16 de fevereiro de 2018

Capítulo 60

PAULINE

Nós estávamos esperando por Bryn e Regan na beirada da praça da cidadela, às sombras do abeto que se erguia no céu, quando um soldado passou por nós galopando selvagemente. Ele caiu de seu cavalo aos pés dos degraus, parecendo estar quase morto. Um sentinela foi correndo até o lado dele, e o soldado disse umas poucas palavras que estávamos longe demais para ouvir, e então faleceu. O sentinela desapareceu pela cidadela enquanto dois guardas erguiam o soldado e carregavam-no para dentro.
Uma multidão começou a reunir-se quando se espalhou o que havia acontecido com o soldado. Ele havia sido identificado como um membro do pelotão de Walther, minutos passaram-se, e depois, uma hora, ainda não havia qualquer sinal de Bryn ou Regan.
No momento em que alguém surgiu da cidadela novamente, a praça estava cheia. O lorde Vice-Regente saiu e ficou parado no topo dos degraus, com o rosto aflito. Ele alisou seus cabelos de um loiro-branco para trás como se estivesse tentando se recompor, ou talvez desejando adiar o que tinha a dizer. Sua voz ficou partida em suas primeiras palavras, mas então ele reuniu sua força e anunciou que o príncipe Walther da Coroa de Morrighan estava morto, juntamente com seu pelotão, assassinado pelos bárbaros.
Meus joelhos ficaram enfraquecidos, e Berdi agarrou meu braço.
O silêncio sufocou a multidão por um instante, e depois, mãe depois de mãe, pai, esposa, irmão, todos eles prostraram-se de joelhos. O ar ficou carregado de seus lamentos cheios de agonia, e então a rainha apareceu nos degraus, mais magra do que eu me lembrava, o rosto pálido, cinzento. Ela entrou no meio da multidão e chorou junto com eles. O Vice-Regente tentou lhe oferecer conforto, mas nada a consolaria, nem ninguém.
Por fim eu vi os irmãos surgirem no topo dos degraus. As expressões em seus rostos eram amargas, seus olhos, ocos. Não havia qualquer sinal do rei, mas, então, o Chanceler apareceu nos calcanhares deles. Tanto eu quanto Gwyneth puxamos nossos capuzes para nos certificarmos de que estávamos totalmente cobertas. O rosto do Chanceler não estava cheio de aflição, mas severo. Ele disse que havia outras más notícias que ele tinha que partilhar, notícias estas que tornariam seu pesar duas vezes mais duro de suportar.
— Nós temos notícias da princesa Arabella. — Um silêncio recaiu sobre todos e soluços mesclados com choros foram contidos enquanto todo mundo esperava para ouvir o que havia acontecido com ela. — Quando evadiu ao seu dever como Primeira Filha, a princesa colocou a todos nós em perigo, e vemos o fruto dessa traição com a morte do príncipe Walther e de 32 dos nossos melhores soldados. Agora temos notícias de que a traição dela vai ainda mais fundo. Ela está criando uma nova aliança com o inimigo, o que fazia parte do plano dela o tempo todo. Ela nos abandonou e anunciou seus planos de casar-se com o regente bárbaro para tornar-se a Rainha de Venda.
A praça inteira suspendeu a respiração. Descrença. Não, isso não era possível. No entanto, eu olhei para Bryn e Regan. Parados, em pé, como estátuas, eles não fizeram qualquer tentativa de defender sua irmã nem de desacreditar o Chanceler.
— Fica declarado — prosseguiu ele — que, deste momento em diante, ela é a infame inimiga do Reino de Morrighan. O nome dela será removido de todos os registros e, se os deuses algum dia a entregarem em nossas mãos, ela será executada imediatamente, por seus crimes contra os Remanescentes escolhidos.
Eu não conseguia respirar. Isso não era possível.
Regan fez contato visual comigo por fim, mas seu olhar estava vazio. Ele não fez o menor esforço para mostrar que não acreditava naquilo. Bryn deixou a cabeça pender e virou-se, voltando para a cidadela. Regan foi atrás dele.
