2 de fevereiro de 2018

Capítulo 64

Era uma floresta estranha. Musgo cinzento pendia em filamentos curvos de árvores pretas com troncos tão largos quanto uma carroça. A princípio, o cavalo ficou hesitante, recusando-se a entrar na mata, mas eu o urgi a seguir em frente. Chamados estridentes ecoavam ao meu redor, misturando-se. O resultado dessa mistura lembrava uma risada. Procurei nas copas das árvores, mas vi apenas sombras.
Eu não tinha tempo nem para pensar em ficar com medo, apenas no que fazer em seguida. Comida e fogo. Eu não haveria de morrer no descampado, como Kaden havia previsto. Parei o cavalo dentro de um círculo de cinco árvores gigantescas, depois desci e soltei meu alforje, jogando para fora seu conteúdo. Tudo que tinha eram os livros, um frasco de bálsamo, erva chiga, alguns trapos de pano para as bandagens, uma escova, um fio de couro para prender os cabelos, uma bobina de seda para os dentes, uma muda de roupa de baixo esfarrapada e meu acendedor de fogueiras. Nem uma única porção de comida. Kaden havia colocado o estoque que eu tinha acumulado em seu cavalo, talvez para desencorajar quaisquer pensamentos de fuga. Olhei para a pederneira e contemplei a possibilidade de acender uma fogueira. Não queria ficar nessa floresta assustadora no escuro, mas em lugares inóspitos uma fogueira brilharia como se fosse um farol. Analisei a clareira. A espessura dos troncos e a floresta além dela esconderiam uma pequena fogueira.
Minha barriga roncava só de pensar na falta de comida. Eu não podia me permitir perder a força que havia recuperado no acampamento dos nômades, mas sem nenhuma arma para capturar nem mesmo a menor das caças, eu teria que coletar alimentos. Eu sabia o que vivia na podridão do chão de uma floresta, e só de pensar em ficar fraca demais para fugir me fez buscar por aquilo. Meu maxilar instantaneamente latejou, e minha saliva ficou com um gosto amargo na língua. Encontrei uma tora caída em decomposição e rolei-a. Ela fervilhava com cremosas e gordas larvas de insetos.
Regan havia desafiado Bryn a engolir uma dessas certa vez, dizendo que os cadetes em treinamento tinham que fazer isso. Bryn não era de fracassar e nem passar por perdedor, então engoliu uma larva que se contorcia. Dentro de poucos segundos, ele vomitou. Mas eu sabia que essas larvas poderiam sustentar uma pessoa tão bem quanto um pato assado.
Inspirei fundo, tremendo. Zsu viktara. Apertei bem os olhos, imaginando-me cavalgando de volta para casa, forte o bastante para encontrar e ajudar Walther, forte o suficiente para me casar com um príncipe que eu odiava, forte o bastante para esquecer Rafe. Forte o bastante. Abri os olhos e peguei um punhado de larvas que se contorciam na minha mão.
— Eu sou forte o suficiente para comer essas larvas aqui e imaginar que estou comendo um pato — sussurrei. Joguei a cabeça para trás, lançando-as dentro da minha boca e engolindo-as.
Pato. Pato viscoso.
Peguei mais um punhado delas.
Pato se contorcendo.
Fiz com que todas descessem tomando um gole d’água do meu cantil. Pato suculento assado. Faria com que eu amasse larvas se fosse preciso. Engoli-as de novo, certificando-me de que não voltariam.
Che-ah!
Dei um pulo. Uma outra sombra se mexeu rapidamente pelas copas das árvores. O que estaria se movendo tão furtivamente lá em cima? Coloquei-me a coletar galhinhos secos e musgo, e depois abanei a centelha da pedra para formar uma chama. Os estranhos gritos estridentes cortavam o ar, e pensei que qualquer animal que os tivesse emitido tinha que estar por ali.
Coloquei mais lenha na fogueira e puxei a Canção de Venda para o meu colo, de modo a manter minha mente ocupada. Eu usava o livro que Dihara havia me dado para ajudar-me a traduzir o texto. A formação das letras nos dois livros era diferente. As do livro de instruções de Dihara pareciam meio quadradas, enquanto as letras na Canção de Venda tinham firulas e curvas, e uma letra enganchava-se na próxima, tornando difícil saber onde cada letra acabava e outra começava. Observei aquilo, sem esperança, mas então as letras pareciam se mover por vontade própria diante dos meus olhos, reagrupando-se em um padrão que eu era capaz de reconhecer. Pisquei. Parecia óbvio agora.
As similaridades apareceram e as letras desconhecidas se revelaram. As curvas, as inflexões perdidas, a chave. Tudo fazia sentido. Eu poderia traduzir agora. Palavra por palavra, sentença por sentença, eu ia e vinha entre o livro de instruções e o antigo texto vendano.

Há apenas uma história verdadeira
E um futuro verdadeiro.
Escutem bem,
Pois a criança nascida da miséria
Será aquela que trará esperança.
Do mais fraco, virá a força.
Dos perseguidos, a liberdade.

