2 de fevereiro de 2018

Capítulo 6

Depois de nos manter escondidas durante três dias, Berdi finalmente relaxou sua firme supervisão sobre nós, acreditando que havíamos dito a verdade: ninguém tinha nos seguido. Ela nos lembrou de que tinha uma estalagem para cuidar, e não podia se dar ao luxo de meter-se em apuros com as autoridades, embora eu não pudesse imaginar que alguém em um vilarejo como Terravin fosse prestar alguma atenção em nós. Lentamente, Berdi deixou que nos aventurássemos a sair, e fomos realizando pequenas tarefas para ela, pegando canela no epicurista, fios no mercador e sabão para os hóspedes da estalagem com o fabricante.
Eu ainda tinha algumas joias que restavam do meu manto de casamento, de forma que poderia ter pagado minha própria estadia, mas essa não era mais quem eu queria ser. Queria estar envolvida, ligada ao lugar onde morava da mesma forma que todo mundo, e não ser uma intrusa que fazia escambos com seu passado. As joias permaneciam bem guardadas na cabana.
Descendo até o centro da cidade, parecia que eu estava vivendo os dias de antigamente, quando eu e meus irmãos costumávamos correr livres pelo vilarejo de Civica, conspirando e rindo juntos, nos dias antes de meus pais começarem a cercear minhas atividades. Agora éramos apenas eu e Pauline.
Fomos ficando cada vez mais íntimas. Ela era a irmã que eu nunca tive. Partilhávamos coisas agora que teria sido contidas pelos protocolos em Civica. Ela me contava histórias sobre Mikael, e o anseio dentro de mim foi crescendo. Eu queria o que Pauline tinha, um amor duradouro um sentimento que seria capaz de sobrepujar os quilômetros e as semanas que a separavam de Mikael. Quando ela disse novamente que o rapaz a encontraria, eu acreditei. De alguma forma, o comprometimento dele irradiava-se nos olhos dela, e não havia nenhuma dúvida de que Pauline era merecedora de tamanha devoção. Eu me perguntava se também seria merecedora de um amor como esse.
— Ele foi o primeiro menino que você beijou na vida? — perguntei.
— Quem disse que eu o beijei? — respondeu Pauline, com um ar travesso. Nós duas demos risada. Meninas da família real e empregados da realeza não deveriam entregar-se a comportamentos como este.
— Bem, se você fosse beijá-lo, como acha que seria?
— Ah, acho que teria um sabor mais doce do que o mel... — Ela se abanou, como se uma lembrança a estivesse deixando zonza. — Sim, acho que seria muito bom, mas muito bom mesmo, quer dizer, se eu fosse beijá-lo.
Suspirei.
— Por que deu um suspiro? Você sabe tudo sobre beijos, Lia, já beijou metade dos meninos no vilarejo.
Revirei os olhos.
— Quando eu tinha treze anos, Pauline, o que mal pode ser levado em consideração. E era só parte de um jogo. Assim que se deram conta do perigo de beijar a filha do Rei, nenhum menino nunca mais voltou a chegar perto de mim. Tive um período muito longo de seca.
— E quanto a Charles? No verão passado, ele vivia com a cabeça virada na sua direção. Ele não conseguia tirar os olhos de você.
Balancei a cabeça em negativa.
— Apenas olhos sonhadores. Quando o encurralei na última celebração da colheita, ele correu como um coelho assustado. Pelo que parece, Charles havia recebido o aviso dos pais dele também.
— Bem, você é uma pessoa perigosa, sabia? — disse ela, me provocando.
— Eu poderia muito bem ser uma pessoa perigosa — respondi, dando uns tapinhas na adaga escondida sob o meu colete.
Pauline riu.
— Provavelmente Charles estava com tanto medo de você levá-lo a mais uma revolta quanto de um beijo roubado.
Eu quase me esquecera da rebelião de curta duração que liderei. Quando o Chanceler e o Erudito Real decidiram que todos os estudantes de Civica teriam que passar uma hora a mais estudando seleções dos Textos Sagrados, me rebelei. Nós já passávamos uma hora duas vezes por semana memorizando infinitas passagens desconexas que não tinham significado algum para nós. Na minha opinião, uma hora extra todos os dias era algo impensável. Aos catorze anos de idade, eu tinha coisas melhores para fazer, e acabou que muitos outros meninos e meninas, aflitos com esta nova imposição, concordavam comigo.
Eu tinha seguidores! Liderei uma revolta, entrando com eles a reboque no Grande Salão, interrompendo uma reunião de gabinete que estava em andamento com todos os lordes dos condados. Exigi que a decisão fosse revertida, ou pararíamos com nossos estudos por completo, ou — ameacei — faríamos algo ainda pior.
Meu pai e o Vice-Regente acharam tudo aquilo muito divertido por dois minutos, mas o Chanceler e o Erudito Real ficaram lívidos na mesma hora. Travei olhares com eles, sorrindo enquanto fervilhavam. Quando a diversão esvaneceu-se da face de meu pai, fui ordenada a ficar em meus aposentos durante um mês, e os estudantes que me acompanharam receberam sentenças similares, porém mais brandas. Minha pequena insurreição morrera, e a imposição permaneceu em vigor, mas se falou aos sussurros sobre o meu ato de insolência durante meses. Alguns chamavam-me de destemida, outros, de tola. De uma forma ou de outra, daquele dia em diante, muitos no gabinete do meu pai viam-me com suspeita, o que fez com que o meu mês de confinamento valesse totalmente a pena. Foi mais ou menos naquela época que as rédeas da minha vida foram puxadas com mais força. Minha mãe passava muito mais horas dando-me aulas sobre as maneiras e os protocolos reais.
— Pobre Charles. Será que o seu pai realmente teria feito alguma coisa com ele por causa de um mero beijo?
Dei de ombros. Eu não sabia, pois a percepção de que ele poderia fazer algo era o suficiente para manter qualquer menino a uma distância segura de mim.
— Não se preocupe. Sua hora vai chegar — garantiu-me Pauline.
Sim. Minha hora chegaria. Sorri. Agora eu estava no controle do meu destino, e não um pedaço de papel que me unia com um membro enrugado da realeza. Enfim estava livre de tudo aquilo. Acelerei o ritmo, gingando com a cesta de queijo em minhas mãos. Dessa vez, o meu suspiro foi cálido e com satisfação. Eu nunca estive mais certa do que agora quanto à minha decisão de fugir.
Eu e Pauline terminamos nossa caminhada até a estalagem em silêncio, cada uma de nós envolvida nos próprios pensamentos, tão confortáveis com a quietude entre nós quanto estávamos com a conversa. Fui pega de surpresa ao ouvir as memórias sagradas ao longe no meio da manhã, mas talvez as tradições fossem diferentes em Terravin. Pauline estava tão absorta no que passava em sua cabeça que nem mesmo parecia ter ouvido nada.
Eu encontrarei você...
No recanto mais longínquo...
Eu encontrarei você.

