16 de fevereiro de 2018

Capítulo 62

O vento gemia por entre as fissuras e portas que eram batidas repetidas vezes, e pelas persianas, como se fosse um gigantesco punho cerrado. Deixe-me entrar. Esse era o tipo de tempestade que soava como se nunca fosse ter fim. Estou aqui para você. Isso era a neve. Esse era o inverno.
Duas fogueiras rugiam no Saguão do Sanctum, uma em cada extremidade, mas ventos frios ainda giravam aos nossos pés. Fiquei olhando para ver se via Venda, buscando uma restauração de confiança de que eu não estivesse louca, de que o plano de Rafe de cruzar o rio não fosse a própria insanidade, mas as sombras não passavam disso... sombras.
Rafe estava sentado a apenas alguns assentos de distância de mim, e todos nós esperávamos pela chegada do Komizar e dos Rahtans. Os chievdars berravam entre si, como de costume, mas a ausência dos Rahtans parecia deixar os governadores tensos. Sua intensidade estava reduzida, o que não era costumeiro. Nenhum deles mencionou minha bochecha, mas eu os vi olhando para ela.
— Foram as escadas — finalmente falei, sem pensar, e depois me controlei, repetindo, mais baixo — eu caí das escadas.
Não queria qualquer cena, nem palavras, nada que erguesse a ira dos governadores que tinham sido bondosos comigo. O governador Faiwell desferiu um breve e questionador olhar de relance para mim. As conversas baixas e contidas recomeçaram. O governador Umbrose estava sentado, encarando sua caneca, parecendo levemente triste... ou bêbado. Será que tinham sido as reuniões do Conselho de hoje que haviam abafado suas farras costumeiras? E então nós ouvimos o fraco eco das passadas.
Eu nunca tinha ouvido todos os Rahtans se aproximando, juntos. Havia um ritmo ominoso nos passos deles e um som de dar calafrios nas armas que eles portavam nas laterais de seus corpos. Não era como se eles caminhassem em uníssono, mas sim com um ritmo deliberadamente exigente. Nunca falhar. Foi isso que ouvi.
— O que é isso? — perguntou o Komizar quando eles entraram. — Alguém morreu?
Seguiu-se um esforço para preencher a atmosfera sombria e quieta. Em vez de sentarem-se em grupos, como eles costumavam fazer, os Rahtans dispersaram-se, arrastando assentos entre os governadores. Kaden sentou-se adjacente a mim, e o Komizar sentou-se à minha esquerda. Ele não se deu ao trabalho de me dar um beijo fingido... parecia que seus pensamentos estavam ocupados com outras questões. Ele pediu cerveja e comida, e os criados começaram a trazer travessas para a mesa.
Calantha sentou-se do outro lado da mesa, quase como se ela quisesse distanciar-se de mim e de Rafe. Será que ela já estava se arrependendo dos seus atos? Será que estava vendo o Komizar com os olhos do passado novamente? E, o mais importante de tudo, será que ela iria expor sua transgressão? Talvez ela já tivesse tirado a faca do meu quarto. Eu rezava para que Aster a houvesse escondido bem. Somente quando fosse chegada a hora de eu ir embora é que me atreveria a carregá-la.
A travessa de ossos foi colocada diante de mim para a benção. Eu quase derrubei seu conteúdo enquanto erguia a pesada bandeja.
— Nervosa por causa do casamento, Princesa? — perguntou-me o Komizar.
Usei minha face mais serena.
— Pelo contrário, sher Komizar. Estou ansiosa por amanhã. É só que meus dedos estão dormentes por causa do frio. Eu ainda não me acostumei com o seu clima.
Segurei o sacrifício alvejado acima da minha cabeça enquanto esperava que esta fosse a última vez que fosse fazer isso, e fiquei fitando o teto cheio de fuligem dos Antigos.
Em um instante, vi o céu e as estrelas além dele, um universo que se espalhava amplamente, com uma longa memória... e foi então que ouvi os gritos.
Cruzando o tempo, fraco como sangue rodopiando em um rio, eu ouvi o choro da minha própria mãe. Eles sabiam. A notícia havia chegado até Morrighan. Os filhos deles se foram. O pesar roubou minha força, e achei que meus joelhos fossem ceder.
— Acabe logo com isso — disse o Komizar, com raiva e impaciente, bem baixinho. — Eu estou com fome.
A travessa tremeu nas minhas mãos, e eu queria bater com ela na cabeça dele, com força. Rafe inclinou-se para frente, e eu vi a força nos olhos dele, a contrição, a mensagem: Segure-se, estamos quase lá.
Eu proferi o reconhecimento de sacrifício e, quando coloquei a bandeja de volta na mesa, beijei os dois dedos e ergui-os aos deuses, com os choros da minha mãe ainda ressoando nos meus ouvidos. Estamos quase lá.
O restante da refeição foi rotineira, pelo que fiquei grata.
Cada passo silencioso nos deixava mais próximos de amanhã. Mas estava quase quieto demais.
Kaden mal havia falado uma palavra relevante que fosse durante toda a refeição, mas, quando comecei a me afastar da mesa, ele segurou na minha mão.
