20 de fevereiro de 2018

Capítulo 65

O ar mudou, pairando acima de nós, a cor suave e menos intensa, como pergaminho envelhecido. A sala ficou maior, onírica, tornando-se um mundo distante em que uma menina de catorze anos atacava com os irmãos ao seu lado. Todos eles estavam mortos agora, assassinados em um campo de batalha sem nome. Walther sussurrava: Tome cuidado, irmã.
Ouvi a menina gritar para ninguém se mexer, e ela prometeu que ninguém seria ferido. Ela sabia que não era verdade. Alguns morreriam, embora ela não soubesse quem ou quando, mas suas mortes já estavam anuviadas atrás dos olhos dela. Ela viu dois homens preparando-se para o ataque junto com ela, observando-se, virando-se, arqueiros flanqueando-a com as flechas sacadas. E então os olhos dela caíram no gabinete, nas faces deles, no assento vazio do seu pai. O ar estalava, pungente, as cores brilhantes, e o medo vibrava contra as paredes em ondas. A menina se fora. Havia apenas eu. Encarando-os. E, hoje, ninguém iria me banir para a minha câmara.
O Vice-Regente, o Chanceler, o Capitão da Vigília, o Mestre Mercante, o Médico da Corte, o Guardião do Tempo, o Marechal de Campo, o Mestre da Caça e, é claro, o Erudito Real, que parecia o mais perturbado de todos pela guinada nos eventos. Notavelmente ausentes estavam a Primeira Filha e o próprio rei, mas um deles logo estaria ali. O Guardião do Tempo mexia nervosamente nos botões do seu casaco, puxando-os e mexendo-os até que um botão saiu e caiu ruidosamente no chão, rolando pela pedra polida.
Eu sabia quem era o arquiteto conspirador por trás de tudo aquilo, quem era o arquiteto que ansiava tanto por poder quanto o Komizar. Talvez até mais que ele, arriscando tudo pelo prêmio completo: o continente. Olhei para ele, lentamente e com firmeza. Estava óbvio agora. As escamas de sua verdadeira natureza brilhavam sob o seu robe. O Dragão que tinha tantas faces quanto o Komizar.
Quando o Chanceler desobedeceu a primeira das minhas ordens, minha adaga voou. Foi necessária toda a minha força de vontade para não mirar direto no coração dele. Nos dias em que passei cruzando o Cam Lanteux, todas as vezes em que eu praticava atirar a minha faca no tronco de uma árvore, eu havia marcado o coração dele como alvo na minha mente, mas sua morte ficaria para depois. Por ora, ele ainda teria alguma serventia para mim, e eu faria uso de cada pedacinho dele, dedo por dedo, se isso fosse necessário para salvar os meus irmãos.
Ele se sentou, mas borbulhava de raiva, agora jogando insultos para cima de Rafe.
Observei o Erudito Real e os outros, um por um, descendo a fileira, pois uma conspiração só era tão boa quanto seu elo mais fraco, e agora esse elo estava sendo testado.
A cidadela aproximava-se, contraindo-se, espremendo a traição, tornando-a algo vivo e duro, a batida do seu coração, selvagem, resistindo, com seu rugido bestial ecoando, mas, debaixo disso tudo, eu ouvia outro som, um tamborilar frágil tão persistente quanto a esperança, e vi alguém sair da varanda.
Era uma menina. Ela se inclinava por cima do corrimão, com os olhos escuros e arregalados fixos em mim. Prometa, disse ela.
Assenti.
— Prometi faz muito tempo.
E então ela se foi, e o mundo se mexeu, o ar pungente e brilhante novamente.
Os lordes esperavam, com a atenção aguçadíssima, prestes a estalar.
Falei a eles sobre os traidores no meio deles, sobre dragões cuja sede era insaciável, e ainda sobre outro homem, o Komizar de Venda, que estava a caminho daqui com um exército impossível de ser parado para destruir a todos, ajudados pelos mesmos traidores que haviam enviado Walther, o Príncipe da Coroa, para a sua morte.
— Eu fugi do casamento porque estava com medo, mas não traí Morrighan, e não traí o meu irmão. Eu o vi morrer, mas nas mãos de vendanos que esperavam por eles. Ele foi enviado em uma emboscada por traidores que estão aqui nessa sala. Os mesmos traidores que enviaram os príncipes Regan e Bryn para a morte.
O Erudito Real se inclinou para frente.
— Isso não seria melhor se fosse discutido em...
No entanto, o Vice-Regente cortou-o, erguendo a mão.
— Não vamos interromper a princesa. Deixe que ela fale. Nós podemos dar a ela essa oportunidade. — Ele olhou para mim como se estivesse se lembrando de todas as palavras que havíamos trocado no seu escritório. Você tem alguma evidência de tudo isso? Ele sabia que a minha palavra não era o bastante.
Olhei com ódio, um olhar lento e firme, para o Erudito Real, um aviso — seu tempo ainda virá  e me voltei para o Marechal de Campo, que era a conexão do gabinete com as tropas.
