2 de fevereiro de 2018

Capítulo 60

Eu me levantei cedo, na esperança de tomar uma xícara quente de chá de chicory antes que Malich se mexesse em sua tenda. Eu não tinha dormido bem, o que não era nenhuma surpresa. Acordei alarmada várias vezes durante a noite depois de ver o olhar fixo de uma marionete com as juntas ensanguentadas e então, enquanto eu pairava sobre ela, a face se transformava na de Greta.
Aqueles sonhos foram substituídos por outros que tive com Rafe logo que nos conhecemos, vislumbres parciais do rosto dele dissolvendo-se como um espectro em meio a ruínas, floresta, fogo e água. E então ouvi a voz novamente, a mesma que ouvira lá em Terravin e que tinha pensado se tratar apenas de mais alguém entoando uma memória sagrada. No recanto mais longínquo, eu encontrarei vocêSó que, dessa vez, eu sabia que a voz era de Rafe.
No entanto, piores foram os sonhos em que Eben caminhava na minha direção com o rosto cheio de sangue e um machado no peito. Eu gritei, acordando, sugando o ar com a palavra inocentes ainda na minha língua. Acostume-se a isso.
Eu nunca me acostumaria. Será que Kaden estava me enchendo com mais mentiras? Ardis pareciam ser tudo que ele conhecia. Quando acordei, pela manhã, senti como se tivesse lutado com demônios a noite toda.
Os pássaros da floresta estavam apenas começando a emitir seus sons na luz dos momentos que antecediam a alvorada quando saí da carvachi, por isso fiquei surpresa ao ver que meus depravados companheiros vendanos já estavam todos sentados em volta da fogueira. Consegui evitar ficar ofegante quando os vi, mas todos pareciam ter lutado com um leão. Os arranhões ficaram mais escuros com a virada da noite e agora eram como chicotadas raivosas e sangrentas marcando as carnes deles. Malich era o que estava em pior estado, com seu rosto mutilado e a pele debaixo de seu olho esquerdo reluzente, azul e vermelha onde eu o havia socado, mas até mesmo Griz tinha um talho cruzando o nariz, e um dos braços de Finch estava cheio de traços. Malich me olhou feio enquanto me aproximava deles, e Kaden inclinou-se para a frente, pronto para intervir se necessário.
Ninguém disse nada, mas eu estava ciente de que eles me observavam enquanto eu segurava, desajeitada, uma xícara para ser enchida com o conteúdo do bule. Eu ia levar o chá até a grande tenda para evitar a companhia deles, mas, quando me virei e vi o olhar de ódio de Malich, pensei duas vezes: se eu recuasse agora, Malich acharia que tenho medo dele, e isso só colocaria mais lenha na fogueira. Além disso, eu tinha chicory fumegante que podia jogar em sua face mutilada se ele desse um passo na minha direção.
— Acredito que vocês tenham dormido bem — disse, mantendo meu tom de voz deliberadamente leve. Respondi ao olhar de ódio de Malich com um largo e forçado sorriso.
— Sim, dormimos — Kaden respondeu rapidamente.
— Lamento ouvir isso. — Sorvi um gole do meu chá chicory e notei que Eben não estava presente. — Eben ainda está dormindo?
— Não — disse Kaden. — Ele está preparando os cavalos.
— Preparando os cavalos? Por quê?
— Nós vamos embora hoje.
O chá de chicory escorreu da minha xícara, e metade do líquido caiu no chão.
— Você disse que não partiríamos antes de três dias.
Finch riu e esfregou seu braço arranhado.
— Você acha que ele ia contar a você quando realmente iríamos embora? — ele indagou. — Para que pudesse sair sorrateiramente antes disso?
— Ela é uma princesa — disse Malich. — E todos nós somos ogros idiotas. É claro que foi o que ela pensou.
Olhei para Kaden, que permaneceu em silêncio.
— Coma alguma coisa e pegue suas coisas da carvachi de Reena — disse ele. — Vamos embora dentro de uma hora.
Malich sorriu.
— Isso é avisar antecipadamente o bastante para você, Princesa?

