20 de fevereiro de 2018

Capítulo 66

Ouvi choro.
Senti o movimento de mãos macias pela minha testa.
O aroma de rosas.
Choro.
O escorrer de um fio de água.
O sussurrar de portas se abrindo.
Vozes baixinhas.
Um pano fresco no meu rosto.
Um puxão no meu braço dormente.
Será que ela vai entrar no colapso?
Alguma coisa doce na minha língua.
Calidez.
Eu fico com a próxima vigília. Vá.
Um latejar pesado no meu peito.
Passadas guardadas.
Choro. Enérgico e tenso.
O resvalar de uma fera, o leve chicotear da sua cauda.
Estou indo atrás de você. Isso não acabou.

* * *

Abri os olhos. O quarto estava às escuras. Meu quarto. Uma tora brilhava na lareira. Pesadas cortinas estavam puxadas nas janelas, e eu não sabia ao certo que horas seriam ou por quanto tempo eu tinha ficado desmaiada.
Virei a cabeça. Kaden estava caído em uma cadeira ao meu lado, seus pés apoiados em uma banqueta, a cabeça pendendo para trás, como se ele estivesse dormindo, mas seus olhos estavam focados em mim agora, como se o mero abrir das minhas pálpebras o tivesse acordado. Minha mão estava elevada em um travesseiro, pesada, com um latejar embotado pulsando sob as bandagens recém-trocadas. Eu estava vestindo uma camisola macia.
— Deuses amados — falei, gemendo, lembrando-me dos últimos momentos no saguão — por favor, não me diga que apaguei na frente de todo mundo.
Uma ponta de um sorriso repuxava o canto da boca dele.
— Perdeu os sentidos. Há uma diferença. Isso acontece quando se perde sangue o bastante a ponto de encher um balde. Você não é imortal, sabia? Não sei como foi que você permaneceu de pé por tanto tempo. Se a conforta, acho que alguns dos lordes desmaiaram só de ver você sendo carregada para fora da sala.
Carregada. Rafe me carregou. Eu me perguntava onde ele estaria agora. Olhei de relance na direção da câmara externa.
— Ele está cuidando de algumas coisas com os soldados — disse Kaden, lendo a minha mente.
— Ah — falei simplesmente. Para alguém que viajara em jornada por milhares de quilômetros com um esquadrão altamente treinado para me ajudar, ele parecia estar mantendo distância de mim. Até mesmo lá no arsenal, ele havia mandado outra pessoa para colocar nossa porta abaixo.
— Quem foi que fez isso? — perguntei, levantando a mão coberta por uma bandagem.
— Sua mãe, suas tias e um médico, um médico que foi chamado do vilarejo. O Médico da Corte está preso. Assim como os outros.
Ouvi o peso no tom de voz dele. Outros. E um em particular.
Estiquei a mão boa e segurei a dele.
— Como você está? — perguntei-lhe, em um tom cauteloso.
Ele olhou para mim, hesitante, com a dolorosa expressão nos olhos voltando.
— Não sei — Kaden balançou a cabeça. — Logo antes de entrar naquele saguão, achei que fosse vomitar. Achei que fosse vomitar que nem um menininho.
Ouvi a repulsa na voz dele.
— Não há nenhuma vergonha nisso, Kaden.
— Não estou envergonhado. Apenas com raiva porque ele ainda conseguiu fazer isso comigo. Eu não conseguia nem mesmo me reconhecer. Não me dei conta de que vê-lo depois de todo esse tempo faria isso comigo. — Ele balançou a cabeça. — Eu não sei como uma pessoa pode sentir tanto medo e estar tão cheia de fúria ao mesmo tempo.
Eu entendia isso completamente. Eu ainda estava com medo, ainda estava com raiva, porém, na maior parte, agora mesmo, estava ansiosa por tudo que eu via na face de Kaden.
Ele fez uma pausa, e uma respiração profunda enchia seu peito, suas narinas se dilataram.
— Ele não mudou. Mesmo então, quando olhou para mim, tudo o que viu foi uma desvantagem. Naquele momento, se ele pudesse ter me vendido por mais uma moeda, teria feito isso. Eu me senti como se fosse um menino de oito anos de novo.
Apertei a mão dele.
— Você não é mais um menino, Kaden. É um homem. Ele não pode mais lhe fazer mal.
— Eu sei. — Suas sobrancelhas foram puxadas juntas uma da outra. — Mas veja quantos outros ele machucou. Andrés... ele está pior do que eu. Talvez tenha tido sorte de ter sido dispensado naquela época. Andrés não consegue entender o que aconteceu, não consegue entender que os homens na sua companhia, nos quais ele confiava sua vida, tinham sido traídos pelo seu próprio pai. — Ele ergueu o olhar para mim. — Ele estava meio ensandecido quando saiu em cavalgada com a patrulha de reconhecimento para encontrar seus irmãos e seus esquadrões.
— Vocês...?