— Meus irmãos precisam ser rastreados e trazidos para casa agora mesmo. Com meu pai doente, eles nunca deveriam ter sido enviados a Gitos e Cortenai, para início de conversa. Como você explica tamanha e flagrante violação de protocolo, lorde Comandante?
Ele se mexeu, desconfortável, no seu assento, e desferiu um duro olhar de relance para o Capitão da Vigília. O Erudito Real observava todos eles como se estivesse pronto para pular do seu assento.
— Eu não queria mandá-los nessa missão — foi a resposta dele, com uma cara fechada tornando sua face sombria. — Para falar a verdade, argumentei contra isso; no entanto, fui levado a acreditar que era para o bem do reino.
— E seus irmãos concordaram de coração — acrescentou o Capitão da Vigília.
Fui tempestivamente até o outro lado da plataforma elevada, batendo com a espada na mesa, a poucos centímetros da mão dele.
— Eles concordaram em ser assassinados?
O Capitão da Vigília olhou para sua mão, boquiaberto, como se para se certificar que todos os dedos ainda estavam lá. Seu olhar se voltou para mim, e seus olhos reluziam com raiva.
— Essa menina é louca! — ele gritou para os soldados de Rafe que estavam parados perto dele. — Abaixem as armas antes que ela faça com que todos vocês sejam mortos!
O ribombo de passadas ecoava no corredor ao sul, com as vibrações de uma centena de botas socando o chão e vindo na nossa direção. Soldados tinham sido alertados. Voltei a olhar para o gabinete.
O Dragão.
Um sorriso.
Sorriso este que ninguém mais conseguia ver.
Uma voz que ninguém mais conseguia ouvir.
Mais. É minha. Você é minha.
O ranger de dentes.
Um engolir em seco, faminto.
Uma respiração satisfeita.
Virei-me para Rafe quando as passadas ribombantes ficaram mais altas. Ele manteve o olhar fixo no meu e assentiu, confiante. Continue.
Um lorde nos fundos do saguão, aparentemente encorajado pelo som dos soldados, se levantou.
— A única traidora que vemos neste saguão é você! Se existem outros traidores, você deveria dar nomes aos bois! O Capitão da Vigília está certo, você é louca!
O Vice-Regente soltou um suspiro, colocando as mãos na frente, e franziu o rosto.
— Nós permitimos que você se pronunciasse, Arabella, mas, infelizmente, devo concordar com o lorde Gowan. Você não pode fazer essas acusações sem fornecer provas, e não estamos vendo nenhuma.
Eu poderia dizer os nomes de quantos traidores que fossem, possivelmente metade do gabinete, mas minha única prova, se Pauline tinha conseguido garanti-la, seria interpretada como algo que eu plantara. Eu precisava de mais alguém para apontar o dedo.
— Vocês terão as suas provas — prometi, enrolando para ganhar tempo. Onde estaria Pauline? Ela estava vindo do corredor ao norte, mas e se seu caminho já se encontrava bloqueado? — Vocês terão os seus nomes. Mas nós não discutimos...
A mão de alguém socou a porta da entrada ao norte e um grito irrompeu por ela.
— Lia!
A barra foi erguida e Pauline cruzou o correndo a sala, absorvendo, nervosa, o escrutínio do gabinete e dos lordes. Ela veio andando pelos degraus acima para se encontrar comigo com uma caixa bem segura nos braços.
Seguiu-se por um alarido de passos, e nossos homens que se passavam por guardas da cidadela foram correndo até o corrimão da galeria. Gwyneth juntou-se a eles e assentiu para mim. Mais passadas. Suaves. Apressadas. Um som de saias. Tia Bernette, tia Cloris e lady Adele, a criada da rainha, apareceram, apoiando-se no corrimão enquanto faziam uma varredura com os olhos pela sala. Os olhares contemplativos passaram por mim, e um nó se formou na minha garganta. Eu não era a mesma menina que tinha ido embora tantos meses atrás, e elas não me reconheciam. Quando finalmente perceberam quem eu era, minha tia Cloris ficou ofegante, e lágrimas escorriam pelas bochechas da minha tia Bernette, mas Gwyneth as treinara bem. Elas nada deveriam falar, apenas servir de testemunhas, e todas mantiveram a boca fechada. E então se seguiu um lampejo de azul, e senti meus pulmões se apertarem. A rainha deu um passo à frente entre as minhas tias, uma sombra de quem já fora antes. Ela baixou o olhar para mim, com os olhos escuros, vazios, seu olhar contemplativo queimando o meu. Não há o que saber... É apenas o calafrio da noite. Mas agora nós duas sabíamos que se tratava de bem mais do que um calafrio.
— Seja bem-vinda, Vossa Majestade — falei. — Estávamos prestes a discutir a saúde do rei.
Eu me virei de volta para o gabinete. Eles estavam inquietos, esperando que eu dissesse algo, e as mãos do Capitão da Vigília estavam cuidadosamente enfiadas debaixo da mesa.