* * *

Após insistirmos bastante, Berdi finalmente nos atribuiu responsabilidades além da realização de tarefas simples. Eu trabalhava duro, pois não queria dar a impressão de ser um membro inútil da realeza sem habilidades práticas, embora, na verdade, eu tivesse poucas na cozinha. Na cidadela, eu mal tinha permissão de chegar perto da copa, menos ainda de segurar uma faca perto de um legume. Eu nunca havia cortado uma cebola na vida, mas achei que, com minhas habilidades e a precisão que eu tinha com uma adaga, como provava a porta entalhada dos meus aposentos, eu seria capaz de dominar uma tarefa tão simples.
Eu estava errada.
Pelo menos ninguém zombou de mim quando minha escorregadia e branca cebola foi catapultada pela cozinha e bateu nas nádegas de Berdi. Ela, toda prática, pegou a cebola do chão, mexeu-a em uma bacia de água para lavar a sujeira e jogou-a de volta para mim. Consegui pegar e segurar aquela coisinha escorregadia com apenas uma das mãos, arrancando um sutil assentir por parte de Berdi, o que me trouxe mais satisfação do que deixei que qualquer um soubesse.
A estalagem não estava repleta de firulas das quais era necessário cuidar, mas passamos de cortar vegetais e legumes a cuidar dos aposentos dos hóspedes. Havia apenas seis quartos na estalagem, sem contar a nossa cabana com goteiras e o banheiro de hóspedes.
Pelas manhãs, eu e Pauline varríamos os quartos vagos até que ficassem limpos, virávamos os finos colchões e deixávamos lençóis novos dobrados nas mesinhas de cabeceira. Por fim, colocávamos ramos frescos de erva-de-são-marcos nos peitoris das janelas e nos colchões para deter os vermes que poderiam querer ficar na estalagem também, especialmente os parasitas que vinham com os viajantes. Os quartos eram simples, mas bonitos, e o cheiro da erva-de-são-marcos era acolhedor; no entanto, visto que apenas alguns quartos ficavam vagos a cada dia, nosso trabalho lá levava apenas alguns minutos.
— Deveriam ter colocado vocês para trabalhar na cidadela. Há muito chão para ser varrido lá.
Como eu gostaria que tivessem me dado tal escolha. Havia ansiado que eles acreditassem que eu tinha algum outro valor além de ficar sentada em meio às infinitas lições que julgavam adequadas a uma filha da realeza. Minhas tentativas de fazer renda sempre resultavam em nós irregulares que não eram adequados nem para uma rede de pesca, e minha tia Cloris me acusava de deliberadamente não prestar atenção no que estava fazendo. O fato de eu não negar isso deixava-a ainda mais exasperada. Para falar a verdade, aquela era uma arte que eu poderia ter apreciado se não fosse pela forma como era forçada para cima de mim. Era como se ninguém notasse meus pontos fortes ou meus interesses. Eu era um pedaço de queijo sendo enfiado dentro de uma forma.
Um desgosto leve me incomodava. Lembrei-me de que minha mãe percebeu minha aptidão por idiomas e permitiu que eu fosse tutora de meus irmãos e de alguns dos mais jovens cadetes nos dialetos de Morrighan, alguns dos quais tão obscuros que eram quase línguas diferentes daquela falada em Civica. No entanto, até mesmo essa pequena concessão foi encerrada pelo Erudito Real depois que eu o corrigi a respeito de tempos verbais no dialeto sienês das terras altas. O Erudito informou à minha mãe que ele e seus assistentes eram mais bem-qualificados para assumirem tais deveres. Talvez, aqui na estalagem, Berdi apreciasse minhas habilidades com seus viajantes de longas distâncias que falavam diferentes idiomas.
