2 de fevereiro de 2018

Capítulo 67

Meus olhos se abriram com tudo. Um guinchado ensurdecedor ainda soava aos meus ouvidos e eu encarava uma fera negra e peluda com presas à mostra. Fui me arrastando para trás, mas estava cercada. Ao meu redor, um bando de criaturas soltava guinchos agudos, expondo gengivas rosadas e reluzentes, além de ferozes dentes amarelos.
Quando, por fim, consegui me concentrar em algo que não fossem as presas delas, vi criaturas que se pareciam com macacos. Não daqueles fofos e minúsculos que eu tinha visto nos ombros de comediantes da corte. Esses eram do tamanho de um homem e foram se aproximando de mim e me cercando devagar, como se eles se alimentassem do terror em meus olhos. Fiquei de pé rapidamente e gritei com as criaturas, acenando com os braços, mas elas apenas ficaram mais atiçadas, rosnando e guinchando para mim. Depois de tudo pelo que tinha passado, estava prestes a ser dilacerada por um bando de animais selvagens.
Um rugido horrendo tomou conta do ar, mais alto até mesmo do que os guinchados deles, que soltaram grunhidos agudos em curtos baques de pânico, fugindo em direções diferentes. Os únicos sons que deixaram para trás foram os da minha própria respiração, e depois, a respiração de outra coisa. Uma bufada estrondosa e, ao mesmo tempo, baixa.
Alguma outra coisa estava aqui.
A fogueira quase se extinguira, e sua chama fraca iluminava apenas um pequeno círculo tremeluzente. Olhei na escuridão adentro, além das árvores. As respirações eram baixas e profundas. Uma bufada. Um estrondo. Um rosnado ondulante. Havia algo ali maior e mais feroz do que os macacos. E estava me observando.
Um calafrio fazia pressão nas minhas costas, e eu me virei. Um par de olhos reluzentes cor de âmbar olhavam para mim. Eu os reconheci na mesma hora, e minha garganta ficou seca. O olhar fixo e faminto era algo de que eu nunca tinha me esquecido. Ele rugiu mais uma vez, e uma de suas patas veio para a frente. E depois, a outra. Eu não conseguia me mexer. Ele rosnava e cuspia, igualzinho a quando eu era criança, porém, dessa vez, não havia ninguém para assustar a fera. Pelo que estaria esperando? Eu sabia que, se me virasse e saísse correndo, não teria nenhuma chance. Isso acabaria ativando o instinto de caça do animal. Mas que outro objetivo ele teria ali além de tentar me comer? A besta deu um passo mais para perto de mim, e seu rabo balançava atrás de si. Ficou tão perto que sua imensa cabeça listrada brilhava à luz da fogueira.
Meu coração era uma rocha dentro do peito, como se eu já estivesse morta. Ele olhou para mim, e vi meu reflexo congelado em seus olhos vítreos, e rugiu de novo, deixando à mostra suas presas poderosas. A fera não conseguiu me deixar mais amedrontada do que já estava. Abri a boca, mas minha língua estava tão seca que nenhum som saiu além de um fraco e rouco sussurro:
— Vá embora.
Os bigodes do animal se mexeram, ele bateu o rabo e se virou, desaparecendo floresta adentro.
Durante vários segundos adicionais, fiquei lá parada, tremendo, ainda assustada demais para me mover, mas eu sabia que não conseguiria me mexer rápido o bastante. Fui correndo pegar meu saco de dormir e minha bolsa. Nem os macacos nem o tigre haviam incomodado o cavalo; talvez apenas eu parecesse uma refeição fácil. Fora o meu simples comando sussurrado que tinha feito com que ele fosse embora? Eu não questionaria minha boa sorte agora. Sairia dali enquanto ainda podia.
Fui embora como tinha vindo, finalmente inalando o ar profundamente, quando estava livre da floresta infernal. Fiquei perto de sua borda, vendo que o horizonte já estava quase cor-de-rosa, e impulsionei meu cavalo para que entrasse em pleno galope. O sol nasceria em breve, e ficaria fácil me avistar na savana.
No lugar onde acabava a floresta havia um afloramento de grandes pedras redondas, e me abaixei por uma trilha que serpenteava em meio a elas, grata pela cobertura, mas isso se provou ser um curto beco sem saída. A imensa dispersão de grandes pedras redondas apenas se abria para um planalto sobressalente que quase dividia em dois o vale abaixo. Eu vi o que parecia ser uma trilha bem usada, que o percorria. Desci do cavalo e caminhei pelo veio rochoso, perguntando-me se conseguiria descer até o piso do vale. A corrente de ar ascendente era forte e esvoaçava meus cabelos e minha saia. Avistei algo ao longe, com muita poeira como se fosse o estouro de uma boiada, mas que se movia devagar dessa vez. E então, me veio à mente o que era: soldados. Não apenas uma pequena patrulha, mas um batalhão milagroso e imenso de soldados!