* * *

Kaden me analisava em um silêncio pétreo, não se importando se eu me atrapalhava com os dedos cobertos por bandagens enquanto reunia meus poucos pertences. Ele sabia exatamente onde eu guardava a bolsa de comida que vinha juntando para minha fuga, com pedacinhos de bolos de sálvia, bolas de queijo de cabra enroladas em sal e gaze e batatas e nabos que tinha pilhado dos suprimentos dos nômades. Ele apanhou a bolsa debaixo da cama de Reena sem emitir nenhuma palavra e foi colocá-la nos cavalos junto com os outros mantimentos, deixando-me para enfiar meus últimos itens em meu alforje.
Dihara entrou na carvachi e me deu um pequeno frasco de bálsamo para os dedos e um pouco de erva chiga para o caso de eu sentir mais dor.
— Espere — falei, enquanto ela se virava para ir embora. Joguei para trás a aba do meu alforje e tirei de lá a caixa de ouro incrustada de joias que eu roubara do Erudito. Tirei os livros do interior e os coloquei de volta à bolsa. Entreguei a caixa a ela. — No inverno, quando se viaja em direção ao sul, há cidades nos Reinos Menores onde se pode encontrar livros e professores. Isso deve pagar por muitos deles para vocês. Nunca é tarde para aprender um outro dom. Pelo bem das crianças, ao menos. — Empurrei a caixa nas mãos dela. — Como você disse, é bom ter muitas forças.
Ela assentiu e colocou a caixa em cima da cama. Ergueu as mãos e segurou meu rosto com gentileza.
— Ascente cha ores ri vé breazza. — Ela se inclinou para perto de mim, pressionando a bochecha na minha e sussurrou: — Zsu viktara.
Quando ela recuou um passo, balancei a cabeça em negativa. Ainda não tinha aprendido o idioma deles.
— Volte seus ouvidos para o vento — ela traduziu. — Permaneça forte.
Natiya olhou com ódio para Kaden enquanto ele me ajudava a montar em meu cavalo. Malich havia insistido para que minhas mãos fossem cortadas ou amarradas antes de partirmos. Uma semana atrás, Kaden teria discutido com Malich; no entanto, hoje ele não fez isso, e eu estava com as mãos atadas.
Natiya e as outras mulheres rapidamente arranjaram roupas de montaria para mim, visto que haviam queimado minhas vestes antigas. Ficou claro que elas também não sabiam que íamos embora hoje. Acharam uma saia longa de montaria com fendas nas pernas e uma blusa justa branca para eu vestir. Também me deram uma velha capa para o caso de o tempo mudar, e embrulhei-a junto com meu saco de dormir. Reena fez com que eu ficasse com o lenço na cabeça.
Griz rugiu um adeus sentimental, mas nenhum dos nômades lhe respondeu. Talvez não fossem bons com despedidas — ou talvez se sentissem como eu, como se isso simplesmente não estivesse certo. Uma despedida parecia nascida de uma escolha de ir embora, e todos eles sabiam que essa não era minha escolha, mas, no último minuto, Reena e Natiya saíram correndo atrás dos nossos cavalos. Kaden interrompeu nossa procissão para que elas nos acompanhassem.
Como os dizeres de Dihara, suas palavras de despedida vieram no idioma delas, talvez porque assim fosse mais natural e de coração para as mulheres, mas suas palavras eram dirigidas somente a mim. Cada uma estava de um lado do meu cavalo, paradas, em pé.
— Revas jaté en meteux — disse Reena, sem fôlego. — Seja valente e verdadeira consigo — sussurrou ela, com preocupação e esperança nos olhos. Ela tocou o próprio queixo, erguendo-o, indicando que eu deveria fazer o mesmo.
Assenti e toquei com as minhas mãos atadas nas dela.
Natiya colocou a mão na minha perna do outro lado, seus olhos ferozes enquanto encarava os meus.
— Kev cha veon bika reodes li cha scavanges beestra! — Seu tom não era suave nem esperançoso. Ela desferiu outro olhar de ódio para Kaden, inclinando a cabeça para o lado dessa vez, como se estivesse desafiando-o a traduzir o que havia dito.
Ele franziu o rosto e a atendeu.
— Que o seu cavalo chute pedras nos dentes do seu inimigo — disse ele, sem emoção na voz, sem partilhar a paixão de Natiya.
Baixei o olhar para ela, com meus olhos ardendo enquanto beijava meus dedos e os erguia aos céus.
— Do seu coração nobre aos ouvidos dos deuses.