— Não parece que o rei está se recuperando — falei. — Você pode me dizer o motivo disso?
— A notícia da sua traição atingiu-o profundamente — grunhiu o Chanceler. — Não há cura instantânea para um coração que foi arrancado do peito de um homem.
Alguns poucos lordes murmuraram, concordando com ele. Ouvi os choros suaves da minha tia Bernette.
— Hummm. Sim, foi o que me disseram. — Meus olhos pousaram no Médico da Corte. — Venha se juntar a mim aqui no degrau — falei — de modo que todo mundo possa ouvir o seu relatório sobre a saúde do meu pai. — Ele não se mexeu, olhando de relance para outros membros do gabinete, como se eles fossem capazes de salvá-lo. — Não é um pedido, lorde Fently. — Ergui a mão coberta por uma bandagem. — Como você pode ver, estou com um machucado sério. Não me faça arrastá-lo até aqui. — Embainhei a minha espada, e ele, relutante, veio até mim.
— Arabella — intercedeu o Erudito Real — não...
Fiquei agressiva.
— Eu não tenho escrúpulos quanto a cortar a sua língua, Vossa Eminência. Para falar a verdade, depois de todos os anos que tive que aguentar seus sermões condenadores, isso me daria o maior prazer, então eu aconselharia a segurar sua língua enquanto você ainda tem uma.
Segure a língua. Como todas as vezes em que você fez com que eu segurasse a minha. Os olhos dele se estreitaram, familiarizados. Com medo. Preocupados. No entanto, não por causa de sua língua. Seria por causa da verdade?
Minha raiva ardia com mais intensidade, e quando o médico parou na minha frente, segurei o ombro dele, forçando-o a ficar de joelhos.
— Qual é o problema com o meu pai? — perguntei.
— É o coração dele, Vossa Alteza! Como disse o Chanceler! — ele respondeu rapidamente, com o tom de voz alto e fervente. — Porém, suas outras enfermidades são muitas! É uma coisa traiçoeira, tratar de tantas doenças. Levará algum tempo, mas eu tenho as mais altas esperanças quanto à recuperação dele.
Sorri.
— É mesmo? Isso é reconfortante, lorde Fently. — Assenti para Pauline, e ela abriu a caixa. — E aqui estão alguns dos remédios com os quais você está o tratando, não?
— Sim! — respondeu ele, cujo tom estava denso com súplicas. — Estes são apenas remédios simples para fazer com que ele se sinta mais confortável!
Estiquei a mão para dentro da caixa e puxei dali um pequeno frasco de um elixir âmbar-escuro.
— Isso?
— É só para aliviar dores.
Usei os dedos duros que formigavam para remover a rolha do frasco com a mão machucada. O esforço de torcê-la e soltá-la fez com que o sangue quente saísse de novo do machucado, sob a bandagem. Cheirei o frasco.
— Para dor? Um pouco disso poderia me servir. — Tomei um gole vigoroso do elixir e dei de ombros. — Pronto. Acho que até já estou me sentindo melhor.
Ele sorriu, e seu rosto estava turvo e denso, cheio de angústia e medo. Coloquei o elixir de volta na caixa e tirei dali um outro frasco, este cheio com um líquido cremoso branco.
— E exatamente como este aqui ajuda o meu pai?
— O estômago, Vossa Alteza. Ajuda a acalmar o estômago dele.
Ergui o fraco, mexendo-o à luz, então tomei um gole do seu conteúdo. Sorri.
— Sim, eu me lembro disso da minha infância. — Fitei com ódio o Erudito Real. — Eu tinha muita dor de estômago.
Coloquei-o de volta dentro da caixa e remexi o conteúdo dela, e depois tirei dali o pequeno frasco cheio com o pó dourado.
— E este?
Ele engoliu em seco. Sua pele estava pastosa, e uma gota de suor escorria perto da sua orelha. Um meio sorriso ondeava pelos lábios.
— É para agitação. Para acalmar os nervos.
— Acalmar os nervos — repeti. — Bem, acho que todos vocês podem ver que estou com os nervos abalados, com certeza. — Puxei a rolha, comecei a levar o frasco até a boca e fiquei hesitante. — Faz diferença a quantidade que eu tomar?
— Não — disse ele, com uma medida de alívio chegando aos olhos. — Você pode tomar o tanto quanto quiser.
Ergui o frasco até os meus lábios novamente. Ele ficou me observando, boquiaberto, esperando que eu tomasse uma grande dose, como fizera com os outros. Fiz uma pausa e retribuí a ávida atenção dele.
— Parece-me, lorde Fently, que o senhor está precisando disso bem mais do que eu. Pegue, tome um pouco.
Movi o frasco na direção dos lábios dele, e o homem, rapidamente, desviou a cabeça.
— Não, eu não preciso.
— Eu insisto.
— Não!
Ele se desviou bruscamente, mas saquei a faca da minha bota e ergui-a junto ao pescoço dele.