Conforme se aproximavam, eu podia dizer que havia pelo menos uns duzentos deles, mas ainda não conseguia ver o estandarte deles. Ou talvez não estivessem portando um? Seriam de Morrighan ou de Dalbreck? Naquele momento, qualquer um dos reinos seria bom para mim. Procurei uma trilha para descer até o vale, mas, desse lado do veio era uma queda íngreme. Fui me arrastando até o outro lado, em busca de outro caminho para descer, e vi mais soldados vindo na direção oposta, mas esses eram apenas uma pequena companhia de não mais de trinta homens. Apertei os olhos, tentando ver suas cores, e captei vislumbres de vermelho. Morrighan! E então seus cavalos entraram em foco, com um cavalo tobiano ao longe, branco e castanho, liderando-os. Walther. Fui varrida por um lampejo de alegria e êxtase, mas ela foi rapidamente esmagada. Então, quem seriam os...
Outros? Eu saí correndo para o lado oposto, fitando o vasto exército que rapidamente se aproximava de um espigão. Não, não eram duzentos. Eram trezentos ou mais. Sem estandartes.
Vendanos.
Os exércitos estavam se dirigindo um em direção ao outro, mas, com o espigão projetando-se entre eles, não teriam nenhum alerta disso. Walther precisava ser avisado.
— Lia.
Eu me virei. Eram Kaden, Eben e Finch.
— Não! — falei. — Agora não!
Saí correndo até o espigão, mas Kaden estava logo atrás de mim, segurando-me pelos braços. Ele pegou minha blusa pelo ombro, e o tecido foi rasgado.
— Não! — gritei. — Tenho que impedi-los!
Ele me agarrou, envolvendo-me com seus braços e apertando-me junto ao seu peito.
— Não! — gritei. — É o meu irmão lá embaixo! Me solte! Todos eles serão mortos!
O exército vendano estava quase chegando ao espigão. Dentro de segundos, eles estariam em cima da pequena companhia do meu irmão, trezentos contra trinta. Supliquei que Kaden me soltasse. Chutei-o. Chorei e solucei.
— Você não conseguiria alcançá-los daqui, Lia. Na hora em que chegarmos lá...
O exército vendano deu a volta no espigão.
Lutei contra o aperto de Kaden.
— Me solte! — gritei. — Walther! — Mas o vento jogou as palavras de volta na minha face. Era tarde demais.
Meu mundo mudou em um instante, de uma velocidade de raio para câmera lenta. Movimentos e sons ficaram abafados como em um sonho — mas não se tratava de um. Observei enquanto dois reinos se encontravam, ambos pegos de surpresa. Vi um jovem seguir em frente para o ataque em um cavalo tobiano castanho e branco. Um jovem que eu sabia ser forte e valente. Um jovem que ainda estava apaixonado, mas que era consumido pelo pesar. Um jovem com o sorriso tranquilo e torto, que havia me levado para jogar cartas, que torcia o meu nariz, que me defendia das injustiças e que me mostrou como lançar uma faca. Meu irmão. Olhei enquanto ele sacava sua arma para fazer justiça por Greta. Vi quando cinco armas foram sacadas em resposta, o girar de uma espada, e mais uma, e mais outra, e quando ele caiu de seu cavalo. E então, uma espada por fim o acertou no peito para terminar o trabalho. E vi o meu irmão Walther morrer.
Um depois do outro, eles caíram: três, quatro, cinco contra um no que não era de forma alguma uma batalha, mas um massacre. A corrente de ar era impiedosa, carregando cada grito e cada urro em uma onda com o vento. E então se seguiu o silêncio. Minhas pernas ficaram bambas, como se nem mesmo estivesse ali, e caí no chão. Gemidos e gritos encheram meus ouvidos. Puxei os cabelos e as minhas roupas. Os braços de Kaden me seguraram rapidamente, impedindo que eu caísse pela beirada do penhasco.
Por fim, me joguei no chão e olhei para baixo no vale. A companhia inteira estava morta. Vendanos não mantinham prisioneiros. Eu me agachei, segurando meus braços.
Kaden ainda me segurava por trás. Ele tirou os cabelos do meu rosto e se inclinou para perto de mim, embalando-me e sussurrando ao meu ouvido:
— Lia, eu sinto muito. Não havia nada que pudéssemos fazer.
Fiquei com o olhar fixo nos corpos ali espalhados, cujos braços e pernas estavam contorcidos em posições não naturais. O cavalo de Walther jazia morto ao lado dele. Aos poucos, Kaden me soltou. Olhei para baixo, para meu ombro exposto, o tecido rasgado, e vi o avanço da garra e da vinha, senti a bile em minha garganta, o filete de muco escorrendo do meu nariz, e ouvi o som de asfixia em silêncio. Alisei minha saia, senti o meu corpo indo para a frente e para trás, sendo embalado, como se o vento estivesse soprando para longe o que havia sobrado de mim.
Fiquei ali sentada durante minutos, estações, anos, o vento se tornando inverno na minha pele, o dia cedendo lugar à noite e então tomando-se ofuscante novamente, árduo em seus detalhes. Cerrei os olhos, mas os detalhes ainda estavam brilhantes e exigentes por trás das minhas pálpebras fechadas, substituindo uma vida de memórias por uma única imagem sangrenta de Walther, e então, misericordiosamente, a imagem se foi, deixando em seu lugar apenas o cinza embotado e entorpecente.
Por fim, observei enquanto minhas mãos deslizavam até os meus joelhos e os empurravam, forçando o meu corpo a ficar de pé. Virei-me e os encarei.
Eben estava com o olhar fixo em mim, os olhos arregalados e solenes. Finch estava meio boquiaberto.
Olhei para Kaden.
— Meu irmão precisa ser enterrado — falei. — Todos eles precisam ser enterrados. Não vou deixá-los para os animais.
Ele balançou a cabeça em negativa.
— Lia, não podemos...
— Nós podemos tomar a trilha ao leste — disse Finch.

