16 de fevereiro de 2018

Capítulo 63

Embora a espera possa ser longa,
A promessa é grande
Para aquela chamada Jezelia,
Cuja vida será sacrificada
Pela esperança de salvar a sua.
— Canção de Venda —



Exatamente como eu suspeitava, a manhã estava silenciosa, sem tempestade nem vento, e eu tinha certeza de que o Komizar havia, de alguma forma, feito um acordo com um desconhecido deus do clima. Sem dúvida era um deus que pagaria um alto preço em algum momento pela barganha que fizera.
Eu havia me revirado na cama a noite toda e não sabia ao certo se até mesmo tinha dormido. Deslizei uma das persianas para o lado e fui atingida por uma rajada de ar frio. Uma luz cegante jorrava pela pequena abertura. Assim que meus olhos se ajustaram à luz, fiquei pasmada com o que vi. Todos os telhados, parapeitos e centímetros do chão na praça lá embaixo estavam cobertos por uma espessa camada branca, que era ao mesmo tempo bela e assustadora. O quanto viajar em meio à neve nos faria ir mais devagar?
Seguiu-se um bater à minha porta, e quando a abri, vi uma bandeja de queijo e pão no chão e ouvi os passos de quem quer que a tivesse colocado ali saindo apressado, aparentemente por medo de estar em qualquer lugar que fosse nas vizinhanças do Komizar. Comi todos os pedaços da comida e então comecei a me vestir, colocando minha calça e minha camisa, conforme as instruções de Rafe. Além de ser mais adequada para cavalgar do que um vestido, minha calça era bem mais quente. Minha camisa ainda tinha uma aba solta de onde o Komizar a havia rasgado. Amaciei o tecido em cima de meu braço e usei a bainha de ombro de Walther para mantê-lo no lugar.
Ouvi cedo as agitações da cidade lá fora. Diga suas memórias sagradas no terraço de Blackstone... logo depois do primeiro sino. O terraço ficava próximo destes aposentos, podendo ser visto das janelas do tamanho de um punho cerrado na minha câmara. Julguei pelo sol que o primeiro sino haveria de tocar dentro de uma hora mais ou menos. A essa altura, o Conselho estaria entretido em conversas que eu presumia que não estivessem sendo fáceis, a julgar pelas faces de alguns dos governadores na noite passada. Será que eles estavam hesitantes com a plenitude nos silos do Komizar enquanto seus próprios cidadãos sofriam com barrigas roncantes? Súditos descontentes poderiam levar a mais desafios e vidas mais curtas. Parecia que a promessa de minhas visões era uma forma de amainar os fogos da discórdia. A Siarrah, enviada pelos deuses, seria uma vitória iminente, o que haveria de encher as barrigas daqueles nas províncias mais afastadas por um tempinho.
Coloquei o colete de pele dos Meurasi, cujos pedaços foram costurados juntos com sacrifício, e meu estômago ficou apertado. Eles não eram todos meus inimigos. A palavra bárbaro não estava mais em meus lábios, exceto para descrever uns poucos selvagens, e parecia que pelo menos um lorde de Morrighan estava dentre esses poucos.
Eu havia começado a pegar a faca de sob o colchão, onde eu a havia escondido, quando ouvi o barulho da porta. Deixei cair o colchão e girei.
Era o Komizar. Fitei-o, tentando rapidamente recompor a expressão no meu rosto para uma de indiferença.
— Você não tem reuniões do Conselho esta manhã?
Ele escrutinizou-se, demorando-se para me responder.
— Por que está usando suas roupas de montaria?
— Elas são mais quentes, sher Komizar. Com a neve no terraço, achei que elas fossem uma opção melhor para dizer minhas memórias sagradas matinais.
— Não haverá mais qualquer apresentação sua a não ser que eu esteja com você. — Ele inclinou a cabeça para o lado, zombando de mim como se eu fosse uma mula idiota. — Acho que devo estar lá para ajudar você a se lembrar exatamente do que deve dizer.
— Vou me lembrar — falei, em um tom austero.
Nós ali ficamos, ambos ouvindo os cânticos fracos do nome Jezelia.
— Você não falará com eles sem que eu esteja ao seu lado — ele repetiu.
Eu vi isso em seus olhos. Ouvi isso em seu tom. Tudo se tratava do poder, e ele não poderia abrir mão nem mesmo do menor punhado que inadvertidamente tivesse sido passado para mim. Os apanhados de clãs pela cidade que se reuniam na praça haviam aumentado e chamavam por mim, não por ele, e isso era algo que ele não havia previsto, embora tivesse orquestrado. Em comparação com os vastos números na cidade e com seu exército descomunal, esses números eram pequenos, mas ele ainda queria controlar todos eles até o último e ter certeza de a quem eram leais.
— Eles estão me chamando, Komizar — falei, em um tom gentil, na esperança de suavizar seu semblante.
— Eles podem esperar. É melhor aumentar o fervor deles antes do casamento. Eu tenho uma tarefa mais importante para você.
— Que tarefa é mais importante do que aumentar o fervor deles com visões de plenitude?
Ele olhou para mim com ares de suspeita.
— Fortificar os governadores que vão voltar para casa, para suas províncias, dentro de uma semana.
— Há algum problema com os governadores? — perguntei a ele.
Ele apanhou o vestido vermelho que eu deveria usar para o casamento de cima do baú e jogou-o em cima da cama.
— Vista isso. Estarei de volta para levá-la até a sessão do Conselho hoje mais tarde. Com o meu sinal, você dará aos governadores o próprio espetáculo particular, em que você, convenientemente, fará seus cílios tremerem e vomitará palavras de vitória. As palavras certas dessa vez.
— Mas o vestido é para o nosso casamento esta noite.
— Vista-o — ele ordenou. — Seria um desperdício guardar este vestido para umas poucas horas estúpidas.
Eu esperava suprimir rapidamente a crescente agitação dele de modo que fosse embora.
— Conforme desejar, sher Komizar. É o dia do nosso casamento, no fim das contas, e desejo agradá-lo. Estarei vestida na hora em que você voltar. — Apanhei o vestido da cama e esperei que ele saísse.
— Agora, meu bichinho de estimação. Levarei comigo suas roupas de montaria. Você não vai precisar delas, e sei como o nervosismo do casamento pode tornar algumas noivas impulsivas, especialmente você.
