2 de fevereiro de 2018

Capítulo 66

RAFE

— Morda isso! — ordenei.
Não podíamos nos dar ao luxo de que ele ficasse gritando, não da maneira como o som ecoava por essas colinas rochosas. Enfiei uma tira de couro entre os dentes dele.
O suor escorria por sua testa e pontilhava seu lábio superior.
— Rápido — eu disse.
Tavish enfiou a agulha na bochecha de Sven e empurrou-a com tudo até o outro lado da ferida que ia de sua maçã do rosto até o maxilar. A ferida era longa demais e estava muito aberta para se cuidar dela com um cataplasma.
Segurei nos braços de Sven para o caso de ele se mexer de medo ou de pavor, mas ele permaneceu imóvel — apenas seus cílios tremulavam.
Nós havíamos nos deparado com uma patrulha de vendanos. Os bárbaros estavam se tornando mais audazes e organizados. Eu nunca tinha visto uma patrulha vendana com mais do que um punhado de homens assim tão longe do Grande Rio. Havia muitos bandos pequenos de ladinos, três ou quatro, ferozes e violentos, mas não uma patrulha organizada e uniformizada. Isso não era um bom presságio para nenhum dos reinos.
O traiçoeiro Grande Rio sempre havia sido nosso aliado. Uma ponte levadiça com finas correntes que mal poderia aguentar o peso de um único cavalo era a única travessia. Será que estavam criando cavalos neste lado do rio agora? A patrulha com a qual nos deparamos tinha belas montarias bem treinadas.
Nós derrubamos a todos, mas não antes de Sven sofrer o primeiro golpe. Ele estava cavalgando à nossa frente e foi nocauteado de seu cavalo antes que eu pudesse sacar minha espada, mas então me movi com rapidez, derrubando seu agressor e mais três homens que vinham logo atrás. Em poucos minutos, os vendanos estavam espalhados pelo chão aos nossos pés, uma dúzia deles, ao todo. O rosto de Jeb ainda estava borrifado com sangue e eu podia sentir os borrões vermelhos salpicados no meu.
Orrin trouxe o frasco da bebida de Sven, conforme Tavish havia ordenado. Removi a tira de couro que estava bem presa entre os dentes de Sven e dei a ele um gole daquilo para amortecer a dor.
— Não — disse Tavish. — É para o rosto dele... para limpar a ferida.
Sven começou a protestar, e enfiei a tira de couro de volta em sua boca. Ele preferiria sofrer com a infecção em vez de ver sua preciosa bebida jorrando de sua bochecha até o chão. Tavish enfiou a agulha nele uma última vez e fechou a ferida. Sven gemeu e, quando Tavish verteu a bebida forte por cima do talho costurado, o corpo inteiro de Sven estremeceu de dor.
Ele cuspiu a tira de couro da boca.
— Maldito seja! — disse ele, com a voz débil.
— De nada — foi a resposta de Tavish.
Estávamos a uns três quilômetros do Grande Rio, no único caminho que levava ao Reino Vendano. Ficamos acocorados em um acampamento rochoso voltado para o oeste, a direção da qual sabíamos que eles viriam. Tratava-se de uma encruzilhada acima da rota por onde teriam que passar, mas nós ficamos ali durante dois dias sem ver nenhum sinal deles. Não poderiam ter chegado antes de nós ali. Tínhamos cavalgado até que tanto nós quanto os cavalos estivéssemos a ponto de um colapso. Hoje, só deixamos nossa posição para inspecionar se havia um ponto de observação melhor mais adiante, longe da divisa, mas nos deparamos com a patrulha. Depois de jogarmos os corpos deles dentro da uma ravina, pegamos seus cavalos e esperamos que eles não retornassem tão cedo.
Tavish afastou a agulha e analisou seu trabalho. Ele deu uns tapinhas amigáveis no ombro de Sven.
— Acredite em mim. É uma melhora.
— Eu deveria ter deixado que ele fosse primeiro então — disse Sven, com fraqueza, apontando para mim com um gesto.
— Você vai ficar bem, velho — respondi, sabendo que ele odiava ser chamado assim. Eu nem mesmo tinha me dado conta do quão habilidosamente Sven sempre se posicionava diante de mim. Não permitiria que ele fizesse isso de novo.
Sven e os outros dormiam enquanto eu assumi a primeira vigília. Não esperávamos encontrar uma patrulha aqui em cima nas pedras, mas não tínhamos esperado deparar com uma lá embaixo também. Os bárbaros eram imprevisíveis, com pouca estima por qualquer tipo de vida, até mesmo as deles.
Eu tinha visto isso ao tentar forçar bandos de ladinos a saírem de suas tocas enquanto estava de patrulha. Eles nos atacavam com gritos selvagens e violentos e olhos ensandecidos, até mesmo em face de forças que eles não poderiam ter esperanças de sobrepujar. A escolha deles sempre era pela morte em vez da captura. Eu não tinha tomado Kaden como sendo um deles. Sabia que tinha algo em relação a ele que eu não confiava, mas nunca teria adivinhado que ele era um bárbaro.
E ele estava com Lia agora.
Analisei o horizonte enegrecido a oeste, onde somente as estrelas formavam suas linhas.
— Encontrarei você, Lia — sussurrei.
Eu encontrarei você... No recanto mais longínquo

4 comentários:

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!