— Sim, Rafe e Sven interrogaram os prisioneiros. Eles não conseguiram descobrir nada. E nós mandamos quatro unidades diferentes seguindo em cavalgada com os mais rápidos ravianos. Você ainda estava dando ordens quando Rafe a colocou na cama, e essas foram apenas duas das suas ordens.
— Eu não me lembro disso.
— A maior parte das suas palavras foram murmuradas, e Rafe finalmente mandou você calar a boca e desse ouvidos ao médico.
— Eu fiz isso?
— Você perdeu os sentidos de novo. Eu acho que isso é dar ouvidos ao médico.
— Que horas são? — perguntei.
Ele deu de ombros.
— Já passa da meia-noite.
Kaden me contou o que havia acontecido depois que perdi a consciência, e a maior parte disso ele tinha ficado sabendo por meio da minha tia Bernette. A cidadela inteira ficara em comoção, sendo acordada na maior parte da noite. Depois de me deixar, minha mãe fora ver o meu pai. Ela fez com que ele fosse levado de volta até a câmara de casamento deles e jogou fora os remédios que o Médico da Corte havia ordenado para ele. Deram um banho em meu pai e também bebidas herbáceas para limpar seu sistema. Kaden não sabia o suficiente sobre os efeitos envenenadores da thannis dourada para saber se isso seria de alguma ajuda. Vendanos sabiam que não deveriam colocar as mãos nela. Mascar a thannis dourada apenas um pouquinho que fosse poderia derrubar um cavalo. Andrés havia se recuperado, mas ele era jovem e saudável, e não fora envenenado durante um longo período de tempo como o meu pai. Eu estava preocupada com a possibilidade de que fosse tarde demais para reverter os efeitos do veneno e que meu pai ficaria preso em um estupor nebuloso pelo resto da vida. Eu estava preocupada com a possibilidade de que fosse ser tarde demais para tudo.
— Isso será o bastante, Kaden?
— Para parar o Komizar? Não sei. Acho que a regência que Rafe jogou para cima de você é instável, até mesmo com o apoio da sua mãe.
Eu também vi isso. Levar uma Primeira Filha em desfile para uma cerimônia era uma coisa, tê-la como regente do reino era outra. As tropas com as quais Andrés marchara saguão adentro haviam me apoiado, mas a maioria dos lordes não estava convencida.
— Acho que seus lordes ainda estão com dúvidas em relação à ameaça — completou Kaden.
Eu não esperava algo além disso. Eles tiveram uma vida toda acreditando que Morrighan era a Remanescente escolhida e que nada poderia trazer o reino abaixo.
— Eu vou convencê-los — falei — e prepará-los para se oporem a Venda.
— E depois, vai fazer o quê? Por mais que nós dois queiramos deter o Komizar, não posso esquecer que ainda sou vendano.
Os olhos dele buscaram os meus.
— Eu sei, Kaden. — Os temores dele renovaram os meus. — No entanto, nós dois precisamos nos lembrar que existem duas Vendas. A Venda do Komizar, que está a caminho daqui para nos destruir, e aquela que nós amamos. De alguma forma, juntos, temos que fazer isso funcionar.
No entanto, eu não estava certa de como fazer isso. Nós dois sabíamos que o Komizar e o conselho nunca recuariam. O prêmio estava à vista deles, e eles pretendiam pegar esse prêmio. É minha vez agora de comer doces uvas no inverno. Fiquei ali deitada, com a mão de Kaden ainda na minha, as brasas da lareira ficando mais fracas, minhas pálpebras ficando mais pesadas, o futuro girando atrás delas, e ouvi suaves gemidos novamente. Dessa vez, eu sabia que não era o choro da minha mãe nem das minhas tias que eu ouvia. Esses choros vinham de longe, passando por uma savana, além de um grande rio, através de colinas rochosas e inférteis vales montanhosos. Esses choros vinham dos clãs de Venda. Ele matara mais gente por sussurrar o nome Jezelia.

4 comentários:

  1. Ah, eu amo tanto esse dois.

    Hmm agora que eu to lembrando, Kaden não o nome de um dos filhos da América?

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  2. É mesmo o que casa casa filha da Marli

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  3. Agora vêm a guerra com komizar .meu Deus tô nervosa kkkkk

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  4. Me pergunto como vão acabar come esse Demônio chamado Komizar?Pois eles ainda são poucos pelo que essa praga tem de força tanto de armas como de força! Eu acredito que a Lia seria sim uma Rainha maravilhosa e é merecido esse cargo.E desejo ela e o Rafe juntos pois profecia não pode estar certa em ela morrer? Ela se saiu tão bem, e adorei ver o Andrês entregar o próprio pai....eheehehe! DM

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Boa leitura, E SEM SPOILER!