— O que foi que você viu, Siarrah?
Esta era a primeira vez em que ele me chamava assim.
O Komizar soltou uma bufada, mas todo mundo à mesa esperava para ouvir a minha resposta.
— O que quer dizer com isso? — perguntei a Kaden.
— Seus cílios tremeram antes da benção. Você ficou ofegante. O que foi que viu?
Pode-se desejar saber das verdades, mas agora não era a hora. Em vez de ser honesta, torci mentiras em algo dourado e glorioso que eu sabia que Kaden queria ouvir. Algo que eu esperava que fosse impedi-lo de buscar a verdade.
Olhei para ele com calidez e sorri.
— Eu vi a mim mesma, Kaden. Aqui. Muitos anos à frente.
Deixei que meu olhar contemplativo se demorasse no dele por mais alguns instantes, e, embora eu não tivesse dito as palavras em voz alta, eu sabia que ele as tinha ouvido: Eu me vi aqui com você.
O alívio brilhava em seus olhos. Forcei a calidez a permanecer na minha face pelo restante da noite, mesmo enquanto a minha mentira se contorcia e se transformava em um nó frio e sombrio dentro de mim.
O Komizar acompanhou-me até meus novos aposentos.
— Creio que você vá achar esta câmara mais quente do que o quarto de Kaden, por onde entra o vento.
— Os aposentos dele estavam ótimos. Por que não me deixar lá, simplesmente?
— Porque os clãs poderiam se perguntar o motivo de você estar enfiando a cabeça para fora em uma janela na torre sul depois do casamento, caso você ainda estivesse fazendo isso, em vez de estar aqui comigo. Nós queremos pelo menos fazer com que este compromisso pareça verdadeiro, não é, minha passarinha? Mas Kaden pode vir visitá-la aqui tarde da noite. Sou um homem generoso.
— Quanta consideração da sua parte — foi a minha resposta. Eu tinha estado nesta torre antes. Era aqui que ficava a câmara de Rafe, mas eu nunca havia estado neste andar. O Komizar conduziu-me até uma porta em frente à dele e abriu-a. A única luz vinha de uma pequena vela que reluzia em cima de uma mesa. A primeira coisa que notei foras as paredes, que pareciam ser bem sólidas.
— Não há qualquer janela aqui — falei.
— Claro que há janelas, mas elas são pequenas, o que ajuda a manter o aposento mais quente. E, veja, há uma bela e grande cama... espaço suficiente para dois, conforme surgir a necessidade.
Ele aproximou-se de mim e acariciou com gentileza minha face, no lugar onde tinha me batido. Seus olhos escuros brilhavam com o poder. Ele parecia invencível, e eu me perguntava o quão difícil seria matá-lo, ou mesmo se isso seria possível. Ouvi a admoestação da minha mãe. Tirar uma outra vida, mesmo que seja uma vida cheia de culpa, nunca deveria ser fácil. Se fosse, nós seríamos pouco mais do que animais.
— Amanhã é o dia do nosso casamento, Princesa — disse ele, e beijou minha bochecha. — Vamos fazer disso um novo começo. — Ninguém havia para testemunhar o que ele fizera agora mesmo, e fiquei me perguntando o que haveria por trás de seu gentil beijo na minha bochecha.
Assim que ele saiu, inspecionei o quarto. Eu achava que as sombras me levariam a alguma coisa, talvez a um armário, mas o espaço confinado era tudo que havia ali. As quatro janelas estavam mais para buracos por onde alguém poderia apenas espiar, tampados com persianas, com uns quinze centímetros de extensão, e o quarto como um todo mal era maior do que a cela de contenção em que ele havia me jogado quando cheguei. O baú e a cama ocupavam a maior parte do espaço. Isso mostrava um compromisso e um novo começo? Eu estava mais para uma ferramenta jogada em um galpão ali perto.
Comecei a procurar em meios as roupas que Aster, Yvet e Zekiah haviam levado até ali. A vela oferecia pouca iluminação, mas eu procurei em todas as dobras e bolsos, comecei a entrar em desespero, achando que Calantha já tinha vindo e pegado a faca de volta. Ela não estava ali. Repassei tudo mais uma vez, na esperança de que em minha pressa eu não a tivesse notado, mas a faca não estava nas minhas roupas nem em qualquer canto do baú. Procurei debaixo do colchão e nada encontrei. Serei cuidadosa e colocarei em um lugar realmente bom. Aster conhecia todos os melhores lugares secretos. Um lugar onde ela tivesse certeza de que...
Fui correndo até o canto oposto, onde havia um urinol em cima de uma banqueta baixa. Ergui a tampa dele e estiquei a mão para dentro do buraco negro, e meus dedos envolveram-se em algo afiado. Aster entendia bem demais os modos do Sanctum.

2 comentários:

  1. Uma fofa a Aster! Amo s2

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  2. Eu tenho pena do kaden todo mundo trai ele.

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Boa leitura! E SEM SPOILER!