20 de fevereiro de 2018

Capítulo 62

Nós três nos sentamos lado a lado, encostadas na parede de pedra. Imaginei que elas fitavam o vácuo negro, exatamente como eu. Fiquei grata por não poder ver o rosto de Pauline enquanto ela contava sobre a traição. Sua voz ainda estava cheia de descrença e tremia de um jeito baixo e perigoso entre a miséria e a fúria fria. Logo quando achei que Pauline fosse quebrar, uma terrível quietude rugia nela, quietude esta que era selvagem e pungente e que estava sedenta por vingança.
Gwyneth me disse que, antes de as duas serem pegas, ela ouvira Pauline chamando-a do pórtico da cabana. Ela tinha olhado para fora da janela e, quando vira os soldados chegando, envolvera o bebê em um cobertor e o deitara debaixo da cama, onde não seria visto.
A voz de Pauline ficara fria e temerosa de novo.
— Kaden vai encontrá-lo, com certeza. Você acha que ele vai encontrar o meu bebê, Lia?
Gwyneth já tinha garantido a ela que Kaden ouviria o bebê chorando quando voltasse. Comecei a acrescentar a minha própria afirmação quando Pauline esticou a mão para pegar na minha e sentiu como ela estava cheia de sangue. Gemi com o toque dela.
— Meus deuses, o que foi que aconteceu?
Nós nos abraçáramos quando elas foram jogadas na sala; porém, na escuridão, Gwyneth não tinha visto a minha mão.
Eu já havia explicado o encontro que tive com o meu pai e, depois, com o Chanceler e os guardas que me arrastaram até aqui, mas agora contei a elas sobre o meu desafortunado encontro com Malich e a flecha.
Pauline ficou horrorizada e na mesma hora começou a rasgar uma faixa da parte de baixo da saia para fazer uma bandagem. Gwyneth se levantou e foi tateando o caminho pelos cantos da sala e, quando encontrou um punhado de teias de aranha, cambaleou até mim e envolveu minha mão com as teias. Embora o Médico da Corte desaprovasse altamente tais remédios caseiros, isso ajudava a diminuir o fluxo de sangue constante.
— Foi difícil? — perguntou-me Pauline. — Matá-lo?
— Não — respondi.
Foi fácil. Será que isso me tornava um pouco mais do que um animal? Era assim que eu me sentia agora, como se fosse um nó de dentes e garras pronto para matar qualquer coisa que cruzasse a porta.
— Como eu gostaria de ter uma flecha na mão quando Mikael entrou e apontou para nós. — Pauline imitou a voz dele enquanto repetia as palavras do soldado. — “Era meu dever entregar você”, disse ele. “Eu sou um soldado, e você é uma criminosa procurada pelo reino. Eu não tive outra escolha.” — Ela prendeu a bandagem. — Dever! Quando eu vi o magistrado jogar a ele um saco de moedas, Mikael deu de ombros, como se não soubesse da recompensa.
— Como ele sabia que você estava na cabana do caseiro? — perguntei.
— Receio que ele me conheça bem melhor do que eu o conheço. Acho que ele me seguiu até a estalagem e alertou o Chanceler. Quando Mikael não me encontrou lá, pensou em outro lugar onde eu poderia ir. A cabana era o lugar que nós usávamos para... — Ela soltou um suspiro e não terminou o pensamento. E não precisava fazer isso.
— E eu fui simplesmente o bônus extra na barganha toda — disse Gwyneth, em um tom alegre. — Esperem até o Chanceler descobrir que estou envolvida nisso. Aí as coisas vão ficar feias. Aprendi faz um bom tempo o quão deleitosamente cruel ele é capaz de ser. — E então, pela primeira vez, ela se abriu em relação a Simone. Talvez, quando se está prestes a morrer, os segredos não pareçam mais tão importantes. Ela soltou um suspiro com ar de desgosto que eu achava que era dirigido a si mesma. — Eu tinha dezenove anos quando o conheci. Ele era mais velho, poderoso, e me banhava com afeto. Eu o achava charmoso, mesmo que soubesse que ele era perigoso em algum nível. Eu achava isso excitante em comparação com a minha vida tediosa como arrumadeira em Graceport. Ele usava roupas caras e falava da forma correta, isso fazia com que eu me sentisse como se, de alguma forma, eu fosse tão importante quanto ele. Passei informações a ele por quase um ano. Por causa do porto, muitos lordes e mercadores ricos frequentavam a estalagem. Foi só quando dois clientes regulares da estalagem sobre os quais eu tinha dado informações a ele apareceram mortos nas suas camas que entendi o quão perigoso ele era. O Chanceler me disse que eles tinham se tornado um peso morto. Tudo que eu pensava ser excitante em relação a ele de repente se tornou aterrorizante.