Ele ficou ali, esperando.
— Ande logo. Não tenho tempo para sua fingida modéstia.
Nem eu. Eu precisava que ele voltasse para a Ala do Conselho o mais rápido possível. Tirei rapidamente o meu colete, meu cinto e minhas botas, e então me virei para tirar o restante. Eu podia sentir os olhos dele abrindo um buraco em minhas costas, e rapidamente me retorci para dentro de meu vestido. Antes que eu pudesse me virar, ele deslizou as mãos em volta da minha cintura e seus lábios tracejaram o kavah no meu ombro. Apanhei minha camisa e minha calça da cama e me virei, jogando-as na barriga dele.
Ele riu.
— Oras, essa é a princesa que eu conheço e amo.
— Você nunca amou o que quer que fosse na sua vida — falei.
A expressão dele abrandou-se por um breve instante.
— Como você se engana... — Ele virou-se para ir embora, mas logo antes de fechar a porta atrás de si acrescentou: — Estarei de volta dentro de umas poucas horas. — Ele ergueu o lábio em repulsa e girou a mão no ar. — Faça alguma coisa com seus cabelos.
Ele fechou a porta, e baguncei meus cabelos em uma confusão de frustração desordenada. E então ouvi um tunc baixo e gutural.
Fui correndo até a porta e tentei abrir a tranca. Que não cedeu. Soquei a porta com meus punhos cerrados.
— Você não pode me trancafiar aqui dentro! Esse não foi nosso acordo!
Pressionei meu ouvido junto à porta, mas a única resposta que obtive foi o fraco som das passadas dele se afastando. Acordo. Eu quase dei risada dessa palavra. Ao contrário de Kaden, eu sabia que o Komizar nada honrava, a menos que lhe servisse. Olhei ao redor no quarto em busca de alguma coisa com que pudesse abrir a fechadura. Peguei um osso de meu cordão, usei minha faca para parti-lo em uma fina lasca e cutuquei com ele no pequeno buraco, mas não deu em nada. Todos os pedaços de metal nessa cidade arruinada e úmida estavam duros com a ferrugem. Tentei fazer o mesmo com um outro osso, e com outro, e ouvi os cânticos lá fora ficando mais altos. Jezelia. Quando seria o toque do primeiro sino? Fui correndo até as janelas, mas elas eram pequenas demais para que eu chamasse alguém por ali. E então ouvi um leve bater à porta.
— Srta. Lia?
Fui correndo até a porta e caí junto a ela.
— Aster! — falei, sendo inundada pelo alívio.
— Eles estão chamando por você — disse ela.
— Estou ouvindo. Você pode destrancar a porta para mim?
Ouvi enquanto ela fazia tinir chaves na fechadura.
— Nenhuma destas funciona.
Minha mente ficou a mil, tentando pensar no que demoraria menos. Ir buscar Calantha? Calantha tinha uma chave para tudo no Sanctum. Mas de que lado ela estaria hoje? Arrisquei-me e pedi que Aster fosse buscá-la. A menina foi embora, e eu me sentei no chão, reclinando-me junto à porta. O tempo passava arrastando-se em batidas agonizantes, marcado pelos chamados por Jezelia, e ouvi o primeiro sino. Meu coração afundou no meu peito, mas então o apressar de passadas cruzava ruidosamente o corredor, e escutei as respirações arfantes de Aster à porta.
— Procurei por toda parte, senhorita. Não consegui encontrá-la. Ninguém sabe onde ela está.
Tentei acalmar o pânico que se erguia dentro de mim. O tempo estava passando. Estarei esperando. Será que ele ainda estava lá?
O quarto do Komizar. Lá.
— Procure no quarto do Komizar! — berrei. Ficava do outro lado do corredor. — Ele foi até a Ala do Conselho. Ande logo, Aster!
Apanhei a bainha de ombro de cima da cama e deslizei minha faca para dentro. Em seguida, coloquei ali também meu cordão de ossos e, por fim, meu manto, para esconder a faca. Se eu realmente conseguisse sair deste quarto, eu teria que estar com a mesma aparência de sempre para os guardas que pudessem me ver. Minutos se passaram. Eu me sentei na cama. Vá embora sem mim, Rafe. Você prometeu.
— Consegui! — disse Aster pela porta. Eu ouvi a pesada tranca deslizar e a porta ser aberta. O rosto dela estava reluzente com seu feito, e dei um beijo em sua testa.
— Você realmente é o anjo da salvação, Aster!
Ela esfregou seus cachos tosados de cabelos.
— Ande logo, senhorita! — disse ela. — Eles ainda a estão chamando.
— Fique aqui — disse a ela. — Pode não ser seguro.
— Nada é seguro por aqui. Quero ter certeza de que você vai chegar lá!
Eu não tinha como argumentar com a lógica dela. Era verdade. O Sanctum era tudo, menos um santuário. A única coisa que ele abrigava era ameaça constante. Nós descemos correndo por corredores, degraus e passagens pouco usadas, subindo degraus e descendo degraus de novo. A curta distância de repente parecia ter quilômetros. Aquele não era um terraço fácil de se alcançar. Eu rezava para que não estivesse atrasada demais, mas, ao mesmo tempo, nutria esperanças de que Rafe já tivesse partido sem mim e que já estivesse em segurança do outro lado do rio. Nós não passamos por qualquer pessoa, ainda bem, e por fim chegamos ao portal que dava para o terraço.
— Ficarei aqui e assoviarei se alguém vier.
— Aster, você não pode...
— Sei assoviar bem alto — disse ela, com o queixo erguido.
Abracei-a.
— Saberei se alguém estiver vindo. Agora, vá. Volte para a jehendra e para o seu papai e fique em segurança por lá. — Relutante, ela virou-se, e passei apressada pelo longo portal que dava para o terraço.
O terraço estava coberto por uma espessa camada de neve, e fui andando até a parede ao norte, sabendo que já estava atrasada. Não haveria qualquer história nessa manhã, apenas a mais curta das memórias sagradas, para que os guardas na praça de nada suspeitassem, e então eu estaria seguindo meu caminho; no entanto, quando cheguei na parede, um silêncio generalizado espalhou-se pela multidão. Espalhou-se até mim, como mãos esticando-se e pegando as minhas. Fique, Jezelia. Fique, para uma história. Somente eu tinha posse da última cópia sobrevivente da Canção de Venda. A história não era minha para que eu ficasse com ela. Fosse bobagem ou não, eu teria que devolvê-la antes de partir.
— Aproximem-se, irmãos e irmãs de Venda — falei para eles. — Ouçam as palavras da mãe da sua terra. Ouçam a Canção de Venda.

