14 de fevereiro de 2018

Capítulo 6. O código da morte

Em volta do Elite era o caos. Parecia que metade do exército brasileiro tinha sido deslocada para lá, ocupando o quarteirão como um enxame de abelhas na caça ao urso invasor de sua colmeia. Soldados em uniforme de campanha e policiais à paisana corriam de um lado para outro. Os vários grupos que se acotovelavam à frente do colégio por diferentes motivações repentinamente tinham se posto em um movimento de baratas tontas, como se fossem sobreviventes de um terremoto. Um verdadeiro pandemônio. Vozes gritavam em duas línguas, berravam na língua universal dos palavrões, cães policiais latiam furiosamente e o quarteirão se transformara em alguma coisa como um asilo de loucos, com os loucos em fuga. Já era difícil saber a diferença entre curiosos e manifestantes ou entre policiais à paisana e repórteres. Todos perguntavam tudo ao mesmo tempo e diferentes versões tomavam corpo e espumavam-se como bolhas de sabão:
— Jogaram uma bomba no colégio!
— Que nada! A filha do presidente caiu do trapézio e quebrou a perna!
— Não tem trapézio em ginástica olímpica, seu burro!
— Vai ver pegou fogo!
— Pegou fogo? Onde? Não vejo fumaça...
— Sei lá. Fogo sem fumaça. Coisa de terrorista!
— Um atentado! Algum terrorista deu um tiro na filha do presidente!
— Ouvi dizer. Mas parece que ela não morreu...
— Sequestro! Vai ver foi um sequestro!
Empurrando os que o empurravam, um detetive gordo, careca e suarento ouvia o desencontro de palpites e tentava concentrar-se para descobrir qualquer informação mais sólida, que viesse de dentro da escola. Repentinamente, deu-se conta: “Magrí! Ela estava lá dentro! Será que fizeram alguma coisa com Magrí?”
Uma parede de homens de terno preto bloqueava os portões da área esportiva impedindo a entrada de qualquer pessoa. Transtornado, Sherman Blake acabava de chegar. Mostrou suas credenciais e, logo depois de passar pelos agentes, avistou J. Edgar Hooper dando ordens no meio de outro grupo de subordinados. Por cima dos ombros dos halterofilistas engravatados, sobrepondo-se à balbúrdia que tomava conta de tudo, Blake berrou:
— Hooper, you incompetent! Seus malditos agentes não viram o helicóptero? Até eu vi! Que tipo de gente você trouxe para cuidar da Peggy? Você não disse que eles eram os melhores?
Por trás de seus homens de preto, a voz de Hooper respondia, mas era difícil compreender suas palavras até para quem soubesse inglês:
— ... get out of here... ponha-se para fora... deixe-me trabalhar... estão mortos...
— Hein? Estão mortos? É claro que estão! Se não estivessem, acho que eu mesmo haveria de matá-los! — vociferava Blake, de volta. — Como é que eles foram deixar um helicóptero pairar sobre o telhado do colégio e uma quadrilha de terroristas levar Peggy, nas barbas deles?
— ... investigando... fora daqui... Blake, vai à...
— Você e seus macacos incompetentes! Investigando o quê? A menina está no ar! Voando para longe daqui. O que é que você está fazendo para encontrar o helicóptero?
— ... atrapalhando... não tenho de dar satisfações...
— Hooper, seu burocrata desgraçado! — a voz de Blake, já rouca, quase chorava. — Você só está perdendo tempo! E tempo é o que nós não temos! A menina já foi levada para longe. De que adianta ficar investigando aí? Você tem de ir atrás do helicóptero! Precisamos salvar Peggy!
— ... interrogar as outras garotas... estavam no vestiário... em estado de choque... chorando... ponha-se daqui pra fora...
— Você está se escondendo de que, Hooper?
O diretor da CIA resolveu atravessar em sentido contrário o círculo de ternos pretos que os separava e enfrentar de perto a fúria de Sherman Blake. Sua expressão era de absoluto transtorno. Parecia à beira de uma explosão:
— Blake, you bastard! I should...
Nesse momento, tentando abrir caminho no meio da parede humana que obturava os portões, um careca berrava em português e já estava dominado pelas mãos dos brutamontes.
— Me larguem! Tirem as mãos de cima de mim!
Hooper reconheceu o detetive Andrade, com quem estivera reunido na semana anterior e ordenou que o soltassem. Andrade veio bufando e tentando articular-se em inglês, enquanto apontava para si mesmo com o polegar:
— Seu Hooper! Seu Hooper! Me detetive Andrade! Me detetive Andrade!
O diretor da CIA não se esforçava nem um pouco para esconder seu desagrado com a presença do policial gordo e suado:
— O senhor é o detetive brasileiro, não é? O tal de Andr... Android... como quer que seja o seu nome! O que quer aqui? O que estavam fazendo seus homens enquanto uma desgraça como essa caía sobre nossas cabeças?