* * *

Partimos com a bênção final de Natiya sendo nossa última despedida.
Kaden manteve seu cavalo perto do meu, como se achasse que eu poderia fugir até mesmo com as mãos atadas. Eu não sabia ao certo se estava exausta, entorpecida ou despedaçada, mas uma estranha parte de mim permanecia calma. Talvez fossem as palavras de despedida de Dlhara, Reena e Natiya que tivessem me dado forças. Ergui o queixo. Minhas táticas haviam sido descobertas, mas eu não estava derrotada. Ainda não.
Quando estávamos a cerca de um quilômetro e meio vale abaixo, Kaden disse:
— Você ainda planeja fugir, não?
Olhei para minhas mãos atadas repousadas sobre a sela, com as rédeas quase inúteis na minha pegada. Aos poucos, meu olhar encontrou-se com o dele.
— Devo mentir e dizer não, quando ambos já sabemos da resposta?
— Você morreria nesse local inóspito sozinha. Não há nenhum lugar para onde ir.
— Eu tenho um lar, Kaden.
— Que está bem distante agora. Venda será seu novo lar.
— Você ainda poderia me deixar ir embora. Eu não vou voltar para Civica para garantir a aliança. Eu lhe prometo solenemente que não farei isso.
— Você é uma péssima mentirosa, Lia.
Olhei de esguelha para ele.
— Não, para falar a verdade, posso ser uma mentirosa muito boa, mas algumas mentiras precisam de mais trabalho ao serem usadas. Você deveria saber disso. Afinal, é tão habilidoso nessa arte.
Por um bom tempo, ele não me respondeu, e depois, soltou abruptamente as seguintes palavras:
— Sinto muito, Lia. Não podia contar a você que estávamos partindo.
— Nem sobre a ponte?
— O que você teria a ganhar com isso? Só tornaria as coisas mais difíceis para você.
— Mais difíceis para você, na verdade.
Ele puxou as rédeas e fez com que o meu cavalo parasse também. A frustração cintilava em seus olhos.
— Sim — admitiu. — Mais difíceis para mim. Era isso que queria ouvir? Não tenho as opções que você acha que tenho, Lia. Quando falei que estava tentando salvar sua vida, não era mentira.
Encarei-o. Sabia que ele acreditava no que estava dizendo, mas isso não tornava o que ele dizia verdade. Sempre haveria opções. Algumas escolhas simplesmente não são fáceis de serem feitas. Nossos olhares fixos permaneceram travados um no outro até que ele, por fim, soltou uma outra mescla de gemido e bufada, incomodado, estalou as rédeas e continuamos em frente.
O estreito vale estirava-se por mais uns poucos quilômetros e então seguimos por uma longa e árdua descida em uma trilha em zigue-zague pela montanha. De nosso primeiro ponto de vantagem aberto, vi terra plana estirando-se por quilômetros e mais quilômetros abaixo de nós, aparentemente até os confins da terra, mas, agora, em vez de deserto, era uma terra com grama, grama verde e dourada que ia tão longe quanto os olhos podiam ver. Ela brilhava em ondas ondulantes.