* * *

E então eu a disse, um verso atrás do outro, sem conter nada. Falei do Dragão que se alimentava do sangue dos jovens, bebendo as lágrimas das mães, de sua língua afiada e de sua pegada mortal. Falei a eles sobre outros tipos de fomes, fomes estas que nunca eram saciadas nem dissipadas.
Eu vi cabeças assentirem em entendimento, assim como guardas confusos olhando uns para os outros, tentando entender o que se passava. Eu me lembrei das palavras de Dihara: Este mundo, ele inspira a gente... partilha da gente. No entanto, existem alguns que estão mais abertos a partilhar do que outros. Para os guardas, assim como para muitos dos que estavam lá embaixo, minhas palavras não passavam de idiotices, assim como as palavras de Venda, muito tempo atrás.
Enquanto eu falava, uma brisa circulava ao meu redor. Eu podia senti-la dentro de mim, esticando-se, buscando, e então seguindo em frente de novo, viajando por sobre a multidão, pela praça e descendo as ruas, passando pelos vales além delas e pelas colinas.

O Dragão conspirará,
Usando muitas faces,
Enganando os oprimidos, coletando os perversos,
Exercendo o poder como se fosse um deus, impossível de ser parado,
Não perdoando em seu julgamento,
Implacável em sua regência,
Um ladrão de sonhos,
Um assassino de esperanças.
Até que apareça aquela que é mais poderosa,
Aquela nascida do infortúnio,
Aquela que era fraca,
Aquela que era caçada,
Aquela marcada com a garra e a vinha,
Aquela nomeada em segredo,
Aquela chamada Jezelia.

Um murmúrio percorria a multidão, e então Venda estava ali, parada, ao meu lado. Ela e esticou a mão e pegou na minha.
— O restante da canção — sussurrou ela, e então falou mais versos.

Traída pelos seus,
Espancada e desprezada,
Ela haverá de expor os perversos,
Pois o Dragão de muitas faces
Não conhece limite algum.
E embora a espera possa ser longa,
A promessa é grande
Para aquela chamada Jezelia,
Cuja vida será sacrificada
Pela esperança de salvar a sua.

