16 de fevereiro de 2018

Capítulo 5

— Lá vai você, moça.
Fui imersa em um tonel de banho com água fria como gelo, com a cabeça segurada abaixo da superfície enquanto mãos esfregavam com força o meu couro cabeludo. Emergi cuspindo água e tentando respirar, engasgando com o gosto do sabão. Ao que tudo indicava, o Komizar havia achado a minha aparência repulsiva e especialmente ofensiva ao seu delicado nariz, e ordenou que eu fosse rapidamente limpa. Fui arrastada para fora do tonel de banho e me ordenaram que me secasse com um pedaço de pano que não era maior do que um lenço de mão. Uma jovem, a quem os outros chamavam de Calantha, supervisionava meu humilhante banho. Ela jogou alguma coisa em mim.
— Vista isso.
Olhei para a pilha de tecido aos meus pés. Era um saco áspero e sem forma que parecia mais adequado para ser enchido com palha do que para se usar no corpo.
— Não vestirei isso.
— Você vai vestir isso se quiser viver.
Não havia qualquer indicação de raiva no tom de voz dela. Apenas a declaração de um fato. Seu olhar contemplativo era enervante. Ela usava um tapa-olho sobre um dos olhos. A fita preta que o mantinha no lugar contrastava com seus estranhos e mortos cabelos brancos, desprovidos de cor. O tapa-olho em si era assustador, era impossível desviar o olhar do objeto. Havia nele costuradas minúsculas contas polidas para dar a aparência de um brilhante olho azul fitando bem à frente. Linhas tatuadas decorativas espiralavam-se saindo debaixo do tapa-olho, fazendo com que um dos lados do rosto dela parecesse uma obra de arte. Fiquei me perguntando por que ela atraía atenção para algo que outros poderiam ver como uma fraqueza.
— Agora — disse ela.
Desviei meus olhos contemplativos do perturbador olhar fixo dela e apanhei o tecido áspero do chão, erguendo-o para vê-lo melhor.
— Ele quer que eu vista isso?
— Aqui não é Morrighan.
— E eu não sou um saco de batatas.
Ela estreitou seu único olho e deu risada.
— Você seria bem mais valiosa se fosse um saco de batatas.
Se o Komizar achava que isso haveria de me rebaixar, estava enganado. Eu estava bem além de nutrir qualquer tipo de orgulho que fosse. Joguei o tecido por cima de minha cabeça. Era largo e difícil de ser mantido nos meus ombros, e eu não tinha nada com que prender o excesso de seu comprimento para me impedir de tropeçar. O tecido grosseiro fazia minha pele coçar. Calantha jogou um pedaço de corda para mim.
— Isso pode ajudar a manter as coisas no lugar.
— Adorável — falei, retribuindo-lhe o sorriso afetado, e pus-me a enfiar e a dobrar o tecido solto da melhor forma possível, e depois o prendi com a corda em volta da minha cintura.
Meus pés descalços estavam congelando no chão de pedra, mas minhas botas tinham sido levadas, e eu não esperava vê-las novamente. Tentei suprimir um estremecimento e assenti, de modo a indicar que estava pronta.
— Sinta-se grata, Princesa — disse ela, fazendo um traçado, de forma assustadora, com um dos dedos por sobre o olho sem visão feito de joias. — Eu vi o Komizar fazer coisas bem piores com aqueles que o desafiam.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Agora que vc disse isso... É msm! Cade os livros dela?

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  2. Pelo que me lembro os livros estão no cavalo, e o cavalo está com o menino, Eben, eu acho.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!