Andrade não entendia nada e continuava:
— ...seu Hooper, o que aconteceu? Estão falando em sequestro! Ai, como é que se fala “sequestro” em inglês? Sequestrêichon! Sequestrêichon!
A confusão estava instalada. Andrade sacudia os braços, querendo reforçar o que falava e os outros dois berravam de volta, sem que ninguém se entendesse.
Uma policial-intérprete brasileira foi chamada e a pobre mulher teve de entrar na dança, berrando estridentemente junto com Andrade, Hooper e Blake, para que suas traduções pudessem ser ouvidas no meio do pandemônio. Sherman Blake continuava a desancar o diretor da CIA:
— A polícia brasileira estava fora, exatamente por uma decisão sua, Hooper! E o que estavam fazendo os seus agentes quando o helicóptero apareceu? Jogando baralho?
Hooper descarregava a raiva em cima de Andrade:
— A polícia do Brasil não serve para nada, mister Android! Leve seu pessoal daqui e vá cuidar do trânsito, que é melhor!
Blake voltou-se também agressivamente para Andrade:
— O senhor é um policial do Brasil, é? E quais as providências que vocês tomaram? Sua maldita aeronáutica não tem helicópteros, não tem aviões para perseguir o helicóptero dos sequestradores? Vocês não têm sequer um radar para rastrear o helicóptero?
Ao ouvir a tradução, Andrade arregalou-se:
— Helicóptero?! A menina foi levada de helicóptero? Eu ouvi o barulho de um helicóptero mas...
— Só ouviu? — cortou Blake, malcriado. — O senhor não viu nada? O senhor é cego? Só há cegos na polícia do seu país? Será que vocês aprenderam com os palermas do Hooper, é?
Hooper aumentava o clima de desentendimento:
— Meus homens estavam o tempo todo de olho em todas as portas e...
Sherman Blake perdia a cabeça:
— E o céu, Hooper? Vocês tomaram conta das portas do céu? Como é que nem vocês nem a polícia do Brasil foram capazes de ver o helicóptero? Uma máquina pintada de preto, com as luzes apagadas?
Andrade continuava insistindo:
— Exijo que o senhor permita a minha entrada e de minha equipe, seu
Hooper. Precisamos ver a cena do crime!
— Sangue por todos os lados, isso é que é a cena do crime! — Hooper respondia como se narrasse um filme de terror. — Uma faca de guerra! Meus homens foram assassinados com uma faca de guerra! Que assassino foi esse que conseguiu surpreender esses dois, usando apenas uma faca? As vítimas eram os meus melhores agentes!
Andrade não queria saber de lamentos. Queria ação:
— Esse é o meu país! E o que acontece aqui é problema dos brasileiros! Mande os seus gorilas liberarem a entrada para os meus policiais, seu Hooper. Eu preciso investigar esse sequestro!
— Ninguém vai pôr os pés aqui dentro! O senhor quer criar um incidente internacional, mister Android? Quer criar um problema diplomático, confrontando-se com meus homens? As investigações vão ser exclusivamente da CIA!
— Então, Hooper, deixe que eu investigue! — exigiu o outro americano. — Ou você vai querer impedir a ação do guarda-costas do presidente dos Estado Unidos?
Andrade ainda não sabia direito quem era aquele quase gigante, com músculos de protagonista de filmes de destruição em massa. Mas o homem metia-se na discussão de tal maneira, que na certa ele devia ter alguma coisa com aquilo. Com o auxílio da intérprete, conseguiu saber de quem se tratava:
— O nome deste é Sherman Blake e é guarda-costas do presidente dos Estados Unidos. E diz que Peggy é a pessoa mais importante do mundo para ele...
— Esse desgraçado da CIA deixou que terroristas sequestrassem a minha menina por cima de suas cabeças! — continuava Blake. — E ele disse que os escolheu pessoalmente, a dedo!
O telefone celular de Hooper tocou em seu bolso e ele o sacou como um cowboy saca uma arma. Não estava mais para conversa e tentou encerrar, antes de atender à chamada:
— Fora daqui! Todos vocês! Eu preciso agir!
— Agora é tarde, seu Hooper! — devolveu Andrade. — O senhor devia é ter agido antes. Devia ter deixado mais homens junto de Peggy!
— Bullshit Besteira! Agora não adianta discutir sobre o que devíamos ou não devíamos ter feito, mister Andr... mister-detective.
Hooper finalmente atendeu a chamada no telefone celular. Ao ouvir a voz do outro lado, empalideceu. Andrade só o ouvia falar em inglês, sem nada entender, a não ser um ou outro “yes, Mister President” de vez em quando.