E então ela se foi.
Eu não sabia ao certo se eu era a única que a havia ouvido, ou até mesmo visto, mas fiquei ali, parada, estupidificada, tentando compreender a imensidão do que ela havia acabado de dizer. Em um instante, eu sabia que aqueles eram os versos arrancados da última página do livro. Apoiei-me na parede, equilibrando-me com essa revelação. Sacrificada. O murmúrio das multidões ficou mais alto, mas então movimentos chamaram a minha atenção e meu olhar contemplativo voltou-se em um pulo para uma alta parede do outro lado do caminho. Chievdars, governadores e Rahtans estavam me observando. Inspirei ao ar, alarmada. A reunião deles havia acabado mais cedo.
— Senhorita?
Eu me virei. Aster estava no meio do terraço. O Komizar estava atrás dela com uma faca junto ao peito da criança.
— Eu sinto muito, senhorita. Eu não pude simplesmente deixá-la como você me disse para fazer. Eu... — ele pressionou a ponta da faca contra ela, que ficou lívida de dor.
— Pelo amor dos deuses, não! — gritei, travando os olhos nele.
Supliquei junto ao Komizar, delicada, desesperada e lentamente, aproximando-me dele, tentando trazer seu foco de volta a mim. Eu me prendi a ele ferozmente com os olhos e sorri, tentando, de alguma forma, dispensar essa loucura.
— Por favor, solte-a, sher Komizar. Você e eu podemos conversar. Nós podemos...
— Eu avisei a você que sem mim não deveria haver mais qualquer apresentação sua.
— Então puna a mim. Ela não tem nada a ver com isso.
— Você, minha passarinha? No momento, você é valiosa demais. Ela, por outro lado... — ele balançou a cabeça e, antes mesmo que eu pudesse entender o que estava fazendo, ele mergulhou a faca no peito da criança.
Gritei e fui correndo em direção a Aster, pegando-a enquanto ela deslizava dos braços dele.
— Aster! — Caí no chão junto a ela, aninhando-a em meu colo. — Aster.
Pressionei minhas mãos na ferida no peito dela, tentando estancar o fluxo de sangue.
— Diga ao meu papai que tentei, senhorita. Diga a ele que não sou uma traidora. Diga a ele que nós...
As últimas palavras dela ficaram congeladas em seus lábios, seus olhos cristalinos, brilhantes, mas sua respiração, parada. Puxei-a para junto do meu peito, abraçando-a, como se eu pudesse desafiar a morte.
— Aster, fique comigo. Fique! — mas ela se fora.
Ouvi uma leve risada e ergui o olhar. O Komizar limpava sua faca ensanguentada na perna de sua calça e deslizava-a para dentro de sua bainha. Ele agigantava-se diante de mim, com suas botas salpicadas pela neve.
— Ela teve o que mereceu. Não temos qualquer espaço no Sanctum para traidores.
Fui lavada pelo torpor. Olhei para ele, incrédula.
— Ela era só uma criança — falei, em um sussurro.
Ele balançou a cabeça, estalando a língua.
— Quantas vezes preciso dizer a você, Princesa, que não temos tais luxos? Venda não tem crianças.
Com gentileza, deslizei Aster do meu colo para a neve e fiquei em pé. Aproximei-me dele, que olhou nos meus olhos, com a presunção de um vitorioso.
— Estamos entendidos? — ele me perguntou.
— Sim — falei. — Acho que sim. — E, na virada de um segundo, a presunção se fora. Ele arregalou os olhos, pasmado.
— E agora — falei — Venda também não tem Komizar.
Um ato rápido. Um ato fácil.
Puxei minha faca da lateral do corpo dele e mergulhei-a novamente, torcendo-a mais, sentindo a lâmina cortar a carne dele, pronta para mergulhá-la ali repetidas vezes, mas ele foi vários passos cambaleando para trás, finalmente compreendendo o que eu tinha feito. Ele caiu junto à parede perto do portal, com o olhar fixo na mancha vermelha que se espalhava por sua camisa. Agora era ele que não conseguia acreditar. Ele sacou a faca de sua bainha, mas estava fraco demais para dar um passo à frente, e a lâmina deslizou de sua mão. Sua espada permanecia inútil na lateral de seu corpo. Ele voltou a olhar para mim, com descrença, e deslizou para o chão, com o rosto contorcido de dor.
Aproximei-me e fiquei em pé acima dele, chutando sua faca para longe.
— Você estava enganado, Komizar. É muito mais fácil matar um homem do que um cavalo.
— Eu não estou morto ainda — disse ele, entre respirações dificultadas.