Ela falou que, àquela altura, já estava grávida. Inventou uma história para ele de que encontrara um emprego em outro lugar e teria dito ou feito qualquer coisa para que com o bebê ficasse longe dele. Ele não tentou impedi-la de ir embora. O Chanceler não estava feliz em relação à criança, e ela ainda estava com medo de que ele pudesse fazer alguma coisa a ela ou ao bebê. Gwyneth permaneceu com Simone por apenas uns poucos meses. Ficara sem fundos, não tinha ninguém a quem se voltar e estava preocupada com a possibilidade de que o Chanceler pudesse rastreá-la. Passando por Terravin, ela avistou um casal mais velho que assistiam algumas crianças na praça. Ficou sabendo que eles não tiveram filhos e acompanhou-os até um lar, que era arrumadinho e limpo.
— Eles tinham até mesmo gerânios vermelhos nos peitoris das suas janelas. Segurei Simone nos meus braços por duas horas, com o olhar fixo naquelas flores. Eu sabia que eles dariam bons pais. — Ela fez uma pausa, e ouvi um som como se Gwyneth estivesse limpando as lágrimas das bochechas. — Depois que a deixei lá, não voltei a Terravin durante mais de dois anos. Eu ainda tinha medo de que alguém fosse fazer a conexão entre nós, mas não se passava um dia sem que eu pensasse nela. Eles são boas pessoas. Nós nunca falamos sobre isso, acho que eles não querem fazer isso, mas os dois sabem quem eu sou e abrem um espaço para mim na vida deles. Ela está feliz e é uma menininha tão doce. Bem diferente de mim, graças aos deuses. E bem diferente dele. — A voz dela se partiu como se Gwyneth soubesse que nunca veria a filha de novo. Ouvir aquela mulher, que parecia ser feita de aço, se desfazer era uma coisa que espremia o ar no meu peito.
— Pare com isso! — falei. — Nós vamos sair daqui.
— Diabos, pode ter certeza que sim! — grunhiu Pauline.
Eu e Gwyneth sugamos o ar, alarmadas, e depois demos risada. Visualizei Pauline segurando uma flecha no punho fechado com o nome de Mikael entalhado nela. Gwyneth esticou a mão e segurou a minha mão boa. Pendurei a outra sobre o ombro de Pauline e puxei-a para perto de mim. Nós nos apoiamos uma na outra, com os braços enrolados um no outro, testa com bochecha, queixo com ombro, lágrimas e força nos unindo.
— Nós vamos sair daqui — sussurrei mais uma vez. E então partilhamos do silêncio, sabendo o que estava por vir.
Gwyneth recuou primeiro, voltando para a parede.
— O que não consigo entender é por que não estamos mortas ainda. O que eles estão esperando?
— Confirmação — falei. — O conclave está reunido em sessão, e alguém que é um fator decisivo nesta pequena conspiração está ocupado com outra coisa. Talvez seja o Erudito Real.
— O conclave faz uma pausa para refeição ao meio-dia — disse Pauline.
— Então nós temos até o meio-dia — respondi.
Ou talvez mais tempo se meu plano reserva funcionasse. Porém, conforme todos os minutos se passavam e eu ouvia o som dos sinos da abadia tocando, ficava cada vez mais certa de que o plano tinha sido frustrado também.
Minha raiva foi às alturas. Eu deveria ter esfaqueado o Komizar de novo. Rasgado o Komizar como se ele fosse um porco em um feriado, e então trazido a sua cabeça de volta, espetada em uma espada, e mostrado isso às multidões como prova de que eu não sentia qualquer amor pelo tirano.
— Por que eles acreditaram nas mentiras? — perguntei. — Como um reino inteiro pôde acreditar que eu me casaria com o Komizar e trairia uma companhia de soldados, incluindo o meu próprio irmão?
Gwyneth soltou um suspiro.
— Eles foram feridos até a alma — disse ela — estavam em luto, sofrendo e desesperados. Trinta e três dos seus melhores homens estavam mortos, e o Chanceler veio à frente e deu a eles uma saída fácil para a fúria: um rosto e um nome de quem eles já sabiam que tinha virado as costas para Morrighan uma vez. Foi fácil para eles acreditarem nisso.
No entanto, se eu não tivesse fugido, nunca teria descoberto os planos do Komizar... nem teria ficado sabendo dos traidores. Eu estaria vivendo abençoadamente em outro reino com Rafe, pelo menos até o Komizar voltar a sua atenção para Dalbreck. E os jovens vendanos que mal eram grandes o bastante para erguer uma espada obteriam o pior disso tudo, servindo de cordeiros de sacrifício que o Komizar colocaria nas linhas de frente, provavelmente para irromperem tempestivamente pelos portões da cidade. Ele usaria as crianças para cutucar as consciências dos soldados morrigheses. Nem meus irmãos, nem os companheiros deles atacariam e derrubariam uma criança. Eles segurariam suas armas, hesitariam, e então o Komizar entraria com seu arsenal de destruição.
Pauline colocou gentilmente a mão na minha coxa.
— Mas não foi todo mundo que acreditou nas mentiras. Bryn e Regan não acreditaram em uma palavra que fosse disso tudo.
Talvez fosse por esse motivo que eles estavam a caminho da morte agora. Eles tinham feito perguntas demais.