— Está vendo o quão nervoso o senhor está, meu lorde? — abaixei o tom de voz para um rosnado. — Insisto que tome um pouco. Agora. — Pressionei ainda mais a faca na garganta dele, e os lordes ficaram ofegantes quando uma fina linha de sangue surgiu debaixo da lâmina. Levei o frasco dourado lentamente aos lábios dele. — Lembre-se — sussurrei — de que você pode tomar o quanto quiser.
O vidro roçou o lábio inferior dele.
— Não! — gritou o médico, com os olhos vidrados com terror. — Foi ele! Foi ele quem deu isso a mim! Foi por ordem dele!
Ele apontou para o Vice-Regente.
Abaixei a faca, empurrando e libertando o médico. O silêncio era esmagado em todos os olhos que estavam voltados para o membro predileto do gabinete. Sorri para o Vice-Regente.
— Thannis — falei. — Boa para a alma. Boa para o coração. Algo único, encontrado apenas em Venda. Uma coisa que um embaixador como você provavelmente descobriu anos atrás em uma das suas visitas clandestinas. — Andei na direção dele. — Perfeitamente mortal, mas uns poucos e minúsculos grãos? Eles poderiam ser o suficiente para manter um rei fora do caminho enquanto você finalizava seus planos, porque, se ele morresse, haveria muitos príncipes incômodos na linha para o trono que poderiam apontar um novo gabinete.
O Vice-Regente se levantou.
— O homem é um mentiroso. Eu nunca coloquei os olhos nessa substância antes.
Uma voz chamou dos fundos do saguão.
— Então como explica isso? — Passadas ecoaram, botas na pedra, uma lenta batida que demandava atenção.
Cabeças se viraram. Respirações ficaram suspensas apenas por um instante, e depois sussurros baixinhos irromperam no ar como de um alarmado bando de pássaros. Havia alguma coisa em relação a ele. Algo familiar e, no entanto, estranho também. Alguma coisa que não se encaixava. Eles ficaram em silêncio de novo enquanto Kaden descia pela nave central na nossa direção, com outro frasco dourado na mão.
— Encontrei isso no seu aposento, enfiado em uma gaveta trancada. — Ele foi para frente em uma linha lenta e deliberada, com os soldados pondo-se para o lado. — Provavelmente é o mesmo frasco que usou para manter Andrés, seu filho legítimo, fora de perigo. — Eu vi a tensão no rosto de Kaden, seu esforço para manter o controle. O impacto de ver o pai abalara-o como se fosse uma tormenta. Seus olhos reluziam; a calma, destruída; mil rachaduras na voz. O menino que só queria ser amado. Que queria ser mantido. Observá-lo lutando para conter-se tornava a sua agonia mais evidente, e a profundidade da dor dele crescia em mim.
O Vice-Regente fitou-o como se ele fosse um fantasma.
— Kaden.
— Isso mesmo, pai — disse ele em resposta. — Seu filho, de volta do túmulo. Parece que o Komizar estava jogando com nós dois. Eu era o Assassino dele. — Kaden parou, e as rachaduras na sua compostura aprofundavam-se. Havia um tremor nos seus lábios que me dilacerou quando ele voltou a se pronunciar. — Ele me treinou durante anos, e, durante todos esses anos, fiquei esperando pelo dia que mataria você. Parece-me agora que há uns tantos na fila na minha frente para fazer esse serviço.
— Isso é loucura! Isso é... — o Vice-Regente se virou, tendo os olhos fixos nele, as mentiras se aproximando, inescapáveis. Ele se lançou para frente, puxando uma faca sob a mesa, e ergueu-a junto à garganta do Guardião do Tempo, arrastando-o aos seus pés e usando-o como se fosse um escudo. Os dois foram tropeçando para trás em direção ao painel de madeira na parte posterior da câmara, e a mão do Vice-Regente tateava atrás dele. Um pouco mais para a direita, pensei, enquanto os dedos tateavam a madeira entalhada. Ali. Ele fez pressão e uma passagem apareceu, passagem esta conhecida pelo rei e pelas crianças que espiavam o rei. Ele empurrou o Guardião do Tempo para longe e desapareceu passagem adentro.
O Chanceler olhou de relance, nervoso, para o lado, como se fosse aproveitar a oportunidade e ir atrás.
— Eu não faria isso — disse a ele, e, apenas segundos depois, o Vice-Regente reapareceu, andando para trás, com uma espada no seu peito. Andrés segurava-a e surgiu com mais soldados atrás dele. A expressão na sua face estava tão estilhaçada quanto a de Kaden.
— Você matou os meus companheiros — disse Andrés. — Deveria ter deixado que eu morresse com eles. — Ele abaixou a espada e girou o punho cerrado, fazendo com que seu pai caísse aos tropeços na minha direção.
Um fio de sangue escorria do canto da boca do Vice-Regente. Chutei a parte de trás das suas pernas, fazendo com que ele ficasse de joelhos, e puxei seus cabelos de modo que os olhos dele, abruptamente, se encontrassem com os meus.