Os velhos homens haverão de ter sonhos,
As jovens damas terão visões,
A fera da floresta haverá de virar-se e ir embora,
Eles verão o filho do infortúnio vindo,
E abrirão caminho.

Da semente do ladrão,
O Dragão se erguerá,
Aquele glutão,

Alimentando-se do sangue de bebês,
Bebendo as lágrimas de mães.

Sua mordida será cruel, mas sua língua é afiada,
Seu hálito, sedutor, mas mortal é sua pegada.
O Dragão conhece apenas a fome, nunca saciada,
Apenas a sede, nunca acabada.

Pouco era de se admirar que o regente de Venda quisesse que esse falatório insano fosse destruído. Era sombrio e não fazia nenhum sentido, mas havia algo em relação a ele que deve ter perturbado o Erudito. Ou será que eu estava perdendo meu tempo? Talvez fosse apenas a caixa de ouro incrustada com joias que tivesse valor para ele? Será que poderia valer o pescoço e o cargo dele ser um ladrão da corte? No entanto, como eu estava quase terminando a tradução da canção sombria, dei continuidade à tarefa.

Dos quadris de Morrighan,
Da extremidade mais afastada da desolação,
Dos esquemas de regentes,
Dos temores de uma rainha,
Nascerá a esperança.

Do lado mais afastado da morte,
Passando pela grande divisão,
Onde a fome come almas,
As lágrimas deles aumentarão.

O Dragão conspirará,
Usando muitas faces,
Enganando os oprimidos, coletando os perversos,
Exercendo o poder como um deus, impossível de ser parado,
Não perdoando em seu julgamento,
Implacável em sua regência,
Um ladrão de sonhos.
Um assassino de esperanças.

Continuei com a leitura e, a cada palavra, minhas respirações foram ficando mais curtas. Quando cheguei ao último verso, suor frio desceu pelo meu rosto. Percorri os papéis soltos novamente, buscando pelas notas de catalogação. O Erudito era meticuloso em relação a essas coisas. Encontrei-as e as reli. Estes livros antigos tinham caído nas mãos dele doze anos depois de eu ter nascido! Isso era impossível. Não fazia sentido algum.

Até que apareça aquela que é mais poderosa,
Aquela nascida do infortúnio,
Aquela que era fraca,
Aquela que era caçada,
Aquela marcada com a garra e a vinha,
Aquela nomeada em segredo,
Aquela chamada Jezelia.

Eu nunca tinha ouvido falar em nenhuma outra pessoa em Morrighan cujo nome fosse Jezelia. Tampouco ninguém na corte real. Por isso meu pai havia tão fortemente apresentado objeções a este nome, por sua falta de precedentes. De onde minha mãe o tirou? Não deste livro.
Deslizei a blusa do meu ombro e torci o pescoço para ver o que conseguia do meu kavah. As teimosas garra e vinha ainda estavam lá.
Histórias mais grandiosas terão sua vez. Balancei a cabeça em negativa.
Não, não esta. Havia uma explicação razoável. Enfiei os livros de volta no alforje. Eu estava cansada e assustada por causa desta estranha floresta e tinha feito as traduções às pressas. Só isso. Não havia tais coisas como dragões, certamente não que bebiam o sangue de bebês. Isso era besteira. Eu estava encontrando significado onde não havia nada. Olharia o texto novamente à luz do dia, e as regras da razão esclareceriam tudo.
Coloquei um galho grande no fogo e me ajeitei no saco de dormir. Forcei a minha mente a pensar em outras coisas. Coisas que faziam sentido. Coisas mais felizes. Visualizei Pauline, o belo bebê que ela teria, Gwyneth e Berdi ajudando-a e as vidas que continuariam a ter em Terravin. Pelo menos alguém estava vivendo a vida que tinha sido meu sonho. Pensei no quanto amaria sentir o gosto do cozido de peixe de Berdi agora, de ouvir o sopro de trombetas na baía, a conversa fiada dos fregueses da taverna, os zurros de Otto, e como eu gostaria de sentir o cheiro do sal no ar e de ver Gwyneth estudar um novo freguês.
Do jeito como ela havia estudado Rafe.
Eu estava ficando mais forte de algumas maneiras, no entanto, mais fraca de outras. Desde o primeiro dia em que a vi, tenho ido dormir pensando em você.
Cerrei os olhos e me aninhei no saco de dormir, rezando para que a manhã chegasse logo.

4 comentários:

  1. acho que entendi nao entendendo
    mas jesus é tao confuso !!!!!!

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  2. Ela é uma garota da qual fala a professia que a venda falará e é ela que irá fazer algo grandioso ou algo assim foi isso que deu a entender

    Mirtiz

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  3. "Até que apareça aquela que é mais poderosa,
    Aquela nascida do infortúnio,
    Aquela que era fraca,
    Aquela que era caçada,"
    AAAAAAAAAAAAAAAAA MLK, "nascida do infortúnio" acho q ela vai ser muito moldada nessas lutas aí e vai voltar poderosa e phodástica.

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  4. Só eu que me arrepiei lendo isso?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!