20 de fevereiro de 2018

Capítulo 64

RAFE

Até esse ponto, tudo havia sido planejado com precisão. Daqui em diante, Sven disse que se tratava de outro plano de meia-tigela, mas ele também notou que estava ficando cada vez mais desconfortável com estratégias militares desse tipo. Tavish bufara ao ouvir a palavra estratégia. Quando entramos tempestuosamente no saguão, tínhamos habilidades e a surpresa ao nosso lado, e pouco mais além disso. O que os próximos trinta minutos e as próximas horas trariam era incerto, mas eu sabia que estávamos ficando sem tempo. Soube disso no minuto em que Lia entrara no arsenal. Já havia uma guerra em andamento, os traidores contra ela, e nesse exato momento parecia que os traidores estavam vencendo.
Tavish murmurava baixinho enquanto entrávamos em um rompante, olhando para a longa galeria superior e para a varanda que dava para o saguão. Lia dissera que ela era acessível apenas da ala real, mas, se os arqueiros a enchessem antes que pudéssemos defendê-la, seríamos como peixes em um barril esperando para sermos atravessados por uma lança, um de cada vez. Nós guardávamos as costas de Lia e uns dos outros. Lordes e ministros ficaram ofegantes, alarmados demais para entender o que estava acontecendo, enquanto meus homens enchiam o perímetro. Guardas postados na plataforma pararam quando os nossos arqueiros miravam neles. Eu e Tavish ficamos perto de Lia, com os escudos erguidos, observando, virando-nos, analisando a sala. Orrin nos ladeava com seus homens, já mirando as duas torres com as flechas, prontas para responderem a ataques.
Lia parou no centro da sala e gritou para que ninguém se mexesse, prometendo que eles não seriam feridos. Ela mentiu. Sangue foi derramado. Eu vi a fúria faminta nos olhos dela, na face dela, nos lábios dela. Eu achava que essa fúria poderia ser tudo que a mantinha em pé. Havia olheiras em volta dos seus olhos, e os lábios estavam pálidos. Eu sabia que Lia tinha mentido para mim lá no arsenal. Ela perdera muito sangue, mas eu também entendia a adrenalina da batalha e a onda de força que mantinha homens mortos em pé. Junto com a fúria desesperada dela, isso a mantinha agindo por ora.
Ordenei que as portas fossem barradas e que as armas fossem retiradas dos guardas.
Um lorde que estava se dirigindo ao gabinete permanecia paralisado no grande degrau semicircular na frente do saguão, incapaz de falar ou de se mexer. Fiz um movimento na direção dele com a minha espada.
— Sente-se.
Ele voltou se arrastando até o seu assento, e Lia subiu os degraus, assumindo o lugar dele.
O escrutínio dela passou pelo gabinete, e ela se dirigiu a cada um deles, assentindo com a cabeça, como se os estivesse cumprimentando, mas eu via o medo nos olhos dos homens. Eles sabiam que isso não era um cumprimento. Todos viam a corda bamba em que ela caminhava, além das diversas armas presas na lateral do seu corpo.
O Chanceler ficou em pé em um pulo.
— Isso é ridículo!
Um eco de concordância retumbava ao redor dele, com cadeiras sendo empurradas para trás e raspando o chão, como se fossem escoltar a insolente princesa até a sua câmara.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, Lia jogou sua adaga.
— Eu falei para não se mexer! — ela gritou. A lâmina fez um pequeno corte na manga da roupa do Chanceler e alojou-se em uma parede entalhada de madeira atrás dele.
Uma onda de silêncio voltou ao saguão. O Chanceler segurava seu braço, com o sangue escorrendo entre os dedos. Ele chacoalhava a cabeça com raiva, mas voltou ao lugar.
— Assim está melhor — disse ela. — Não o quero morto, não ainda, lorde Chanceler. Antes, você vai me ouvir.
Ele podia ter se sentado, mas não foi silenciado.
— Então você atira facas para calar o gabinete e tem uma desordenada coleção de rebeldes compelidos a segui-la portando espadas — disse ele. — O que vai fazer? Conter todo o exército morrigjês?
Dei um passo à frente.
— Para falar a verdade, sim, vamos fazer isso.
O Chanceler passou os olhos de relance por mim, absorvendo minhas roupas grosseiras. Ele ergueu o lábio em repulsa.
— E você seria...?
Para alguém que estava na posição precária em que se encontrava, ele não mostrava qualquer sinal de que ia recuar. Sua arrogância fazia com que a minha ardesse.
— Sou o rei de Dalbreck — respondi. — E posso lhe garantir que minha desordenada coleção pode conter o seu exército por um período de tempo incrivelmente longo, pelo menos longo o bastante até que você esteja morto.
O Capitão da Vigília falou abafando o riso.
— Tolo! Nós já encontramos o rei de Dalbreck, e você não é ele!
Fechei o espaço entre nós e estiquei a mão até o outro lado da mesa, agarrando-o pela frente da sua túnica, colocando-o em pé em um puxão repentino.
— Você está disposto a apostar a vida nisso, Capitão? Porque, mesmo embora você nunca tenha me visto, eu vi você no monastério da abadia no dia do meu frustrado casamento. Você andava de um lado para o outro, nervoso, com o Guardião do Tempo, proferindo xingamentos, se bem me lembro.
Eu soltei a túnica dele, empurrando-o de volta ao seu assento.
— Meu pai faleceu. Eu sou o rei agora, e ainda não decapitei ninguém na minha nova função, embora eu esteja ansioso para ver como é fazer isso.
Encarei-o, prendendo-o no seu assento, e então olhei para o restante do gabinete, fazendo uma varredura visual neles como Lia tinha feito, perguntando-me que mão a teria atingido, qual delas havia arrancado a camisa das suas costas e, o pior, quais dentre o seu próprio povo traíra a ela e ao seu próprio reino ao conspirar com o Komizar, negociando nossas vidas pela sua ganância. Além do Chanceler e do Capitão da Vigília, o restante do gabinete havia permanecido curiosamente em silêncio, e eu achava essa incubação silenciosa tão perturbadora quanto seus rompantes. Eles tramavam algo.
Olhei para Lia.
— Fale, princesa. Você tem a palavra por quanto tempo desejar.
Ela sorriu, com uma dureza assustadora nos lábios.
— A palavra — repetiu ela, saboreando os termos enquanto se virava, com os braços estirados nas laterais do corpo. — Perdoem-me, prezados ministros, pelo estado das minhas... — ela olhou para baixo, para as roupas manchadas de sangue, e depois para o ombro exposto — da minha aparência. Eu sei que esse não é o protocolo da corte, mas suponho que também haja algum conforto nisso. Espancada e desprezada, ela haverá de expor os perversos. — Lia fez uma pausa, perdendo um pouco sorriso que estampava no rosto. — Essas palavras assustam vocês? Pois deveriam.
Ela se virou, com seus olhos passando pelos lordes, e então parou e ergueu o olhar para a galeria vazia. Todos acompanhavam o olhar fixo dela. O silêncio foi ficando cada vez mais longo e desconfortável, mas, por ora, a lembrança da faca dela voando pela sala parecia manter as línguas quietas. Minha pulsação ficou acelerada, e eu e Tavish trocamos um olhar preocupado de relance. Ela parecia ter se esquecido de onde estávamos ou o que estava fazendo. Acompanhei o olhar compenetrado dela. Não havia nada ali. Nada, pelo menos, que eu pudesse ver.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!