* * *

Nós ficamos sentadas no escuro, cada uma de nós perdida nos seus próprios pensamentos, minha cabeça latejando em sincronia com o coração, o estranho formigamento das teias de aranha na minha pele subindo pelo meu braço como se fossem mil aranhas minúsculas. Um remédio caseiro. Alguma coisa que o Médico da Corte nunca usaria. Não por si só.
A negritude espiralava-se na minha frente, e as mil aranhas minúsculas tornaram-se um campo de flores douradas. Uma face se erguia em meio às flores, calma e segura. Ele nunca me perguntou sobre o dom porque ele sabia que eu o tinha. Era isso o que fizera com que ele sentisse medo de mim o tempo todo. Ela haverá de expor os perversos. E vi um amplo continente de reinos, cada um deles com os próprios dons únicos, a face recuando, e os campos de flores ondulando à brisa até que se tornaram aranhas de novo, repousando na palma da minha mão.
A porta se abriu e ficamos cegas com a luz repentina. Ouvi o arrogante suspiro do Chanceler antes de vê-lo.
— Gwyneth — disse ele, pronunciando nome dela com a fala arrastada, com um desapontamento exagerado — achei que você fosse mais esperta do que isso. — Ele deu um estalo com a língua. — Conspirando com inimigos.
Gwyneth desferiu a ele um olhar secante e fixo, ao qual o homem respondeu com um sorriso. Então os olhos dele encontraram os meus. Eu me pus de pé e fui mancando até ele, que resistiu e não recuou, sem querer mostrar qualquer medo. Afinal de contas, eu estava machucada, desarmada e, além de tudo, era uma prisioneira. No entanto, vi um breve tremeluzir nos olhos dele, uma batida de dúvida no seu coração, e isso confirmava que ele tinha lido a Canção de Venda. Ela haverá de expor os perversos. E se eu fizesse isso?
Ele olhou para a minha mão ensanguentada com a bandagem. Eu não parecia tão poderosa agora. Era apenas o incômodo que sempre o atormentara, alguém com um nome que ele não conseguia explicar, mas não era uma ameaça. A pequena dúvida que corroía desapareceu.
— Não faça isso, lorde Chanceler — falei. — Não mate os meus irmãos.
Uma bufada de ar cheia de satisfação escapou dos lábios dele.
— Então foi isso o que finalmente fez você ir correndo até o seu pai.
— Se o meu pai morrer...
— Você quer dizer quando o seu pai morrer. Mas eu não me preocuparia com isso, pois não acontecerá tão cedo quanto a sua morte. Nós precisamos dele um pouco mais...
— Se você se render agora, pouparei sua vida...
O dorso da mão dele desferiu um golpe, seus dedos cheios de joias encontraram o meu maxilar, e fui tropeçando para junto da parede. Gwyneth e Pauline pularam para a frente.
— Fiquem onde estão! — ordenei a elas.
— Você vai poupar a minha vida? — falou ele em tom de desdém. — Você é insana.
Eu me virei para ficar cara a cara com o homem novamente e sorri.
— Não, Chanceler, eu só queria lhe dar uma chance. Agora a minha obrigação está cumprida. — Por um breve instante, tremeluzi os cílios, como se os próprios deuses estivessem falando comigo.
A dúvida passou pelos olhos dele de novo, como se fosse um animal do qual ele não conseguisse se desvencilhar por completo.
— Tire o seu casaco — ele ordenou.
Fiquei com o olhar fixo no Chanceler, perguntando-me qual seria o seu motivo para isso.
— Faça isso agora — ele grunhiu — ou farei com que eles o tirem para você.
Puxei e tirei o casaco, deixando que caísse no chão.