— Você estará morto em breve. Tenho conhecimento sobre órgãos vitais e, embora eu tenha certeza de que você seja desprovido de um coração, suas entranhas estão em pedaços agora.
— Isso não acabou — disse ele ofegante.
Ouvi gritos e me virei. Embora as pessoas lá embaixo não conseguissem ver o que eu tinha feito, aqueles que estavam na parede alta do lado mais afastado da praça tinham visto. Eles já estavam correndo, tentando encontrar a rota mais rápida até o terraço, mas Kaden e Griz cruzaram com tudo o portal primeiro. Griz empurrou ambas as metades da pesada porta do portal, trancando-a atrás de si, e colocou uma barra pelas maçanetas de ferro.
Kaden olhou para o sangue em minhas mãos e para o vestido, e para a faca que ainda estava na minha mão.
— Pelos deuses, Lia, o que foi que você fez? — E então ele avistou o corpo sem vida de Aster jazendo na neve.
— Mate-a — berrou o Komizar com energia renovada. — Ela não será a próxima Komizar! Mate-a agora! — exigiu ele, engasgando em suas respirações.
Kaden foi andando até ele e prostrou-se em um joelho só no chão, olhando para a ferida. Ele esticou a mão até o outro lado e puxou a espada do Komizar de sua bainha para, em seguida, ficar cara a cara comigo.
Griz, com ares de suspeita, levou a mão até uma das espadas que tinha ao lado do corpo.
Kaden entregou a arma a mim.
— Você pode talvez vir a precisar disso. De alguma forma vamos ter que tirar você daqui.
— O que está fazendo? — gritou o Komizar, que caiu mais ao longe no chão. — Você deve tudo a mim. Nós somos Rahtans. Nós somos irmãos!
A expressão de Kaden continha tanto pesar quanto a do Komizar.
— Não mais — foi a resposta dele.
Mesmo enquanto ele estava ali, deitado, morrendo, o Komizar continuava a emitir comandos, mas Kaden se voltou novamente na minha direção, ignorando-o... E então nós ouvimos o som ruidoso de pesadas botas nos degraus. Rafe apareceu na entrada da escadaria por onde eu supostamente já deveria ter fugido. Jeb e um outro homem estavam parados atrás dele.
Eles caminhavam na nossa direção, absorvendo a cena, e, devagar, Rafe sacou sua espada. Seus homens fizeram o mesmo. Kaden olhou de Rafe para mim. Seus olhos encheram-se de entendimento. Ele soube.
— Estou de partida, Kaden — falei, na esperança de evitar uma colisão. — Não tente me impedir.
Sua expressão ficou endurecida.
— Com ele.
Engoli em seco. Eu podia ver todas as contorções do seu maxilar. Ele já havia adivinhado, mas falei mesmo assim.
— Sim. Com o príncipe Jaxon de Dalbreck. — Não havia como voltar atrás agora.
— Você sempre pretendeu fazer isso.
Assenti.
O olhar dele ficou hesitante. Ele não conseguia esconder a dor da minha traição.
— Afaste-se dela — disse Rafe em um tom de aviso, ainda avançando com cautela.
De súbito, Griz agarrou meu braço, arrastando-me até a parede onde as multidões ainda esperavam. Ele ergueu minha mão para o céu diante deles.
— Sua Komizar! Sua rainha! Jezelia!
As multidões rugiam. Olhei para Griz, horrorizada.
O choque estava igualmente estampado no rosto de Kaden.
— Você está louco? — ele gritou com Griz. — Ela nunca vai conseguir sobreviver! Você sabe o que o Conselho fará com ela?
Griz olhou para as multidões, que comemoravam.
— Isso é maior do que o Conselho — foi a resposta dele.
— Ela vai morrer mesmo assim! — disse Kaden.
Rafe puxou-me das mãos de Griz, e então o mundo parecia explodir. As portas foram abertas em um rompante, com a barra de ferro voando e soltando-se, e os Rahtans entraram com tudo, com os governadores nos calcanhares. Os primeiros golpes vieram de Malich, que concentrava toda a sua energia em Kaden, brutal e sedento. Kaden evadiu as primeiras estocadas dele e avançou, com o feroz clangor de metal em metal vibrando violenta e rapidamente no ar. Theron e Jorik vieram para cima de Griz, e seus ataques eram implacáveis e violentos, mas Griz era um gigante que portava duas espadas, e ele acertou golpe com golpe, impelindo-os para trás.
Rafe derrubou um guarda atrás do outro, lutando ombro a ombro com Kaden contra o ataque furioso.
