6 de fevereiro de 2018

Capítulo 6. Só. Sobre as nuvens

Crânio mergulhou nos estudos. Física, computação, problemas de xadrez tornaram-se para ele não um modo de aprender, mas de esquecer. Esquecer os Karas, esquecer Magrí...
Era noite. Tarde. Montou no tabuleiro um problema de xadrez. O rei negro leva mate frente à dama branca. Em três lances. “Os três lances já foram jogados, Magri... O rei já caiu...”

* * *

Dona Iolanda dormia placidamente na poltrona do avião, depois da refeição servida pelas comissárias de bordo.
Ao lado da professora, sentada na poltrona do corredor, Magrí tirou os fones de ouvido e ficou olhando, desinteressada, o filme que era exibido a bordo do avião. Um filme agora mudo como uma comédia antiga. Uma comédia triste de Chaplin...
Atrás do bigodinho, Magrí imaginava uma carinha especial. Um “Karinha” especial... O seu Kara. Seu? Como ele poderia ser seu? Como ela poderia ser dele? E os outros dois? Ai, o que fazer?
Levantou-se da poltrona, sentindo os músculos dormentes pela longa permanência no avião e pelo esforço em fingir a contusão no tornozelo.
Toda a cabine estava às escuras.

* * *

“Preciso relaxar, dormir. Amanhã eu tenho ensaio... preciso dormir... dormir... Dormir, talvez sonhar... e, nesse sonho, sonhar que tudo está acabado, tudo resolvido...’ Magrí esquecida... Aaaahhh! Esquecida! Que piada! Não, não, não! Não é o Hamlet que eu vou fazer. Vou fazer o Folial... de `O Escorial’... Michel de Ghelderode... um belga... Ainda não sei as falas do Folial de cor... O rei diz: `Tantas flores, tantas flores... E eu soluçarei por causa das flores... pela minha querida rainhazinha...’ Magrí... ãhn, ãhn, ãhn... `Chorarei como tu haverias de chorar por mim, querida rainhazinha, se a morte se houvesse enganado de quarto... Tem graça! E ninguém foi testemunha de minhas lágrimas. Ei, Folial! Bufão maldito que não viste chorar teu rei! Folial, meus cães te devoraram, carne cômica?’ Ãhn, ãhn, ãhn... `Vossos cães são os cães do rei, senhor. Devorariam vossos cortesãos, não vossos valetes...’ Ai, e depois? Qual é a próxima fala? Ãhn, ãhn, ãhn... `Blasfemador! Aquela que agoniza é bela, pura e santa! Morre por causa do silêncio e das trevas deste palácio, cujas paredes têm olhos, e cujos salões de festa ocultam armadilhas e instrumentos de tortura! Morre porque viveu entre seres sinistros, longe do sol, sequestrada e estranha. Morre, rainha sem povo, de um reino que goteja sangue, onde reinam espiões e inquisidores.’ Ãhn, ãhn, ãhn... `Digo-vos que a morte é uma benfeitora, cuja chegada desejei, como vós a desejastes. E ela se apresentou imediatamente, pois nunca anda muito longe daqui, cujo domínio ela reparte com a loucura!...’ Magrí... ãhn, ãhn, ãhn... `Minha coroa! Eu sou o rei! A rainha morreu... Anuncio ao rei que a rainha morreu...’ Ai, Magrí, minha rainha... Vem, Magrí... Está escuro, Magrí... Não consigo dormir... ãhn, ãhn, ãhn... Ai, Magrííííí...”

* * *

Magrí andou ao longo do corredor do avião. A maioria dos passageiros dormia.
Perto dos toaletes, dois homens conversavam em inglês.
— I wonder how that country is... — dizia o mais velho. ( — Eu imagino como esse país é…)
— It’s really hot... — informou o outro. (— É realmente quente... )
— I hate the heat. Oh, how I hate the heat! (— Eu odeio o calor. Oh, como eu odeio o calor!)
— Well, there are beautiful women down there. And beautiful beaches… (— Bem, há lindas mulheres lá. E lindas praias... )
— I’m a city man. I hate beaches. I don’t like the sand and all those dirty things. I’d rather see beautiful bitche.s...  (— Eu sou um homem da cidade. Odeio praias. Não gosto de areia e todas aquelas coisas sujas. Prefiro ver lindas prostitutas... )
— Well, forget all about that. Our job is what matter. Are you completely prepared? (— Bem, esqueça tudo isso. Nossa tarefa é o que interessa. Você está perfeitamente preparado? )
— I think so. But I don’t know if we rehearsed enough...  (— Acho que sim. Mas não sei se ensaiamos o suficiente…)
— You know all you need to know. Everything will be fine... (— Você sabe tudo o que precisa saber. Tudo vai dar certo…) — encerrou o mais moço, encolhendo-se na poltrona, para dormir. Magrí voltou para sua poltrona, sorrindo consigo mesma: “Esses americanos! Por que vêm para o Brasil, se odeiam praia? Se não gostam de calor? Devem ser atores, ou músicos... Falaram em ensaiar pouco... Ah, músicos de rock é que não são. São velhos demais para o rock!”
Sentou-se novamente ao lado da professora, adormecida.
O filme era mesmo muito chato. Acendeu a luzinha individual e tentou ler, mas, com o
zumbido dos motores e com a monotonia da viagem, acabou adormecendo. Mais uma vez para sonhar com um Kara especial...

