2 de fevereiro de 2018

Capítulo 61

KADEN

Nós paramos no meio do dia em uma rasa cavidade nas rochas na qual se concentrava a água das chuvas para enchermos nossos cantis e dar água aos cavalos. Lia caminhava ao longo do leito seco de um riacho que antigamente alimentava o lugar, dizendo que queria esticar as pernas. Ela ficara calada a manhã toda, não do jeito raivoso que eu poderia esperar dela, mas de uma outra maneira, que eu achava ainda mais preocupante.
Eu a segui, observando-a parar para pegar uma pedra e virá-la. Ela examinou sua cor e depois a deixou rolar pelo riacho seco, como se a visualizasse quicando pela água.
— Três vezes — eu disse, imaginando a cena junto a ela. — Nada mal.
— Já fui bem melhor nisso — foi sua resposta, erguendo os dedos cobertos por bandagens.
Ela parou para arrastar sua bota em um trecho arenoso, notando o brilho dourado da areia. Lia estreitou os olhos.
— Dizem que os Antigos extraíam metais mais preciosos do que ouro do centro da terra... metais que transformavam em gigantescas asas enlaçadas que os levava voando até as estrelas e os trazia de volta.
— É isso que você faria com asas? — perguntei a ela.
Lia balançou a cabeça em negativa.
— Não. Eu voaria até as estrelas, mas nunca voltaria. — Ela pegou um punhado da areia brilhante e deixou que escapasse por seu punho cerrado até o chão, como se estivesse tentando capturar um vislumbre de sua magia oculta.
— Você acredita em todas as histórias fantasiosas que escuta? — perguntei.
Dei um passo mais para perto dela e fechei a mão com gentileza em volta do punho cerrado dela, com a cálida areia lentamente escapando por entre nossos dedos.
Ela ficou com o olhar fixo na minha mão que segurava a dela, mas então seu olhar contemplativo gradualmente se ergueu para encontrar o meu.
— Não em todas as histórias — disse ela, baixinho. — Quando Gwyneth me disse que havia um assassino no meu encalço, não acreditei nela. Imagino que deveria ter acreditado.
Por um breve instante, cerrei os olhos, desejando que pudesse ter me refreado e não ter feito essa pergunta. Quando abri os olhos novamente, ela ainda me encarava. Os últimos grãos de areia deslizavam de nossos punhos cerrados.
— Lia...
— Quando foi, Kaden, que você decidiu não me matar?
A voz dela ainda era regular, calma. Genuína. Ela realmente queria saber, e ainda estava com sua mão junto da minha. Era quase como se houvesse esquecido de que estava ali.
Eu queria mentir, dizer a ela que nunca havia planejado matá-la, convencê-la de que nunca tinha matado ninguém, retomar minha vida toda e reescrevê-la com falsas palavras, mentir para ela da forma que já havia feito centenas de vezes antes, mas seu olhar contemplativo permanecia fixo, analisando-me.
— Na noite antes de você partir — falei. — Eu estava na sua cabana, parado ao lado da sua cama enquanto você dormia... observando a pulsação da sua garganta com uma faca na minha mão. Fiquei lá por mais tempo do que precisava ficar, e, por fim, coloquei a faca de volta na bainha... Foi então que decidi.
Os cílios dela mal tremulavam, e sua expressão nada revelava.
— Não foi quando eu coloquei bandagens em seu ombro? — ela me perguntou. — Não foi quando dançamos? Não foi quando...?
— Não. Foi naquele momento.
Ela assentiu e, devagar, puxou sua mão fechada da minha. Ela limpou os traços remanescentes de areia da mão.
— Sevende! — gritou Finch. — Os cavalos estão prontos!
— Estou indo — gritei em resposta, e soltei um suspiro. — Ele está ansioso para chegar em casa.
— Não estamos todos? — foi a resposta dela. A irritação havia voltado à voz de Lia. Ela se virou e voltou andando até seu cavalo, e, embora não tivesse dito, senti que, talvez daquela vez, ela havia desejado que eu mentisse.

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