O governador Obraun avançou na minha direção, e ergui minha espada para golpeá-lo quando, de repente, ele virou-se e deu um golpe mortal em Darius. O governador estava lutando do nosso lado? Seu próprio guarda mudo lutava ao seu lado, mas agora ele estava gritando com uma voz que era alta e clara, avisando Jeb sobre alguém que vinha atacando de um dos lados. O governador Faiwell lutava ao lado de Jeb, assim como o faziam dois guardas atribuídos a mim. Nada daquilo fazia sentido. Quem estava lutando contra quem? A confusão de gritos e espadas clangorosas era ensurdecedora. Com um único golpe, Rafe trouxe abaixo Gurtan e Stavik e passou adiante, para atacar mais. Ele era assustador em suas habilidades, uma força que eu nem mesma reconhecia.
Os grunhidos de batalha e o nauseante esmagar de ossos enchiam o ar. Eles haviam me cercado. Eu era, claramente, o alvo daqueles que estavam avançando. Minha própria espada era inútil. Tentei forçar minha saída para ajudar, mas Griz me empurrou para trás.
A expressão na face de Malich enquanto ele atacava Kaden era selvagem, impelida por mais do que apenas o dever. Um grito perfurou o ar quando Griz finalmente enfiou sua espada entre as costelas de Theron, mas Jorik girou, e sua espada fatiou a lateral do corpo de Griz, que caiu em um dos joelhos no chão, segurando suas costelas, e Jorik ergueu sua espada para terminar o trabalho. Antes que ele pudesse mergulhar sua lâmina em Griz, lancei a faca que ainda tinha em mãos, a qual atingiu em cheio a garganta de Jorik, que foi cambaleando para trás. Ele estava morto antes mesmo que seu corpo chegasse ao chão. Griz conseguiu voltar a ficar de pé, ainda empunhando uma espada enquanto segurava a lateral machucada do corpo. Havia sangue por toda parte, e a neve estava derretida, vermelha. Um banho de sangue.
O ataque violento diminuiu, e, por fim, os números pareciam estar a nosso favor.
 — Tirem-na daqui! — berrou Kaden. — Antes que venham mais deles!
Rafe gritou para o guarda-que-não-era-tão-mudo, mandando-o liberar as escadas e ordenou que eu seguisse em frente, para depois desferir um golpe mortal no chievdar Dietrik, que havia atacado na direção dele, determinado a não me deixar ir embora.
— Por aqui, menina! — o governador Obraun segurou meu braço e me empurrou em direção às escadas. Um outro homem vinha correndo conosco. Ouvi Jeb chamá-lo de Tavish, e o guarda mudo, de Orrin. Rafe vinha logo atrás, guardando nossas costas. Olhei para trás e vi Kaden, Griz, Faiwell e os dois guardas mantendo aqueles que ali permaneciam no terraço. Que os deuses os ajudassem quando mais deles viessem. Certamente todos os alojamentos de soldados haviam sido alertados a essa altura.
Nós descemos apressados as escadarias até o segundo nível e viramos e entramos no portal, com o plano horrivelmente fora dos trilhos. Tão logo passamos pela pesada porta, ela foi fechada com tudo. Olhei para trás e vi Calantha fechando seus ferrolhos.
— Calantha — falei, pasmada.
— Anda logo! — berrou ela.
— Você não pode ficar aqui. Venha conosco.
— Vai ficar tudo bem comigo — foi a resposta dela. — Ninguém sabe que estou aqui. Vá!
— Mas...
— Este é o meu lar — disse ela com firmeza.
Não havia tempo para discutir, mas vi uma determinação no seu rosto que não estava antes. Nós trocamos um assentir consciente, e saí correndo.
Rafe agora conduzia o caminho comigo logo atrás dele. Era um longo e escuro corredor, e nossas passadas ecoavam por ele como trovoadas, mas então o som duplicou-se e nós sabíamos que se tratavam dos guardas vindo nos atacar da direção oposta.
— Aqui embaixo! — gritei, virando em direção a uma trilha que eu já havia percorrido com Aster. — Essa trilha nos levará às catacumbas.
Conduzi-os pelo caminho serpeante e depois descemos um longo lance de degraus. Quando chegamos lá embaixo, ouvi altos arrastares de pés. Levei um dedo aos lábios e falei, sem som: Alguém está vindo. Jeb me empurrou e passou por mim. Tentei impedi-los, mas Rafe assentiu para que eu o deixasse ir.
Ele saiu do patamar para a luz, e vi quando ele se transformou de volta em um coletor de fezes. Ele sorriu e um guarda apareceu, perguntando a ele se tinha visto alguém passar por ali correndo. Quando Jeb apontou em uma direção, o guarda virou-se, e, em um movimento tão rápido quanto um relâmpago, Jeb quebrou o pescoço do homem.
— Está liberado aqui — disse ele a nós. — Ele era o único.
