balançou a cabeça em negativa.
— Não. Seus irmãos já teriam passado por lá na hora em que cavaleiros chegassem. Temos um posto avançado ao nordeste da Cidade da Magia Negra, Fontaine. Podemos interceptá-los por ali.
— Isso é ainda mais distante — disse com escárnio o Marechal de Campo. — Como você ia fazer para que uma mensagem chegasse até eles a tempo?
Olhei para Rafe, com o coração apertado.
— Você tem Valsprey com você?
Ele assentiu. Nós nos sentamos à minha escrivaninha na mesma hora para escrevermos mensagens. Uma minha para os meus irmãos, de modo que eles soubessem que a interceptação não era um ataque por parte dos soldados de Dalbreck. A outra, de Rafe para o coronel que comandava em Fontaine para colocar patrulhas fazendo uma varredura na paisagem em busca de esquadrões morrigheses. Ainda era um tiro no escuro. Havia quilômetros de terras inóspitas, e aqueles que estavam esperando para emboscar os meus irmãos ainda poderiam chegar até eles antes que fossem avisados. No entanto, já era alguma coisa. Rafe olhou para a minha mensagem e a enrolou junto com a dele. Ninguém mais viu o que ele escrevera, porque sua mensagem estava escrita com cifras conhecidas somente pelos seus oficiais.
— Eu disse ao coronel que queria um batalhão bem armado para escoltar os esquadrões dos seus irmãos até em casa, se ele os encontrar.
Vivos. Isso não tinha sido dito, mas vi a palavra agigantando-se atrás dos olhos dele.
Ele partiu para fazer com que a mensagem chegasse às mãos do cuidador de Valsprey. Se tudo se saísse bem, disse ele, a mensagem estaria lá amanhã, mas ele me avisou de que não receberia qualquer mensagem em resposta. Levava meses para treinar um pássaro a voar para um local distante. Eles não eram treinados para retornar a Civica.
Olhei para o Marechal do Campo, assentindo em agradecimento e como um pedido de desculpas no mesmo gesto.
— E, deste ponto em diante, você deve confiar no rei de Dalbreck como se fosse um dos seus. A palavra dele é verdadeira.
Ordenei aos soldados que o soltassem e que o Mestre das Caçadas, o Guardião do Tempo e o Mestre Mercante também fossem libertados. O restante do gabinete permaneceria nas suas celas para encararem o julgamento e a execução, se eu não os matasse primeiro. Minha ameaça ao Vice-Regente tinha sido honesta. Se algum dano fosse causado aos meus irmãos ou aos seus companheiros, a morte dele não seria rápida.

7 comentários:

  1. Imagina se eles não iam aprontar. São os irmãos da Lia afinal.

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  2. GenTe eu não quero que a Lia e o Rafe se separem, nãooooo

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  3. Tomara q ela faça o q não teve vontade de fazer ante e de um bolo naquela garota que iria casar e q ele fique com a Lia e os irmãos dele sobrevivam ou se eles morrerem q ela assuma o trono e q os dois jontem os reinos para lutar com o komizar ele é um FDP sem coração que deveria te se casado com a calanta e assim seria feliz e não morreria do jeito trágico que eu imaginei pra ele com a Lia cortando tudo os dedo dele depois as mãos e os pes e dai esfaqueado e depois decapitado e daí jogado na floresta para ser comido pelos felinos como o carinha de todo mundo ideia o Cris --tragico--

    Mirtiz

    Sem nenhum remorso desse pensamento

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  4. Eu tô triste :'( :'(

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  5. Essa autora definitivamente destruiu meu coração

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  6. Não acredito que eles foram atrás da Lia e vão cair nas mãos do inimigo pelos Deuses! Sei isso acontecer eles vão ser motos! NÃO ENTENDI A RAINHA,ela ajudou o Erudito agiu contra a Lia e agora esta sofrendo ao ver as cicatrizes da Lia!? Não consigo entender DM

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Boa leitura, E SEM SPOILER!