2 de fevereiro de 2018

Capítulo 62

Saímos do acampamento antes do nascer do sol. Eles disseram que queriam chegar ao nosso destino bem antes do sol se pôr, sem dar nenhuma outra explicação além disso. Eu só poderia imaginar e me perguntar se algum dos animais selvagens de que Kaden havia falado não eram tão ariscos assim.
Seguimos em caminhada pela parte mais plana do nada, apenas com uma moita desnutrida e um montículo aqui e ali quebrando o vazio infinito. Estávamos viajando pela grama que se esfregava logo dos joelhos dos cavalos havia pouco tempo quando senti meu peito ficar cada vez mais apertado. Um estranho presságio fazia pressão sobre mim. Tentei ignorá-lo. Entretanto, depois de uns três quilômetros, ele se tornou insuportável, e parei meu cavalo, minhas respirações vindo rasas e rápidas. É um modo de confiança. Isso não se tratava apenas da minha apreensão por ser arrastada pelo meio do nada. Eu reconhecia isso como o que realmente era, algo misterioso, mas não mágico. Algo que circulava no ar.
Pela primeira vez na minha vida, eu sabia, com certeza, que se tratava do dom. Ele viera até mim sem ser convocado. Não se tratava apenas de uma visão, nem de ouvir alguma coisa, nem nenhum dos modos como eu escutara o dom ser descrito. Era um saber. Cerrei os olhos, e o medo galopava pelas minhas costelas. Alguma coisa estava errada.
— O que foi agora?
Abri os olhos. Kaden franziu o rosto, como se estivesse cansado do meu jogo.
— Não devemos seguir por este caminho — afirmei.
— Lia...
— Não aceitamos ordens dela — disse Malich, irritado. — Nem damos ouvidos às baboseiras que diz. Ela serve apenas a si mesma.
Griz e Finch olharam para mim com incerteza. Eles esperavam que algo se materializasse e, quando nada aconteceu, estalaram suas rédeas de leve. Continuamos por cerca de um quilômetro e meio em um ritmo mais lento, mas o peso opressivo ficava apenas mais pesado. Minha boca ficou seca, e as palmas das minhas mãos, úmidas. Parei de novo. Eles estavam vários passos à frente de mim quando Griz parou também. Ele se ergueu em sua sela e então gritou “Chizon!”, movendo seu cavalo para a esquerda.
Eben chutou as laterais de seu cavalo, seguindo Griz.
— Debandada! — gritou ele.
— Ao norte! — gritou Kaden para mim.
Eles chicotearam seus cavalos para que entrassem em pleno galope, e eu os acompanhei. Uma nuvem de poeira ergueu-se no leste, trovejante e escura, imensa em sua largura. Se conseguíssemos fugir do que quer que estivesse a caminho, seria por um triz. Aquilo ribombava na nossa direção, furioso e terrível em seu poder. Agora!, pensei. Um punho cerrado socava repetidamente o meu peito. AgoraLia! Seria suicídio dar a volta, mas puxei as rédeas com força. Meu cavalo ergueu-se para trás, e mudei de direção, voltando-me para o sul. Não havia volta. Ou eu conseguiria fugir ou não conseguiria. Na fração de segundos antes de Kaden perceber que eu não estava atrás dele, seria tarde demais para que se virasse e me seguisse.
— ! — gritei. — !
Fiquei observando enquanto o horizonte se desenrolava como uma crescente onda negra. Fui agarrada pelo terror, aquilo estava vindo rápido demais. A paisagem à frente tornou-se um borrão em movimento enquanto corríamos para ganhar da gigantesca nuvem. Avistei uma monte elevado e fui naquela direção, mas ainda assim estava tão distante! O cavalo também sentia o terror. O sentimento pulsava por mim e pelo animal, quente e ofuscante.
— Sevende! Ande! Vamos! — ordenei. Logo não era apenas uma massa única e escura que vinha na nossa direção, mas um retumbante emaranhado de corpos, pernas revolvendo-se e chifres letais. — Iá! — eu gritei. O calor da morte movia-se de forma ameaçadora para cima de nós.
Não vamos conseguir, pensei. Tanto eu quanto o cavalo seríamos esmagados. O rugido se tornou ensurdecedor, sufocando até mesmo os meus gritos. Tudo que eu era capaz de enxergar eram a negritude, a poeira e um fim horrível. A colina. Solo mais alto. E então o trovão ribombou às nossas costas, e eu me preparei para o esmagamento de cascos e o empalar de chifres, mas tudo passou... atrás de nós. Conseguimos. Nós conseguimos! Mantive o cavalo seguindo em frente até que tivesse certeza de que estávamos a uma distância segura, e, uma vez que estávamos em cima da colina, parei.
Virei-me para ver o que era aquela esmagadora massa de cascos e cornos, porque eu ainda não sabia ao certo do que se tratava. A visão tirou meu fôlego. Um amplo fluxo de bisões, dirigindo-se ao leste, até onde eu conseguia ver, passava estrondosamente por nós.
Eles se moviam como uma força letal unificada, mas, enquanto meu coração desacelerava, vi os detalhes dos animais, por si mesmo magníficos. Ombros corcovados imensos, chifres brancos curvados, queixos com barbichas e cabeças de bigornas fluíam por mim. Eles berravam um cântico gemido de guerra. Engoli em seco, pasma, atônita. Era uma visão que eu nunca avistara em Morrighan e que provavelmente nunca veria de novo.
Olhei para os animais em debandada, tentando ver até o outro lado, mas nuvens de poeira obscureciam minha visão. Será que todos os outros tinham conseguido? Pensei em Eben e na perna delicada de seu cavalo. No entanto, se eu conseguira sair dessa em segurança, eles com certeza conseguiram também.
Não demoraria muito para que os bisões que nos separavam se fossem e Kaden se tornaria aquele que estaria investindo contra mim. Virei meu cavalo e desapareci colina acima, ampliando a divisão entre nós.

4 comentários:

  1. Isso garota fogeeeeeee que o Rafe vai te encontarr😍😍😍

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  2. Ahhhhh quando ela foi em direção oposta eu geleeeeeei. MALUCO. SE ELES ENCONTRAREM ELA, MDS.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!