Nós passamos correndo pelas estreitas catacumbas e descemos por trilhas que passavam pelas cavernas. Nós estávamos tão a fundo na terra que eu sabia que não havia como os eruditos saberem que uma guerra havia sido desatada acima deles. Os poucos que nos viram passar correndo ficaram pasmados, em silêncio, confusos com o que estava acontecendo. Eles apenas conjuravam guerras, não lutavam nelas. Virei na trilha cheia de crânios.
— Este caminho nos levará até o rio — falei.
Quando ouvimos o rugir das quedas d’água, aquele que se chamava Tavish foi abrindo caminho na frente para nos levar até a jangada. Cerca de uns cem metros lá embaixo, saímos do túnel e nos deparamos com a névoa do rio. O chão estava escorregadio e coberto de gelo.
— Por aqui! — chamou-nos Tavish acima do barulho, mas, então, quatro soldados surgiram de outro túnel que dava no rio e uma nova batalha foi inflamada.
Rafe, Jeb, Obraun e Tavish desceram correndo em frente para interceptarem o ataque. Eu e Orrin derrubamos mais guardas que corriam em direção a nós, vindos do túnel que havíamos acabado de deixar para trás. Fui para o lado, fiquei escondida e, quando o primeiro deles passou, girei a espada, acertando-o no pescoço. Orrin derrubou o próximo, e nós dois derrubamos o terceiro. Acertei nas costelas dele e, quando fomos aos tropeços para frente, Orrin perfurou suas costas.
Rafe gritou para que fôssemos até a jangada, que eles depois nos alcançariam, e Orrin me puxou ao longo de uma margem do rio e descendo por uma trilha de rochas, com Tavish vindo logo atrás. Nós nos deparamos com um afloramento de rochas, e fui tomada pelo pânico. Não vi qualquer jangada, mas Tavish deu um pulo. Achei que ele tivesse caído direto dentro do rio, e então o vi na jangada que estava quase escondida pela névoa e pelas rochas.
— Pule! — ordenou-me ele.
— Não sem Rafe! — falei.
— Ele vai estar aqui. Pule!
A jangada ficou estremecida com as cordas que a prendiam à margem do rio. Orrin cutucou-me e nós dois pulamos.
— Fique abaixada! — disse-me Tavish, que me mandou segurar uma das cordas cheia de nós para me manter firme.
A jangada era arremessada e rolava, até mesmo nas águas mais calmas perto da costa. Fiquei abaixada como Tavish me ordenara, agarrando a corda para me estabilizar. Até mesmo em meio à névoa, eu podia ver os altos penhascos acima de nós, com guardas e soldados atravessando os caminhos que davam para baixo. Eles pareciam multiplicar-se como insetos febris determinados como um enxame vindo para cima de nós. Para todas as partes onde olhávamos, víamos mais deles chegando. Eles também nos avistaram, e flechas começaram a voar, mas elas erraram o alvo e foram parar na costa. Jeb e Obraun chegaram e pularam para baixo conosco.
— Rafe está vindo! — disse Jeb. — Preparem-se para erguer as amarras! — o ombro dele estava ferido, e o sangue ensopava o braço de Obraun. Orrin e Tavish esticaram as mãos para pegar as cordas que estavam prendendo a jangada.
— Ainda não! — falei. — Esperem! Esperem até que ele esteja aqui!
Os soldados que vinham se arrastando, descendo pela parede de rochas até o rio, estavam se aproximando, suas flechas caindo perigosamente perto de nós, mas, de repente, flechas começaram a voar na outra direção deles. Eu me virei e vi Orrin soltando uma explosão de flechas. Soldados caíam de veios. Orrin conseguiu diminuir o ataque deles, mas sempre havia mais para substituir os homens que ele derrubava.
Nós ouvimos um grito aterrorizante em meio à névoa e cada gota do meu sangue fervia com o medo. Eu vi quando Jeb e Obraun trocaram um ansioso olhar de relance.
— Solte as cordas — ordenou Obraun.
— Não! — gritei.
Mas logo Rafe irrompeu em meio ao nevoeiro e vinha correndo na nossa direção.
— Vão! — ele gritou, e Tavish soltou as cordas.
Uma potente explosão criou ondas no ar. Rafe deu um pulo para a jangada enquanto esta já estava se afastando da costa, mal cruzando a extensão até ela, e seguiu-se uma chuva de pedaços de rocha ao nosso redor. Ele agarrou a corda cheia de nós que empurrei para a sua mão.
— Isso deve manter a ponte fora de operação por pelo menos um mês — disse ele. Era mais do que eu havia esperado de um pequeno frasco de liquido límpido.