* * *

A malevolência permeava o chão do vale com o fedor de sangue ainda emanando do solo, as entranhas de animais e de homens vazando de seus corpos, os roncos e os gemidos saindo dos cavalos que ainda não estavam mortos. Ninguém se dava ao trabalho de acabar com o sofrimentos deles. O gosto fresco do terror pendia no ar... Esse mundo, ele nos inspiraele nos partilha.
Hoje o mundo chorava com as últimas respirações do meu irmão e dos seus camaradas. Será que minha mãe já tinha ido para seus aposentos? Será que já sabia desse pesar?
Um homem feroz, alto em sua sela, veio cavalgando de encontro a nós com um esquadrão, suas espadas, sacadas. Presumi que fosse o comandante do bando cruel. Ele usava a barba em duas longas tranças. Era meu primeiro vislumbre de verdadeiros bárbaros. Kaden e os outros haviam se vestido para se misturarem com os morrigheses. Estes homens, não. Pequenas caveiras de animais pendiam de fios em seus cintos, fazendo um ruído oco enquanto se aproximavam. Longas correntes formavam franjas em seus capacetes de couro, e suas faces ficavam temerosas com faixas pretas debaixo de seus olhos.
Quando o comandante reconheceu Kaden e os outros, abaixou a espada e os cumprimentou como se estivessem se encontrando para um piquenique no campo. Ele ignorou os corpos mutilados espalhados ao redor, mas, muito rapidamente, as saudações tiveram fim e todos os olhares pousaram sobre mim.
Sem demora, Finch explicou que eu não falava a língua deles.
— Estou aqui para enterrar os mortos — falei.
— Nós não temos mortos — respondeu o comandante em morrighês, cujo sotaque era pesado e cujas palavras estavam cheias de repulsa, como se eu tivesse sugerido algo vulgar.
— Os outros — respondi. — Os que vocês mataram.
Um rosnado repuxava seu lábio.
— Nós não enterramos os corpos dos porcos inimigos. Eles são deixados para as feras.
— Dessa vez não — respondi.
Ele olhou para Kaden com descrença.
— Quem é essa vadia de boca suja que está cavalgando com vocês?
Eben entrou na conversa.
— Ela é nossa prisioneira! Princesa Arabella de Morrighan. Mas nós a chamamos de Lia.
O escárnio iluminou a face do comandante e ele se sentou direito em sua sela, erguendo o visor de seu capacete ornado com pregos.
— Então vocês a chamam de Lia — disse ele, zombando, enquanto me observava com os olhos repletos de ódio. — Como eu falei, meus soldados não enterram porcos.
— O senhor não é um bom ouvinte, comandante. Eu não pedi para os seus selvagens enterrarem os corpos. Eu não haveria de permitir que mãos indignas tocassem nos nobres soldados morrigheses.
O comandante foi com tudo para a frente em sua sela, com a mão erguida para bater em mim, mas Kaden estirou o braço para impedi-lo.
— Ela está de luto, chievdar. Não a reprima por suas palavras. Um dos mortos é irmão dela.
Cutuquei meu cavalo para que fosse para a frente, de modo a ficar à altura do comandante.
— Vou dizer isso de novo, chievdarEu vou enterrá-los.
— A todos? Você vai enterrar uma companhia inteira de homens? — Ele deu uma risada. Os homens que estavam com ele também riram. — Alguém traga uma pá para a Princesa. Deixem que ela cave.

