2 de fevereiro de 2018

Capítulo 65

PAULINE

Ele morreu no campo de batalha, foi o que minha mãe disse, da mesma maneira que Mikael. Nunca cheguei a conhecer meu pai, mas sempre o imaginei como sendo o tipo de homem que me envolveria em seus braços, que afastaria minhas perturbações com gentileza, que me amaria incondicionalmente e me protegeria a qualquer custo. Era assim que eu descreveria o pai da minha própria filha a ela. Mas sabia que nem todos os pais eram assim. O de Lia não era.
O Rei era um homem distante, mais monarca do que pai. No entanto, com certeza o sangue dele não era feito de gelo e nem o coração, de pedra. Lia precisava de ajuda. Fazia semanas que ela se fora e não tínhamos recebido nenhuma notícia vinda de Rafe. Embora eu tivesse certeza de que ele gostava dela, Rafe e seu reticente bando de homens não inspiravam minha confiança, e, a cada dia que se passava, minhas suspeitas em relação a eles cresciam. Eu não podia esperar mais. O Vice-Regente tinha demonstrado empatia em relação a Lia. Ele era nossa única esperança. Certamente o Rei daria ouvidos a ele que poderia guiá-lo na direção do perdão e depois da ajuda.
Berdi não permitiu que eu viajasse sozinha, e Gwyneth se juntou a mim, ávida, em minha jornada. Como Berdi haveria de lidar com as coisas na taverna apenas com Enzo para ajudá-la era algo que eu não sabia, mas, naquele instante, todas concordávamos que a segurança de Lia era o mais importante. Ela havia sido tomada pelos bárbaros. Eu temia pelo que eles poderiam ter feito com ela.
E havia os sonhos também. Fazia uma semana que eles me atormentavam como se fossem a peste, vislumbres transitórios de Lia cavalgando em um cavalo a galope, e, a cada passada, ela esvanecia até que não estava mais lá. Sumia, um fantasma nebuloso, exceto por sua voz, um grito alto e lamentoso que cortava o vento.
Eu sabia que estava me arriscando a ser presa ao voltar, visto que havia ajudado Lia a fugir, mas eu tinha que aproveitar essa oportunidade. Embora temesse pela possibilidade da prisão, também estava amedrontada de caminhar pelas ruas de Civica novamente e ver os últimos lugares onde eu e Mikael estivemos juntos, o lugar onde concebemos nossa criança — a filha que ele nunca conheceria. Isso já estava desencavando para a superfície as minhas sensações de perda. O fantasma dele estaria presente em todas as ruas pelas quais eu passasse.
A jornada nos asnos estava levando bem mais tempo do que aquela que eu e Lia havíamos feito até Terravin em nossos cavalos ravianos, mas, com a minha gravidez, cavalgar rápido e intensamente não era, de qualquer forma, uma opção.
— Estamos chegando perto — falei para Gwyneth quando paramos para dar água aos asnos. — São só mais dois dias.
Gwyneth tirou seus espessos cachos vermelhos da frente do rosto, e seus olhos estreitaram-se, olhando para baixo na estrada à nossa frente.
— Sim, eu sei — disse ela, distraída.
— Como sabe? Já esteve em Civica?
Em um estalo, ela voltou a prestar atenção, puxando as rédeas de Dieci.
— É só um palpite — disse ela. — Acho que você deveria me deixar falar com o Chanceler quando chegarmos lá. Pode ser que eu tenha mais poder de persuasão do que você.
— O Chanceler odeia Lia. Ele seria a última pessoa com quem falar.
Ela inclinou a cabeça para o lado e deu de ombros.
— Veremos.

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