Eles estavam sofrendo com o luto e o pesar por Walther. Tinha que ser isso. Com certeza, em seus corações, eles sabiam que era mentira. Lia fora sequestrada. Eu mesma havia contado isso a eles. Eu sei o que vi e ouvi.
Voltamos para nossa estalagem em silêncio, chocadas.
— Ela não faria isso — falei, por fim. — Lia nunca uniria forças ao inimigo contra Morrighan. Nunca.
— Sei disso — falou Berdi.
Senti uma cãibra no abdômen e curvei-me para a frente, apertando-me com força. Berdi e Gwyneth estavam de imediato ao meu lado, segurando-me para se acaso eu fosse cair.
— O bebê só está se esticando — falei, e inspirei fundo, para me acalmar.
— Vamos levar você de volta para a estalagem — disse Gwyneth. — Vamos solucionar esse problema em relação a Lia. Tem que haver alguma explicação para isso.
A cãibra aliviou, e eu me endireitei. Eu ainda tinha dois meses pela frente. Não venha antes da hora, criança. Não estou preparada.
— Você precisa descansar? — perguntou-me Berdi. — Nós podemos parar nessa taverna e arrumar alguma coisa para você comer.
Olhei para a taverna ali perto. Era tentador, mas eu só queria voltar para...
Fiquei paralisada.
— Qual o problema? — perguntou-me Gwyneth.
Alguma coisa chamou a minha atenção. Dispensei a ajuda delas e fui me aproximando mais da taverna, tentando ver melhor pela janela.
Pisquei, tentando me focar de novo, repetidas vezes. Ele está morto.
Lia havia me dito isso. Ouvi as palavras dela tão claramente quanto como se ela tivesse as falando para mim agora. Ela havia ficado com o olhar fixo voltado para seus pés, e suas palavras haviam saído correndo, juntas, em um conjunto nervoso. A patrulha dele sofreu uma emboscada. O capitão da guarda o enterrou em um campo distante. As últimas palavras dele foram sobre você: ... diga a Pauline que eu a amo. Ele está morto, Pauline. Ele está morto. Ele não vai voltar.
Mas ela desviara rapidamente os olhos dos meus repetidas vezes. Lia havia mentido para mim. Porque ali estava ele, claro como o dia. Mikael estava sentado na taverna, com uma cerveja ale em um dos joelhos e uma moça no outro. O mundo girou, e estiquei a mão para o poste de uma lanterna para equilibrar-me. Eu não sabia ao certo o que havia me atingido com mais dureza, se fora o fato de que Mikael estava vivo e bem ou se fora porque Lia, em quem eu confiava como se fosse minha irmã, havia me enganado tão completamente.
Berdi estava ao meu lado, segurando o meu braço.
— Você quer entrar? — ela me perguntou.
Gwyneth também estava ali, mas ela estava olhando pela janela onde eu ainda tinha o meu olhar fixo.
— Não — disse ela rapidamente. — Ela não quer entrar. Não agora.
E Gwyneth estava certa. Eu sabia onde encontrá-lo quando estivesse preparada, mas não estava preparada agora.

7 comentários:

  1. Ah, eu tinha esperado por esse momento.

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  2. Kaden é filho do Vice-Regente
    Mano do céu,pobre Pauline 🙁 a Lia só queria proteger vc
    Mais eu ainda acho que ela deveria ter contado a verdade a ela

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  3. Genteeeee, que babado. Tbm acho que o vice-regente é o pai do Kadem.
    Pauline tinha que dar umas boas porradas nesse cretino, so pra descontrair kkkk

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  4. Acho que Kaden pode ser filho do Chanceler.

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  5. Eu esperei por esse momento ²

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  6. Também acho que ele é filho do chanceler.

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  7. "Ele alisou seus cabelos de um loiro branco para trás".
    Kaden é filho do Vice regente certeza.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!