— Você matou o meu irmão! — falei, levando o rosto para perto dele. — Meu irmão e todos os bons homens que estavam com ele foram massacrados. Eles não tiveram nenhuma chance. — Não havia como não notar a tensão perigosa na minha voz, e vi o medo passar como um lampejo pelos olhos dele. — Eles estavam em número menor, eram cinco contra um, porque você anunciou que eles apareceriam. Eu enterrei todos eles, Vice-Regente. Cavei túmulos até que minhas mãos sangrassem enquanto você estava aqui bebendo vinho e conspirando para matar mais.
Voltei rapidamente a face na direção dos lordes.
— Este é o homem que enviou o meu irmão e 32 soldados para a morte! Foi ele quem envenenou meu pai! Foi ele quem comandou esse ninho de ratos conspiradores para tramar contra todos nós! — Voltei a olhar para ele, com a minha faca pressionada junto ao seu pescoço. — Você vai morrer, lorde Vice-Regente, pelos seus crimes contra Morrighan, e, caso não consigamos chegar até os meus irmãos e seus esquadrões a tempo, você vai morrer lentamente. Isso é uma promessa.
Ele olhou para mim, e seus olhos estavam desafiadores de novo. Ele sussurrou baixinho para que ninguém mais fosse ouvi-lo.
— Eu tenho um acordo com o Komizar. Posso poupar as vidas que eu escolher.
Sorri.
— Um acordo? O Komizar escolhe bem os seus tolos.
— É tarde demais — disse ele, ainda negando a inversão das nossas fortunas. — Você não pode nos impedir. Mas eu poderia...
— Você está certo apenas em relação a uma coisa, lorde Vice-Regente. É tarde demais. Para você. Fiz exatamente o que sempre temeu. Eu expus os perversos.
Encarei-o, com a minha respiração ardente, e soltei a cabeça dele. Minha bandagem ensopada de sangue deixou uma mancha brilhante junto aos seus cabelos de um loiro-branco.
— Prendam-no — falei, e os soldados de Rafe o levaram arrastados para longe.
A sala ficava cada vez mais quente, e minha cabeça, zonza.
— Prendam todos eles — ordenei, acenando para o restante do gabinete. — E a guarda da cidadela. Analisarei depois quais deles são inocentes e adequados para servirem.
Um lorde se levantou.
— Você não tem autoridade para ordenar coisas de alto nível...
Rafe o interrompeu.
— A princesa Lia está na regência de Morrighan pelo momento. Ela pode ordenar qualquer coisa que quiser.
Uma comoção de objeções irrompeu, com lorde Gowan se erguendo acima de todos eles.
— Com o devido respeito, Vossa Majestade, este não é o seu reino e nem cabe a você tomar tal decisão. O que sugere é anarquia. O protocolo e as leis morrighesas ditam que...
— Até que o meu marido se recupere, a minha filha assume a posição de rainha regente e designará o próprio gabinete.
A sala ficou em silêncio na mesma hora, com todas as cabeças se virando na direção da rainha na varanda. Ela olhou para mim e assentiu, com a culpa brilhando nos olhos.
— Jezelia está agora carregando as decisões do rei. Ela é um soldado no seu exército e será fiel aos seus desejos. — Minha mãe olhou com pungência para o lorde Gowan. — Alguém tem alguma objeção?
Antes que ele pudesse responder, Andrés falou o nome — Jezelia — e prostrou-se no chão em um só joelho. Um por um, os soldados que estavam com ele fizeram o mesmo, um voto, uma consideração pública e tradição antiga da qual tinha ouvido falar, mas que nunca testemunhara. Os soldados no corredor ao norte fizeram o mesmo, e o ribombo do meu nome rolava pela sala. Jezelia. A irmã do companheiro caído deles. Minha mãe, assim como todos aqueles que estavam com ela na varanda, fizeram o mesmo, repetindo o nome que eu nunca tinha ouvido em público nos lábios deles. Meia dúzia de lordes fizeram o mesmo em seguida.
— Está decidido então — disse minha mãe, erguendo-se novamente, e lorde Gowan, assim como o restante dos lordes, relutantes, assentiram. Em questão de minutos, seu mundo fora virado de cabeça para baixo. O motim estava apenas começando.
Dei um passo para frente, com as faces deles entrando e saindo de foco, o chão se mexendo.
— Expor os traidores é apenas o começo do trabalho que temos à frente — falei. Ouvi as minhas palavras ecoando de um jeito estranho e remoto, e então o som da minha faca caindo ruidosamente no chão. — A reunião da conclave não terminou. Vocês precisam saber exatamente o que estamos enfrentando... e o que precisamos fazer para sobrevivermos. Nós nos reuniremos de novo, mas, por ora, eu...
Eu não tinha certeza se havia conseguido terminar a frase. A última coisa de que me lembro era o braço de Rafe deslizando em volta da minha cintura e dos meus pés sendo erguidos do chão.