Ele assentiu para os guardas, e eles me agarraram pelos braços e me viraram de costas para ele. Um dos guardas puxou a minha camisa, rasgando o tecido do meu ombro. O silêncio estirava-se, marcado apenas pelas lentas e contidas respirações dele. Eu poderia sentir o ódio dele ardendo em mim.
Os guardas me soltaram, empurrando-me para frente, e o Chanceler disse:
— Matem-nas. Assim que anoitecer, levem seus corpos para bem longe, fora da cidade, e os queimem. Certifiquem-se de que nenhum traço daquela coisa no ombro dela seja deixado para trás.
Enquanto ele se virava para ir embora, os guardas foram na nossa direção, com finas cordas de seda estiradas entre as mãos, uma forma silenciosa e não sanguinária de se livrar de nós. Mas então se seguiu um som, o ressoar distante de sinos.
— Ouça, Chanceler! — falei rápido, antes que ele pudesse ir embora. — Está ouvindo?
— Os sinos da abadia — disse ele, com raiva e irritação. — E daí?
Sorri.
— É um anúncio. Um anúncio importante do seu escritório, ainda por cima. Não notou que seu selo tinha sumido? As últimas notificações estão sendo postadas. Cidadãos de toda a cidade estão lendo enquanto conversamos aqui. A princesa Arabella foi capturada. Todos os cidadãos estão convidados para o julgamento e o enforcamento dela amanhã de manhã na praça do vilarejo. Seria realmente uma vergonha se você não a apresentasse. Embaraçoso, até. Como você explicaria sua incompetência?
Observei que uma faixa de manchinhas vermelhas se espalhava do pescoço dele para suas bochechas e suas têmporas, como se fossem chamas em um fogo selvagem, fora de controle e consumindo-o.
— Esperem! — disse ele aos guardas, e ordenou que saíssem. A porta foi batida e fechada atrás de todos eles, e ouvi o Chanceler gritando para que os anúncios fossem rasgados, mas era tarde demais. Ele sabia que era tarde demais.
— Muito bem, irmã — disse Gwyneth. — Mas amanhã de manhã? Você não poderia ter adiado o julgamento em uma semana?
— E dar a eles mais tempo para que descobrissem uma maneira de se livrar de nós de uma forma silenciosa? Não. Teremos sorte se durarmos até amanhã de manhã. Eles nunca me dariam uma chance de falar em um julgamento. Tudo o que isso nos compra são umas poucas horas a mais, porém eles vão ficar, no mínimo, frenéticos, e talvez cometam erros idiotas.
Tateei meu caminho ao longo da parede até que meu pé cutucou a perna de Gwyneth.
— Levantem-se — falei. — As duas. Nesse ínterim, preciso mostrar a vocês alguns movimentos que aprendi com um soldado de Dalbreck: formas de matar um homem sem usar uma arma, para quando os guardas voltarem.

7 comentários:

  1. Foda é pouco ela completamente um arraso é um modelo de feminismo além de ser uma grande princesa guerreira que como na rainha vermelha todo mundo pode trair todo mundo ela é topster né pista ela é 1000..... F######d#########

    Mirtiz

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  2. Ela tá muito Aelin nesses capitulos

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    1. Verdade , não consigo deixar de ver a aelin nela.

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  3. Nossa pensei que ele ia chicotoar eles igual fez coma a Aelin.

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  4. Gente desculpa mas quem é Aelin??? To boiando...rsrsrsr! DM

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Boa leitura, E SEM SPOILER!