No horizonte ao norte, vi um brilho de um outro tipo, uma linha branca cintilante como o sol vespertino no oceano e tão longe quanto.
— A desolação — disse Kaden. — Quase tudo é pedra branca e terra infértil.
Infernaterr. O inferno na terra. Eu ouvira falar desse lugar. De longe, não parecia tão terrível assim.
— Você já esteve lá alguma vez?
Ele acenou em direção aos outros em suas montarias.
— Não com eles. Isso é o mais perto que chegarão de lá. Dizem que apenas duas coisas habitam esse lugar: os fantasmas de mil Antigos atormentados que não sabem que estão mortos e os famintos bandos de pachegos que roem os ossos deles.
— E isso abrange toda a região norte?
— Quase toda. Nem mesmo o inverno visita a desolação. Fumega com vapor. Eles dizem que isso veio junto com a devastação.
— Bárbaros também acreditam na história da devastação?
— Conhecer nossas origens não é algo exclusivo do seu Reino, Princesa. Vendanos também têm suas histórias.
O tom dele não deixou de me afetar. Ele se ressentia quando era chamado de bárbaro. Porém, se ele podia brincar tão pesado com o termo realeza, jogando-o na minha cara como se fosse um punhado de lama, por que deveria esperar algo diferente vindo de mim?
Assim que descemos das montanhas, o ar se tornou mais quente novamente, mas pelo menos havia sempre uma brisa varrendo a planície. Para uma faixa tão grande de terra, nos deparamos com muito poucas ruínas, como se todas tivessem sido varridas por uma força maior do que o tempo.
Quando acampamos naquela noite, dei a eles a opção de soltarem minhas mãos para que eu pudesse fazer as minhas necessidades ou que continuassem cavalgando a meu lado com as minhas roupas sujas. Até mesmo bárbaros tinham limites que não gostavam de ultrapassar, e Griz me soltou. Eles não me ataram de novo. Deixaram o ponto deles bastante claro, um lembrete severo de que eu era uma simples prisioneira e não uma convidada num passeio, e que seria melhor eu me conter.
Os próximos poucos dias seguintes trouxeram mais da mesma paisagem, exceto quando passamos por uma área em que a grama estava queimada, como se fosse uma gigantesca pegada chamuscada. Havia apenas uns poucos punhados de palha e alguns montes de destroços impossíveis de serem discernidos deixados para trás. Galhinhos verdes emergiam entre os destroços, já tentando apagar a cicatriz.
Ninguém disse nada, mas notei que Eben desviou o olhar. Não parecia possível que isso tivesse sido um assentamento no meio do nada. Por que alguém construiria um lar aqui? Muito provavelmente seria o resultado de um relâmpago ou uma fogueira de acampamento de nômades, mas eu me perguntava sobre os poucos montículos de coisas podres que estavam derretendo nas pegadas pretas.
Bárbaro.
Essa palavra, de repente, ficou sem gosto na minha boca.