12 comentários:

  1. AGORA SIMMM AAA MLK, EU JÁ TO CAGANDO PRA ESSAS DROGA DE SHIPPS, SÓ QUERO É VER AS GUERRASSSS

    ResponderExcluir
  2. Será q tem pegação agora??
    Q traidor vai sofrer Ago tendo uma morte lenta com os dois filhos a rainha o rei de outro reino a antiga rainha e muitos outros que querem isso sofra até não aguentar mais e se matar

    Sem ressentimento
    Mirtiz

    ResponderExcluir
  3. Foi tanta descoberta... lavação de roupa suja kkkkkkkkkk amei kkkk sorrindo de nevolsa

    ResponderExcluir
  4. EU AMO ESSES DOIS. AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH

    ResponderExcluir
  5. eu to rindo de nervosa, esse cap me ganhooou

    ResponderExcluir
  6. Sem duvida o melhor livro q já li .... Amando cada passo que a Lia da , gente adoro a braveza e determinação dela.
    #PorMaisLia em novos livros .

    ResponderExcluir
  7. HAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! Ate q enfim, nao to cabendo em mim de tanta adrenalina pra saber qual será o proximo passo! Amei! Definitivamente consegui me ver dentro do livro, vendo tudo acontecendo! Que massa!

    ResponderExcluir
  8. Operação lava-jato kkk

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!