* * *

Ajoelhei-me no meio do campo. Meu primeiro dever seria o de abençoar os mortos enquanto seus corpos ainda estavam quentes. A tradição que eu tanto evitara era tudo que me sustentava agora. Ergui as mãos aos deuses, mas as minhas canções fluíam a partir daquela que eu havia memorizado até algo novo, elocuções de uma outra língua, língua esta que apenas os deuses e os mortos poderiam entender, uma canção espremida do sangue e da alma, da verdade e do tempo. Minha voz se ergueu, jogou-se, sentiu o pesar, cortou pelos ventos e depois se tornou parte deles, trançada com as palavras de milhares de anos, milhares de lágrimas, o vale se enchendo não apenas com a minha voz, mas com os lamentos de mães, irmãs e filhas de tempos passados. Era uma memória que ia além do céu distante e da terra que sangrava, uma canção de desprezo e amor, de amargura e misericórdia, uma prece tecida não apenas de sons como também de estrelas, e pó, e todo o sempre.
— E que assim seja — finalizei — para todo o sempre.
Abri os olhos, e os soldados ao meu redor tinham parado de fazer seus afazeres, observando-me. Levantei-me, peguei a pá e fui em direção a Walther primeiro. Kaden me parou antes que eu tivesse chegado perto do corpo do meu irmão.
— Lia, a morte não é graciosa nem complacente. Você não vai querer se lembrar dele assim.
— Vou me lembrar dele exatamente assim. Vou me lembrar de todos eles. Eu nunca me esquecerei disso. — Soltei meu braço de suas mãos.
— Não posso ajudar você. É traição enterrar o inimigo. Isso desonraria nossos próprios homens caídos em batalhas.
Saí andando sem responder e dei a volta em torno de corpos e de suas partes mutiladas até encontrar Walther. Prostrei-me de joelhos ao lado dele e tirei seus cabelos do rosto. Fechei seus olhos e dei um beijo em sua bochecha, sussurrando minha própria prece para ele, desejando-lhe felicidade em sua jornada, porque agora ele abraçaria Greta novamente e, se os deuses fossem misericordiosos, embalaria seu filho não nascido. Meus lábios se demoraram na testa dele, tremendo, não queriam se separar dele, sabendo que esta seria a última vez em que minha carne tocaria a carne dele.
— Adeus, doce Príncipe — sussurrei por fim junto à sua pele.
E então me pus de pé e comecei a cavar.

22 comentários:

  1. Tem olhinhos nas minhas lagrimas...

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    1. Sei bem como é.....

      Buaaaa

      Analu

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    2. claudia maria de lima2 de março de 2018 18:12

      Eu também estou chorosa.. muito!

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    3. Minhas lágrimas estão chorando aqui!!

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  2. Que pesado,capítulo bem sad

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  3. Eu tô chorando, n consegui me segurar.

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  4. Que droga hein, tantos lugares no meio do nada a milhares de quilómetros de distância, eles se encontram pra ela testemunhar isso ainda. Incrível.

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  5. Será que é besta demais chorar por causa de um livro?

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  6. nossa chorando muito !!!!

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  7. Chorando muito, que injustiça dessa autora😢😢😢😠

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  8. Aaaaa pq culpe do carinha q matou a mulher dele😢😢😢😢😢😢😢😖😖😖😖😢😢😢😢😭😭😭😭😭😧😧😦😦

    Mirtiz

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  9. Esse foi k capítulo mas forte e emocionante que li. 😓

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  10. Que tristeza eu to sentindo

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  11. Também! Chorando...

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  12. Acho que meus olhos estão lacrimejando...

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  13. Odeio quando esses ninjas invisíveis cortadores de cebola ficam perto de mim. Era uma vez, Walther...

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  14. Noooossa que capítulo triste e ao mesmo tempo lindo porque sentimos a emoção da personagem. Nunca chorei tanto. Primeira vez que comento

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  15. O melhor capitulo do livro.chorei horrores e até depois de ler outros capítulos em que ela lembra do irmão eu fico emocionada emocionad. Lindo lindo...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!