* * *

Depois de vários dias, nos deparamos com as ruínas substanciais de uma gigantesca cidade — ou do que havia sobrado de uma. As ruínas iam tão longe quanto eu conseguia ver. As estranhas fundações da antiga cidade erguiam-se acima da grama, mas nenhuma delas passava da minha cintura, como se um dos gigantes da minha história tivesse usado sua foice para nivelá-las. Eu ainda podia ver sinais de onde as ruas atravessavam entre os montes de ruínas, embora agora estivessem cobertas de grama e não de cascalho. Um riacho raso seguia seu fluxo, descendo pelo meio de uma das ruas.
Mais estranhos do que a cidade semidestruída e as ruas de grama eram os animais que vagavam por elas. Rebanhos de grandes criaturas que pareciam cervos com pelagens elegantemente cheias de marcas pastoreavam em meio às ruínas. Os elegantes cornos chanfrados eram mais longos do que o meu braço. Quando as criaturas nos viram, espalharam-se aos pulos, passando pelas baixas paredes com a graça de dançarinos.
— Sorte nossa que são ariscos — disse Kaden. — Os cornos deles podem ser mortais.
— O que são? — perguntei.
— Nós os chamamos de miazadel – criaturas com lanças. Eu só vi rebanhos deles aqui e um pouco mais ao sul, mas há animais por toda a savana que não se vê em nenhum outro lugar.
— Animais perigosos?
— Alguns. Dizem que vêm de mundos distantes e que os Antigos os trouxeram até aqui para servirem como animais de estimação. Depois da devastação, ficaram à solta, e alguns procriaram. Pelos menos é o que diz uma das canções de Venda.
— É daí que tiram sua história? Achei que tivesse me dito que a mulher era louca.
— Talvez não em relação a tudo.
Eu não conseguia imaginar alguém tendo uma daquelas criaturas exóticas como um animal de estimação. Talvez os Antigos realmente estivessem apenas um degrau abaixo dos deuses.
Eu pensava bastante nos deuses enquanto viajávamos. Era como se a paisagem exigisse isso. De alguma forma, eles eram maiores nessa vastidão sem fim, maiores do que os deuses confinados ao Texto Sagrado e ao mundo rígido de Civica. Aqui pareciam ser maiores em seu alcance. Incognoscíveis até mesmo para o Erudito Real e seu exército de catadores de palavras. Mundos distantes? Eu sentia como se já estivesse em um deles — e ainda havia mais? Que outros mundos os Antigos tinham criado... ou abandonado?
Levei dois dedos ao ar pelo meu próprio sacrilégio, um hábito instilado em mim, embora fizesse isso sem a sinceridade que certamente seria exigida pelos deuses. Sorri pela primeira vez em dias, pensando em Pauline. Esperava que minha amiga não estivesse se preocupando comigo. Agora ela teria que pensar no bebê. Mas é claro que eu sabia que ela estava preocupada. Provavelmente Pauline ia à Sacrista todos os dias para oferecer rezas a mim. Eu nutria esperanças de que os deuses estivessem ouvindo essas preces.
Acampamos em meio a esta outrora grande, mas agora esquecida cidade, e, enquanto Kaden e Finch foram procurar alguma caça pequena para o jantar, Griz, Eben e Malich tiraram as selas dos cavalos e foram cuidar dos animais. Eu disse que iria coletar lenha, embora parecesse haver bem pouco da preciosa madeira pequena por ali. Descendo pelo riacho, havia um bosque de arbustos altos. Talvez eu fosse encontrar alguns galhos secos por lá. Escovei os cabelos enquanto caminhava. Prometi que não permitiria que eles me transformassem de novo no animal que eu tinha me tornado quando cheguei ao acampamento dos nômades, imunda, com os cabelos opacos e devorando a comida com os dedos... pouco mais do que animais.