* * *

Chumbinho acordou cedo.
A casa ainda dormia quando o menino saiu. Pegou um táxi especial.
— Para Cumbica, por favor. — O motorista sorriu. “Corrida boa...”
No bolso de Chumbinho estava o telegrama que Magrí enviara em seguida ao recebimento do seu. Dessa vez, não tinha sido necessário usar nenhum código. O telegrama dizia apenas o horário do pouso em Cumbica do avião em que Magrí voltaria dos Estados Unidos.
“Vou chegar ao aeroporto antes de Magrí passar pela alfândega...”, pensava o menino.

* * *

Acordou com a voz excitada de dona Iolanda:
— Ai, Magrí! Você nem imagina quem está no avião, junto com a gente!
— Hum?
Dona Iolanda estava animadíssima:
— Você já ouviu falar na Droga do Amor? Já ouviu?
— S-sim... — respondeu a menina, esfregando os olhos.
— E você sabia que o teste final da Droga do Amor vai ser feito no Brasil? Hein? No Brasil? — a professora fez uma expressão superior, de quem descobriu algo muito importante. — Pois as amostras do soro e os cientistas criadores da Droga do Amor estão voando para o Brasil neste avião!
— É mesmo? Onde estão eles?
— Acabei de saber por uma repórter que está viajando conosco. São aqueles dois, ali!
Magrí seguiu a direção do dedo apontado pela professora. De pé, no corredor, aceitando com prazer a bajulação e o interesse jornalístico da tal repórter, estavam os dois americanos que Magrí ouvira conversando naquela noite.
— Esses são os dois salvadores da humanidade, Magrí! Venha. Vamos pedir um autógrafo!
— Ah, dona Iolanda! Deixa isso pra lá...
Mas a professora já tinha tirado uma agenda e uma caneta da bolsa e corria pelo corredor, em direção aos dois cientistas. Magrí pensou que, se os testes da Droga do Amor no Brasil dessem certo, aqueles dois americanos ganhariam o Prêmio Nobel, sem a menor dúvida. Daí, o autógrafo conseguido por dona Iolanda valeria uma fortuna...
A professora estendia a agenda e a caneta para o mais velho dos dois americanos. Surpreso, o homem pegou a agenda e rabiscou algo rapidamente, com um sorriso feliz. Aquele gesto despertou o avião. Outras pessoas aproximaram-se, estendendo também papéis e canetas em direção aos cientistas e criando uma pequena confusão.
O americano mais jovem, de cabelos negros e lisos, empurrou o companheiro de volta à poltrona da janelinha. Com uma expressão preocupada, sacudiu a mão em direção aos passageiros.
— Please, no autographs, please...
— O quê? — perguntou uma senhora gorda que, pelo jeito, não falava nada de inglês.
— Sem autógrafo, por favor... — traduziu o homem, educadamente.
“Hum... um deles fala português!”, pensou Magrí.

* * *

Um instrutor experiente discorria sobre as obrigações que os monitores teriam durante o acampamento.
— Todo cuidado é pouco, pessoal. Teremos crianças a partir de quatro anos e não queremos nenhum acidente.
Miguel esforçava-se para prestar atenção às instruções. Mas, por dentro, sua mente escapava para as aventuras que poderia estar vivendo com os Karas...
“Ah, os Karas não existem mais! Preciso me concentrar. Crânio, Calú e Chumbinho são passado. Magrí é passado! Ai, Magrí.. .”
Um intervalo. Os candidatos a monitor espalharam-se pela casa, conversando. Sobre a mesa do instrutor, Miguel encontrou o mesmo jornal que vira naquela manhã. Sem vontade de conversar com ninguém, passou a folheá-lo. A vinda dos cientistas americanos para o Brasil era o assunto principal. Eles desembarcariam naquela manhã em Cumbica.
Olhou o relógio. Os cientistas, trazendo a Droga do Amor, deveriam estar desembarcando naquele momento.

2 comentários:

  1. "— Well, there are beautiful women down there. And beautiful beaches… (— Bem, há lindas mulheres lá. E lindas praias... )"

    Frase típica, nãããããããããoooo...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!