Fomos rapidamente varridos para a correnteza, e a jangada era lançada e dava pulos nas águas violentas. Com tanto Obraun quanto Jeb machucados, Tavish e Orrin assumiram o leme e, de alguma forma, conseguiram conduzir os barris que subiam e desciam pela correnteza traiçoeira, para longe da costa. No entanto, nós ainda não estávamos longe o bastante. Avistei Malich empoleirado em um penedo, facilmente ao alcance. Ah, pelo amor dos deuses. O que será que havia acontecido com Kaden?
O arco de Malich estava carregado e mirava as costas de Rafe. Pulei para frente para empurrar Rafe para baixo enquanto a jangada girava em um pequeno redemoinho e fui jogada para o lado. Uma dor ardente assolou minha coxa. Mesmo em meio ao violento sacolejo da jangada, vi o sorriso de Malich. Não era em Rafe que ele estava mirando. Era em mim.
— Lia! — gritou Rafe, e veio na minha direção, mas não antes de outra flecha acertar as minhas costas.
Aquilo ardia como se fosse uma brasa reluzente causticando a minha carne. Eu não conseguia respirar. A mão de Rafe segurou meu braço, mas eu ainda fui cambaleando para trás enquanto a jangada rolava e era lançada para cima. Mergulhei na água gélida. A mão de Rafe continuou firme, ferozmente afundando no meu braço, mas a correnteza era forte, e o meu vestido pesado rapidamente ficou mais pesado ainda com a água, como se uma âncora estivesse me puxando para baixo. Tentei chutar o vestido para longe, mas ele formava círculos envolta das minhas pernas, prendendo-as tão fortemente quanto uma corda. O rio era entorpecedor e selvagem, com a água vindo com tudo para cima do meu rosto, fazendo com que eu me engasgasse, e a correnteza era demais para a pegada de Rafe. O tecido da manga de meu vestido começou a rasgar e a soltar-se. Tentei levantar o outro braço, mas ele não se mexia, como se a flecha estivesse presa na lateral de meu corpo. Quatro mãos estavam lutando para segurar meu braço e meu ombro, tentando me segurar melhor no selvagem rodopio da água, mas, então, uma rápida sucção de água jorrando me soltou deles. Fui varrida para as águas gélidas, para longe da jangada. Rafe pulou no rio atrás de mim.
Nós caímos em meio à correnteza, com ele esticando os braços para mim repetidas vezes, mas sendo puxados para longe tantas vezes também, com a água cobrindo nossas cabeças, os dois arfando, tentando respirar, a jangada em nenhum lugar à vista. Ele conseguiu, por fim, me segurar, com o braço circundando a minha cintura, tentando, freneticamente, rasgar o vestido.
— Aguente firme, Lia.
— Eu amo você — gritei, mesmo enquanto me engasgava com a água. Se aquelas fossem as últimas palavras que ele ouviria de mim, queria que fossem estas.
E então senti que deslizávamos, caindo, o mundo girando de cabeça para baixo, e o perdi de vista, perdi tudo de vista, com o maldito vestido que o Komizar me havia feito colocar, me sugando para baixo como se o próprio Komizar estive me puxando de sob as águas, ficando com a última palavra, até que, por fim, eu não conseguia mais lugar com seu peso, e meu mundo gélido ficou preto.

9 comentários:

  1. Kaden! Pelo Anjo, o que você fez Lia? 😱😨😭

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  2. Cade Griz? E Kaden? Mdsa!!!!

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  3. Aquela nascida do infortúnio,
    Aquela que era fraca,
    Aquela que era caçada,
    Aquela marcada com a garra e a vinha,
    Aquela nomeada em segredo,
    Aquela chamada Jezelia.

    Estou pensando que lia pode ser irmã de kaden, aquela nascida do infortúnio

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  4. E a estrela Aster caiu na terra... E destruiu tudo...

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  5. AHHHHH CARA QUE LIVRO É ESSE!!!!?????!!!?!

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  6. sei naum pra mim kadim é filho do tal mestre do tempo ou do vice regente de Morhingan

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  7. N teve meu capitulo do Komizar
    E QUE MERDA FOI ESTA??????????
    EU TO... SCR

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Boa leitura, E SEM SPOILER!