Fiz uma pausa, meus dedos se detiveram em um nó, torcendo-o, e eu pensei em minha mãe e na última vez em que ela escovara meus cabelos. Eu tinha doze anos. Àquela altura, eu mesma havia cuidado dos meus cabelos durante anos, exceto pelas ocasiões especiais, quando um criado se encarregava disso, mas naquela manhã minha mãe disse que ela mesma o faria. Todos os detalhes daquele dia ainda estavam vividos na minha mente, uma rara aurora em janeiro, quando o sol se erguera quente e brilhante, dia este que não tinha direito algum de ser tão jubiloso. Os dedos dela eram gentis, metódicos, seu baixo e inconsequente cantarolar como o vento entre as árvores fazendo com que eu me esquecesse da razão pela qual ela estava arrumando meus cabelos, mas então ela pausou com a mão na minha bochecha e sussurrou aos meus ouvidos: Feche os olhos, se precisar. Ninguém saberáSó que não fechei os olhos, porque eu tinha apenas doze anos e nunca tinha ido a uma execução pública.
Quando estava lá, parada, em pé, entre meus irmãos, como uma testemunha necessária, imóvel como pedra, como era esperado de mim, com os cabelos perfeitamente estilizados e presos, a cada etapa, a cada proclamação de culpa, o apertar da corda, a súplica e as lágrimas de um homem crescido, as lamúrias frenéticas, o chamado final, e depois o ruído rápido do piso desaparecendo sob os pés do homem, um curto som humilde que traçava a linha entre a vida e a morte, o último som que ele algum dia haveria de ouvir...
Por tudo isso, eu mantive os olhos abertos.
Quando voltei para o meu quarto, joguei as roupas que estava vestindo no fogo, tirei os prendedores dos cabelos e escovei-os até que minha mãe entrou e me puxou para junto de seu peito, e eu chorei, dizendo que gostaria de ter ajudado o homem a fugir. Tomar a vida de outra pessoa, ela havia sussurrado, até mesmo sendo alguém culpado, nunca deve ser fácil. Se fosse, seríamos somente um pouco mais do que animais.
Será que Kaden achava difícil tirar a vida de outra pessoa? Mas eu sabia qual era a resposta dessa pergunta. Mesmo em meio à minha fúria e ao meu desespero, eu havia visto no rosto dele, na noite em que perguntei quantos ele tinha matado, o peso que isso trazia fazendo pressão por trás de seus olhos. Isso havia lhe custado sim. Quem ele poderia ter sido caso não tivesse nascido em Venda?
Continuei andando, lidando com os nós nos cabelos e desfazendo-os até que sumissem. Quando cheguei perto do riacho, tirei minhas botas e coloquei-as em cima de um muro baixo. Balancei os dedos dos pés, apreciando a pequena liberdade da areia fresca se espalhando entre eles e os coloquei dentro d’água, curvando-me para pegar um pouco com as mãos em concha e lavar a poeira do meu rosto. As coisas que duram. Senti a ironia em meio a essas ruínas caindo aos pedaços. Ainda assim, era o mais simples prazer de um banho que havia durado mais do que a ampla grandeza de uma cidade. Ruínas e renovação, sempre lado a lado.
— Refrescante?
Fiquei alarmada e me virei. Era Malich, cujos olhos irradiavam malícia.
— Sim — falei. — Já terminou com os cavalos?
— Eles podem esperar.
Ele deu um passo mais para perto, viu que estávamos longe da vista de todos e soltou a fivela do cinto de sua calça.
— Talvez eu me junte a você.
Saí de dentro d’água para voltar ao acampamento.
— Estou de saída. Você pode ficar com a água para si.
Ele esticou a mão e agarrou meu braço, puxando-me para junto dele.
— Quero companhia e dessa vez não quero suas garras indo parar em nenhum lugar onde não deveriam estar. — Ele agarrou minhas mãos e segurou-as com uma única e esmagadora pegada até que eu me encolhesse de dor. — Ah, desculpe, Princesa, estou sendo muito bruto?
Malich pressionou sua boca com força na minha, e levou a mão para a minha saia, tateando-a e puxando o tecido.
Cada centímetro dele estava me pressionado tão de perto que eu não conseguia erguer a perna para chutá-lo para longe. Achei que meus braços fossem se quebrar enquanto ele os torcia para cima e atrás de mim. Eu me contorci e, por fim, abri a boca e mordi seu lábio. Ele deu um uivo e depois me soltou, e caí para trás, no chão. O rosto dele se contorcia de fúria enquanto partia para cima de mim, soltando xingamentos, mas ele foi parado por um grande berro. Era Griz.
— Sende ena idaro! Chande le varoupa enar gado!