O diretor da CIA desligou o telefone e, a um gesto seu, os halterofilistas vestidos de preto agarraram o detetive Andrade e o puseram para fora. Um carro negro encostava em frente aos portões. Sem mais nada dizer, Hooper embarcou nele e bateu a porta.
Sem ser ouvido pelo guarda-costas que desaparecia atrás dos agentes para dentro do Elite, nem por Hooper, no carro que partia em alta velocidade, Andrade berrava na calçada:
— E Magrí? Aconteceu alguma coisa com ela? Responda, gringo, pelo amor dos seus filhinhos! Qualquer gringo!
Como não havia resposta possível aos seus pedidos, o detetive afastou-se esbaforido, à procura dos seus policiais, sem ver que mais alguém estava sendo arrastado de dentro do Elite e logo também jogado para fora. Abrindo caminho no meio da turba, os Karas conseguiam aproximar-se dos grandes portões que levavam à área de esportes do colégio, quando um homem jovem de terno escuro era brutalmente empurrado para fora por outros homens também vestidos de preto.
— Jerônimo! — chamava o homem, com o rosto afogueado numa expressão de triunfo. — Jerônimo! Cadê você? Vê se aparece logo com essa câmera! Atendendo ao chamado, logo apareceu um sujeito miudinho com uma câmera de tevê na mão, seguido por um rapaz que carregava uma série de fortes lâmpadas dispostas em uma cruz de madeira:
— Estou aqui, Solano. O que você conseguiu descobrir?
— Me dá logo o microfone, Jerônimo. Descobri tudo! Tudinho! Fale com o estúdio. Me ponha no ar já, já!
O tal Solano ajeitava um pouco o cabelo e, sob a forte iluminação, logo falava
para a câmera, espalhando para o mundo sua excitação:
— Aqui Solano Magal, falando diretamente do Colégio Elite, onde uma tragédia sem precedentes acaba de acontecer. A senhorita Peggy MacDermott, a filha do presidente dos Estados Unidos, acaba de ser sequestrada!
Um “oh!” de espanto e incredulidade elevou-se da multidão que cercava o jovem repórter. O rapaz falava depressa, procurando exibir sua habilidade jornalística junto com a notícia, enquanto na certa já sonhava com uma, ou no mínimo com um aumento de salário:
— Vim acompanhar a visita de Peggy MacDermott a este colégio vestindo roupa escura. Assim, aproveitando a confusão, dei um jeito de misturar-me aos “homens de preto”, como são conhecidos os agentes da CIA. Cheguei ao prédio dos vestiários da área esportiva e pude ver tudo, senhoras e senhores! Dois agentes americanos estavam lá, mortos, quase degolados!
O repórter foi interrompido por um novo e prolongado “oh!”, seguido de comentários revoltados.
— Fiquei circulando por lá o quanto pude e, como entendo inglês perfeitamente, ouvi o que diziam: em cima das pias do vestiário feminino, onde a filha do presidente americano tomava banho junto com três atletas brasileiras, os terroristas deixaram um cilindro de gás narcotizante comprimido em uma falsa lata de talco. Enquanto isso, um helicóptero praticamente pousava sobre o telhado do vestiário. Os bandidos devem ter descido por um cesto ou por uma escada de cordas e, em um minuto, desapareciam na escuridão da noite levando pelos ares a menina desacordada!
Um murmúrio comentava nervosamente a ousadia do sequestro, enquanto o repórter prosseguia:
— Ouvi uma conversa em que diziam que Sherman Blake, o guarda-costas do presidente e de sua filha, estava chegando de carro ao colégio e conseguiu ver o helicóptero se afastando. Segundo ele, era um helicóptero todo preto e com luzes apagadas...
— Parece filme de espionagem! — admirava-se uma voz no meio da multidão.
— Consegui até mesmo entrar no vestiário feminino, mas os agentes da CIA acabaram me desmascarando e me expulsaram do colégio. Só que ainda deu tempo de perceber um estranho detalhe: no espelho do vestiário, os bandidos escreveram um enorme “K”, senhoras e senhores! E com sangue! Um “K”! Os três rapazes sobressaltaram-se ao mesmo tempo, reconhecendo a mais grave convocação de emergência máxima. No código dos Karas, o “K” em sangue significava... Morte!
— As outras três garotas que também estavam no vestiário já recuperaram os sentidos. Parece que estão muito nervosas e, logo que for possível, devem ser interrogadas pelos agentes da CIA. Fora isso, nada de mais grave teria acontecido com elas...
“Magrí!”, pensou Calú. “Uma delas é a Magrí!”
— A qualquer momento — encerrava o eufórico jornalista —, Solano Magal, o seu repórter, estará de volta com mais informações...
Os três Karas afastaram-se. Dentro de seus peitos, corações batiam descompassadamente.

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