Embora eu tivesse adquirido a habilidade de varrer com bastante facilidade, outras tarefas provaram-se mais desafiadoras. Eu tinha visto moças na cidadela virando os barris de lavar roupa com apenas uma das mãos. Achei que fosse ser uma tarefa fácil. Na primeira vez que tentei, girei o barril e acabei ficando com a cara cheia de água suja com sabão, porque tinha me esquecido de prender o ferrolho. Pauline fez o melhor que pôde para suprimir a gargalhada.
Pendurar a roupa para secar não se provou nem um pouco mais fácil do que lavar a roupa. Depois de pendurar um cesto inteiro de lençóis e ficar parada lá, admirando o meu trabalho, um vento forte veio e soltou todos os meus pregadores, fazendo com que eles saíssem voando em diferentes direções, como gafanhotos ensandecidos. As tarefas domésticas de cada dia traziam dores a novos lugares: ombros, panturrilhas e até mesmo em minhas mãos, que não estavam acostumadas a espremer, torcer e socar. A vida simples de uma cidade pequena não era tão simples quanto eu tinha imaginado, mas estava determinada a dominar aquelas atividades. Se havia algo que aprendi na vida na corte foi a ter paciência.
As noites tinham mais tarefas a ser feitas, com a taverna cheia do pessoal da cidade, além de pescadores e hóspedes da estalagem ansiosos para encerrarem o dia com os amigos. Eles vinham pela cerveja, pelas risadas compartilhadas e por uma ocasional troca de palavras bruscas que Berdi intermediava e resolvia com vigor. A maioria vinha em busca de uma refeição simples, mas saborosa. A chegada do verão era sinônimo de mais viajantes, e com a rápida aproximação do Festival Anual da Libertação, a cidade teria o dobro de ocupantes do que de costume. Com a insistência de Gwyneth, Berdi enfim admitiu que uma ajuda extra se fazia necessária no refeitório.
Em nossa primeira noite, Pauline e eu recebemos a tarefa de cuidar de uma mesa cada uma, enquanto Gwyneth lidava com mais de uma dúzia. Ela era um exemplo. Até onde eu sabia, ela era apenas uns poucos anos mais velha do que nós, mas comandava o refeitório como uma veterana calejada. Ela flertava com os rapazes, piscando e dando risada, e então revirava os olhos quando se voltava para nós. Para homens mais bem-vestidos e um pouco mais velhos, aqueles que Gwyneth sabia que tinham mais dinheiro para gastar com extravagâncias com ela, suas atenções eram mais honestas; porém, no fim das contas, não havia ninguém que ela realmente levasse a sério. Estava ali apenas para fazer seu trabalho e o fazia bem.
Gwyneth avaliava os fregueses rapidamente, assim que passavam pela porta. Era uma diversão para ela, que, toda feliz, nos atraía para seu jogo.
— Aquele — sussurrava ela quando um homem baixo e gordo passou pela porta, — é açougueiro, com certeza. Todos eles têm bigodes, sabia? E grandes panças por comerem bem. Mas as mãos sempre dizem tudo. As mãos de açougueiros são como joelhos de porco, mas meticulosamente cuidadas na manicure, com as unhas quadradas e bem-feitas. — E então, com mais melancolia... — Tipos solitários, porém generosos.— Ela soltava um grunhido, como se estivesse satisfeita por tê-lo resumido em segundos. — Provavelmente a caminho de ir comprar um porco. Vai pedir uma cerveja e nada além disso. — Quando o homem realmente pediu apenas uma cerveja, eu e Pauline demos risadinhas.
Eu sabia que havia muito que poderíamos aprender com Gwyneth. Eu estudava os movimentos dela, sua conversa com os fregueses, e seu sorriso, tudo isso com cuidado. E, é claro, estudava o jeito como ela flertava.

5 comentários:

  1. Ela é praticamente eu fazendo qualquer coisa em casa.

    ResponderExcluir
  2. Pena que o estilo da história e bem ingênuo em comparação com o os livros da Sarah J Mapas. Tá tudo tão bonitinho, mesmo com a parte do assassino, espero que fique mais realista e cruel hihi

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!