Malich defendeu sua posição, colocando a mão no sangramento do lábio, mas, depois de umas poucas respirações cheias de fúria, foi embora batendo os pés.
Griz estirou a mão para me ajudar a levantar.
— Tome cuidado, menina. Não dê as costas para Malich tão facilmente — disse ele em um morrighês claro.
Encarei-o, mais chocada com seu discurso do que com sua bondade. Ele manteve a mão estendida, e eu, hesitante, tomei-a.
— Você fala...
— Morrighês. Sim. Você não é a única pessoa que tem segredos, mas este vai permanecer entre nós. Entendido?
Assenti, incerta. Eu nunca havia esperado partilhar um segredo com Griz, mas aceitaria seu conselho e não daria as costas a Malich de novo, embora agora estivesse mais curiosa sobre por que Griz ocultara seu conhecimento de morrighês quando os outros falavam o idioma abertamente. Estava claro que eles não tinham conhecimento dessa habilidade. Por que ele sequer revelou isso a mim? Um deslize? Não tive tempo de perguntar isso a ele, que já estava voltando, a passos pesados, em direção ao acampamento.
Quando Kaden e Finch voltaram com duas lebres para o jantar, Kaden percebeu o lábio inchado de Malich e perguntou a ele o que havia acontecido. Malich apenas olhou de relance na minha direção e disse que fora a ferroada de uma vespa.
Na verdade, fora mesmo. Às vezes, o menor dos animais inflige a maior das dores. Ele ficou com um humor pior do que o de costume pelo resto da noite e descarregou verbalmente em Eben quando o menino demonstrou afeição por seu cavalo. Kaden deu uma olhada na perna do animal, examinando com cuidado o casco que Eben estivera verificando repetidas vezes.
— Ele o criou desde que era um potro — explicou-me Kaden. — O machinho da perna dele é delicado. Talvez seja apenas um músculo distendido.
Apesar das rajadas de Malich, Eben continuava a verificar como estava o cavalo, o que fazia com que eu me lembrasse de como ele era com os lobos. O menino era mais conectado aos animais do que às pessoas. Fui andando até ele para dar uma olhada na perna do bicho e pus a mão no ombro de Eben, na esperança de conter as palavras árduas de Malich com algumas mais úteis. O menino se virou com tudo e grunhiu para mim como um lobo, sacando sua faca.
— Não encoste em mim — disse ele, rosnando.
Eu recuei, lembrando-me de que, embora parecesse uma criança, até mesmo uma que poderia esquecer de si mesmo de tempos e tempos e dar ouvidos a uma história contada em volta de uma fogueira, uma infância inocente não era algo que ele algum dia conhecera. Será que estaria destinado a ser como Malich, que se gabava do quão fácil fora matar o cocheiro e Greta? As mortes deles não haviam custado nada além de umas poucas e finas flechas.
Naquela noite, Kaden dispôs seu saco de dormir perto do meu. Se era para proteger a mim ou a Malich, eu não sabia ao certo. Até mesmo com os meus dedos cobertos por bandagens, Malich havia sentido o peso de nossa animosidade mútua, embora, com certeza, ele tivesse pretendido acertar o placar durante a tarde. Se Griz não tivesse aparecido, poderia facilmente ter sido eu a ficar com o rosto machucado e inchado... ou coisa pior.
Eu me virei. Mesmo que acabasse morrendo de fome no meio do nada, como Kaden havia previsto, eu precisava fugir. Malich era perigoso o bastante, mas logo eu estaria em uma cidade com milhares de homens como ele.
Nem sempre podemos esperar pelo momento perfeito. As palavras de Pauline pareciam ainda mais verdadeiras agora do que nunca.

2 comentários:

  1. Foge garota. Tomara que ela consiga rsrs😠😇😢

    ResponderExcluir
  2. Não ficA e espere chegar no lugar lá foge no meio da noite pega um cavalo e foge ou espere chegar la e ache o príncipe rafe ele deve ser muito esperto de ir direto pro venda do que ficar seguindo os carinhas

    Shipo team relia ou team Kaline não jugueis pois shipo kaden e Pauline

    Mirtiz

    ResponderExcluir

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!